sábado, 15 de abril de 2017

Fellini na Praça Velha



Fellini na Praça Velha, o meu mais recente livro de ficção, é apresentado no dia 24 de Abril pelas 18h30m na Biblioteca Eugénio de Andrade, no Fundão. Trata-se de um romance sobre figuras e lugares do universo fundanense, cuja expressão literária quer sublinhar a espantosa coincidência entre a fantasia e a realidade, que é um dos grandes desafios da literatura.
Então o romance é uma espécie de filme de memórias, de imaginário livre, que Fellini poderia muito bem ter anotado na sua caligrafia de imagens e de sons. Ali, na Praça Velha, sentado porventura à mesa do Timã, ouvindo a crónica de um país fechado em grades.

Muitos exilavam-se no café e acolhiam-se à mesa do Timã para um breve hiato na retórica da desgraça, veneno diário que escorria pelas horas e tornava as pessoas macambúzias. Para ele, o humor era a grande invenção do espírito moderno, como dissera Octávio Paz. E fazia-o numa prática de grande alegria não poupando os tipos de cerviz baixa e sem coluna dorsal. Dizia – fazendo um gesto largo com os braços – ser enorme a corporação dos sabujos que eram capachos obedientes do Poder. 
– O outro tem razão! – dizia o Timã para caricaturar. – Isto, se calhar, é melhor dissolver o povo! Este não presta, aceita a canga e nem que o piques com o aguilhão das bestas, ele desperta...

sexta-feira, 31 de março de 2017

O MUNDO DE ONTEM. E O DE AMANHÃ?

No tempo em que se assinalam os 60 anos da criação da União Europeia, então sob a forma de Mercado Comum Europeu, no contexto de uma crise que leva os mais cépticos a vaticinarem a própria desagregação do projecto europeu, é bom ler O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig. O livro, reeditado recentemente pela Assírio & Alvin, tem na capa a indicação de que se trata de "recordações de um europeu". Não é apenas um livro admiravelmente escrito, num tom de sobriedade memorialística que chega a ser comovente, o que já seria muito; é sobretudo a observação arguta de alguém que, vivendo a realidade de duas guerras que tornaram o século XX num tempo dos mais sombrios da História (Max Gallo), faz a narrativa da substância do tempo, com perplexidades e inquietações que parecem não ter fim. A dimensão cultural da Europa está muito presente nas recordações de Stefan Zweig, mas há nesta sua reflexão a radiografia de uma Europa em que, apesar das evidências de desumanidade que se vinham inscrevendo na realidade, não parecia plausível a ascensão de Hitler ao poder absoluto que viria ensanguentar o velho continente.
"Afinal que violência poderia ele exercer num Estado em que o direito estava firmemente consolidado, em que a maioria parlamentar estava contra ele e em que cada cidadão considerava asseguradas a sua liberdade e igualdade perante a lei, de acordo com a constituição que tinha sido solenemente jurada?" - escreve Zweig. Mas logo falaram os acontecimentos: "Foi então que sobreveio o incêndio do Reichstag: o Parlamento foi extinto, Goring soltou as suas hordas, de uma penada o Estado de Direito foi suprimido na Alemanha. As pessoas, horrorizadas, ficaram a saber que havia campos de concentração em pleno período de paz e que nas casernas tinham sido instaladas câmaras secretas onde inocentes eram executados sem julgamento e sem qualquer processo"(...).
O escritor evoca esse tempo, em que os dias se incendiaram de terror e a crueldade se tornou numa máquina que alimentava os dias, quando explica o livro, à volta do seu eu, e as suas circunstâncias. Diz ele: "lavrámos o catálogo de todas as catástrofes imagináveis de uma ponta a outra (e mesmo assim ainda não chegámos à derradeira folha). No que me toca, fui contemporâneo das duas maiores guerras da humanidade e vivi mesmo cada uma delas em duas frentes distintas, uma na frente alemã, a outra na antialemã. No período anterior à guerra conheci a forma e o grau mais elevados de liberdade individual e, depois, o seu mais baixo nível desde há centenas de anos. Fui festejado e proscrito, livre e subjugado, rico e pobre. Todos os lívidos corcéis do apocalipse tomaram de assalto a minha vida, revolução e fome, desvalorização da moeda e terror, epidemias e emigração; vi crescer e alastrar sob os meus olhos as grandes ideologias de massas, o fascismo na Itália, o nacional-socialismo na Alemanha, o bolchevismo na Rússia e, sobretudo, a maior de todas as pragas, o nacionalismo que envenenou a flor da nossa cultura europeia. Fui à força testemunha indefesa, impotente, do inimaginável retrocesso da humanidade a uma barbárie que há muito se pensava esquecida, com o seu dogma consciente e programático de anti-humanismo. Estava-nos destinado, tantos séculos passados, ver de novo guerras sem declarações de guerra, campos de concentração, torturas, pilhagens em massa e bombardeamentos sobre cidades indefesas, tudo bestialidades que as últimas cinquenta gerações nunca chegaram a conhecer e que as vindouras, assim o espero, não voltarão a tolerar".
Foi longa esta transcrição, mas necessária. Talvez ela nos ajude, agora que em Roma se juntaram os governantes da Europa (que nos parecem hoje tão pequeninos e efémeros: apenas à altura duma Europa dos pequeninos!), a percebermos a importância do projecto europeu, virtualizador de uma Europa dos Cidadãos e factor de Paz. É nisso que é preciso pensar quando os nacionalismos acéfalos e xenófobos (que já um dia "envenenaram a flor da cultura europeia") voltam a levantar a cabeça e a chegar ao poder. Pensemos nisso, lendo "O Mundo de Ontem", de Stefan Zweig. Para que os sinos não dobrem por nós.

quinta-feira, 30 de março de 2017

"A MATERNA CASA DA POESIA" NA COVILHÃ



O meu recente livro, "A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade", é apresentado amanhã, dia 31 de Março, pelas 18.30, no Salão Nobre da Câmara da Covilhã, numa iniciativa do Município. À semelhança das sessões realizadas em Paris, Fundão, Castelo Branco, Lisboa e Santarém, a sessão da Covilhã será também uma celebração da poesia de Eugénio de Andrade através de leituras paralelas de textos e poemas do autor de "As Mãos e os Frutos", a cargo de Graça Sardinha e Adelino Pereira. "A Materna Casa da Poesia" é um ensaio sobre o sentido da presença da Beira na poesia de Eugénio de Andrade e sobre a relação da sua arte poética com os territórios que marcaram a sua infância.

quinta-feira, 23 de março de 2017

UMA LEMBRANÇA DAS CALDAS


Aquele senhor que tem um nome impronunciável e que preside ao Eurogrupo é talvez o melhor retrato da anquilose em que a União Europeia navega. Esse senhor, que gosta de dizer que é social-democrata, celebrizou-se na ferocidade com que falava dos países do sul, como se essa condição geo-política fosse uma maldição que era preciso castigar. O sujeito, quando aparece nas televisões, à ilharga de microfones ou em conferências de imprensa, ri-se muito, mas todos sabemos que, às vezes, o riso é próprio dos parvos, embora estes possam ter maior grau de responsabilidade. 
Com tipos deste calibre, não admira que o partido trabalhista holandês - o partido cujo emblema traz na lapela - ainda nas recentes eleições legislativas tenha obtido um resultado miserável. Se calhar, chateado com o comportamento eleitoral dos holandeses, e vendo o lugar no Eurogrupo a fugir-lhe debaixo dos pés, o político de nome impronunciável quis desopilar o fígado (decerto mal tratado por excesso de vinhos, aguardentes e licores!) , e , numa entrevista a um jornal alemão, saiu-se com esta: "Na crise do euro os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como social-democrata, a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede tem também deveres. Não posso gastar o meu dinheiro todo em bebidas e mulheres e depois disso ir pedir a vossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal e também europeu". 
Levantou a bojarda um clamor de protestos de governos e no próprio Parlamento Europeu lhe foram às orelhas. Mas não vale a pena perder muito tempo com ele: pertence àquela linhagem que tem alvará da estupidez! Quem lhe respondeu foi Ferreira Fernandes, na crónica que publicou no "Diário de Notícias" sobre "o pequeno holandês". Faço minhas as suas palavras e também eu lhe endosso um artesanato das Caldas para consumo pessoal: 
"Ah,o que o noticiário de ontem me trouxe de arte e luxúria! Passeei-me pela Holanda, quando ela era grande e não só entreposto de impostos dos outros. Rembrandt em autorretrato, uma mão pousada no nadegueiro da sua mulher Saskia e outra levantando o cálice. Mulheres e copos. Vermeer é mais vinho branco, límpido como as suas sedas. Frans Hals, em Jovem e a Sua Amada, faz ambos de maçãs de rosto tão vermelhas que só pode ser do tintol que o rapaz levanta em glória. Já Gerard der Borch, pintor dos ricos, só tem garrafas de cristal trazidas por criados. Jan Steen, pintor de tascas (bordeeltjes, cenas de bordel ou tabernas, são mesmo um género da grande pintura flamenga), no óleo Vinho Holandês, com uma bêbada de seio nu e coxas ao léu, homem com a mão marinhando pela perna dela e um querubim, nem 6 anos, já abotoado ao copo. Gabriel Metsu vai com a mulher, Isabelle de Wolf, para a taberna e pinta o casal agarrado, entre si e ao vinho. Copos e mulheres... E eu, confesso, não gastei o meu dinheiro num curso rápido sobre a pintura holandesa. Limitei-me a ler uma brochura da Académie Amorim, fundação de Américo Amorim, um homem do Sul da Europa, grato ao vinho e à cortiça. A brochura chama-se O Copo de Vinho na Pintura Holandesa na Idade do Ouro, porque os verdadeiros europeus estão gratos à grande Holanda. Já para responder a Jeroen Dijsselbloem, um curso rápido de arte portuguesa chegava: um caralho das Caldas para ti, pequeno holandês."

quinta-feira, 16 de março de 2017

PARABÉNS, MESTRE CARGALEIRO!

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Quando penetro no mundo fantástico do Mestre para encher os olhos do fascínio das cores na invenção de cidades líricas e imaginárias, no seu sonho desmedido de criação, penso sempre na metáfora de Borges e digo para mim que a obra de Manuel Cargaleiro se reflecte nas linhas do seu rosto, no olhar bom de águas límpidas, na sabedoria de umas mãos e de um espírito que foram capazes de transfigurar a realidade em coisas belas, criando mundos outros, que é desafio só ao alcance dos que se libertam, pela genialidade, das coisas banais e menores.
É esse sentimento que de novo reencontro, quando quero dar um abraço de palavras a Mestre Cargaleiro, no momento dos seus 90 anos, como quem lhe agradece toda a arte que nos deu, para iluminar o tempo e nos mostrar que há uma humanidade nova na aventura criadora do Homem, e, no meu caso pessoal, um tributo de gratidão à amizade e companheirismo que tem sido a marca de muitos encontros e iniciativas no âmbito cultural. Este aceno grato de palavras tem outra raiz profunda: o lugar de Castelo Branco e da região na obra do Mestre e a circunstância do universo museológico de que esta cidade é o centro, um equipamento cultural à escala europeia, que Joaquim Morão foi capaz de edificar e que nos honra, a todos, cidadãos deste território do Interior.
De facto, Castelo Branco tornou-se destino da obra de Manuel Cargaleiro e lembro-me bem de Mário Soares, quando veio aqui apresentar o meu livro, Crónica do País Relativo (primeiro volume) me ter confessado a sua admiração pelo acervo de obras do artista e pela alta qualidade do Museu, impressões a que depois deu expressão num artigo publicado no “DN”.
Estamos perante uma obra de dimensão internacional, com âncoras muito precisas em Paris e em Vietri-Sul-Mare, Itália, e essa singularidade do homem que há 90 anos nasceu na pequena aldeia de Chão de Servas, em Vila Velha de Ródão, tornado referência da pintura moderna (veja-se a exposição realizada em Paris em que Cargaleiro é o único artista vivo de um conjunto de 25 pintores mundiais – está lá também Vieira da Silva – considerado determinante na arte contemporânea dos últimos cem anos), e é essa articulação que é preciso fazer, no plano documental da divulgação, para que o Museu Cargaleiro seja cada vez mais vivo.
Sempre me fascinou essa relação arterial entre o lugar originário de pertença e uma obra que depois viajou pelo mundo. Regresso, por isso, a um ensaio que escrevi sobre a obra do Mestre (“Assim Nasce a Alegria”, in Manuel Cargaleiro, Vida e Obra, Catálogo do Museu Cargaleiro, Castelo Branco) em que falava de traços identificadores e contextuais da sua pintura: “É de Goethe que me lembro, pela transparência da luz, tão essencial à arte e à poesia, sempre que mergulho no mundo fantástico de Manuel Cargaleiro. Cores e luz. A luz que caminha desde os primeiros raios da manhã até ao pôr do sol e quando poisa nos instantes do dia se dissolve em mil imagens cristalinas, oferendas de uma espécie de mistério de mineralização das coisas. Cores: explosão cromática em busca de outras mil alegrias para memória futura. Temos então um mundo elemental, matriz de uma arte que se desdobra em louvor do tempo e da vida (…).”
Lembro-me bem de uma tarde, em Castelo Branco, em longa conversa de roda livre com o pintor, ele ter regressado aos prazeres da memória e à infância, à emoção do tempo inicial, e me ter dito quanto esse território de afectos ficara preso à sua obra, ao imaginário das cores, às plantas, às vivências, ao conhecimento do mundo. O seu rosto iluminou-se num sorriso largo:
-- Sim, as cores da Beira estão sempre presentes nos meus olhos. A terra faz parte do coração…
(Artigo publicado na edição de hoje do jornal Reconquista)

Ler mais sobre Cargaleiro: http://www.fernandopaulouro.com/search?q=cargaleiro



terça-feira, 14 de março de 2017

SABER COLHER A LUZ

Deus pode ter descansado ao sétimo dia e ter chamado Heine para criar as nuvens, mas se houve recurso a poetas para colocar alguma alegria na criação do mundo, então penso que eles se devem ter dedicado por inteiro à Primavera, escolhendo um tempo especial para a transformação da natureza, pintando de flores e cores a paisagem, para os olhos se extasiarem e matarem a sede de beleza. Eu gosto de ver a antecipação da Primavera e o dia 14 de Março abre-me especialmente o coração a essa realidade solar. O sol já tocou a terra e um rosto se abriu em sorriso grácil, como as magnólias brancas, à entrada da Covilhã. Respira-se a renovação da vida nas mutações cromáticas e há um fio temporal que nos põe a pensar que a transformação da realidade é uma metáfora objectiva da esperança. Agora, o sol voltou a poisar nos campos e os pássaros cantam de novo porque o vento deixou de ventar os altos ramos. Quem se aventurar por esses caminhos, vê a explosão do branco das macieiras e pereiras e os roxos dos pessegueiros, como se nos estivessem a avisar que não tarda muito temos aí a neve branca das cerejeiras. Na serra, a combustão das flores e dos verdes é mais lenta, mas também de lá de cima se abrem os olhos a horizontes tão vastos, com planícies e montanhas azuis, que o imaginário dispara sonhos surpreendentes que cavalgam o olhar à desfilada. Volto a um texto de Vergílio Ferreira, que é também antecipador da estação florescente. E aqui o deixo, como se a Primavera já me tivesse tocado ao batente para ter atenção ao olhar:

"A luz, a luz. A Primavera enviou já a sua mensagem e só é preciso estar atento para a não perder. Não é a luz sumarenta do Outono ou a luz pesada do Verão.É uma luz nítida e ainda fria dos gelos do Inverno. Recorta as coisas pelo seu limite e elas emergem inteiras do seu ser. Essencialidade da vida, é a altura de lavarmos nela as mãos e o olhar. Entender aí a nossa relação com elas e sermos nós também na inteireza do que somos. Aprender a ver o mundo na sua estrita realidade sem um ver que nos cegue como o fogo do Verão a a moleza outonal. Aprender o limite dos excessos de nós para conhecermos a alegria que nos não cansa ou a melancolia que tem pacto feito com a morte. Existir uma vez ainda no recomeço de existir. E saudar a vida ainda, como se pela primeira vez".

É esse sentimento primordial que se colhe, como quem abraça uma flor. É o coração da terra a respirar. 

domingo, 12 de março de 2017

O VALOR DA LÍNGUA

Ilustração sobre o Espanhol no mundo (Fernando Vicente)

Estranho país é o nosso que não se cansa de enaltecer a Língua portuguesa, numa retórica celebratória e ditirâmbica, para depois a maltratar e lhe conferir, no âmbito das políticas gerais, um carácter de subalternidade. É isso, porventura, que explica a forma como, desde sempre, têm sido tratados os grandes construtores da Língua, os escritores e poetas, desde Camões. Jorge de Sena falou um dia dessa estupidez de longa duração, como se fosse marca genética da história, caricaturando um país que dizem ser de poetas e onde se fala muito em Camões, mas quase matou o épico à fome.
Nos últimos tempos, não têm faltado discursos sublinhando o interesse económico da Língua portuguesa, assinalando a sua importância estratégica no mundo globalizado. 
É facto que é uma das seis Línguas mais importantes, com mais de 244 milhões de falantes, e uma notável capacidade de implantação a nível planetário. Mas basta pensarmos na inépcia política, ao longo dos tempos, sobre o ensino da Língua nas comunidades portuguesas para pensarmos na visão redutora que tem condicionado uma problemática de indiscutível interesse nacional. 
A Língua é um óptimo assunto para patrióticas tiradas, daquelas de encher o ego, e, sobretudo, para citar o verso do Pessoa: "a minha pátria é a Língua portuguesa". Mas quanto ao resto, ao essencial e concreto da política para a internacionalização da Língua, é quase silêncio. Esse silêncio só é quebrado quando surgem matérias como o Acordo Ortográfico. Então, elevam-se os clamores, a coisa atinge dimensão polémica que, às vezes, configura o que Mário Mesquita caricaturou: as polémicas à portuguesa parecem touradas à espanhola! 
Vim ao encontro deste tema porque li que em Espanha se realizou uma longa investigação, que produziu 14 volumes, sobre O Valor Económico do Espanhol. A complexidade do estudo abarca desde a vantagem da Língua na reprodução de investimentos em áreas que vão da indústria editorial às energias renováveis, analisa as vantagens no plano da globalização de uma Língua milenária, aberta ao mundo, e, sobretudo, responde ao desafio da dimensão quantitativa -- mais de 420 milhões como primeira e segunda Língua -- ser plasmada numa realidade qualitativa, num adequado processo de internacionalização. Uma nota do estudo assinala o facto de, no programa universitário "Erasmus" a Espanha ser o país de destino mais procurado, no conjunto dos 32 países que o integram. 
É importante perceber esta prioridade espanhola. Não para ficarmos a dizer, como fazemos tantas vezes, que "en España es diferente", mas sobretudo para fazer alguma coisa no sentido da pátria planetária da Língua portuguesa ser assumida na dimensão estratégica, que é indiscutivelmente uma das suas singularidades. Se calhar, até olhando para a realidade que Herberto Hélder tão bem assinalou, quando escreveu sobre as potencialidades de uma língua comum luso-castelhana assente num falar arterial que vai por cima das fronteiras em busca de um espaço tão vasto como a Ibero-América e os países da Lusofonia.