sexta-feira, 19 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 6, Uma bomba no Palácio do Planalto!

Manifestação "Fora Temer! Diretas já". BH, 18/05
Andava o cronista aspirando, no brouhaha quotidiano, a euforia do triunfo do Atlético, no Mineirão, ainda para mais sobre os argentinos do Godoy Cruz, por 4-1, percebia uma espécie de felicidade no ar, e desejou que os Ipês começassem subitamente a florir, semeando de cores a paisagem. Regressou ao concreto do dia, e,   apurando depois os ouvidos e os olhos ao noticiário nacional da "Globo News", eis que a surpresa tomou conta das palavras e das coisas: uma verdadeira "bomba" sacodia a narrativa da informação imediata. 
Ficámos, então, a saber, segundo matéria revelada por um jornalista do "Globo", Lauro Jardim, que os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da poderosa JBS, no âmbito de uma delação premiada, apresentaram uma prova, em áudio,  mostrando como o Presidente da República, Temer, tentara obstruir a Operação Lava Jato. Temer foi gravado dando o aval para comprar o silêncio do deputado Eduardo Cunha, preso desde Outubro do ano passado, e que, como presidente do Congresso, foi o verdadeiro pivôt na escalada para o "impeachment" da Presidente Dilma Roussef. 
Sabe-se que no diálogo entre o Presidente Temer e Joesley Batista, que ocorreu em Março, no Palácio do Jaburu, o segundo contou que estava dando uma mesada a Cunha e ao doleiro Lúcio Funaro, presos em Curitiba, para que ambos não falassem nada que prejudicasse o governo. Temer terá dito: "Tem que manter isso, viu?" 
Estes factos fazem parte de uma investigação articulada com os investigadores da Operação Lava Jato e a Procuradoria Geral da República e desenham múltiplas conexões, desde o ex-assessor, muito próximo de Temer, filmado recebendo malas de dinheiro rastreado até ao comprometimento do senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, também envolvido com a JBS, no recebimento de milhões. Neto de Tancredo Neves (figura respeitada do Brasil: Tancredo deve dar voltas e reviravoltas no túmulo!)), ancorado a Minas Gerais, a gravidade da sua conduta levou já o Tribunal Federal a determinar o seu afastamento do cargo de senador, enquanto a irmã foi hoje detida pela polícia, enquanto ele aguarda vez. Ao observador distante tudo isso parece um filme negro, onde os artistas regressam sempre ao leit-motiv do crime: a corrupção, as ligações perigosas da política à economia, a crise do sistema político e dos partidos. Mas no dia-a-dia da sociedade brasileira a banalidade desse polvo político, que envolve a classe político-partidária, todos os dias vem à superfície, agora, sobretudo, com a figura da "delação premiada", em que muitos visados criminalmente, às vezes já condenados a pesadas penas, tentam salvar a pele ou atenuar as penas delatando, delatando, delatando...
Esse é o ambiente que o país vive. Ainda não tinha cessado o clamor da audiência de Lula, em Curitiba, respondendo ao juiz Moura, e o impacto da divulgação dos vídeos em que os "marqueteiros" Mónica Moura e João Santana, em delação premiada, visam incriminar Lula e Dilma pelo Triplex e pela alegada Caixa 2 do PT, e já a bomba de Temer e adjuvantes explodia no coração do Planalto. 
O rio das anedotas sobre Temer tornou-se um mar, cujas ondas vão e vêm nas redes sociais ou no implacável blog de Gregório Duvivier, "Blog do Kuelho", em que ele diz que "o Temer é uma espécie de mordomo maçon e satanista" e que é perito a usar "a chatice para alcançar o que quer"... O que é certo é que, dizem de todos os quadrantes, Temer e o seu governo estão à beira do abismo. E todos estão à espera que o Presidente dê um passo em frente! 
Nas ruas, volta a ecoar a exigência colectiva: "Directas, já!" E enquanto discutem à boca pequena ou com ela no trombone as implicações constitucionais, o quadro aponta para a renúncia do Presidente ou os pedidos de "impeachment" no Congresso, que, aliás, já começaram. Há um ano, Temer estimulava a concretização do "impeachment" de Dilma vendo nisso a possibilidade de ocupar a cadeira presidencial sem ir a votos. Agora, a máscara de impoluto Presidente (adeus, reformas!), o ar seráfico de quem tinha no folgado controle do Congresso o seguro de vida, tudo parece um castelo de cartas a cair. 
Hoje, na edição brasileira do "El Pais", Juan Arias publica uma excelente crónica, com o título "É urgente um novo Brasil", em que coloca a exigência de uma mudança radical no "país continente", que "já parecia ter chegado ao futuro e descobriu que estava andando para trás". Ele reclama, então, uma República Nova, na medida em que se "esgotou a imaginação para reinventar a política que transformou em um negócio", enquanto há "uma nova geração que não se conforma em continuar sofrendo sob os escombros e quer começar a construir algo de novo". Diz ele, citando a parábola bíblica: "os mortos que enterrem os mortos". Porque "o que está morrendo é uma maneira de governar de costas para a sociedade pensando apenas em tirar proveito dos privilégios que o poder oferece".
Quem será o arquitecto do Brasil Novo? - pergunta Juan Arias. Não sabe ele, nem ninguém. O cronista de Notícias do Bloqueio  não acredita, aliás, em homens providenciais e desconfia deles pelo saber da História remota ou próxima.  Mas gostou de ler que o Brasil precisava de um Mandela, ele que foi capaz de, no país do Apartheid, enterrar a arma do ódio e fazer triunfar o diálogo. O problema é que Mandela pertence àqueles fenómenos singularíssimos que são raros no tempo longo da História.

terça-feira, 16 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 5, As Cores da Cidade


(ao António Valdemar, que foi amigo de Pedro Nava e me envolveu no seu fabuloso memorialismo)

Está um tempo bom para nos fazermos à cidade, caminhar pelas ruas de Belo Horizonte, onde Steiner gostaria de andar, tenho a certeza, para descobrir na topografia da urbe nomes que são parte inteira da história e da cultura da capital mineira e estacionar nos botecos proseando. Palmilhar as ruas, visitar o universo colorido dos mercados - o Mercado Central, lugar que evoca originais reminiscências rurais, é hoje uma babel de trocas, onde tudo se oferece e está ao alcance dos desejos consumistas - ou ir ao encontro de outros mercados afluentes e centros comerciais exuberantes. 
O lugar das trocas não poucas vezes resvala para a flor das ruas, onde camelôs de circunstância, com as suas vendas e o seu linguajar, dão um colorido genuíno à cidade. Aos domingos, o mercado popular amplia-se ocupando boa parte da larga Avenida Afonso Pena. 
No "Contorno", por onde quer que se vá, ganha-se mais um pouco a ideia de pisarmos chão de uma cidade pensada com régua e esquadro, num urbanismo rasgado, de prédios altos e avenidas largas, desenhadas com mão de futuro. Pedro Nava, verdadeiro Mestre de memorialismo, dá-nos conta da transformação e crescimento de Belo Horizonte, em "Balão Cativo", com um pormenor e um rigor de observação que, no intimismo da narrativa, nos deixam a sensação da sua escrita captar a substância do tempo. 
Fui, talvez por isso, fazer um aceno ao Ponto de Encontro, como se quisesse dizer olá! ao poeta Carlos Drummond de Andrade e a Pedro Nava. Lá estão os dois, no bronze idealizado por Léo Santana. Ali, entre a Rua Goiás e a Rua da Bahia, espaço de tão fundas memórias culturais, convergiram muitos sonhos jornalísticos e literários daquela geração modernista que, na primeira metade do século XX, abalou a tradição literária de Minas Gerais. E outra vez Pedro Nava falando da Rua da Bahia: "Não a Rua da Bahia de hoje. A de ontem. A dos "anos vinte". A de todos os tempos, a sem fim no espaço, a inconclusa nos amanhãs. Nela andarão sempre as sombras de Carlos Drummond de Andrade, de seus sequazes, cúmplices, amigos, acólitos, satélites". 
Devo confessar que a leitura do livro de Humberto Werneck, com o surpreendente título "O Desatino da Rapaziada", que é uma narrativa fantástica sobre jornalistas e escritores em Minas Gerais, me despertou a curiosidade sobre este universo mágico dos anos 20 e sobre o pulsar cultural de Belo Horizonte no fluir do tempo que veio depois. O inventário de nomes é fabuloso, parece estarmos face a um território predestinado para o exercício da poesia e da prosa. 
Humberto Werneck faz a história desse fio de tempo e conta-o como se estivesse a escrever um romance, captando o tempo e os lugares, colhendo histórias saborosas e acontecimentos que ficaram colados à história de Belo Horizonte e do Brasil. E nós, que o lemos, temos às vezes a sensação de lá termos estado também, de tal forma que, ao poisarmos outra vez na realidade, ficamos com pena desse sonho ter acabado. 
"O Desatino da Rapaziada" começa, aliás, com o Drummond, ou não fosse ele figura epigonal da narrativa! Explica Werneck: "A história que aqui se vai contar começa no ano de 1921, no instante em que a mais famosa de suas personagens, um adolescente magrinho, de óculos, entra numa redacção de jornal, na rua da Bahia, em Belo Horizonte". Era o "Diário de Minas". No fio inicial da história, conta o autor, pedindo eu licença por me deter mais tempo neste particular: "Mas estamos ainda no começo, no moço de óculos em quem já é possível reconhecer Carlos Drummond de Andrade. Tem dezoito anos e, não faz muito, foi expulso do Colégio Anchieta, de Nova Friburgo, no estado do Rio, por "insubordinação mental". Quatro anos mais tarde a pena azeda de um literato belo-horizontino, por detrás de pseudónimo, vai descrevê-lo como "aquele mocinho esgrouviado, que tem cara de infusório". Será visto, nessa época, como o líder de um grupo de jovens escritores "futuristas", cujos desmandos poéticos vinham perturbar a parnasiana harmonia da paisagem literária das Minas Gerais. Razão deveriam ter os padres de Nova Friburgo em chamá-lo de "anarquista".
Esse tempo cristalizou em versos de Drummond:

O Diário de Minas, lembras-te, poeta? 
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira 
uma página de: Viva o Governo 
outra - doidinha - de modernismo.

"O Desatino da Rapaziada": cinquenta anos de história literária, acontecimentos divertidos das vivências de ilustres escritores, estimulante confronto de ideias. Havemos de voltar, de certo, a Werneck e ao seu "O Desatino da Rapaziada" porque dentro do livro estão contidos tempos essenciais, como no capítulo "Sob as Asas de JK", quando fizermos crónica da Pampulha.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 4, A Viagem da Língua

"Tanto mar", diz a canção do Chico Buarque, e quando pisamos chão do Brasil, eis o milagre da Língua a acontecer, as suaves sonoridades das sílabas do fazer falar, a alquimia inventada das palavras de cristal, a construção da Língua desde Camões, a escrita e a fala comuns edificadas dum lado e do outro do Atlântico, essa "jangada de pedra" que foi e vai pelo mundo numa viagem planetária que parece não ter começo nem fim. Penso nesses construtores da Língua, que fizeram dela um organismo vivo, um bicho que caminha no tempo, como dizia o Aquilino, e logo essa aventura descobre nomes outros, muitos, como o Machado de Assis ou o Camilo e o Eça, o Pessoa, o Manuel Bandeira e o Drummond, o Mário de Andrade e o Guimarães Rosa, o João Cabral, a Sophia e o Eugénio de Andrade, o Vinicius e o Chico e o Tom Jobim, o Zeca Afonso, o Caetano Veloso e a Bethânia, sei lá, tantos nomes, tanto mar, tanta poesia, palavras que voam e tocam o coração da gente. Então, essa aventura da Língua é o meu "espanto de todos os dias". E o poema surgiu como perplexidade do instante.

Que força é esta
que poisa na fala
e nos embala
na viagem desta Língua
tão doce e musical?
Que força é esta
que se faz comum
este falar coraçãomente
(tu é que sabias, João Guimarães Rosa!)
que pulsa arterialmente
no quotidiano da gente?
Que força é esta
que faz da invenção verbal
novas pátrias idiomáticas
como quem reparte o pão
e mata a fome a um irmão?

Belo Horizonte, 15 de Maio/17


sexta-feira, 12 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 3, Museus e Memória


O Museu de Artes e Ofícios, Praça da Estação 
Uma das notas que se colhe do quotidiano de Belo Horizonte é a dinâmica cultural e a sua capacidade de oferta. 
A modernidade de uma cidade é inseparável da afirmação da sua capacidade criadora, e esta em que estou, tão pródiga em sinais de futuro, exprime essa singularidade, não só no rasgo da sua arquitectura (sempre a iconografia do Niemeyer ao encontro dos nossos olhos!), mas no acesso a uma multiplicidade de bens culturais, que vão do cinema alternativo e da música (a Filarmónica de Minas Gerais tem programa cuidado e público certo), a todos os outros segmentos da criação, como a literatura e a poesia (uma atenção especial às Bibliotecas) ou à arte, no sentido mais amplo. A tudo isso, não é estranho o pulsar vivo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com mais de 50 mil alunos, estimulante sede de um conhecimento cada vez mais nómada, que vai por aí, ao nosso encontro, por cima de todas as fronteiras.
Nesta emergência de equipamentos culturais urbanos, há uma área muito importante, pois se prende com a memória e a sua preservação (e democratização, como queria George Duby), que é o património museológico. Belo Horizonte (e Minas Gerais) têm notáveis Museus, que aliam a acervos valiosíssimos uma dimensão pedagógico-didáctica, valorizadora das novas tecnologias, indispensável à compreensão dos tempos que, nos Museus, estão dentro do registo temporal longo que é a dicotomia passado e presente.
Há, em Belo Horizonte, uma geografia de Museus que é preciso percorrer para ficarmos mais aptos a proceder à "identificação de um país". O Museu de Artes e Ofícios (MAO), fica na Praça da Estação, bem no coração de Belo Horizonte. A Praça, ponto de passagem de milhares de pessoas no garimpo dos dias, respira horizontes largos, toda aberta ao sol e aos jovens que ali confluem bebericando em alegre convivialidade, sobretudo aos fins-de-semana. Os edifícios que acolhem o MAO, de belíssima traça, sóbrios na expressão cromática, convidam a entrar para um reencontro com a História. Foi o que fizemos. É uma longa viagem aos arcaísmos da vida comunitária e à lenta afirmação do homem no domínio da natureza e das técnicas. Espaços que são um louvor ao trabalho, um elogio às mãos e ao espírito, que conduzem sempre à interrogação brechtiana - quem construiu Tebas? - sobre os verdadeiros construtores da história na sua dimensão colectiva: quem fez, quem arrastou as pedras ou edificou as muralhas da cidade?
No labirinto documental, impressionou-me uma imponente balança do século XVIII, trazida da Baía, para ser utilizada na venda de escravos a peso. Olhei o pesado mecanismo e não deixei de pensar que uma coisa não pesou ela: as lágrimas da escravatura! Pecados que o império colonial português teceu... Tudo isso se aprende no Museu de Artes e Ofícios, que abriu ao público em 2006, e é motivo de atracção grande na cidade. Na Praça da Liberdade e imediações encontramos outros espaços museológicos e culturais imperdíveis. É o caso do Centro Cultural do Banco do Brasil, com uma monumental mostra internacional de pintura sobre "A Figura Humana no acervo do MASP", e, muito perto, o "Memorial Minas Gerais Vale", que é uma atractiva viagem à história de Minas e às suas por vezes obscuras raízes identitárias.
O Museu de História Natural e Jardim Botânica, UFMG
Mais longe, fica o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, no meio de um edílico bosque, com diversificada área expositiva, em que sobressai o acervo arqueológico. Aqui, há que sublinhar o entusiasmo com que o Professor João Renato, botânico de renome, e o Professor Gilberto Costa, geólogo de curiosidade cultural multifacetada (que dirige o espaço), falam daquele património natural e também da história de Minas Gerais. Devo confessar, aliás, que tanto o Professor João Renato Stehmann como a Professora Maria Teresa Alves, têm sido uma âncora fantástica de amizade e incansáveis na descodificação de Minas aos curiosos viajantes. Mas foi muito bom trocar ideias com o Professor Gilberto Costa, grande especialista em cartografia (organizou o monumental catálogo "Roteiro Prático de Cartografia: Da América Portuguesa ao Brasil Império"), para perceber a tipologia da ocupação do território e sua formação económica.
O viajante repete para si próprio: já se sabe que Belo Horizonte é uma cidade nova. E acrescenta outra constatação: talvez por isso tenha a marca genética tão evidente de uma sensibilidade especial para olhar o passado e poder caminhar em direcção ao futuro.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 2, O Homem das palavras insubmissas


(para a Isaura, com um beijo)

Há notícias que nos chegam tintas de lágrimas, ampliadas de tristeza pela distância, que tocam fundo o coração da gente pois assim é a ferida aberta pela partida de um Amigo, pelo adeus a um companheiro de jornada de palavras. E palavras de honra. O BB, o nosso Armando Baptista-Bastos, deixou-nos aos 83 anos. O coração cansou-se decerto do internamento hospitalar doloroso, do tempo suspenso, da premonição do fim - e parou de bater. É a certeza dessa ausência, como sensação de irremediável, que agora me toca, neste fim de tarde de Belo Horizonte, quando o sol parece rir-se da morte e ainda ilumina a vida de luz nos detalhes do quotidiano. 
Olho para o instante, meço o peso das palavras, e penso sinceramente que o BB não apreciava a liturgia das palavras post-mortem, ele que sempre gostou de celebrar, no jornalismo e na literatura, a vida e a capacidade do homem se fazer a si próprio pela liberdade e pela insubmissão às servidões dos poderes. 
Como quem afasta o cálice da tristeza, vou então ao encontro da vida de palavras do BB na sua demanda de um mundo mais justo e fraterno e na afirmação, que nele foi um compromisso muito forte de, pensando ou escrevendo a realidade, acrescentar alguma coisa ao tempo que lhe coube em sorte. Então, eu penso que o BB cumpriu bem esse desígnio. Ele amava o jornalismo, e, no livro de todos os dias que eram as suas crónicas, as suas reportagens, as suas notícias, inscreveu um estilo, um fazer, uma cultura, que transformou a sua escrita numa referência. 
O BB diluiu a fronteira entre o jornalismo e a literatura através de uma escrita originalíssima, que transformava as reportagens em grandes narrativas ou fazia da crónica um género superior do fazer literário, registando os detalhes da cidade como espaço privilegiado de observação social. Começou no "Século", foi nome de proa do "Diário Popular", esteve ligado a uma experiência de jornal de jornalistas, "O Ponto".   
O seu nome tem uma ligação forte ao "Jornal do Fundão", onde, em finais dos anos cinquenta, dirigiu o polémico Suplemento de cinema, "Bastidores"', que a Censura se viu obrigada a calar. Foi um companheiro leal, que me acompanhou sempre em mil projectos, designadamente quando dirigi o JF. O BB foi muito mais do que isso: um amigo solidário em demandas de defesa da liberdade de expressão, um verdadeiro camarada das letras, sempre atento ao que fazia no jornalismo e na literatura. Prefaciou livros meus ou apresentou-os, escreveu palavras que guardo rente ao coração. Falava do jornalismo como uma grande paixão e lembro-me de ele ter escrito para o JF um texto memorável de elogio aos jornais, que intitulou "Catedral de Papel". Ele dizia mal da profissão, que tinha salários miseráveis, que era péssima, que originava muitas cirroses fatais. Mas depois de escrever tudo isso, o texto acabava convidando os jovens: 
- Éh, Malta! Juntem-se a nós!
Era assim o BB: sempre a favor do contra. Não escondia a inquietação pela selva que é o território da Informação. Parece que o estou a ouvir: "As Redacções dos jornais são hoje lugares mal frequentados!" Estou longe, não tenho os seus livros à mão, mas a memória conduz-me à sua escrita tão musical: ao "Secreto Adeus", à "Elegia para um Caixão Vazio", verdadeira metáfora literária de um país chamado Portugal, "Bicicletas em Setembro" ou "Viagem de um Pai com um Filho pelas Ruas da Amargura". "As Palavras dos Outros" é um notável livro de crónicas.
O BB! Frontal até dizer chega, na crítica aos desmandos dos figurões da política e dos negócios, afectuoso na afirmação de um princípio irrecusável: para os amigos, tudo - para os outros, cumpra-se a lei! O BB! Vou ter saudades da sua voz firme a dizer que isto está uma grande chatice (ele acrescentava outro qualificativo) e a invectivar, com palavras do Aquilino, para a exigência de se estar sempre a favor do contra: 
- Não os deixes estrebuchar!

terça-feira, 9 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 1, Belo Horizonte

Arquitectura de Niemeyer

No doce Outono mineiro, o cronista aprende o respirar da cidade, a sua topografia cultural, a modernidade da sua tipologia urbana e vêm-lhe à ideia as cidades imaginárias, do Italo Calvino, ancoradas à metáfora viageira de Marco Polo, como espaços de trocas e de pertença, de sonhos e de afectos. O cronista caminha pela emblemática Praça da Liberdade, finge ignorar apelos reaccionários a hipotéticos desejos de "intervenção militar, já!", e prefere ver a cidade com a dimensão onírica de utopia com que o escritor italiano nos ensinou a olhar o chão comum das urbes. O cronista olha à volta, como se quisesse trazer para dentro de si, para a sua memória imediata, a identificação de Belo Horizonte, fixa o urbanismo levantado para o céu, na geometria surpreendente da arquitectura, e nessa verticalidade encontra a ousadia do sonho de Niemeyer inscrita na paisagem. Há, nesta confluência de olhares, o elogio de uma cidade (ou de um país?) enquanto jovem, e pensa para si o cronista que o poema sinfónico de Dvorak sobre o Novo Mundo podia muito bem sobrepor-se à realidade sincrética de Belo Horizonte, onde as linhas da cidade não escondem, é verdade, o rosto da desigualdade, de que o morro, com a polifonia das suas cores e das suas sonoridades, é o grande elemento simbólico. O cronista sabe que são efémeras estas impressões pois tem presente a recomendação do poeta mineiro, Wagner Merije, de que "uma cidade demora uma vida inteira para ser amada", e, também, de que "uma cidade demora uma vida inteira para ser poema". Cada cidade tem a sua arte poética à flor da rua e Belo Horizonte oferece abundante caligrafia de cores, desde a exuberância dos verdes ao cromatismo que se levanta do chão e viaja pelas fachadas altivas, filtrado por uma luz que parece ser magia dos instantes, do sol e das sombras que caminham pelas horas da vida. O cronista fixa esses detalhes da crosta dos dias, mas não resiste  a juntar-se ao conjunto escultórico da Biblioteca Central, como se fizesse pausa para bater prosa entre os escritores Fernando Sabino e Otto Lara Resende (e aqui o cronista recorda que Otto Lara Resende também esteve no Fundão nos anos 60, nas iniciativas culturais heróicas do "Jornal do Fundão"), sob o olhar de Elio Pellegrini e Paulo Mendes Campos.
No Ponto de Encontro
entre Fernando Sabino e Otto Lara Resende

O cronista devia dizer, logo a abrir, que pisar chão de Minas Gerais e sua capital, é uma emoção funda. É como caminhar por aqueles territórios que se fazem nossos pela leitura. O cronista guarda colecções de um jornal chamado "Suplemento Cultural de Minas Gerais" e lembra o que aprendeu nessas páginas amarelecidas pelo tempo, onde conviviam poemas e textos de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa ou Murilo Mendes. Por esse tempo, o cronista vivia aventuras similares às do "Suplemento Cultural de Minas Gerais", na materialização de outros suplementos culturais que deram brado. No suplemento brasileiro, meu privilégio e meu prazer de leitura não se descobria apenas a identificação de uma nova literatura, mas obtinham-se lá, também, boas chaves de leitura para autores como Octávio Paz e Cortázar, Ezra Pound, T.S. Eliot, Barthes, Lorca, Borges ou Robert Frost. O "Suplemento de Minas Gerais" e o "Jornal do Fundão" lutaram e sobreviveram a Censuras (no Brasil a ditadura militar, em Portugal o salazarismo). Curiosamente, encontrei num estudo sobre o jornal brasileiro (da autoria de Fabrício Marques e Mariana Novaes) uma referência à censura (que é um tema que ando investigando) que me tocou especialmente. É uma afirmação de Jaime Prado Gouvêa (1969): "A Censura era um desafio. Driblar o censor era ótimo, um quase-golo. E nos dava a certeza de que alguém estava lendo nossas coisas, nem que fosse para nos ferir".
O cronista regressa, outra vez, ao chão poético de Belo Horizonte, para perceber sentimentos contraditórios de poetas. Carlos Drummond de Andrade, que aqui viveu na década de trinta, escreveu com "empenho do coração" sobre Belo Horizonte, poemas e crónicas. O último poema de Drummond sobre a cidade, de 1976, é uma despedida magoada do poeta. O poema, muito citado, aliás, intitula-se "Triste Horizonte" e começa assim:

"Por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia e continua branda: Volta lá./ Tudo é belo e cantante na coleção de perfumes das avenidas que levam ao amor, nos espelhos de luz e penumbra onde se projectam os puros jogos de viver. Anda! Volta lá, volta já./E eu respondo, carrancudo: não./ Não voltarei para ver o que não merece ser visto, o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser./ Não o passado cor-de-cores fantásticas, Belo Horizonte sorrindo púber e núbil sensual sem malícia, lugar de ler os clássicos e amar as artes novas, lugar muito especial pela graça do clima e pelo gosto, que não tem preço, de falar mal do governo no lendário Bar do Ponto (...)"

O cronista, nesta aproximação a Belo Horizonte quer dissipar o pessimismo drummondiano, e poisar "coraçãomente" (Guimarães Rosa) no labirinto da cidade. Então, apropria-se das palavras de Pedro Nava, como quem quer deixar um abraço feito de palavras. Assim:

"Belo Horizonte, que lindo nome! Fiquei a repeti-lo e a enroscar-me na sua sonoridade. Era refrescante. Continha fáceis ascensões e aladas evasões. Sugeria associações cheias de nobreza na riqueza das homofobias. Belorofonte. Laocoonte. Carente. Era bom de repetir - Belorizonte, Belorizonte, Belorizonte - e ir despojando aos poucos a palavra das arestas de suas consoantes e ir deixando apenas suas vogais ondularem molemente. Belo Horizonte. Belorizonte, Beoionte. Fui à nossa sala de visitas e apliquei no ouvido a concha mágica que me abria os caminhos da distância. Ouvi seu ruído helénico e o apelo longínquo - beoiooooo - prolongado como silvo dos trens que subiam de Caminho Novo acima, dobrando o canto dos apitos na pauta das noites divididas".

O cronista respira fundo e escreve: Belo Horizonte!

quinta-feira, 27 de abril de 2017

AMIGOS E "EMPENHO DO CORAÇÃO"

Sessão no Paul (foto de Maria Nicolau Filipe)
Nestes dias de emoções fundas, em que o "empenho do coração" fala sempre mais alto, voltei a ter aquela sensação única que é o universo de amigos a multiplicar-se em alegria, à volta de coisas felizes que acontecem na minha comum biografia. A notícia da atribuição do Prémio Eduardo Lourenço transformou-se numa plataforma de amizade, num registo de apreço colectivo que eu tomo e partilho como resultado de uma acção cultural e cívica ou da expressão de resistência em relação a tudo o que é essencial ao respirar deste nó de terra interior que é a nossa casa comum.
Ao mesmo tempo, coincidindo praticamente com o anúncio do galardão, a Casa de Cultura José Marmelo e Silva decidiu assinalar, também, aquilo que tenho feito nestes 50 anos de escrita, talvez iniciado com palavras que não viram a luz do dia, cortadas pela Censura. Foi para mim um momento alto, que a amizade do Nelson Oliveira Marmelo e Silva criou e pôs de pé, a que se associaram os presidentes das Câmaras da Covilhã e do Fundão, Victor Pereira e Paulo Fernandes, e onde a fraternidade das palavras foi um traço-de-união nas intervenções de Arnaldo Saraiva e de César António Molina. Houve, também, a música do grupo de Bombos de Lavacolhos, sonoridades fortes e ancestrais da terra fundanense, as adufeiras do Paul, com o talento e a voz magnífica da Leonor Narciso, a reinventar a riqueza da música tradicional, e a espantosa leitura que o actor do Teatro das Beiras, Fernando Landeira, fez de alguns textos meus. Foi um clima especial o que se viveu no Paul, no dia 23, momentos que fazem sempre lembrar os versos do Eugénio como gratidão sentida: "os amigos amei/despedido de ternura fatigada".
Voltando ao Prémio Eduardo Lourenço eu tive oportunidade de dizer que o considerava, pelo nome do patrono, uma honra intransponível, e por ser iniciativa do Centro de Estudos Ibéricos, instituição relevantíssima da Ibéria. Fiquei feliz, não o escondo, pelas palavras do júri, que o atribuiu por unanimidade: "O Júri reconheceu a projecção cultural e ibérica do jornalista, escritor e cronista e a sua notória vocação cultural e cívica desenvolvida ao longo dos últimos 50 anos, no "Jornal do Fundão", orgão de referência na história da imprensa nacional, onde foi jornalista, chefe de Redacção e Director. Protagonista de um jornalismo fortemente literário, que tantas vezes lhe permitiu contornar a censura pela finura da escrita, Fernando Paulouro Neves representa muito bem a ligação entre os dois lados da raia ibérica, vividos e defendidos ao longo de uma vida de resistência. Regional, mas sempre com relevância global, mostra que o mundo precisa da reflexão vinda dos pequenos lugares. Partilha as beiras agrestes e a perspectiva que elas transmitem, com o próprio Eduardo Lourenço; em ambos o pensamento não se imagina sem o vento da raia e a vivência dos locais que o futuro ameaça abandonar, mas que ambos acreditam que se mantarão relevantes e até indispensáveis."
Então, estou grato a todos os amigos e corporizo num gesto de gratidão, pela sua simbologia colectiva, as palavras amigas de felicitações do Senhor Presidente da República. A todos, digo: bem hajam!
E aos meus Leitores, razão de ser da escrita, dizer-lhes que irão, nestes três meses, ter crónicas minhas a partir de Minas Gerais, terra do grande Carlos Drummond de Andrade.