sábado, 25 de fevereiro de 2017

ESCUTAI OS ECOS DO MEU CANTO

Hoje, à noite, às 21.30, vou ao Grupo Desportivo da Mata, aqui na Covilhã, evocar o Zeca Afonso. Está lá, para cantar, o Francisco Fanhais e outros amigos, e, como sempre acontece à volta do Zeca, percebermos como as suas canções e os seus poemas atravessam o tempo. Ele continua vivo naquilo que é o singular pulsar criador de uma obra de que as gerações mais novas se apropriam para a reinventar. As palavras ajudam a atenuar a saudade da sua falta. Por isso o lembramos amiúde, como se assim falássemos com ele e com a sua música. O texto que segue integrou o Dossier sobre o Zeca, uma iniciativa da Esquerda Net para lembrar o autor de "Cantigas de Maio". Aqui o deixo com um verso de Walt Whitman, poeta de que o Zeca gostava, como aceno da intemporalidade que marca a sua obra.


"Escutai por aí os ecos do meu canto” 
Walt Whitman 

Subitamente, uma voz no silêncio. O Zeca. Tem-se falado nele agora, por estes dias de Fevereiro, em que lembra que a morte o levou tão cedo que gravou no coração da gente uma imensa saudade. A verdade é que para mim e para muitos, tantos, o Zeca continua vivo e eu continuo a vê-lo com aquele ar distraído de menino e de sorriso aberto ao futuro criando a infindável "irmandade" à volta da sua música e das suas canções, por esse país fora, que era esse o seu maior prazer: ir em busca de uma nova humanidade. Nem palcos, nem o universo social da canção, tão precário e vazio. Antes, e sempre, o povo que ele gostava de acordar com a sua arte poética -- porque falando em José Afonso é preciso falar em poesia -- nas colectividades populares, em convívios de inquietação colectiva, às vezes em cima do atrelado de um tractor ou em largos que ainda eram o centro do mundo, como o Manuel da Fonseca gostava de dizer. 
Poesia e música, música e poesia, foi essa a sua biografia essencial traduzida na fala arterial de um canto que era, ao mesmo tempo, o respirar da esperança, insubmisso e rebelde, como recomendava Gabriel Celaya ("a poesia é uma arma"), mas também o coração terno e solidário, versos e palavras contra os poderes e os poderosos, contra os "mandadores sem lei" ou os "eunucos" que fabricavam desumanidades e tolhiam de medo um país.  O Zeca sabia combinar, como nenhum outro trovador, essa mensagem de urgência social, esse grito e essa ousadia do protesto contra a injustiça entronizada, com o veio lírico que a pureza do seu cantar transformava na luz de todas as Primaveras, nas manhãs claras de Maio, como se o tempo não tivesse outro destino senão o de uma renovação libertadora, carregada de comum humanidade. 
É por isso que, ouvindo-o, com aquela voz tão densa de emoção funda que parece ser o respirar de um país, acontece sempre o mesmo milagre de através do eco do seu canto irmos ao encontro de uma enorme paz interior. Então, uma alegria terna brota da música dos seus versos, com aquele timbre tão límpido, ora afectuoso ou dramático, às vezes quase épico, como só acontece quando é o coração colectivo que canta. Não admira que o país se tenha apropriado de uma canção sua para a transformar em bandeira e hino do 25 de Abril. 
No caso do Zeca Afonso nunca resultaram os guetos de silêncio a que tentaram condená-lo, desde antes de Abril, quando a censura cortava o seu nome, impondo-lhe a morte do silêncio, tão pouco com os esquecimentos de matriz "democrático" por via da incomodidade do seu canto insurrecto. Com ele, nada disso resultou. Porque as suas canções há muito constituíam património colectivo identificador da liberdade. 
Que me lembre, nenhuma outra obra, no mundo da canção, influenciou tanto geracionalmente, como a sua, num processo de rejuvenescimento que permanece vivo, mesmo quando se refaz em experiências múltiplas do ponto de vista criador. Por isso, houve aquele jovem que, já o Zeca Afonso estava muito doente, pediu ao Fanhais mais ou menos isto: se és amigo do Zeca, diz-lhe que a sua música não morre porque a malta nova está com ele! 
Todo o tempo é bom para ouvir o Zeca, mas penso sempre em Maio, decerto pelas cantigas que lhe dedicou, como o seu tempo primordial. Mas ouvi-lo ou vendo os mais jovens reinventando os sons dos seus versos é sempre uma festa feita de poesia e de música que acontece. Regresso às suas canções para escutar melhor um coração chamado Portugal e olhar este país solar. Nessa luz, ao mesmo tempo intensa e transparente, vejo sempre o Zeca a convocar-nos para o sonho da utopia e avisando a malta: “Vejam bem/ Que não há/ Só gaivotas/ Em terra/ Quando um homem/ Se põe/ A pensar.” 
A pensar, avisou o Zeca.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A RESSUSCITAÇÃO DE CAVACO

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Como aqueles criminosos dos filmes negros, que voltam sempre ao local dos crimes, assim Cavaco Silva poisou nas suas memórias em Belém, como se uma figura com o terreno baldio de cultura e honestidade intelectual que ele tem à sua conta estivesse à altura de reescrever a história, mesmo a sua história. É certo que este tipo de narrativas tem sempre a contingência de traçar a caricatura grosseira do seu autor num exercício que, no caso de Cavaco, deixa impresso os traços do seu carácter, a dissimulação, o jogo de máscaras que é o seu conceito de poder, o cinismo da mistura entre a verdade e a mentira, que é uma espécie de produção de actos sem impressões digitais.
As Memórias são isso tudo e, às vezes, até nos fazem lembrar aquele nonsense do Raul Solnado quando, num mundo de gargalhadas que era logo a sua presença em palco, dizia: "Vamos contar mentiras!" Mas as suas narrativas têm muito, também, de um ajuste de contas com Sócrates, que hoje, na tsf desmente a fábula das escutas, uma fábula que toda a gente sabe foi urdida no Palácio de Belém para liquidar o PS, nas eleições.
Em múltiplas observações e comentários políticos (ver alguns nos dois volumes de Crónica do País Relativo e neste Blogue Notícias do Bloqueio) fiz de alguma forma uma espécie de processo do cavaquismo, em tudo aquilo que eram as contradições entre as palavras e os actos, uma arrogância como espécie de veneno contra a democracia, o universo de interesses espúrios em que os seus apaniguados de primeira grandeza (e, às vezes, ele próprio) eram actores principais (lembram-se do caso do BPN, por exemplo?).

Numa dessas notas retoquei o retrato de Cavaco. Dizia: "Quando Eça, em 1871 (ver Campanha Alegre), escrevia que "o país perdeu a inteligência e a consciência moral" e que "já não se crê na honestidade dos homens públicos", estaria longe de supor que em 2015 Portugal navegasse numa realidade tão sórdida, numa anquilose moral sem precedentes, em que os campeões da aldrabice se multiplicam como as moscas junto a carne apodrecida. O que ele, Eça, não escreveria hoje! Para a festa ser completa, o Presidente da República também não quis ficar atrás e quis disputar ao Primeiro-Ministro Passos Coelho o troféu de campeão da aldrabice (já era, com inteiro mérito, o campeão da asneira e do vazio cultural!). A descarada mentira que sua excelência proferiu sobre o Banco Espírito Santo, que mereceu uma crónica severa de João Miguel Tavares no "Público". Leiam Cavaco na primeira pessoa: "O Banco de Portugal tem sido peremptório, categórico, a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo, dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa. E eu, de acordo com a informação que tenho do próprio Banco de Portugal, considero que a actuação do banco e do governador tem sido muito correcta. E a 30 de Janeiro de 2015: "Eu já reparei que alguns dos senhores, e também alguns políticos, disseram e escreveram que o Presidente da República fez alguma declaração sobre o BES. É mentira. É mentira! Alguns invocam uma declaração que eu fiz na Coreia. Na Coreia, eu fiz três declarações sobre o Banco de Portugal. E mais nada". 
A retórica pode ser uma boa arte de mentira, mas um Presidente da República, aldrabão, que se esconde nos malabarismos das palavras para enganar deliberadamente os cidadãos, é um sinal de perda de consciência moral, como dizia o Eça no século XIX."

Cavaco passou sempre, na Informação, entre os pingos da chuva. Por medo ou submissão aceitou tudo ou raramente deu dimensão informativa aos escândalos, como o do BPN, em que o ex-Presidente esteve envolvido. É nesse contexto que ele quer ressuscitar com as suas "Memórias" como milagre de circunstância política. Mas só o conseguirá se lhe derem cavalaria para isso. Temo que tenha muitos cavalos dispostos a deixarem-se montar!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

VOA, PALAVRA!

Não sei há quantos anos -- o Zé Rui Martins lembrou-o, um dia destes -- faço parte do universo da ACERT de Tondela, uma associação cultural no sentido mais amplo do conceito que, pela sua estrutura, dinâmica e acção, é verdadeiramente singular à escala do país. Sempre vi o Zé Rui como a alma mater da ACERT Trigo Limpo, na forma como impôs a associação à comunidade e de como a comunidade se tornou parte inteira da ACERT, numa identificação cultural comum que é uma grande viagem criadora.
Falar do grupo que materializa esta aventura é falar de uma grande paixão pelas coisas da terra, e, sobretudo, de uma alegria que nasce do desafio de transformar pequenas realidades. Isso só é possível porque a ACERT possui uma rara capacidade para dramatizações colectivas, algumas de sabor local outras mais épico, como foi o caso de A Viagem do Elefante, de José Saramago.
A história da ACERT, nos seus quarenta anos de vida, dá pano para mangas. Mas hoje quero falar do último espectáculo que vi do grupo, 20 Dizer, que é um momento alto em louvor da palavra e da poesia, um grande convite ao sonho, como o teatro deve ser. Fui vê-lo à Moagem, ao Fundão, no passado sábado, e foi um belo momento de poesia, com aqueles instantes surpreendentes de que só a arte poética é capaz, tão poderosa ela é que aquece os corações na noite fria ou faz sonhar firmamentos de estrelas, reais ou imaginárias.
Quem faz corpo com essa matéria de sonhos é o José Rui Martins (direcção artística, textos e declamação) e Luísa Vieira, voz puríssima de água a correr da montanha, responsável pelos arranjos e por uma multifacetada interpretação de flauta e m'bira. Ao longo de 60 minutos, descobrimos aquele chão de sons e versos e caminhamos através deles pelas coisas simples e primordiais que dão sentido à vida. No espectáculo, os versos e a música tomam conta da gente. Mas talvez se pudesse colocar como epígrafe a 20 Dizer aquele poema em que Eugénio de Andrade diz

São como um cristal, 
as palavras. 
Algumas, um punhal, 
um incêndio. 
Outras, 
orvalho apenas 

Secretas vêm, cheias de memória. 
Inseguras navegam: 
barcos ou beijos, as águas estremecem. 

Desamparadas, inocentes, 
leves. 
Tecidas são de luz 
e são a noite. 
E mesmo pálidas 
verdes paraísos lembram ainda. 

Quem as escuta? Quem 
as recolhe, assim, 
cruéis, desfeitas, 
nas suas conchas puras? 

Este espectáculo tem tido um acolhimento fantástico por todo o país. Para o Zé Rui Martins "os inúmeros espetáculos realizados não provam mais nada que não seja o prazer de fazer de cada palco um espaço de relação emotiva com audiências que saboreiam um duo com muita gente dentro. Teatros, bares, bibliotecas, escolas, hospitais e espaços não convencionais têm acolhido este espetáculo que se ajusta a audiências distintas, procurando estreitar distâncias entre o público e a declamação teatral musica." 20 Dizer tem outra virtualidade. Mostra, como diz João Luís Oliva, que "a palavra também não tem pátria" pois é "ela própria, pátria, uma das muitas pátrias dos nossos afectos". Podemos dizer que em 20 Dizer, a palavra voa por cima de fronteiras, como um dia mandou João Guimarães Rosa (Voa, palavra), ele que inventou uma palavra belíssima que foi o respirar do que se passou em palco: coraçãomente!
Neste breve aceno ao Zé Rui Martins e ao espectáculo, fica a gratidão de ver incluído nele um poema meu, inédito, que se cruza com o admirável mundo de Mia Couto.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

REQUIEM PELO FREIXO DA GARDUNHA

Todos os anos, quando o Outono se aproximava e a paisagem iniciava a sua mutação, perguntava ao Diamantino Gonçalves se o freixo da Gardunha já tinha alcançado o seu esplendor. Ele mandava-me fotografias da lenta transformação cromática da árvore, da mistura de verdes e amarelos,  em que estes últimos, pelo menos no freixo, acabam sempre por ser dominantes. O caçador de imagens documentava o caminhar do tempo no coração da árvore, e, quando a explosão de cores atingia a plenitude, dizia-me:
-- É agora! Está no ponto...
Era do Outono que ele estava a falar. Era o tempo de se correr à Gardunha e encher os olhos daquelas cores que nos dão uma soberba visão plástica da natureza mostrando-nos que tamanha beleza é uma bênção que está ao alcance do olhar.
Desta vez, o Diamantino Gonçalves veio dar-me uma notícia triste: o freixo anunciador do Outono fora assassinado, certamente a sangue frio. Olhei para a fotografia da morte do freixo, que morreu de pé, como se diz das árvores,  e apenas pude repetir a célebre recomendação de Schiller: contra a estupidez até os deuses lutam em vão! Que mal fazia a árvore? Não tendo resposta para o crime, apenas sei que, sem as cores do freixo desafiando a melancolia da paisagem, o Outono na Gardunha nunca mais será igual. Faltar-lhe-á sempre qualquer coisa. Haverá sempre, naquela curva da estrada, um vazio, uma breve memória que o tempo sepultará no esquecimento. A Gardunha e nós, mais pobres!

UMA HISTÓRIA COM MORTE NA NEVE

Primeiro, uns raios de sol a iluminar o nevão, depois a chuva, e o "milagre" da paisagem branca foi-se dissolvendo. Ficou, claro, a Serra, imponente com o seu manto branco e diáfano de fantasia a fazer-nos lembrar que o Inverno está por aí. A neve é sempre uma coisa fascinante, menos para aqueles que, sem agasalhos e afectos, têm a vida transformada em matéria gelada. Mas a neve provoca em nós, sempre, um exercício de memória que é um regresso às coisas fragmentárias da vida. Voltei, agora, a ler uma coisa que escrevera há dois anos. E que aqui deixo como aquelas pegadas que, quando a neve ainda está fofa, ficam a marcar a paisagem.

"Num fim-de-semana desigual, depois da matéria solar que nos encheu a alma, com luz intensa e céu azul, veio a chuva que, ontem, fustigou as horas e nos fez pedir agasalho. Ainda assim, a paisagem é sempre pródiga, se a soubermos olhar, mesmo nos excessos que fazem soar avisos de alertas coloridos para nos precavermos de aventuras que, às vezes, se transformam em tragédias. Lembro-me sempre da Serra da Estrela, quando a neve lhe lima as arestas graníticas e torna o espaço unidimensional, uma espécie de paisagem polar que dilui as diferenças e os lugares. Lá mais para cima, para aqueles espaços onde a presença humana é mais escassa, a brancura da neve, que é tão leve, impõe um silêncio pesado, só desfeiteado pelo vento. Se o tempo abre um pouco, os olhos poisam numa dimensão fantástica, que assim é o sortilégio da neve, mas às vezes, subitamente, eleva-se a tempestade, uma neblina densa desce sobre o horizonte e a geografia e o que ela alcança para lá do olhar, reduz-se a escassos metros e parece, então, que o tempo e o espaço é todo igual, oferecendo aquela angústia que a relativa perda do sentido de orientação agudiza até ao desconforto.
O senhor José Milhano, que conhecia a Serra como ninguém, ensinava essas coisas aos exploradores de circunstância que nós éramos e fazia-nos sempre um retrato objectivo da Serra da Estrela, nas suas grandezas e misérias. Armado da sua mochila, com mantimentos e um suplemento de vinho à mão de semear, ele palmilhava a Serra, sabia de cor os caminhos e as veredas, conhecia-lhe a intimidade dos segredos. No tempo em que não havia telemóveis e alguns turistas mais ousados que olhavam para a imensidão da Serra e diziam: "isto é canja!", se perdiam nos labirintos da neve, o senhor Milhano e grupos de montanheiros iam lá resgatá-los, ajudando os bombeiros nessas fainas de Inverno.
Houve, até, casos que redundaram em tragédia, como aconteceu com o exercício de um grupo de para-quedistas, lá nos confins do cimo da montanha, nos anos 80, que, surpreendidos por uma violenta tempestade de neve andaram às voltas, às voltas, não sabendo o chão que pisavam e foram encontrados, muito mais tarde, quando o tempo amainou, mortos, engolidos pelo frio, dispersos pela paisagem, excepto um, que tinha ficado longe, para trás. Sempre me interroguei o que teria acontecido na realidade, que circunstâncias levaram a deixá-lo para trás. Guardei a realidade como potencial matéria de ficcional por terem nas circunstâncias q.b. de mistério. Se calhar, penso eu, foi apenas a luta pela sobrevivência que dilui muito as solidariedades de grupo. Há quantos anos foi isto, pergunto-me agora, pensando nesses militares que morreram inanimados, cercados de pânico e de frio, no abismo da tal paisagem branca que lima as arestas do terreno. A montanha foi, então, uma imensa cova gelada, onde ficaram sepultados. Eles e a sua circunstância da neve.
Nem eu sei por que diabo me lembrei disto, agora, talvez pela neblina espessa que hoje enevoou a Estrela, pouco deixando ver um palmo, à frente do nariz. Ou talvez, quem sabe?, acrescento tantos anos depois, por ter olhado a Serra com o seu denso manto branco."

sábado, 11 de fevereiro de 2017

OLHAR A NEVE


Olhar a neve
que desce da Serra
e poisa tão leve
na alvura da paisagem
fazendo da terra
um manto original
de fantasia.
A brancura limou
a miragem na planura
dum mundo elemental
semeando instantes
de magia.
É tudo breve,
regresso à memória
 da infância brincada,
ao cenário das batalhas
com bolas de neve,
à história feliz
do boneco à beira da estrada
com um chapéu velho
na cabeça e
a cenoura no nariz
- um pinóquio a brincar.
Neve: imobilidade fantástica
tempo suspenso
na ternura dum olhar.

Fernando Paulouro Neves
Covilhã 11.2.16

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

TZEVATAN TODOROV, OS HOMENS E OS OUTROS

Uma das coisas que o pensador Tzvetan Todorov, que faleceu ontem em Paris, aos 77 anos, nos ensinou foi a aprendermos a olhar o outro como medida de todas as coisas. Talvez essa compreensão de uma humanidade em louvor da condição humana, sem margens ou amputações, nos leve sempre a pensar em Rimbaud e no seu célebre "Je est un autre". Mas no caso de Tzevetan Todorov, que foi aluno brilhante de Roland Barthes, professar de várias universidades, pensador de dimensão global e construtor uma obra ensaística referencial sobre o nosso tempo, o ensaísta, que venceu o Prémio Príncipe das Astúrias em 2008, foi um dos observadores mais lúcidos da desordem das sociedades contemporâneas: "humanista de alento crítico, dedicou a sua obra a estudar a alteralidade, a barbárie, os limites da liberdade individual e o espírito de insubmissão ante circunstâncias adversas" (Álex Vicent, "El Pais", 7.2.2017). 
Todorov escapou da Bulgária para uma formação intelectual feita no caldo cultural de Paris dos anos sessenta. Gostava de se classificar como um "auto deslocado" e essa condição, penso eu, conduziu-o a eleger como matéria primordial de reflexão a alteridade e a explicar que "cada indivíduo é multicultural e as culturas não são monolíticas." Em 2010, numa entrevista ao "EL Pais", ele antecipou a crise civilizacional que aí vinha, com deslocados de outro tipo, os refugiados, ao sublinhar que "este medo aos imigrantes, ao outro, aos bárbaros, será o nosso primeiro grande conflito no século XXI." Porque "o medo dos bárbaros é o que arrisca a converter-nos em bárbaros." 
O pensamento de Todorov é, também, um contributo notável para a questão crucial que é, nos dias de hoje, a memória histórica. O seu livro Insubmissos é uma introspecção a figuras, cuja confrontação com o tempo é a história da relação com a crueldade na vida concreta do século XX. Estão neste caso Pasternak, Stalin, Soljenitsine, Mandela, Germaine Tillion (nome grande da Resistência Francesa contra a ocupação nazi), Malcom X. 
No fundo trata-se de uma inquietação que ele exprime através da escrita. "Escrevo contra o ódio e a favor da compaixão", explicou Tzevatan Todorov. Autor de A Experiência Totalitária e, entre muitos outros,Introdução à Literatura Fantástica ou Nós e os Outros, o ensaísta foi, sobretudo, um homem comprometido com os problemas do nosso tempo, acrescentando-lhes uma qualidade de reflexão que é um longo processo de consciencialização da realidade social na sua dimensão inclusiva.
Quando o distinguiram com o Prémio Príncipe das Astúrias, lembrou que "o estrangeiro não só é o outro, nós próprios o fomos ou seremos,ontem ou amanhã, no alvor de um destino incerto: cada um de nós é um estrangeiro em potência." E advertiu: "Pela maneira como percebemos e acolhemos os outros, os diferentes, pode medir-se o nosso grau de barbárie e civilização. Os bárbaros são os que consideram que os outros, porque não se parecem com eles, pertencem a uma humanidade inferior e merecem ser tratados com desprezo ou condescendência. Ser civilizado não significa ter feito cursos superiores ou ter lido muitos livros, ou possuir uma grande sabedoria: todos sabemos que certos indivíduos com essas características foram capazes de cometer actos de absoluta perfeita barbárie. Ser civilizado significa ser capaz de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, ainda que tenham rostos e hábitos distintos dos nossos; saber pormo-nos no nosso lugar e olharmo-nos a nós próprios como se fossemos de fora. Ninguém é definitivamente bárbaro ou civilizado e cada um é responsável pelos seus actos."