quarta-feira, 24 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 8, A malandragem

     Andei a ler e a reler, com proveito, textos do Professor António Cândido, que morreu recentemente e é figura relevante da crítica literária, a ele se devendo a análise mais profunda sobre a Formação da Literatura Brasileira, a fixação do cânone e as suas tipologias. Nesse registo académico, é célebre o ensaio de António Cândido sobre A Dialética do Malandro. Analisando a aventura ficcional brasileira, ele clarifica que a sua matriz histórica não comporta o pícaro, estruturalmente espanhol e português (nós lembramo-nos sempre de O Malhadinhas, de Mestre Aquilino Ribeiro), e, em vez desse conceito, sugere o do malandro. Haverá, então, o romance malandro. António Cândido esclarece: "O malandro, como o pícaro, é espécie de um género mais amplo do aventureiro astucioso, comum a todos os folclores".
        Enquanto literariamente fazia o inventário da ficção retratando o jogo da trapaça, pensava como é verdadeira aquela ideia que diz ser a literatura vida e que a ficção é muito a narrativa da vida dos outros e da nossa propriamente dita. Então, como alguém disse, o malandro transferiu-se das ruas para a ficção e destas, acrescento eu, para a política. Aqui, a ajuizar por uma realidade cada vez mais sem fronteiras, há uma outra Dialética do Malandro, com expressão no Palácio do Planalto, no Congresso, no governo Federal, na relação espúria entre a economia e a finança cavalgando a política. A coisa é de tal envergadura que podíamos questionar a nossa própria perplexidade: será que na política "nascem malandros já feitos"?
        Na procura desse traço identitário, o professor Roberto Goto escreveu caricaturando: "A  ginga, a finta, o drible, a manha e o jogo de cintura muito apreciados no futebol e na política, a agilidade e a esperteza em escapar de situações constrangedoras ligadas ao trabalho e à repressão, o "jeitinho" que pacifica contendas, abrevia soluções de problemas, fura filas, supre ou agrava a falta de exercício de uma cidadania efectiva". O professor Boaventura Sousa Santos, a uma escala mais global, falou um dia da "carnavalização da política". Sem o dizer, ele estava a falar nos malandros, outros malandros, "senhores do mando e da opulência", que "comem tudo e não deixam nada". Como diziam as canções do Zeca Afonso, que soube cantar, como ninguém, a utopia como semente transformadora da sociedade.

terça-feira, 23 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 7, Outros Brasis


No mundo da arte, a música tornou-se divina porventura pela linguagem universal que marca o acto criador da sua invenção. Tomou ares de tamanha evidência, poisa com tal força na realidade, que sublinhar o facto pode parecer coisa banal e de lugar-comum. Embora ciente dessa contingência, o meu pensamento navegou por essa certeza, quando, um dia destes, vivi os momentos mágicos que foram o concerto da Orquestra Filarmónica de Minas Gerais. A sala que acolhe a Orquestra é uma Casa de arquitectura moderna e rasgada, ao jeito das que existem em S.Paulo e Berlim. 
       Esta, de Belo Horizonte, começa logo por fascinar nas fachadas exteriores que, à noite, se iluminam como se quisessem dizer que o espaço está povoado de matéria dos sonhos. Lá dentro, a monumentalidade mede-se pelos 1.400 lugares da sala. Este concerto, que já tinha acontecido na véspera, tinha a sala quase lotada por um público que, durante a audição das peças sinfónicas (Jorge Antunes: "Apoteose a Rousseau"'; Bela Bartók: "Concerto para Piano n.1"; Joahnnes Brahms: "Sinfonia n.1 em dó menor, op.68") praticava um silêncio absoluto, e, no final, irrompia em aplausos vibrantes. Foi sobretudo, assim, na homenagem ao compositor brasileiro Jorge Antunes, que estava presente e pôde explicar a sua "Apoteose a Rousseau" (o conflito entre a melodia e a harmonia, mas no final, disse o compositor, "a melodia vence, pois eu sou uma pessoa optimista"). Essa vibração do público foi muito forte para premiar a solista em Bartók, a pianista Anna Vinnitskaya, e para o maestro titular e director artístico da Orquestra Filarmónica, Fábio Mechetti, que empolgou na direcção da sinfonia de Brahms em que o colectivo de músicos teve prestação excepcional.
      É preciso que se diga que Belo Horizonte, com os seus dois milhões e meio de habitantes, tem outra Casa da Música e outra orquestra a Sinfónica de Minas Gerais, sediada no Palácio das Artes, outra sala monumental desenhada por Niemeyer, onde se realizam outros acontecimentos além da música, o que dá uma ideia da vitalidade cultural da capital mineira.
        No atoleiro da crise e da corrupção, que todos os dias se dilata um pouquinho mais, este é o outro Brasil que eu amo. No dia do concerto, a noite abriu-se em chuva (seria a íntima chuva de que falava Drummond?), mas era a festa da companheira música que vinha connosco, como se o céu estivesse cheio de estrelas.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 6, Uma bomba no Palácio do Planalto!

Manifestação "Fora Temer! Diretas já". BH, 18/05
Andava o cronista aspirando, no brouhaha quotidiano, a euforia do triunfo do Atlético, no Mineirão, ainda para mais sobre os argentinos do Godoy Cruz, por 4-1, percebia uma espécie de felicidade no ar, e desejou que os Ipês começassem subitamente a florir, semeando de cores a paisagem. Regressou ao concreto do dia, e,   apurando depois os ouvidos e os olhos ao noticiário nacional da "Globo News", eis que a surpresa tomou conta das palavras e das coisas: uma verdadeira "bomba" sacodia a narrativa da informação imediata. 
Ficámos, então, a saber, segundo matéria revelada por um jornalista do "Globo", Lauro Jardim, que os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da poderosa JBS, no âmbito de uma delação premiada, apresentaram uma prova, em áudio,  mostrando como o Presidente da República, Temer, tentara obstruir a Operação Lava Jato. Temer foi gravado dando o aval para comprar o silêncio do deputado Eduardo Cunha, preso desde Outubro do ano passado, e que, como presidente do Congresso, foi o verdadeiro pivôt na escalada para o "impeachment" da Presidente Dilma Roussef. 
Sabe-se que no diálogo entre o Presidente Temer e Joesley Batista, que ocorreu em Março, no Palácio do Jaburu, o segundo contou que estava dando uma mesada a Cunha e ao doleiro Lúcio Funaro, presos em Curitiba, para que ambos não falassem nada que prejudicasse o governo. Temer terá dito: "Tem que manter isso, viu?" 
Estes factos fazem parte de uma investigação articulada com os investigadores da Operação Lava Jato e a Procuradoria Geral da República e desenham múltiplas conexões, desde o ex-assessor, muito próximo de Temer, filmado recebendo malas de dinheiro rastreado até ao comprometimento do senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, também envolvido com a JBS, no recebimento de milhões. Neto de Tancredo Neves (figura respeitada do Brasil: Tancredo deve dar voltas e reviravoltas no túmulo!)), ancorado a Minas Gerais, a gravidade da sua conduta levou já o Tribunal Federal a determinar o seu afastamento do cargo de senador, enquanto a irmã foi hoje detida pela polícia, enquanto ele aguarda vez. Ao observador distante tudo isso parece um filme negro, onde os artistas regressam sempre ao leit-motiv do crime: a corrupção, as ligações perigosas da política à economia, a crise do sistema político e dos partidos. Mas no dia-a-dia da sociedade brasileira a banalidade desse polvo político, que envolve a classe político-partidária, todos os dias vem à superfície, agora, sobretudo, com a figura da "delação premiada", em que muitos visados criminalmente, às vezes já condenados a pesadas penas, tentam salvar a pele ou atenuar as penas delatando, delatando, delatando...
Esse é o ambiente que o país vive. Ainda não tinha cessado o clamor da audiência de Lula, em Curitiba, respondendo ao juiz Moura, e o impacto da divulgação dos vídeos em que os "marqueteiros" Mónica Moura e João Santana, em delação premiada, visam incriminar Lula e Dilma pelo Triplex e pela alegada Caixa 2 do PT, e já a bomba de Temer e adjuvantes explodia no coração do Planalto. 
O rio das anedotas sobre Temer tornou-se um mar, cujas ondas vão e vêm nas redes sociais ou no implacável blog de Gregório Duvivier, "Blog do Kuelho", em que ele diz que "o Temer é uma espécie de mordomo maçon e satanista" e que é perito a usar "a chatice para alcançar o que quer"... O que é certo é que, dizem de todos os quadrantes, Temer e o seu governo estão à beira do abismo. E todos estão à espera que o Presidente dê um passo em frente! 
Nas ruas, volta a ecoar a exigência colectiva: "Directas, já!" E enquanto discutem à boca pequena ou com ela no trombone as implicações constitucionais, o quadro aponta para a renúncia do Presidente ou os pedidos de "impeachment" no Congresso, que, aliás, já começaram. Há um ano, Temer estimulava a concretização do "impeachment" de Dilma vendo nisso a possibilidade de ocupar a cadeira presidencial sem ir a votos. Agora, a máscara de impoluto Presidente (adeus, reformas!), o ar seráfico de quem tinha no folgado controle do Congresso o seguro de vida, tudo parece um castelo de cartas a cair. 
Hoje, na edição brasileira do "El Pais", Juan Arias publica uma excelente crónica, com o título "É urgente um novo Brasil", em que coloca a exigência de uma mudança radical no "país continente", que "já parecia ter chegado ao futuro e descobriu que estava andando para trás". Ele reclama, então, uma República Nova, na medida em que se "esgotou a imaginação para reinventar a política que transformou em um negócio", enquanto há "uma nova geração que não se conforma em continuar sofrendo sob os escombros e quer começar a construir algo de novo". Diz ele, citando a parábola bíblica: "os mortos que enterrem os mortos". Porque "o que está morrendo é uma maneira de governar de costas para a sociedade pensando apenas em tirar proveito dos privilégios que o poder oferece".
Quem será o arquitecto do Brasil Novo? - pergunta Juan Arias. Não sabe ele, nem ninguém. O cronista de Notícias do Bloqueio  não acredita, aliás, em homens providenciais e desconfia deles pelo saber da História remota ou próxima.  Mas gostou de ler que o Brasil precisava de um Mandela, ele que foi capaz de, no país do Apartheid, enterrar a arma do ódio e fazer triunfar o diálogo. O problema é que Mandela pertence àqueles fenómenos singularíssimos que são raros no tempo longo da História.

terça-feira, 16 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 5, As Cores da Cidade


(ao António Valdemar, que foi amigo de Pedro Nava e me envolveu no seu fabuloso memorialismo)

Está um tempo bom para nos fazermos à cidade, caminhar pelas ruas de Belo Horizonte, onde Steiner gostaria de andar, tenho a certeza, para descobrir na topografia da urbe nomes que são parte inteira da história e da cultura da capital mineira e estacionar nos botecos proseando. Palmilhar as ruas, visitar o universo colorido dos mercados - o Mercado Central, lugar que evoca originais reminiscências rurais, é hoje uma babel de trocas, onde tudo se oferece e está ao alcance dos desejos consumistas - ou ir ao encontro de outros mercados afluentes e centros comerciais exuberantes. 
O lugar das trocas não poucas vezes resvala para a flor das ruas, onde camelôs de circunstância, com as suas vendas e o seu linguajar, dão um colorido genuíno à cidade. Aos domingos, o mercado popular amplia-se ocupando boa parte da larga Avenida Afonso Pena. 
No "Contorno", por onde quer que se vá, ganha-se mais um pouco a ideia de pisarmos chão de uma cidade pensada com régua e esquadro, num urbanismo rasgado, de prédios altos e avenidas largas, desenhadas com mão de futuro. Pedro Nava, verdadeiro Mestre de memorialismo, dá-nos conta da transformação e crescimento de Belo Horizonte, em "Balão Cativo", com um pormenor e um rigor de observação que, no intimismo da narrativa, nos deixam a sensação da sua escrita captar a substância do tempo. 
Fui, talvez por isso, fazer um aceno ao Ponto de Encontro, como se quisesse dizer olá! ao poeta Carlos Drummond de Andrade e a Pedro Nava. Lá estão os dois, no bronze idealizado por Léo Santana. Ali, entre a Rua Goiás e a Rua da Bahia, espaço de tão fundas memórias culturais, convergiram muitos sonhos jornalísticos e literários daquela geração modernista que, na primeira metade do século XX, abalou a tradição literária de Minas Gerais. E outra vez Pedro Nava falando da Rua da Bahia: "Não a Rua da Bahia de hoje. A de ontem. A dos "anos vinte". A de todos os tempos, a sem fim no espaço, a inconclusa nos amanhãs. Nela andarão sempre as sombras de Carlos Drummond de Andrade, de seus sequazes, cúmplices, amigos, acólitos, satélites". 
Devo confessar que a leitura do livro de Humberto Werneck, com o surpreendente título "O Desatino da Rapaziada", que é uma narrativa fantástica sobre jornalistas e escritores em Minas Gerais, me despertou a curiosidade sobre este universo mágico dos anos 20 e sobre o pulsar cultural de Belo Horizonte no fluir do tempo que veio depois. O inventário de nomes é fabuloso, parece estarmos face a um território predestinado para o exercício da poesia e da prosa. 
Humberto Werneck faz a história desse fio de tempo e conta-o como se estivesse a escrever um romance, captando o tempo e os lugares, colhendo histórias saborosas e acontecimentos que ficaram colados à história de Belo Horizonte e do Brasil. E nós, que o lemos, temos às vezes a sensação de lá termos estado também, de tal forma que, ao poisarmos outra vez na realidade, ficamos com pena desse sonho ter acabado. 
"O Desatino da Rapaziada" começa, aliás, com o Drummond, ou não fosse ele figura epigonal da narrativa! Explica Werneck: "A história que aqui se vai contar começa no ano de 1921, no instante em que a mais famosa de suas personagens, um adolescente magrinho, de óculos, entra numa redacção de jornal, na rua da Bahia, em Belo Horizonte". Era o "Diário de Minas". No fio inicial da história, conta o autor, pedindo eu licença por me deter mais tempo neste particular: "Mas estamos ainda no começo, no moço de óculos em quem já é possível reconhecer Carlos Drummond de Andrade. Tem dezoito anos e, não faz muito, foi expulso do Colégio Anchieta, de Nova Friburgo, no estado do Rio, por "insubordinação mental". Quatro anos mais tarde a pena azeda de um literato belo-horizontino, por detrás de pseudónimo, vai descrevê-lo como "aquele mocinho esgrouviado, que tem cara de infusório". Será visto, nessa época, como o líder de um grupo de jovens escritores "futuristas", cujos desmandos poéticos vinham perturbar a parnasiana harmonia da paisagem literária das Minas Gerais. Razão deveriam ter os padres de Nova Friburgo em chamá-lo de "anarquista".
Esse tempo cristalizou em versos de Drummond:

O Diário de Minas, lembras-te, poeta? 
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira 
uma página de: Viva o Governo 
outra - doidinha - de modernismo.

"O Desatino da Rapaziada": cinquenta anos de história literária, acontecimentos divertidos das vivências de ilustres escritores, estimulante confronto de ideias. Havemos de voltar, de certo, a Werneck e ao seu "O Desatino da Rapaziada" porque dentro do livro estão contidos tempos essenciais, como no capítulo "Sob as Asas de JK", quando fizermos crónica da Pampulha.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 4, A Viagem da Língua

"Tanto mar", diz a canção do Chico Buarque, e quando pisamos chão do Brasil, eis o milagre da Língua a acontecer, as suaves sonoridades das sílabas do fazer falar, a alquimia inventada das palavras de cristal, a construção da Língua desde Camões, a escrita e a fala comuns edificadas dum lado e do outro do Atlântico, essa "jangada de pedra" que foi e vai pelo mundo numa viagem planetária que parece não ter começo nem fim. Penso nesses construtores da Língua, que fizeram dela um organismo vivo, um bicho que caminha no tempo, como dizia o Aquilino, e logo essa aventura descobre nomes outros, muitos, como o Machado de Assis ou o Camilo e o Eça, o Pessoa, o Manuel Bandeira e o Drummond, o Mário de Andrade e o Guimarães Rosa, o João Cabral, a Sophia e o Eugénio de Andrade, o Vinicius e o Chico e o Tom Jobim, o Zeca Afonso, o Caetano Veloso e a Bethânia, sei lá, tantos nomes, tanto mar, tanta poesia, palavras que voam e tocam o coração da gente. Então, essa aventura da Língua é o meu "espanto de todos os dias". E o poema surgiu como perplexidade do instante.

Que força é esta
que poisa na fala
e nos embala
na viagem desta Língua
tão doce e musical?
Que força é esta
que se faz comum
este falar coraçãomente
(tu é que sabias, João Guimarães Rosa!)
que pulsa arterialmente
no quotidiano da gente?
Que força é esta
que faz da invenção verbal
novas pátrias idiomáticas
como quem reparte o pão
e mata a fome a um irmão?

Belo Horizonte, 15 de Maio/17


sexta-feira, 12 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 3, Museus e Memória


O Museu de Artes e Ofícios, Praça da Estação 
Uma das notas que se colhe do quotidiano de Belo Horizonte é a dinâmica cultural e a sua capacidade de oferta. 
A modernidade de uma cidade é inseparável da afirmação da sua capacidade criadora, e esta em que estou, tão pródiga em sinais de futuro, exprime essa singularidade, não só no rasgo da sua arquitectura (sempre a iconografia do Niemeyer ao encontro dos nossos olhos!), mas no acesso a uma multiplicidade de bens culturais, que vão do cinema alternativo e da música (a Filarmónica de Minas Gerais tem programa cuidado e público certo), a todos os outros segmentos da criação, como a literatura e a poesia (uma atenção especial às Bibliotecas) ou à arte, no sentido mais amplo. A tudo isso, não é estranho o pulsar vivo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com mais de 50 mil alunos, estimulante sede de um conhecimento cada vez mais nómada, que vai por aí, ao nosso encontro, por cima de todas as fronteiras.
Nesta emergência de equipamentos culturais urbanos, há uma área muito importante, pois se prende com a memória e a sua preservação (e democratização, como queria George Duby), que é o património museológico. Belo Horizonte (e Minas Gerais) têm notáveis Museus, que aliam a acervos valiosíssimos uma dimensão pedagógico-didáctica, valorizadora das novas tecnologias, indispensável à compreensão dos tempos que, nos Museus, estão dentro do registo temporal longo que é a dicotomia passado e presente.
Há, em Belo Horizonte, uma geografia de Museus que é preciso percorrer para ficarmos mais aptos a proceder à "identificação de um país". O Museu de Artes e Ofícios (MAO), fica na Praça da Estação, bem no coração de Belo Horizonte. A Praça, ponto de passagem de milhares de pessoas no garimpo dos dias, respira horizontes largos, toda aberta ao sol e aos jovens que ali confluem bebericando em alegre convivialidade, sobretudo aos fins-de-semana. Os edifícios que acolhem o MAO, de belíssima traça, sóbrios na expressão cromática, convidam a entrar para um reencontro com a História. Foi o que fizemos. É uma longa viagem aos arcaísmos da vida comunitária e à lenta afirmação do homem no domínio da natureza e das técnicas. Espaços que são um louvor ao trabalho, um elogio às mãos e ao espírito, que conduzem sempre à interrogação brechtiana - quem construiu Tebas? - sobre os verdadeiros construtores da história na sua dimensão colectiva: quem fez, quem arrastou as pedras ou edificou as muralhas da cidade?
No labirinto documental, impressionou-me uma imponente balança do século XVIII, trazida da Baía, para ser utilizada na venda de escravos a peso. Olhei o pesado mecanismo e não deixei de pensar que uma coisa não pesou ela: as lágrimas da escravatura! Pecados que o império colonial português teceu... Tudo isso se aprende no Museu de Artes e Ofícios, que abriu ao público em 2006, e é motivo de atracção grande na cidade. Na Praça da Liberdade e imediações encontramos outros espaços museológicos e culturais imperdíveis. É o caso do Centro Cultural do Banco do Brasil, com uma monumental mostra internacional de pintura sobre "A Figura Humana no acervo do MASP", e, muito perto, o "Memorial Minas Gerais Vale", que é uma atractiva viagem à história de Minas e às suas por vezes obscuras raízes identitárias.
O Museu de História Natural e Jardim Botânica, UFMG
Mais longe, fica o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, no meio de um edílico bosque, com diversificada área expositiva, em que sobressai o acervo arqueológico. Aqui, há que sublinhar o entusiasmo com que o Professor João Renato, botânico de renome, e o Professor Gilberto Costa, geólogo de curiosidade cultural multifacetada (que dirige o espaço), falam daquele património natural e também da história de Minas Gerais. Devo confessar, aliás, que tanto o Professor João Renato Stehmann como a Professora Maria Teresa Alves, têm sido uma âncora fantástica de amizade e incansáveis na descodificação de Minas aos curiosos viajantes. Mas foi muito bom trocar ideias com o Professor Gilberto Costa, grande especialista em cartografia (organizou o monumental catálogo "Roteiro Prático de Cartografia: Da América Portuguesa ao Brasil Império"), para perceber a tipologia da ocupação do território e sua formação económica.
O viajante repete para si próprio: já se sabe que Belo Horizonte é uma cidade nova. E acrescenta outra constatação: talvez por isso tenha a marca genética tão evidente de uma sensibilidade especial para olhar o passado e poder caminhar em direcção ao futuro.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 2, O Homem das palavras insubmissas


(para a Isaura, com um beijo)

Há notícias que nos chegam tintas de lágrimas, ampliadas de tristeza pela distância, que tocam fundo o coração da gente pois assim é a ferida aberta pela partida de um Amigo, pelo adeus a um companheiro de jornada de palavras. E palavras de honra. O BB, o nosso Armando Baptista-Bastos, deixou-nos aos 83 anos. O coração cansou-se decerto do internamento hospitalar doloroso, do tempo suspenso, da premonição do fim - e parou de bater. É a certeza dessa ausência, como sensação de irremediável, que agora me toca, neste fim de tarde de Belo Horizonte, quando o sol parece rir-se da morte e ainda ilumina a vida de luz nos detalhes do quotidiano. 
Olho para o instante, meço o peso das palavras, e penso sinceramente que o BB não apreciava a liturgia das palavras post-mortem, ele que sempre gostou de celebrar, no jornalismo e na literatura, a vida e a capacidade do homem se fazer a si próprio pela liberdade e pela insubmissão às servidões dos poderes. 
Como quem afasta o cálice da tristeza, vou então ao encontro da vida de palavras do BB na sua demanda de um mundo mais justo e fraterno e na afirmação, que nele foi um compromisso muito forte de, pensando ou escrevendo a realidade, acrescentar alguma coisa ao tempo que lhe coube em sorte. Então, eu penso que o BB cumpriu bem esse desígnio. Ele amava o jornalismo, e, no livro de todos os dias que eram as suas crónicas, as suas reportagens, as suas notícias, inscreveu um estilo, um fazer, uma cultura, que transformou a sua escrita numa referência. 
O BB diluiu a fronteira entre o jornalismo e a literatura através de uma escrita originalíssima, que transformava as reportagens em grandes narrativas ou fazia da crónica um género superior do fazer literário, registando os detalhes da cidade como espaço privilegiado de observação social. Começou no "Século", foi nome de proa do "Diário Popular", esteve ligado a uma experiência de jornal de jornalistas, "O Ponto".   
O seu nome tem uma ligação forte ao "Jornal do Fundão", onde, em finais dos anos cinquenta, dirigiu o polémico Suplemento de cinema, "Bastidores"', que a Censura se viu obrigada a calar. Foi um companheiro leal, que me acompanhou sempre em mil projectos, designadamente quando dirigi o JF. O BB foi muito mais do que isso: um amigo solidário em demandas de defesa da liberdade de expressão, um verdadeiro camarada das letras, sempre atento ao que fazia no jornalismo e na literatura. Prefaciou livros meus ou apresentou-os, escreveu palavras que guardo rente ao coração. Falava do jornalismo como uma grande paixão e lembro-me de ele ter escrito para o JF um texto memorável de elogio aos jornais, que intitulou "Catedral de Papel". Ele dizia mal da profissão, que tinha salários miseráveis, que era péssima, que originava muitas cirroses fatais. Mas depois de escrever tudo isso, o texto acabava convidando os jovens: 
- Éh, Malta! Juntem-se a nós!
Era assim o BB: sempre a favor do contra. Não escondia a inquietação pela selva que é o território da Informação. Parece que o estou a ouvir: "As Redacções dos jornais são hoje lugares mal frequentados!" Estou longe, não tenho os seus livros à mão, mas a memória conduz-me à sua escrita tão musical: ao "Secreto Adeus", à "Elegia para um Caixão Vazio", verdadeira metáfora literária de um país chamado Portugal, "Bicicletas em Setembro" ou "Viagem de um Pai com um Filho pelas Ruas da Amargura". "As Palavras dos Outros" é um notável livro de crónicas.
O BB! Frontal até dizer chega, na crítica aos desmandos dos figurões da política e dos negócios, afectuoso na afirmação de um princípio irrecusável: para os amigos, tudo - para os outros, cumpra-se a lei! O BB! Vou ter saudades da sua voz firme a dizer que isto está uma grande chatice (ele acrescentava outro qualificativo) e a invectivar, com palavras do Aquilino, para a exigência de se estar sempre a favor do contra: 
- Não os deixes estrebuchar!