terça-feira, 31 de dezembro de 2013

QUE FIZERAM DA ESPERANÇA?



Ilustração de Zé Dalmeida: "No limiar do Novo Ano"
Chegamos ao fim de 2013 com o credo da crise na boca, o gosto amargo do desespero, a esperança tantas vezes assassinada,o rio de lágrimas em que a vida se transforma, como se fosse fatalidade saída de uma caixa de Pandora manipulada pelos deuses modernos, que são aqueles cavalheiros do bas-fond financeiro, cães da mesma ninhada de selectos terrorismos de Estado. O ano caminha para o fim, passeia pelas ruas das suas últimas horas, o calendário está quase a virar a página, um toque só é quanto basta, como as folhas que caiem sopradas pelo vento. E o resultado final da caminhada é quase um cemitério ao luar. Ano mau, ano péssimo, que só para alguns deixará saudades.
Um costume antigo da Beira, proveniente porventura do fundo do tempo, quando a vida era duríssima e a pobreza uma visita presente no quotidiano das populações como benção que prometia paraísos póstumos, manifestava as indignações individuais dos que tinham queixas a ajustar contra os doze meses que se esgotavam nos últimos minutos do ano. Diziam eles, com certeza ganha no imaginário rural, que ele, o ano, estava velhinho, mas ainda assim, merecia ser atormentado na expiação final dos seus dias. Então, carregavam as caçadeiras com cartuchos sobrantes da caça, e,à meia noite, disparavam para o céu, na esperança de um chumbo fazer mossa,ainda que de raspão, ao velho ano. Ouviam-se, distintamente, na solidão dos campos, os ecos dos tiros, que se extinguiam, logo, a seguir, que o novo tempo já estava a bater à porta e devia ser bem recebido, pois era um aceno de esperança. Se fosse agora, grande fuzilaria se precisava para ser proporcional às malfeitorias e aos desastres sofridos nos 365 dias que o calendário nos ofereceu! Esse tempo herdara já dos anos anteriores, é verdade, os sinais de desgraça e de morte, que a espessura dos dias foi mostrando inelutavelmente, numa diversidade de males, que até parece que os infernos, na diversidade dos seus matizes modernos, voltaram para envenenar irremediavelmente as sociedades.
No limiar de um Novo Ano, não faltam angústias planetárias (as feridas abertas de sírias, iraques, afeganistões; a geografia política dos terrorismos e fundamentalismos) e angústias domésticas, estas tão nossas, tão portuguesas, que expõem na sua crueza dramas -- que as estatísticas nunca são capazes de medir na totalidade -- provocados pelo desemprego e pela pobreza que já não é capaz de encobrir a fome. Às vezes, a narrativa informativa dá nota dessas realidades e até pode acontecer que se detenha uns segundos nesse fio da navalha onde o homem é a medida de coisa nenhuma. São casos passageiros, dizem, que fazem parte do registo efémero dos dias. Nestas alturas, em compasso de festa, costuma-se perguntar pelos acontecimentos e figuras do ano, como se a vida pudesse ser resumida assim e os balanços circunstanciais fizessem concreto registo dos danos. 
Desculpem-me o pessimismo, mas talvez o acontecimento do ano possa ser aquele fenómeno relatado em passo de corrida (se é que foi mesmo relatado!) daquelas pessoas que puseram termo à vida, porque a sociedade os catalogou como dispensáveis, porque esgotaram as migalhas de esperança, porque se cansaram dos infindáveis dias do desemprego de longa duração, porque a família ficou subitamente destroçada, porque o clamor dos filhos a pedirem pão era uma acusação de culpa. Porque,porque, porque. Quando Camus mergulhou na fatalidade do seu Sísifo, e diz que o suicídio (estou a citar de memória) é porventura o problema mais sério da filosofia, poderia estar a falar-nos desta realidade de horizontes fechados que é a crise (com as suas políticas), que destrói o homem na sua elementar dignidade.

O resto é silêncio. Com 2014 a bater à porta, talvez fosse bom pararmos um pouco, antes de entrarmos no Novo Ano, e reflectirmos sobre os dias andados, questionando os autores de uma outra filosofia suicidária, de matriz económica e financeira, que produziu a hecatombe que se conhece, com as suas receitas gananciosas e o seu nefasto catecismo de capitalismo selvagemu, que o própria Papa abomina e critica. No chão português, tirando dois ou três que, pela notoriedade das burlas, ficaram presos, ou a contas com a justiça, os outros, a maioria, do alto da impunidade da sua relevância, continuam a dar cartas e conselhos e até a materializar políticas. Portugal não tem emenda. É possível, em consciência, desejar um bom e feliz Ano Novo? Talvez seja melhor dizer, apenas, caríssimos leitores, como faziam os emigrantes portugueses na década de sessenta, quando se despediam: “Saúdinha!”

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

HISTÓRIAS DE DIAS PRECÁRIOS


Quando o restaurante ficou quase vazio, uma mesa ao fundo juntou discretamente proprietários e empregados para a refeição de circunstância. Época de Natal: os bons sentimentos multiplicam-se. Estava lá uma mulher nova, bonita, de traços eslavos, que tinha trazido para a mesa um daqueles livrinhos com plásticos para proteger fotografias. Observei mais atentamente o quadro. Ela ia folheando o pequeno álbum, à medida que comia, percebia-se que era qualquer coisa de inseparável que levava consigo para onde quer que fosse. Não falava português, ou apenas o mínimo que uma fala estrangeira comporta nos primeiros dias: o-bri-ga-do!. Estaria por cá, de facto, há pouco tempo, os seus olhos ainda abarcavam a paisagem física e humana, com total espanto. Exprimia-se sobretudo por gestos das mãos, um outro prolongamento da fala, e fazia-o com alguma exuberância, como se quisesse explicar no momento a biografia de uma vida sofrida. Os seus dedos, outra espécie de olhos, iam indicando o universo familiar que girava à volta das fotografias, que ela, de vez em quando, juntava ao coração e apertava muito. Apontava e sorria. Os que a rodeavam iam descodificando, em voz alta:
- É o filho!
- É o marido!
- São os pais!
- Esta é a tua irmã? I-r-m-ã!
Ela ia dizendo que sim, ou que não, conforme os acertos ou desacertos das legendas que os outros atribuíam às fotos. Abanava a cabeça para dizer que sim, e quando isso acontecia os olhos iluminavam-se de estranha luz. Sorria, sorria muito, quando apontava o menino da foto, o filho, que eu, de longe, imaginei um menino de olhos tristes, como são todos os que não têm a mãe ao alcance dos seus braços para o colo. Mas (reparei eu) quando o dedo indicador parava na particularidade daquela imagem, o rosto explodia numa súbita imagem de felicidade, como se a fotografia, naquele exacto momento, abolisse todas as distâncias e fizesse o milagre da proximidade. Então ela, fechava os olhos e beijava a foto, uma e outra vez, mas logo caía nela e os olhos povoavam-se outra vez de tristeza. Sobre a mesa ficava uma breve ilusão de realidade: fragmentos de vida, memória possível e à distância dos dias felizes.
As fotografias eram, afinal, um pedaço da pátria eslava, o elemento material que humanizava a sua condição de emigrante em país distante. Chamava-se Maria e era, decerto, um rosto entre muitos que partilhavam a mesma condição. Naquele momento, não sei porque estranha contingência, outras emigrações, muitas, vieram à minha lembrança, histórias de dimensão dramática e de muitas mortes, como as que agora estavam em moda, com gente que foge de um continente, em parte, descartável, chamado África, à procura de pão elementar, em busca de um breve limiar de condição humana. Batem à porta da Europa, e a Europa não os ouve, assobia para o lado e lava as mãos. São centenas e morrem nas praias ou engolidos pelas ondas, quando, muitas vezes à vista de terra, as frágeis embarcações naufragam levando para o fundo sonhos de uma libertação mínima. De repente, aquela fotografia dos cadáveres, alinhados e tapados por lençóis brancos, em Lampedusa, pareceu-me a metáfora real da aventura de pobres que é a vida (vida?) de muitos que foram sempre tratados como gado e nunca tiveram direito à inclusão mínima. Outra história trágico-marítima. Bem pode ser essa a imagem do ano que está a findar, pois contém toda a carga de desumanidade em que a sociedade é pródiga. Se quisesse dar algum alento à metafísica do instante, poderia dizer que aquilo não é outra coisa senão uma certa morte da Europa, tão banal e já tão dentro de nós, que nem nos atrevemos a perguntar por quem os sinos dobram, pois sabemos, de ciência certa, que eles dobram por nós. 
Adivinho então que, no vestuário molhado de náufragos, de muitos deles, há, também, muitos daqueles plásticos que protegem fotografias do universo íntimo, como as de Maria, e que eles traziam coladas ao coração, como seu único e intocável tesouro.

domingo, 29 de dezembro de 2013

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, MESTRE !



Ainda hoje me emociono (serão decerto esses instantes que fazem parte daquela pessoalíssima sensação a que chamamos emoção estética)desta vez provocada pelo prazer da leitura de crónicas de Carlos Drummond de Andrade. Durante quase uma década, nos anos 80, tive o raro privilégio de mergulhar de forma profunda no universo criador do grande escritor brasileiro, aquele de quem José Saramago disse que teria merecido, mais que ele, ter ganho o Prémio Nobel da Literatura. Nesse tempo, que ainda recordo com um frémito no coração, Carlos Drummond de Andrade publicava uma crónica no "Jornal do Fundão", em exclusivo para Portugal, e esse território de jornal, que o grande poeta assinava, era um espaço de palavras luminosas que nos ensinavam a olhar o quotidiano como matéria sublime de literatura. O "Jornal do Fundão" tinha uma matriz informativa em que a cultura era vector determinante, e, articulava uma relação com o Brasil coraçãomente, como diria outro vulto brasileiro que sabia inventar palavras, João Guimarães Rosa, cabendo nesse desafio (em tempos da ditadura) figuras como Érico Veríssimo, João Cabral de Melo Neto, Odylo Costa, que vieram ao Fundão depois de Juscelino Kubitschek, que aqui esteve em 1963. Então, nesse tempo, todas as semanas, um envelope grande era colocado na minha mesa de trabalho. O sobrescrito, com os carimbos da praxe, atravessara o Atlântico e poisava no "jornal do Fundão". Lá dentro, vinham três crónicas de Carlos Drummond de Andrade, com a chancela do "Jornal do Brasil", que ele publicava no diário brasileiro. Eu escolhia uma para para a semana em curso, e guardava as duas outras,como património imperdível, para depois. À distância do tempo, olho para essa tarefa que se fez rotina ao longo dos anos, como se nas minhas mãos tivesse um daqueles "pormenores de Deus" de que fala Steiner, tal era o prazer da leitura, a dimensão criadora que Drummond dava à crónica, um espaço multifacetado onde cabiam fragmentos de diário, detalhes do quotidiano, poesia, memórias avulsas, aforismos. O que se aprende no mundo criador de Drummond! Hoje, neste final de ano tão cinzento e triste, em que os velhos em Portugal são quase coisa nenhuma, sofrendo ofensas do Poder que os elegeu como grupo a abater ao efectivo do regimento, apetece-me abrir o baú das crónicas de Drummond, e oferecer aos meus leitores, uma delas, que fala precisamente de um velho e que, escrevendo sobre ele (um apontamento do quotidiano), fala da vida. Aqui a deixo para o puro exercício do prazer da leitura.
O Velho
Carlos Drummond de Andrade

Vocês não acreditam, mas também este cronista costuma ir ao Banco, e não é só para pagar contas de luz, gás, telefone. Vai conversar com o gerente --  um gerente simpático, desses que não coçam a orelha quando a gente propõe uma segunda reforma de título. Mas quem sou eu para pleitear tamanha mercê? Procuro o gerente para conversar sobre amenidades, e ele me ouve com paciência e atenção. Até me conta coisas de seu filho, o Escritor. O Escritor tem três anos e escreve literalmente em todas as paredes da casa. Fareja livros com gravuras e sem gravuras e aprende coisas que eu, possivelmente, ignoro. A curiosidade intelectual do Escritor é insaciável. Assim fazemos do Banco, sem prejuízo dos interesses bancários (pois o gerente é uma fera para trabalhar no meio das maiores apoquentações) um lugar de grato repouso.
Ontem o gerente estava tão assoberbado de clientes, papéis, telefonemas, recados, que não tive coragem de me aproximar. Fiquei à espera na poltrona, ao lado de dois rapazes que também esperavam. Esperavam e conversavam sobre política, inflação, Copa do Mundo. Eu ouvindo por força da proximidade, sem interesse. A certa altura, um perguntou:
— E como vai o Velho?
— Meu Velho? — respondeu o outro. Aquele vai sempre bem. Melhor do que eu, você e todo o mundo.
— Qual a última dele?
— Não tem última. Todas são novas e contínuas. Aos sessent'anos (sessenta e lá vai fumaça), nada, corre, entra em pelada, monta, joga volei e só não rema porque não encontra companheiros com a mesma fibra, para disputar regata. Enquanto isso fuma e bebe.
— E...no resto?
— No resto ele ainda é de goleada. Parece mentira, mas as mulheres adoram o Velho, e ele capricha para dar conta do serviço.
— Quantas vezes ele já casou?
— Perdi a conta. Quatro ou cinco, se não me engano. Ou seis. O extraordinário é que nenhuma das ex se queixa dele, todas que conheço continuaram suas amigas e, de um modo ou de outro, dão a entender que o desempenho dele era cem por cento. Sabe de uma coisa?
— Sei. Você tem inveja dele.
— Tenho. Pra que vou mentir? Meu primeiro casamento não deu certo, o segundo menos ainda. Então desisti, agora sou freelancer. Mas com o Velho é diferente. Todos os casamentos funcionaram.
— Então, por que acabaram?
— O Velho tem uma teoria que casamento não pode esfriar e virar rotina. Antes que isto aconteça, ele passa uma conversa manhosa na gatona (é especialista em gatonas) e o último episódio da novelinha é vivido sem choro nem briga. Um sábio.
— Um mestre.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O BURACO

Ilustração de Zé Dalmeida
Andam os portugueses avergoados ao peso de uma crise que floresce em incontabilizáveis dramas humanos, psicologicamente abatidos pelas estatísticas galopantes do desemprego, amedrontados com o fio da navalha da pobreza, pessimistas não quanto ao amanhã que nunca cantou, mas sobre o presente que nos cai na sopa. Andam os portugueses desmoralizados pelas medidas da Troika e seu governo, com a angústia lavrada em cada dia, 24 horas sobre 24 horas de incerteza. Andam os portugueses perdidos como cegos no labirinto das desigualdades, uns reféns da fome, outros com o anátema de desempregados de longa duração colado à pele, habitantes de uma pátria sem horizontes de esperança. Andam os portugueses de olhos cansados porque o futuro lhes vai sendo expropriado por gente sem princípios, com brutais défices de humanidade. Andam os portugueses com raivas incontidas porque lhes roubam dias com migalhas de felicidade na velhice. Andam os portugueses assim, tristes de todo, a dizerem baixinho: “estou farto disto”, a murmurarem que “já não acredito nestes tipos” (eles traduzem isto em vernáculo!) e eis que surgem, de vez em quando, notícias do país catita, que mostram como, afinal, há sempre dois países dentro do mesmo chão. Não, não são notícias como a da charla do primeiro-ministro este Natal que, como Cristo fez a multiplicação dos pães, fez ele a multiplicação dos empregos em 2013. Só que o seu milagre saiu furado de todo: os 120 mil criados, eram apenas 22 mil! Empregos de aldrabice para consumo de idiotas úteis... Mas as notícias do país catita, que contrastam com as dificuldades impostas aos portugueses, falam de outros milagres, verdadeiros toques de Midas para aqueles que não precisam de jogar na lotaria para ganherem a sorte grande. E nem é preciso chegarem ao Natal para os prémios andarem à roda. Sempre com a sigla do BPN por cenário e os fretes do governo, que distribui as taludas à nossa custa. O Estado assumiu uma dívida de Cardoso e Cunha -- esse mesmo, o ex-alto comissário da EXPO (nomeado por Cavaco) --, ao BPN de nove milhões de euros. Já antes procedera a idêntica prática de bem fazer com Luís Filipe Vieira (o da bola) e Duarte Lima (que foi estrela do PSD). O BPN é a vaca onde eles mamaram e ainda mamam agora através das tetas do governo. Um escândalo sem fim, que entrou e está a entrar dentro dos bolsos dos portugueses. A maior parte dos figurões, são cães da mesma ninhada do cavaquismo. Todos, vorazes, deram golpes, ganharam milhões pela única razão de pertencerem à mesma linhagem política. Até Cavaco Silva e familiares andaram nessa alta roda da oportunidade dos negócios financeiros, que o povo, que é sempre espécie de escravo, paga e não bufa. Algum dia saberemos a extensão do escândalo? Quando oiço falar em BPN, devia talvez levantar os braços e ficar à espera da célebre frase, que os bandidos têm na ponta da língua: Isto é um assalto!. Em vez disso, vem-me logo à memória um grande buraco. E uma figura a emergir dele. Parece que ainda lhe chamam Presidente...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

CRISE EM TEMPOS DE CÓLERA

(Com a devida vénia a Gabriel Garcia Marquez)

Na contingência de um tempo que, dizem, acelerou a história, assistimos, cada vez mais desarmados face ao sistema planetário, que é a nossa casa comum, ao triunfo das desigualdades e à liquidação, gradual e sistemática, de tudo aquilo que poderíamos considerar a utopia (a palavra ainda não foi banida da circulação pelos novos catecismos do pensamento politicamente correcto), a utopia, dizia, do combate pela felicidade mínima. 
A história acelerou, as mutações sociais tornaram-se transversais a toda a sociedade, a globalização dilatou o mundo, como se quisesse cumprir a metáfora da “aldeia global”, a omnipresença da informação produzindo o charme discreto (ou nem tanto) de criar a ilusão de estarmos presentes no coração dos acontecimentos, onde quer que aconteçam, e, ao mesmo tempo, tornando próxima e comum a narrativa das feridas expostas do planeta, tudo isso não foi mais do que a descoberta de um admirável mundo novo configurado à ideia de um crescimento desmedido em que os fins justificam sempre os meios, na finalidade de objectivos onde o homem é, quase sempre, a medida de coisa nenhuma.
O fim do século, apesar da festa, e dos muros e fronteiras que caíam, às vezes para os dois lados da História, deixara um travo amargo na boca do mundo e não faltaram inventários de valas comuns e genocídios, de totalitarismos e dos seus mecanismos mais ou menos envernizados (lembramo-nos sempre de Hannah Arendt), de golpes e ditaduras militares, como no Chile e na Argentina, que instituíram o assassinato e a tortura com as bênçãos dos kissingers, de conflitos periféricos, chamemos-lhes assim, que contabilizavam milhões de mortos, fomes mais ou menos esquecidas, banalizadas pela lonjura, continentes como a África, descartáveis pela indiferença e hipocrisia internacionais, terra outra vez de condenados da terra, na perspectiva de Fannon, à espera de amanhãs que já não voltam a cantar; agora morrem em barcas artesanais ou traineiras, à beira das praias, despedaçados pelo sonho de uma aventura de pobres, como é a emigração em busca da Europa.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UM DIA DIRÁS

Ilustração Zé Dalmeida

Na desigual caminhada em que o Homem historicamente se afirmou são raros os momentos que, pela dimensão simbólica, ganharam expressão universal e se impuseram aos abismos das distâncias e das fronteiras como traços identificadores de elementar Humanidade. O Natal é esse dia. A fraternidade essencial da sua mensagem atravessou os tempos, polarizou esperanças, fez da igualdade um sonho projectivo sobre a realidade. Por essa ideia, se fazem tréguas, por esse dia se inventam futuros e utopias.  O Natal é esse rosto do Mundo. Na cronologia da Humanidade, poucos acontecimentos têm essa força mítica e encerram tão renovado capital de esperança. Na raiz dessa luz planetária estarão as ideias de um tempo novo, limiar de um Mundo onde o homem fosse a medida de todas as coisas e a vivência comum impusesse os valores da fraternidade e da justiça. Mau grado o tempo que vivemos, que assassina a esperança, somos confrontados com uma realidade que mostra no quotidiano as feridas abertas do triunfo das desigualdades, as valas comuns da fome e dos genocídios, a desgraça de guerras preventivas, as síria, os iraques, os afeganistões, que potenciam todos os crimes, as mitigadas ou expressivas fórmulas da exclusão social, as intifadas do desespero e da violência, os novos muros que se levantam edificando uma outra desumanidade. Se o Homem que hoje se projecta como cidadão do Mundo, se vê paradoxalmente mais desarmado e indefeso sobre o tempo histórico que lhe coube em sorte, se os valores agora se penduraram no bengaleiro do mercado público, se o padrão do vazio que modela os dias é o sintoma letal de uma sociedade que mercantiliza tudo, até o sonho, e elogia uma certa escravatura moderna, então o Natal é sempre um ponto de reencontro entre os homens catalogados de boa vontade. É uma pausa breve – muito breve – que leva a suspender armas, um instante em que o sonho de uma nova Humanidade fugazmente poisa na alegria de um instante, uma luz de utopia para se extinguir a seguir. O rosto dos dias portugueses carrega os traumas do viver, acena triste à conjuntura que afastou para longe o direito à felicidade mínima, sobressaltam as imagens dos meninos que estendem a mão ou balbuciam, a medo, que têm fome. A sombra de desumanidade que pesa sobre nós mata o Natal como sonho de tempo novo. Mas logo um limiar de esperança, breve e fugaz, se abre ao frágil coração dos dias. Tempo tocado por palavras de esperança e rebeldia, por gritos e gestos que não são mais do que a planetária inquietação da Terra. Viver. Respirar. Amar. Mais um Natal. Meninos que nascem em todo o Mundo num cromatismo de esperança. Um dia, em qualquer parte do mundo, ficarão à espera de outros Natais para dizer: é dia de ser bom. A caligrafia da esperança universal que é preciso repetir sempre. Como quem está de passagem e ama o efémero.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O TRIUNFO DA ESTUPIDEZ


Ilustração de Zé Dalmeida
Uma das mudanças com efeitos devastadores na sociedade portuguesa é a que decorre dos conceitos de informação e de cultura configurados ao estrito espaço dos negócios, sem outra virtualidade que não seja o deve-haver do cifrão. Esses modelos provenientes de uma prática capitalista, que agora se refinou como selva,  criaram a ilusão do espectáculo, tantas vezes apostado no vazio de valores, sempre submetido à teologia do mercado. A cultura está refém desse catecismo. É cada vez mais um negócio sem alma.
Nessas circunstâncias, os padrões apostaram na mediocridade e no analfabetismo (veja-se o caso das televisões e de uma imprensa voltada para o puro sensacionalismo, com a subalternização acéfala da cultura e da dimensão humana), fechando muitas vezes os horizontes do país num narrativa barata de faca e alguidar.“
É certo que não é só cá. Por todo o mundo, o quotidiano vai sendo moldado pelo minimalismo, como se o homem fosse gradualmente desapossado daquilo que é intemporal e definitivo, como destino da condição humana: a plenitude da arte, seja na música, na literatura, na pintura, isto é, em tudo aquilo em que o homem, sendo a medida de todas as coisas, é capaz de desafiar os deuses.
Há uns anos, o escritor espanhol, José Manuel Fajardo (de Granada), reflectiu sobre estas inquietações a propósito de livros e autores, e, sobretudo, dos géneros literários que os negócios editoriais (há cada vez mais conglemerados de editoras, transformando a literatura numa espécie de pensamento único) desaconselham como mau negócio. Os relatos, os contos (seguramente também a poesia) estariam entre a matéria literária sem interesse para o grande mercado. O escritor expressava a sua perplexidade a propósito da evocação do mestre do conto de mistério, Edgar Allan Poe, e terminava a sua crónica (“Maus tempos para Borges”) com esta tirada, que dá que pensar: “Se Borges tivesse hoje trinta anos e passeasse os manuscritos dos seus contos pelas principais editoras de Espanha ou de França, o mais provável é que lhe dissessem que não estavam mal, mas não eram rentáveis. Mais lhe valia pôr-se a escrever uma novela, com os ingredientes habituais do sucesso: violência, crime, sexo...”. 
Quem nos defende do triunfo da estupidez, mascarada de cifrões?



sábado, 21 de dezembro de 2013

O CHUMBO!

Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
Ainda não se apagaram de todo os ecos do rotundo chumbo que o Tribunal Constitucional infligiu ao governo e à sua Lei da Convergência das Pensões para esbulhar os velhinhos. 13 a 0, é obra! O caso teve efeitos dramáticos na equipa de Passos Coelho e, ainda agora, o ambiente do casarão de S. Bento parece mais de sexta-feira Santa, de luto carregado e muitas lágrimas, do que propriamente de época natalícia, com alegria a jorros, prendas catitas e coisas finas e boas.
O primeiro-ministro convocou os ministros para S. Bento, onde, por acaso, a essa hora, não havia à porta nenhuma manifestação de indignados, a protestar, e suas excelências, sempre tão distraídos com os problemas do país -- nem se lembraram do Constitucional --, foram todos lampeiros para lá, julgando ir para a festa de Natal, que o primeiro sempre oferecia, jantarzinho e prendinhas a condizer com a quadra.
À medida que se encaminhavam para a sala grande, da lareira, onde costumam ser as entrevistas para as televisões, estranharam logo o ar soturno e fúnebre. De festa, não havia sinal. Até a árvore de Natal, sempre a piscar, a piscar, tinha as luzes apagadas, caramba! De facto, quando Passos regressou do Conselho Europeu, vinha de faca afiada e com umas ventas que metia medo ao susto. Ele berrou para o assessor de serviço (eram tantos, que nem se lembrava do nome: não tinha o caderninho à mão):
-- Desligue-me aí essa merda da árvore de Natal, que o tempo não está para festas nem luminárias…
O outro curvou-se e desligou. Murmurou para dentro: “Hoje, este gajo está intragável! Saiu-me cá uma besta...”
Quando estavam todos os ministros e o foram chamar, lá dentro, ele irrompeu na sala, com aquele passo acelerado que ele gosta de praticar, para as televisões mostrarem que é um tipo decidido e determinado, e mal dera tempo para os ministros se sentarem, quando avisou logo:
-- Este ano não há festa de Natal!. -- e perante o ar perplexo da maioria (maioria, sim, digo bem, estavam lá os tipos do PSD e do CDS que fazem de ministros), desfez as dúvidas. -- Estes gajos do Tribunal Constitucional deram-nos cabo do Natal! Mas eu aviso já que não estou em condições de pôr o meu lugar à disposição… Daqui ninguém me tira!
Portas fixou os olhos num dos cantos e pareceu-lhe ver o vulto de Salazar, a sorrir, e deu um gritinho suave. Abanou a cabeça, como se quisesse despertar para a realidade, e escapou-lhe:
-- Que disparate!
-- O quê? -- exclamou Passos, julgando que o comentário era para ele.
-- De maneira nenhuma! -- esclareceu o outro. -- É que tive uma visão: julguei ver o vulto do Senhor Prof. Oliveira Salazar, ali, por detrás do reposteiro.
Pires de Lima, embevecido, não se conteve e correu para lá.
-- Não está cá! Ora, bolas…
Moedas também ficou inconsolável:
-- Gostava tanto de falar com ele, pedir-lhe uns conselhos para as Finanças, sobre a melhor maneira de continuar a lixar o povo!
Passos Coelho chamou-os à ordem.
-- Este chumbo do Tribunal Constitucional, ainda por cima por unanimidade, é uma ferida muito grande, vai demorar a sarar! -- exclamou o primeiro-ministro. -- Mas esperem pela demora, vão ver o que aí vem… Este país está a ficar ingovernável, já nem se pode ir aos bolsos aos velhinhos...
-- Eu cá já apaguei a minha linha vermelha! -- ouviu-se a voz de Portas. -- Agora a minha especialidade são as exportações para o Dubai, sobretudo pastéis de nata e azeite com folhas de ouro...
O primeiro-ministro é que não se calava. Voltou à carga:
-- Eu já não posso ver aquelas togas pretas, os tipos parecem aves de mau agoiro. E o presidente, com aquele ar seráfico, a dar conferências de imprensa, a falar em falta de confiança e em medidas avulsas, quando a lei era tão estrutural --  assaltava os bolsos dos velhinhos, desmoralizava-os, visava a estrutura dos idosos, que só pensam nas reformas… e não fazem nada!
-- O que é chato é ter sido por unanimidade! -- esclareceu Pires de Lima. -- Que Deus nos ajude…
Foi quando se ouviu a voz sibilina de Portas:
-- Votaram todos, até o Machete!
O ministro dos Negócios Estrangeiros apurou o ouvido e só teve tempo de responder:
-- Não fui eu, foi o outro!
-- Isso não interessa. -- disse Passos, como se quisesse pôr um ponto de ordem à discussão. -- A verdade é que votaram todos contra, nem um só defendeu a nossa política. É um desastre completo…
A das Finanças estava num mutismo total e, a dada altura, começou mesmo a soluçar:
-- O que vai ser do meu Orçamento! O que vai ser do meu querido Orçamento!
E Pires de Lima:
-- Santo Deus!
-- Ainda por cima, quem pediu isto foi o Cavaco! -- lembrou-se Passos. -- Que grande sacana, sempre a fingir que não sabe nada, de nada, e agora pregou com isto no Constitucional. Deve ter sido a bruxa da Manuela que o aconselhou...
-- Este ano não não leva bolo rei da Nacional! -- era mais uma piadinha de Portas, lembrando-se subitamente do gozo dos tempos do “Independente”, quando Cavaco era o bombo e o bobo da festa.
De repente, o silêncio foi quebrado por um toque estridente da campainha. E ouvia-se, já, distintamente, um badalo a chocalhar dalim-dalim-dalim.
Era o pai Natal. Olharam todos uns para os outros, expectantes, e o Moedas, aos saltinhos:
-- Afinal, sempre há prendas…
Enquanto se elevavam as expectativas, como agora se diz, já irrompia na sala um volumoso pai natal, com um saco cheio de embrulhos e umas cordas, que lhe saíam da proeminência da barriga:
-- Ô, Ô, Ô. Ô, Ô, Ô… -- gritava ele, poisando o saco e passando os olhos pela sala que, aliás, conhecia bem. -- Ô, Ô, Ô! Trago prendas para todos.
O primeiro embrulho, muito bem encadernado com lacinhos laranja, era para Passos Coelho:
-- É uma bóia!. -- estendeu os braços o pai Natal. -- O senhor não anda para aí a dizer que se for ao fundo, o país vai consigo… Tome lá. E ainda leva um livrinho, para se entreter...
O segundo a receber presente foi Paulo Portas. Era uma belíssima máscara de Tartufo.
-- Fica-lhe bem, o senhor é um aldrabão, um mentiroso compulsivo! -- comentou o pai Natal. -- Esta, sim, é uma máscara irrevogável!
Percebeu-se um sorriso sacana no rosto do primeiro-ministro. E já o pai Natal dizia que para os outros era cinema e literatura.
-- Ô, Ô, Ô! Ô, Ô, Ô!
Avançou para Machete, e começou a tirar do saco filmes de Hitchcok:
-- Tome lá a “Intriga Internacional”, a ver se aprende alguma coisa, é que me saiu cá um anjinho!
Para o Crato, havia um, muito bem embrulhado, repleto de dizeres em “eduquês”:
-- O Professor Chanfrado! Sim, que você é completamente doido...nem é preciso ser avaliado!
Pires de Lima recebeu o livro de Afonso Cruz, “Jesus Cristo bebia cerveja”.
-- Santo Deus! -- balbuciou ele, como se aquilo fosse pecado.
Para Mota Soares saiu um Anuário das Misericórdias e o livro, de Cornan McCarthy, “Este País não é para velhos!”
E Maria Luís Albuquerque, qual seria a prenda? O enigma desfez-se logo, quando do embrulho saiu o romance “Maria dos Canos Serrados”, de Ricardo Adolfo.
Risinhos de Paulo Portas, a segredar para Mota Soares:
-- Ela não é uma espingarda, é um canhão sem recuo!
-- Ô, Ô. Ô -- continuava o pai Natal, que já tinha nas mãos outro filme de Hitchcok, “O homem que sabia de mais”, e foi direitinho parar a Poiares Maduro.
-- Você tem essa pose que é tudo só sabedoria e nada de política… -- apontava-lhe o dedo o pai Natal. -- Mas cá para mim, tens muito terreno baldio!
Já faltavam poucos, mas ainda havia prendas para Paula Teixeira da Cruz -- que recebeu o filme “A Comédia do Poder”, de Claude Chabrol --  Aguiar-Branco ficou com o disco “Eu hei-de ir a Viana” e com o filme “Ligações Perigosas”, Assunção Cristas levou o romance “Deixa lá/Más novas”, de Edward St. Aubyn. O pai natal virou o saco, do avesso, e saiu de lá o último volume. Era para Carlos Moedas: “Keynes contado às criancinhas”.
-- Ô, Ô, Ô! -- continuava a berrar o pai natal, enquanto, abrindo o casaco, começou de lá a retirar laços de forca, muito bem feitinhos, com um toque claramente artesanal. -- Ô, Ô, Ô! Ô, Ô, Ô!
-- Para que é isto? -- perguntou Portas, muito ladino.
-- É para se enforcarem! Antes que matem de todo o país. --  Ô, Ô, Ô!
Passos não se conteve e avançou sobre ele. Conseguiu puxar-lhe a barba, que era grande e vistosa. Os olhos quase lhe saltaram das órbitas. Era o dr. Mário Soares, que sorria.
Entre estupefactos e amedrontados, foi a debandada geral.
Passos Coelho foi visto, a chegar a casa, branco que nem um cadáver. Deixara cair, à entrada, um vistoso embrulho colorido. Era um livro de Pedro Vieira. Chamava-se “Última Paragem: Massamá”.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

OS OLHOS TRISTES DA CAIXA DO HIPER


Neste tempo de luzinhas a brilhar nas árvores e campainhas a tocar nas ruas, longe dos não sei quantos sem-abrigo que a Misericórdia de Lisboa anda agora a contar (parece que não faziam parte das estatísticas!), um rio de gente corre para as compras de Natal, muitos iludindo a abundância que não têm. Há os que ficam à margem de qualquer banquete, alguns com tal peso de marginalidade que nem se aproximam das breves sopas aquecidas para pobres ou das consoadas improvisadas pelo catálogo da solidariedade social, que no dia de ser bom até a Troika e o governosinho dos seus capatazes autorizam algumas migalhas sociais. 
Nestes dias, o corre-corre das compras enche os templos do consumo, as grandes superfícies convidam todos a entrar, mesmo aqueles que não precisam de nada, porque têm, sobretudo para esses, aquilo que lhes convém...
Também por ali o cenário do Natal é uma especificidade para a fantasia e o cenário desperta apetites a criancinhas e não só. Aparentemente, é um mundo feliz, longe das lágrimas da crise, o que por ali anda em movimento. Era assim a paisagem até que os meus olhos poisaram nas jovens caixas, que mecanicamente, ao longo de muitas horas (estas não escapam às 40 horas ou mais!) colocam em sacos a montanha de compras dos clientes e depois põem as máquinas registadoras a desdobrar facturas e a receber pagamentos. São jovens, muito jovens, adivinho licenciadas a que o país fechou as portas de outros horizontes, e estão ali, de pé (“já nem sinto as pernas”), com os olhos cansados pela turbulenta navegação das horas.
Muitas vivem no fio da navalha e sabem que serão trucidadas na selva da precariedade, a tal flexibilização laboral onde os direitos não existem e o trabalho toca a fronteira da escravatura moderna, as tais condições que o governo diz serem óptimas para o futuro da economia. As filas, com os carrinhos atulhados de compras, dilatam-se. E elas lá estão, peças de uma engrenagem poderosa, direitas, repetindo mil vezes os mil gestos de todos os dias, olhos cansados, a máscara de sorrisos de circunstância no fio dos lábios, e as palavras que fazem a liturgia do instante:
-- Boas Festas! Bom Natal!
Tento imaginar as realidades quotidianas deste mundo precário, e, como num filme, imagino um plano a correr sobre os rostos das jovens caixas do hiper, procurando detalhes de um dia, instantes breves de vida. Tudo mecânico e industrial, como convém. Os sorrisos a escorrer e os votos natalícios na ponta da língua. Mas numa delas (terá o despedimento à vista, pensei eu, para mim só) pareceu-me descortinar duas lágrimas que caíam sobre um embrulho colorido, com um belo laço de fantasia.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A VERDADE CONTRA A NOITE DOS ASSASSINOS

Juscelino Kubitsheck e António Paulouro, durante o almoço, no Fundão
Manifestação emocionou Juscelino
O tempo também é um grande escultor da verdade, se assim quisermos acrescentar um qualificativo à espantosa ideia de Margarite Yourcenar. Aconteceu, agora, com uma figura de relevo do século XX, Juscelino Kubitschek, presidente da República (1956-1961), criador de Brasília, que afirmou no mundo o Brasil como pátria da democracia e da cultura. Essa saudade intensificou-se à medida que a ditadura militar ia deixando na sociedade brasileiro o seu longo cortejo de prisões, torturas e assassinatos.
As circunstâncias da morte de JK, em 22 de Agosto de 1976, alegadamente num acidente de viação, deixaram sempre muitas dúvidas, que a ditadura silenciou, à semelhança do que acontece sempre para defesa dos mandantes dos crimes desta natureza (lembram-se do assassinato de Humberto Delgado?)
Agora, a Comissão de Verdade Vladimir Herzog, de S. Paulo, vem afirmar que Juscelino Kubitschek foi assassinado, na sequência de um complot organizado pela ditadura militar. O antigo presidente do Brasil, depois que regressara do exílio, articulava a oposição ao regime militar e era, de facto, a grande figura congregadora, que mobilizava a luta democrática contra a ditadura, ameaçando o poder dos mentores dos “esquadrões da morte”, responsáveis por inumeráveis mortes, torturas e desaparecimentos.
Isso amedrontava os agentes da Operação Condor, aliança político-militar entre as ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Numa carta enviada, em 1975, a João Baptista Figueiredo, então chefe da ditadura brasileira, o serviço de informação de Pinochet afirmava-se preocupado com a possível vitória de Jimmy Carter nos EUA e com o apoio a políticos de oposição à ditadura na região, como o chileno Orlando Letelier e o próprio JK. Ambos foram assassinados, depois das maquinações sinistras programadas na noite dos assassinos.
No caso de Juscelino Kubitschek, esta justiça póstuma que parece vir a caminho, tem um sabor especial para este nó de terra que se chama Fundão. Eu conto, brevemente. António Paulouro, que visitara o Brasil, convidou JK a visitar a Beira, designadamente Belmonte. Em Janeiro de 1963, Kubitschek, cumprindo a promessa, desembarca em Lisboa, com uma comitiva de ilustres personalidades, como Darcy Ribeiro, reitor da Universidade de Brasília e figura de proa da intelectualidade brasileira.
Salazar, não tolerou que Kubitschek viesse a convite de Paulouro e do JF, fez tudo para silenciar a visita. JK  esteve em Castelo Branco, falou da varanda do “Jornal do Fundão”, foi à Covilhã e a Belmonte. A censura cercou de silêncio (como se não tivesse existido) toda a visita organizada por António Paulouro, só autorizando notícias da parte oficial, em Belmonte.
O Fundão era então uma pequena vila (Juscelino disse que lhe parecia estar na sua terra natal, Diamantina) e viveu a maior manifestação colectiva, de que há memória. As pessoas perceberam, então, o que era a manipulação da informação pelo poder, a desfiguração da realidade. Chamaram-lhe o muro do silêncio e protestaram. Até o presidente da Câmara enviou um telegrama ao Presidente do Conselho, a protestar. Foi demitido, claro.
Foi em Janeiro de 1963. O dia em que JK começou a mudar a sua ideia de Salazar (já escrevi, há anos, um texto sobre esta singular questão, no JF). O Fundão, que guarda a visita de JK como acontecimento maior do seu século XX, bem pode sentir-se um pouco mais feliz por saber que, pelo menos na memória, o assassinato de Juscelino Kubitschek não ficará impune.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

OS APARTHEID EUROPEUS

Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
A Europa, é Tony Judt que o diz, nunca resolveu bem os problemas da memória, e a geometria imponderável da sua construção reflecte muito esse problema mal resolvido. É, porventura, essa circunstância histórica que, hoje, envenena lentamente as conquistas civilizacionais, e, sobretudo, a sua dimensão humanista. É verdade que tudo isso se vai esfumando lentamente. Os mandantes da Europa, e os governos, seus serventuários menores, são todos, no fundo, obedientes servidores do polvo financeiro, cujos tentáculos estrangulam a vida dos que acreditaram que a Europa podia ser um espaço de cidadania, moldado por direitos e valores, que se plasmavam na construção de um Estado social e de bem estar, onde a felicidade seria possível.
Os donos da Europa, os conglomerados financeiros fazem dos mercados braços instrumentais de políticas que apenas visam destruir os fundamentos das sociedades. Às vezes, os executores dessas malfeitorias chamam-se Troikas (incorporando siglas sinistras como FMI, por exemplo) acolitadas por submissos capatazes nacionais, e passeiam pelos países os efeitos nefastos da sua acção: desemprego, pobreza, direitos sociais reduzidos a zero ou quase. E eles prosseguem a sua acção predatória até que os padrões se ajustem (uns e outros estão sempre a falar em ajustamentos) aos interesses específicos dos donos da Europa e suas Mafias capitalistas.
Esta Europa cava, de muitas maneiras, a sua sepultura. A insensibilidade vai abrindo uma cova funda. O "El Pais" publicou na edição de domingo uma excelente reportagem, intitulada "Visita aos apartheid europeus", da autoria dos jornalistas Lúcia Abellán e Miguel Mora. A questão central é o racismo e a emergência dos estigmas dessa doença letal, decerto com raiz no problema mal resolvido da memória, como advertia Judt.
Nessa reportagem, escrevem os autores: "os judeus confessam que voltam a ter medo. Os ciganos vão a colégios segregados em alguns países, A Europa reencontra-se com o fantasma do racismo". A isto podíamos acrescentar a vergonhosa forma como tem sido tratada a imigração que vem de África, tragédia dos que morrem nas praias do Mediterrâneo, crime continuado de que a ilha de Lampedusa, nos últimos anos, se tornou uma espécie de cemitério simbólico dos próprios ideais europeus.
A Europa e os seus donos não olham para estas coisas. Na reportagem sobre “os apartheid europeus”, os seus autores levantam uma questão moral: “Todos os dirigentes europeus, sem excepção, glosaram esta semana os méritos de Nelson Mandela.Muitos pronunciaram frases brilhantes e assistiram aos funerais do homem que venceu o ódio racial e o apartheid. Mas justamente na União Europeia, onde a crise não termina, o desemprego afecta 25 milhões de pessoas e há 80 milhões de pobres, a xenofobia e o racismo não deixam de aumentar”.
Os dirigentes europeus são hoje a medida ética de coisa nenhuma. Daí que, entre as palavras e os actos, haja a distância de um abismo. A retórica, assim, é uma mero exercício de hipocrisia.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

MEMÓRIA DE COMBATENTES DA SOMBRA

Ilustração de Zé Dalmeida
Penso que foi Edgar Morin que um dia disse, referindo-se ao século XX e ao longo inventário de crimes contra a humanidade que esse tempo contabilizava, que o homem, às vezes, fugia da realidade e evitava pensar sobre ela, como forma de arranjar um calo de indiferença para poder suportar a crueldade. Num certo sentido, aí radica, embora apenas em parte, alguma disponibilidade de pessoas e instituições para uma alegre distração da realidade concreta, evitando incómodos confrontos com a história e os seus fantasmas. Entre nós, não faltam exemplos de amnésia programada, deixando no silêncio uma longa e tenebrosa factualidade criminosa contra pessoas de bem, mortas ou perseguidas por uma ideia, uma crença, uma sede de justiça de justiça elementar, às vezes uma palavra de revolta ou uma bandeira vermelha empunhada ao vento, desafiante. E, no entanto, o tempo longo de ignomínia, de fogueiras, de prisões, de torturas permanece como anquilose de comportamentos e mentalidades na sociedade portuguesa, perseguida ainda pelo "medo de existir" (José Gil).
Ponho-me a pensar nas pessoas de bem, tantas vezes cidadãos comuns dos melhores, que sofreram tratos de polé, agressões físicas e psicológicas, intolerâncias e perseguições, vidas transformadas em tragédias, quotidianos cercados de lágrimas. Muitos, nunca deixaram que lhes assassinassem a esperança e, por isso, assumiam-na em palavras e gestos de insubmissão e resistência.
Às vezes, penso em lugares que mantiveram essa reserva moral de cidadania intacta e era como se fossem, colectivamente, gente de espinha direita, que levantava os olhos do chão e encarava de frente a opressão. O Tortosendo foi, durante muitos anos, um desses lugares míticos. Foi isso que me veio ao pensamento quando, num destes dias frios e de folhas caídas, me vieram dizer que tinha morrido o Alfredo Craveiro. Penso que ele era o último de um grupo de combatentes da sombra, que fizeram daquela vila operária, uma "vila vermelha", com tudo o que esta designação tinha de desafio ao tempo sinistro do salazarismo. O Alfredo Craveiro era um homem sensível à cultura e ao associativismo, que construiu quotidianamente nos tempos heróicos do Unidos, quando a promoção cultural era um acto de libertação e, por isso, brutalmente reprimida. Era um homem bom.
Eu aprendi muito com esse universo afectivo do Tortosendo, aprendi sobretudo humanidade, e guardo na memória rostos e nomes de gente fabulosa, que praticava o alfabeto cívico da liberdade de forma comovente, tantas vezes arriscando tudo o que havia para arriscar. De certa maneira, o Américo de Oliveira, que também fazia da solidariedade questão maior da vida, foi a minha ponte para esse mundo humanamente fantástico. Nunca esqueço, no limiar do Natal, nos anos 60, a vaga de prisões que a Pide fez no Tortosendo e a imagem do grupo de mulheres desses presos políticos que vieram para pedir auxílio (foi meu irmão Zé que os defendeu no Tribunal Plenário do Porto), e que à distância do tempo, ainda hoje, nos rostos dessas mulheres, nos seus olhares de lágrimas geladas, me parece ter visto figuras reais de pietás ou mães coragem que, no meio da maior adversidade e injustiça, afirmavam exigência de liberdade, ou melhor, de dignidade.
O Tortosendo fazia parte da geografia da repressão. Porque faziam lá greves e festejavam o Primeiro de Maio, crimes sem perdão para os algozes no poder. Havia prisões, o medo andava sempre no horizonte. Mas lutavam, e,como no poema do Egito, a esperança parece que se reproduzia.
Neste adeus a Alfredo Craveiro, regresso inevitavelmente ao universo de nomes de cidadãos e resistentes desse Tortosendo, que agora me parece longínquo. Regresso a gente que já partiu. O Júlio Machado, o Apolinário (tão massacrado nos interrogatórios da Pide), o Alfredo Costa, o Frazão (que foi para Coimbra), o Carrola. E, noutro plano, uma figura excepcional de democrata, com um sentido de solidariedade que ainda hoje me espanta, que ajudava os familiares dos presos políticos e movia meio mundo para que outros pudessem ajudar também. O senhor José Ribeiro fazia tudo isso, com um sorriso de tolerância nos lábios. Era um homem calmo, que repartia simpatia. Gostava de livros e de jornais (além de industrial de panificação possuía uma livraria, que era um ponto de encontro), teve um papel crucial no Unidos, quando tentaram encerrá-lo, e a amizade que naturalmente cimentei com ele foi até ao fim um convívio de aprendizagem mútua.
Um dia, já depois do 25 de Abril, fiz uma reportagem com ele, Passeámos longamente pelas ruas da vila e ele, na sua fala pausada, contou-me histórias dos tempos heróicos. Ficou-me sempre na memória uma delas, que então escrevi. Um ano antes do 25 de Abril (1973), perto de Maio, uma brigada da Pide foi ao Tortosendo (iam lá recorrentemente). “O cabo da GNR foi à Livraria procurar por mim”, contou-me José Ribeiro. -- “Disse-me: “Oh, sr. Ribeiro! venha lá ao posto, que já lá estão, outra vez, aqueles filhos da puta da Pide,,,”. “A coisa estava a mudar, era o 25 de Abril no horizonte!”, exclamou, com uma sorriso largo, o meu amigo José Ribeiro.
Combatiam, uns à luz do dia, outros na sombra. Uns e outros, com pequenas parcelas de humanidade, ajudavam a mudar o mundo.

sábado, 14 de dezembro de 2013

PORTUGALEX



Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
Hoje, às 17 horas, no Casino Fundanense, amigos reúnem-se à volta do meu mais recente livro, "Crónica do País Relativo - Portugal, Minha Questão" (II Volume) que é uma reflexão sobre a sociedade portuguesa e o "jornalismo de trela curta", que faz de muitas das redacções "lugares mal frequentados", como disse o Manuel António Pina. O livro é, também, de certo modo, uma antologia de crónicas, além de um diário iniciado no início de 2013. Estão lá crónicas do quotidiano, às vezes aqueles pequenos detalhes que Steiner dizia serem "pormenores de Deus" e que, pela dimensão humana, têm leitura à escala de um país, ou mais alé. Com um abraço aos meus leitores, que trazem sempre um amigo também, ofereço um dos textos do livro, publicado no longínquo ano de 1991. Tem por título "Portugalex", e é assim:

"Gente que por um nonada, como diria o Malhadinhas, é capaz de crivar à naifa o abdómen dum cristão. Gente que protesta quando lhe pisam os calos. Gente que silencia a pisadela nos calos do vizinho, mesmo que seja irmão. Gente que não gosta de matar galinhas, mas gosta de comer galinhas. Gente que se indigna e berra com as questões diárias e comezinhas. Gente que encolhe os ombros aos grandes problemas do país. Gente que inventa pátrias e Brasis. Gente que desgraça a vida por uma palavra ou um gesto. Gente que mata por um fio de água ou um protesto. Gente que dá o pão a quem tem fome. Gente que faz da vida uma tristeza enorme. Gente que morre a trabalhar. Gente que vai ao domingo ao futebol e fica à espera do domingo seguinte, para lá voltar. Gente que não arrisca nem petisca. Gente que vive para amar. Gente que gosta de púlpito porque o púlpito é que está a dar. Gente que gosta de ser herói todos os dias, num país que não dá para tanto. Gente que deseja ser santo mas morrendo, se possível, de morte natural. Gente que é capaz de lixar (e também linchar) o parceiro do lado, como é fatal. Gente que cospe no chão etcetera e tal. Gente que faz da vida o seu fado. Gente que morre de coração «inacabado». Gente que faz vénias e manguitos por tudo e por nada. Gente atenta, veneradora e obrigada. Gente que vai ali e já não volta. Gente que se aposenta da vida porque é chata. Gente que não tem onde cair morta... e mesmo assim arrota!"

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O PRESIDENTE QUE NUNCA DEVIA TER EXISTIDO


Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
A folhear o "Diário IV" dos "Cadernos de Lanzarote", de José Saramago, caíram-me os olhos numa reflexão sobre as eleições presidenciais de 1996, em que se opuseram Jorge Sampaio e Cavaco Silva, que mostra bem como nem sempre os desejos, por mais justos que sejam, se cumprem na realidade que nos cabe em sorte. É verdade. Às vezes, um homem sonha que os seus dias não serão visitados por uma espécie de criaturas que parecem incarnar demónios ou fantasmas que, sendo figuras do imaginário, afinal podem ser bem reais para atormentar a vida da gente. Às vezes, um homem pensa que há infortúnios, personificados em figuras de carne e osso (figurões da política), que jamais acontecerão a uma pátria. Mas a história se encarrega de desmentir essas ilusões e mostrar como essas circunstâncias nefastas reproduzem infelicidade e sofrimento. Demónios e fantasmas, então, não faltam por aí, semeando infernos ao domicílio.
É apenas um parágrafo da entrada do diário no dia 13 de Janeiro. Saramago escreve: "Em Lisboa , para votar. Encontro alguns amigos preocupados com o resultado das eleições de amanhã. Tudo aponta para uma vitória folgada de Jorge Sampaio, mas eles duvidam, parece-lhes bom de mais para poder ser verdade. Apresento um argumento para o qual não há resposta: "É impossível que este país tenha como presidente da República um homem chamado Aníbal Cavaco Silva. Não porque não fizesse sentido, mas porque o faria de mais".
Sampaio venceu, folgadamente, logo à primeira volta. Mas o outro voltou dez anos depois, a caminho de Belém, e lá ficou por inépcia e estupidez da esquerda. O resto já todos sabemos como foi e está a ser. Saramago dizia ser impossível, porque a acontecer teria sentido de mais. Lembrei-me de Pessoa: o que não faz sentido, é o sentido que isto tem. Os versos tinham como destinatário outro demónio. Chamava-se "António de Oliveira Salazar/ três nomes em sequência regular"...