sábado, 16 de novembro de 2013

AH! OS JORNAIS...



Onde se traz João Mesquita ao aniversário de “O Ribatejo”

Há meses, em Abril -- tempo de luz e liberdade -- éramos uns poucos, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, falando de “Jornalismo e Cidadania”, à volta da memória do João Mesquita, que foi presidente do Sindicato dos Jornalistas, e muito mais do que isso: combatente a tempo inteiro pela liberdade de expressão e, logo, pela dignidade de uma profissão cuja exigência de sentido ético e de comum humanidade faz parte do  respirar com palavras, que é o ofício de quem faz informação.
Sintomaticamente -- talvez reflexo da anquilose que fere o jornalismo dos nossos dias -- a evocação da biografia cívica e jornalística do João Mesquita foi objecto de silêncio canalha dos meios de comunicação social e de um desinteresse analfabeto da classe. O que, bem vistas as coisas, nem será de estranhar, dado o incómodo do legado cívico e sindical do João, pensamento e acção que é um contraste de grande nitidez com os figurinos do tempo que passa, onde avultam a prostituição da palavra escrita e falada, cada vez mais refém do “negócio” da comunicação, da unidimensionalidade crescente dos padrões informativos que a concentração tentacular da propriedade dos media produz, da chantagem do medo que paira como fantasma real pelas redacções -- tudo questões que ele antecipadamente identificou como sinais de um tempo perigoso que aí vinha.
Se hoje -- em circunstância de festa de “O Ribatejo” (28 anos é obra!) -- trago aqui memória da postura camarada do João, a quem eu chamei “um cavaleiro da esperança”, é precisamente pelo facto de ele ter percebido cedo que o território de palavras que “O Ribatejo” consubstancia hoje e começou a semear e a sonhar quase há três décadas, era um espaço de dignidade do jornalismo e uma prática de irrecusável consciência pública.
Há inquietações que se cruzam com os dias e por isso nos parecem estar para lá do imediatismo das histórias vividas, pois o fio temporal do seu significado pontua as palavras e os gestos da realidade, onde se inscreve a condição humana. O jornalismo partilha essa contingência de saber estar presente ou ausente da realidade.
Na tal tarde de Coimbra, em que nos juntávamos à volta de uma memória fraterna, lembro-me de ter sublinhado que a concepção de jornalismo que vivíamos com paixão entroncava numa ideia de serviço público e de causas, quer dizer, representava um compromisso abertamente assumido com a realidade social. A matéria-prima da informação convergia, ou devia convergir sempre, naquilo que era uma atenção primordial à condição humana, aos universos de margem dos humilhados e ofendidos, que os critérios editoriais subjugados, agora mais do que nunca, aos interesses dominantes, tendem a tornar invisíveis e silenciosos, aparentemente sob a desculpa que a informação hoje deve ser sobretudo um espectáculo alimentado até à exaustão pelo umbigo dos políticos. A corrida instalada nos jornais e nas televisões entre a informação e a catástrofe, mostra uma especificidade portuguesa: a obsessão culturalmente menor e provinciana do sensacionalismo que envenena a pureza do jornalismo.
Hoje, os jornalistas, perdidos no labirinto da precariedade e do medo, não estão porventura muito interessados em debater estas coisas. Mas era bom que o fizessem.
Agora, que se está a celebrar o centenário de Albert Camus, ele que tanto batalhou no seu “Combat” contra a contaminação do jornalismo por interesses espúrios ao bem público, talvez valha a pena deixar uma reflexão do autor de “O Mito de Sísifo” quando falava do desafio da imprensa “criar um espírito público e de o elevar à altura do próprio país”. Aos que apostavam na facilidade do “é isso que quer o público”, ele argumentava: “Não, o público não quer isso. Ensinaram-no, durante vinte anos, a querê-lo, o que não é a mesma coisa (...) Mas se vinte jornais, todos os dias do ano, sopram à volta dele o ar da mediocridade e do artifício, ele respirará esse ar e não poderá mais dispensá-lo”.
Mediocridade, disse ele. Pensemos um pouco nisso para uma reflexão mais funda sobre o papel do jornalismo na sociedade portuguesa, tão envolta agora em névoas de cinzentismo, tão administrada por analfabetos, que não lêem jornais ou livros e nunca têm dúvidas, tão refém do elogio da pobreza e da ausência de direitos, isto é, de uma quase escravatura imposta por “ditadores benévolos”.

Talvez a circunstância da festa exigisse uma retórica mais feliz. Mas sempre vou a tempo, meu Caro Joaquim Duarte, de lhe deixar um forte abraço de parabéns pelos 28 anos de “O Ribatejo”, um título que honra a imprensa portuguesa e que todas as semanas, na opinião qualificada sobre a actualidade, nos detalhes humanos em que retrata a “alma” das terras, na insubmissão à fatalidade da pobreza, nos dá um suplemento de esperança, avisando-nos porventura com abençoada utopia que em cada dia há um país novo que é preciso reinventar.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O AFASTAMENTO DE AMÉRICO RODRIGUES


Uma cena de caça

Não há como o exercício do poder para revelar a tipologia moral de um político. A história está cheia de exemplos de ditadores com pés de barros, de césares sem trono e sem ceptro que, confundidos pela luz imediata e intensa dos holofotes do mando, julgam criar uma realidade só deles, avessa a escrutínios democráticos ou ao bom senso, que, de facto, não será a coisa mais bem repartida do mundo. À escala portuguesa, essa obsessão de uma autoridade impositiva, refém de um absolutismo fora do tempo (“quero, posso e mando”: a cidade,como metáfora do estado, é ele e a sua circunstância de poder), é sempre um reflexo de estatuto provinciano, com sinais de arcaísmo ideológico. Então, na sua prática quotidiana de gestão política, surgem os grandes gestos, sempre envoltos em panejamentos verbais de aparente defesa da coisa pública, mas que não significam outra coisa senão ajustes de contas e fulanismos de trazer por casa. O ditador Salazar praticava, com indiscutível mestria, a arte da hipocrisia, como forma objectiva de diminuir os outros ou quem ele elegia como alvo da sua ira. Conta-se, até, que ele gostava de despedir ministros pelos contínuos… Avançava a ministerial criatura para o seu gabinete, quando o contínuo, que recebera instruções do chefe, lhe cortava o passo.

-- Para onde é que o senhor vai? -- interrogava o funcionário.

-- Ora essa! Vou para o meu gabinete, que eu sou o ministro…

-- Já não é! -- respondia o outro. -- O sr. dr. já foi demitido…

Esta forma de fazer política, tem os seus seguidores, embora o exercício da hipocrisia seja feito na primeira pessoa e não por pessoal subalterno.Foi o que ainda há dois dias aconteceu na Guarda. Recentemente alcandorado à chefia do governo local, Álvaro Amaro, não esteve com meias medidas e despediu, pelo telefone, Américo Rodrigues, das funções de director do Teatro Municipal da Guarda.

Ao fazê-lo, e desta forma, Álvaro Amaro inaugura uma nova prática, ao arrepio das normas de decência e cordialidade, que devem pautar (e pautavam) as relações entre o detentor do poder e os funcionários do Município, que, aliás, não são, em caso algum, propriedade do presidente ocasional.

Neste caso, porém, importa referir a figura e o papel que Américo Rodrigues teve na Guarda, como autor e promotor cultural, e, sobretudo, como director do Teatro Municipal da Guarda, a que deu projecção nacional, pela qualidade da sua programação.

É natural que Álvaro Amaro, ocupado com outras instantes actividades, não só não tenha frequentado qualquer tipo de acção cultural do TMG, mau grado a sua geografia exceder as muralhas da cidade, como não tenha conhecimento da biografia criadora de Américo Rodrigues, tão amplamente elogiada no país. Esta é uma questão que não poderá ser escamoteada, independentemente da opinião ou do juízo crítico que se quiser fazer do trabalho de Américo Rodrigues, ao longo dos anos.

O tempo dirá o que a Guarda e a região irão perder com o afastamento de Américo Rodrigues. E todos ficamos, também, à espera do que irá fazer Álvaro Amaro do Teatro Municipal da Guarda, depois desta cena de caça.

 

 


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

MANUEL DA SILVA RAMOS: MEMÓRIA DILACERADA

Com Manuel da Silva Ramos, no Jardim do Torel, Lisboa 2013


O Manuel da Silva Ramos junta mais um romance à sua biografia de escritor: “Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!”. Mais uma facto-ficção a somar ao “Café Montalto”, muito justamente considerado obra maior do escritor. Vou ao Teatro-Cine da Covilhã para falar do autor, juntamente com o Rui Zink. O foyer do teatro, está cheio. O Manuel da Silva Ramos, como tantas vezes tenho dito, é um escritor especial, com uma obra poderosamente original, desde que, com 21 anos, escreveu “Os Três Seios de Novélia”, celebrado como um magnífico exemplo de invenção da língua, que viria a vencer o Prémio de Novelística Almeida Garrett. Em “Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!”, o autor revisita os tempos da infância para escrever sobre o pai. E, fazendo-o, Manuel da Silva Ramos está a fazer um retrato breve de Portugal, da sociedade portuguesa do salazarismo, através do universo densamente humano dos humilhados e ofendidos, na pequena pátria do Refúgio, a terra mater. Sendo o romance construído como dolorosa seiva da realidade, onde memória e histórial se cruzam, Manuel da Silva Ramos não deixa de cavar essa factualidade com a ironia, que é marca fundamental da sua escrita, e também com páginas de pura recreação, de literatura fantástica, que é outra das suas facetas como ficcionista. É um livro largamente ancorado à morte do pai, a uma memória dilacerada, às vezes pelo tempo perdido na distância do exílio, tendo como pano de fundo o país triste e salazarento, que oferecia o medo como alimento e a pobreza como destino. “A morte em Portugal vem ao pé-coxinho. E ri. Da desgraça geral. Esse riso parte prinicipalmente os vidros à pobreza”, escreve ele numa espécie de prólogo, quando evoca a gradual perda de noção da realidade, a diluição da memória no esquecimento, a morte. Mas há páginas que deslizam com naturalidade para a literatura fantástica, como nos capítulos sobre o sonho dos fatos ou a descrição do casamento, em Louriçal do Campo, quando “a aldeia estava completamente inundada e a água chegava ao umbigo”. Escreve “... Para os meus olhos de criança acontecia agora um milagre: diante da nossa janela passava a noiva branqíssima, impecável, serena em cima de um carro de bois dando o braço ao seu padrinho. Arvorava no seu rosto uma ilimitada felicidade, os seus olhos confiantes sem véu faziam calar o precário tempo português. No carro de bois seguinte iam os seus familiares, apertados, sérios, endomingados. Era agora a nossa vez de entrarmos na comitiva animalisada. O noivo, cintrado no fato do meu pai, olhava já a nossa janela por onde nós devíamos sair enxutos. Já no nosso carro de bois olhei o princípio do cortejo: a noiva Zelinda, belíssima, ia agora com o véu ao vento, um súbito e fraco sol batia nela e na água barrenta e dava à nossa vida um ar de irrealidade resplandecente. Assim fomos para a igreja... Tinha eu nessa altura seis anos e era, acho eu hoje, a mais comovente das idades...”

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

MERDA

No outro dia li uma saborosa crónica no “El Pais”. Não posso jurar que o autor era Manuel Rivas ou Manuel Vicent, mas o que me ficou na memória foi o tema da prosa. Merda. Então, houve um alcalde que resolveu tomar medidas severas contra os dejectos que os animais deixavam pelas ruas. Que fez ele? Criou uma lei que manda os serviços camarários recolher a porcaria e enviá-la, numa caixa, à residência do proprietário. Em caso de reincidência, os proprietários dos bichos pagarão coima elevada. O cronista dizia que a notícia do facto lhe trouxe logo à lembrança a merda que os sujeitos da Europa e do FMI estavam fazendo, em Espanha. Não haveria caixas disponíveis para devolver à procedência a merda infinita que eles estão produzindo. Também aqui, o lado de cá da fronteira esses tipos da Troika e seus sequazes governantes andam produzindo merda em abundância. Eles e os comparsas. Veja-se, por exemplo, a altíssima quantidade dela que, nos dias que passaram, os governantes fizeram. Uma cagada em vários actos que Belém aplaudiu. Apetece retomar uma ideia poética de Ernesto Mello e Castro e dizer: Para os tipos da Troika e mais os sujeitos do governo e também por desfastio o Presidente – com ternura, merda, merda, merda merda pura!

A VIAGEM DO ELEFANTE

É deste Fundão que eu gosto. Havia estrelas no céu, mas o que iluminou a noite, na Praça do Município, que estava cheia, mil olhos colados à imaginação de José Saramago, aqui trazido pela recriação dramática de “A Viagem do Elefante”. Mil olhos voltados para o mistério do teatro, alimentado pelo fogo criador e o entusiasmo colectivo da magnífica trupe do Trigo Limpo Teatro ACERT, dirigida pelo saber e o talento de José Rui Martins (Olá, Zé!) e do Pompeu José (Olá, Pompeu!) que fizeram a adaptação dramatúrgica e encenação de “A Viagem do Elefante”.
Eles souberam construir um fabuloso espectáculo de rua, com o espantoso mecanismo cénico que é o elefante Salomão, centro de tudo, num registo ao mesmo tempo épico e fantástico, onde a ironia, tão sobriamente praticada pelos personagens, pontua a consciência crítica da narrativa, o que aliás Saramago fazia sempre com grande mestria. Mas a “extraordinária viagem de um elefante à Áustria”, tem na beleza plástica (as luzes, os trajes, o ritmo e a dinâmica das cenas) e na música da banda de Luís Pastor, elementos fundamentais de uma linguagem dramática totalizadora que faz da Viagem um acontecimento para fruir plenamente. Momento sobre momento, instante sobre instante, de surpreendente beleza, que faz guardar este espectáculo na memória. Ao longo dos dias, a Praça foi o centro desta aventura teatral, numa relação de afecto com a arte. Uma das virtudes essenciais deste espectáculo reside, do meu ponto de vista, na leitura inteligente que José Rui Martins e Pompeu José fizeram da obra de Saramago, fazendo da sua narrativa dramática uma construção de humanidade, que as personagens respiram e articulam à escala de Salomão e que, aliás, aparece intensamente na relação do cornaca indiano com o animal. É assim que a Viagem se transforma, em crescendo, numa aventura de humanidade e de emoção. Essa expressão de tristeza, no espectáculo como no livro, está dentro das palavras proferidas como se fossem o lavrar final da biografia de Salomão, que é, de facto, o grande protagonista da história: “O elefante morreu quase dois anos depois, outra vez Inverno, no último mês de mil quinhentos e cinquenta e três. (…) Além de o terem esfolado, a Salomão cortaram-lhe as patas dianteiras para que, após as necessárias operações de limpeza e curtimento, servissem de recipientes, à entrada do palácio, para depositar as bengalas, os bastões, os guarda-chuvas e as sombrinhas de Verão…” Talvez por essa dimensão de humanidade de que se fez o espectáculo, foi com alguma saudade que nos despedimos de Salomão. Ele bem merece muitas mais longas viagens.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

LOUZÃ HENRIQUES, LIÇÃO DE HUMANIDADE


Amigos de perto e de longe, vieram dar um abraço a Manuel Louzã Henriques. E o excelente auditório do Conservatório de Música de Coimbra foi pequeno para acolher tão largo universo de amizade e gratidão. Foi uma tarde de música e poesia (poemas dele, MLH, colhidos aqui e ali, que era bom reunir em livro), tudo à volta da figura verdadeiramente singular do dr. Manuel Louzã Henriques, de quem todos somos imensamente devedores pelos mundos do conhecimento que ele nos abriu. Essa faceta de improvável Mestre, pois ele recusa sempre, frontalmente, todo o tipo de cátedras, assumindo-se apenas como o comum dos mortais que gosta de partilhar com os outros saberes preciosos, cavados fundo no percurso de uma vida cujo desafio foi sempre, em todas as circunstâncias, construir um mundo melhor. Relapso a homenagens, teve desta vez que ouvir a sonoridade fraterna de palavras que não eram outra coisa senão o tributo do reconhecimento colectivo, pequena paga para quem tanto deu. À volta desse sentimento, havia o lançamento de um livro, “Manuel Louzã Henriques”, organizado por Manuela Cruzeiro e Teresa Carreiro, graficamente dirigido pelo jovem designer Francisco Elias, que, sobre ser um livro de afectos, pelos testemunhos que contém, é importante por fixar a memória do percurso cívico e cultural de Louzã Henriques, através de uma longa entrevista, uma das escassas vezes em que ele aceitou falar de si próprio.
Nas virtualidades de uma vida, que também é um persistente compromisso com a memória, Louzã foi um trota mundos pelos caminhos da etnografia e da antropologia, e dessas navegações organizou preciosas recolhas sobre os arados ou sobre os instrumentos musicais. No primeiro caso, oferereceu a valiosa colecção de arados à Louzã, onde foi criado um museu. Fez o mesmo gesto para a Coimbra dos seus amores, oferecendo mais de 400 instrumentos musicais, devidamente catalogados, à Câmara Municipal de Coimbra. Soube-se agora que a excelentíssima Câmara, decerto por puro analfabetismo, os devolveu agora, alegando não ter espaço para eles! Uma indignidade que ficará para sempre com o político de aviário que a praticou.
Ao falar na sessão memorável de Coimbra, Louzã viajou pelo tempo, lembrou cantares do povo, tocou acordeão e guitarra para marcar sonoridades imemoriais, e a sua fala foi, como sempre é, uma lição de humanidade. E não deixou de fazer parábolas de fácil decifração sobre a galeria de energúmenos da política que nos cairam em cima. Lembrou que, numa coisa, desde menino, não cumprira o aviso da mãe. “Minha mãe avisava-me que nunca me devia meter com cães grandes e na minha vida não fiz outra coisa senão andar a meter-me com cães grandes”, disse ele, descrevendo, também, o mundo dos palhaços do tempo da infância, gente de humanidade e honradez, que não merece andarem a misturá-la, como fez o senhor Tavares, com sujeitos indecentes...
O Manuel Louzã Henriques, numa tarde que respirava fraternidade, ao som da música e dos versos, em cada rosto, como na canção de liberdade do Zeca, era imagem de igualdade. Também eu deixei no livro um abraço de palavras ao amigo Manuel Louzã Henriques. Um abraço que se traduz assim:
“O que sabe explicar as coisas em louvor do Homem”. Foi assim que, há uns bons anos, fiz a síntese possível de Manuel Louzã Henriques. Foi assim que eu o vi sempre desde que, nos longínquos anos 60, tive a sorte de o ouvir pela primeira vez numa sessão, no Rotary da Covilhã, ao tempo um grupo de inquietação cultural e cívica. Já não me lembro do tema, mas tenho viva a ideia de que foi um serão fabuloso.
Depois, pelo tempo fora, à mesa fraterna e amiga da sua fala, aprendi muitos universos (no sentido da universalidade das bibliotecas de que falava Borges), descodifiquei geografias e tempos vários, identifiquei melhor rostos de dimensão colectiva, percebi com maior nitidez o país na sua diversidade criadora e porventura que a matéria de sonhos de que se faz a poesia é elemento vital da respiração da humanidade.
Se o lugar-comum que diz serem as palavras como as cerejas, na sede de as multiplicar sem fim, tem algum sentido, o aforismo poderia muito bem ter nascido de alguém ter estado, um dia, a escutar, fascinado, Manuel Louzã-Henriques. Há, nele, um conhecimento que ilumina e dá sentido às coisas, quando, às vezes, partindo de um olhar breve ou de um acontecimento fugaz, de um lugar ou de um detalhe humano da história, logo alarga o seu discurso ao horizonte temporal de onde emerge a saga de o homem se fazer a si próprio.
Como quem abre um parêntesis, volto ao texto que escrevi à procura de um retrato rápido, que é sempre essa a contingência da apressada prosa de jornal. E lá está, como se fosse legenda para um nome: “Aquilo que enriquece os dias é quando acrescentamos aos instantes a sabedoria dos que levaram uma vida inteira a investigar e a saber coisas, a ler e a ouvir gente, e depois gastam boa parte do seu tempo a partilhar essa sabedoria com os outros. O Manuel Louzã Henriques é uma dessas personalidades singulares para quem o acto cultural se concretiza plenamente na comunicação democratizante com os outros, numa navegação à vista em que a amizade é sempre porto seguro. Poucas pessoas haverá com tanta capacidade para a pedagogia do falar, fazendo das palavras um pão a repartir, como Neruda dizia da poesia. Este médico psiquiatra que gosta da conversa longa, do prosear suave à roda de uma mesa de amigos, que escreveu versos e belas prosas, que cultiva a palavra com o rigor de Vieira, embora a fluência das palavras e a simplicidade do verbo sejam nele um rio que corre mansamente, sem tumulto, apenas fio de água limpa e transparente onde podemos beber conhecimentos. Quem conhece Manuel Louzã Henriques, quem já o ouviu e conviveu com ele – não apenas as sucessivas gerações que passam por Coimbra, mas um público mais vasto – sabe que é assim. O privilégio do seu convívio é sempre surpreendente”. Fecho aqui o parêntesis, mas a memória pontua inesquecíveis momentos de cultura viva quando, uma e outra vez, por aqui andou, por terras do Fundão e da Gardunha, ou pelos campos de longa solidão da Idanha, em busca de histórias perdidas, falando dos Santos Populares, da antropologia da festa e da memória social, das grandezas e misérias da sanfona, desde os tempos gloriosos dos salões, até à sua morte ao sol e à chuva, nas feiras, dos arados e da civilização rural, do Zeca e da evolução da canção de Coimbra, dos velhos cantares dos adufes e da voz soberba de Catarina Chitas, do Pad’ Zé, que ele retirou da margem redutora da boémia coimbrã, a que muitos gostam de reduzi-lo, para o estudar como crítico social, autor da mais violenta diatribe até hoje escrita sobre a universidade (“O Livro do Doutor Assis”), foi o Louzã Henriques o primeiro a dar-nos o Pad’ Zé na expressão da sua real importância histórica e cultural.
Um dia, à boa paz, falei-lhe que o seu mundo de palavras, expresso amiúde no labirinto das suas falas informais, sustentado por uma riquíssima visão cultural, era a expressão de preciosos ensaios,sendo por isso bom passá-los à escrita. Ele olhou para mim com algum enfado e eu percebi que não estava virado para aí.
– Se quiseres, grava! – disse, e passou adiante.
Passaram alguns anos, mas continuo a pensar sinceramente que teria sido um alto serviço cultural, um inestimável contributo à democratização da memória, ter-se feito registo dessas conferências, palestras ou tertúlias de amigos. Mundos que nós perdemos, por terem sido únicos e irrepetíveis, que voaram na efemeridade das palavras, que são como o vento que passa. Resta-nos, a nós, que somos seus amigos, o “milagre” do seu convívio – e podermos tê-lo connosco, à conversa, no desafio que é sempre o seu pensamento de inquietação fecunda sobre os dias cinzentos que vivemos”.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Jorge de Sena dizia: “nunca a poesia salvou o mundo, mas nunca o mundo poderá ser salvo sem a poesia”. Estas palavras sábias podiam servir de legenda à escolha de um verso como título de um blogue, espécie de aviso à navegação para os dias que correm.
“Notícias do Bloqueio”, que Egito Gonçalves (grande poeta infelizmente na sombra do esquecimento) escreveu em 1952, nos tempos em que a prisão e a mordaça eram imperativos da ordem estabelecida, ainda hoje faz bater mais depressa o coração da gente.
A escolha do verso tem, também, uma raiz sentimental. Nos dias da crise académica de 1969, em Coimbra, que abalaram o país, lembro um fim de tarde de poesia e resistência, em que a figura frágil de Maria Barroso se agigantou para dizer, entre outros poetas do Novo Cancioneiro, o poema “Notícias do Bloqueio”, de Egito Gonçalves. Havia no auditório um denso silêncio, que dava uma surpreendente força a uma poesia que, de facto, nos convocava a salvar não o mundo, mas o país, isto é, nós próprios.
Num tempo em que há muitas palavras sitiadas, em que os bloqueios contra o homem, todos os dias desfigurado e roubado do direito à felicidade, persistem como destino trágico na sociedade portuguesa, é bom fazermos notícias do bloqueio. Porque as palavras, ensinou Óscar Lopes, “servem-nos de mãos, mãos de mil dedos invisíveis”. E de olhos, acrescento eu, se quisermos saber olhar e compreender a realidade. É essa, pois, a razão deste espaço de diálogo fraterno.

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval,
a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos…
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos

feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.

… Aumenta a raiva e a esperança reproduz-se, avisa o poeta.