quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O HOMEM DAS CASTANHAS

Fotografia de Pedro Vasconcelos 
Quando as folhas das tílias e dos plátanos começavam a cair, inventando uma espécie de chão de bosque na Avenida da Liberdade, e a Gardunha começava a pintar-se de surpreendentes tons de amarelos, castanhos e verdes, numa mistura cromática que Van Gogh não desdenharia, o homem das castanhas, com o seu fogareiro ambulante à esquina, estendia à navegação apressada da cidade, cartuchos de papel de jornal, com “quentinhas e boas”. Era, de certo modo, a imagem do anúncio definitivo do Outono, que assim se colava às folhas que balançavam, tocadas pelo vento.
Às vezes, vinham mais do que um, que disputavam estrategicamente a geografia dos lugares para distribuir esse precário suplemento de alegria, que a jeropiga molhava nos lábios. Nos últimos tempos, o homem das castanhas, certamente cansado, passara a tarefa à família, que todos os anos voltava ao espaço da Avenida da Liberdade para o pequeno comércio de circunstância, magra ajuda para dilatar os tostões ao fim do mês.
Este ano, já não houve homem das castanhas. O quotidiano ficou mais triste. Até aqui, na Rama do Castanheiro, as castanhas foram à vida e já não podemos comprar os tais cartuchos de “quentinhas e boas” para partilhar depois, à roda de amigos, no Verdinho do Pires ou na Pastelaria da Nanda, onde há sempre jeropiga de estalo.
Por que nos abandonou o homem das castanhas? Dizem-me que lhe aplicaram (sabe-se lá se por determinação da Troika!) uma taxa valente, capaz de desmoralizar o mais afoito. Agora, só nos resta trautear a canção do Carlos do Carmo, mas não sei se os versos de Ary dos Santos nos aquecem inteiramente a alma:
“Quem quer quentes e bioas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p’ra casa”.

Tenho saudades do homem das castanhas!

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

AS PANTUFAS DOS TORCIONÁRIOS

A memória, sempre a memória, e a dignidade que é o dever de lutar por ela. Um combate decisivo, contra o esquecimento e o silêncio. Não apaguem a memória, deve ser um clamor colectivo e persistente, mesmo que a evocação do tempo possa ser cruel e dolorosa. Essa responsabilização face à história representa, também, um compromisso ético e cívico, um dever de dignidade que toca a todos. Daí que alguns actos, onde quer que aconteçam, assumam um significado de dimensão universal comum à diversidade planetária e à afirmação dos direitos humanos, como questão primordial.
A notícia vinda do Chile, trazia essa carga de responsabilização histórica e de exemplaridade cívica. Lá, quarenta anos depois do golpe que levou Pinochet ao poder (esse fatídico 11 de Setembro de 1973), com a sua longa máquina de crimes e ofensas à humanidade, os magistrados, os representantes do poder judicial chileno, deram voz pública a um remorso colectivo e vieram assumir a sua “responsabilidade histórica” na instauração da ditadura militar no país (1973-1990), e apresentaram um pedido oficial de desculpas pelas “acções e omissões” que classificaram como “impróprias da sua função”.
“Sem ambiguidades,nem equívocos, achamos que chegou a hora de pedir perdão às vítimas, aos seus familiares e à sociedade chilena”, afirma a declaração da Associação Nacional de Magistrados do Poder Judicial do Chile, que assinala “as sistemáticas e brutais violações dos direitos humanos realizadas pela ditadura militar” e que “o poder judicial, em especial o Supremo Tribunal da época, capitularam na sua missão de tutela dos direitos fundamentais e protecção das vítimas do poder estatal”.
Pinochet é o rosto de um regime brutal e assassino, responsável pela morte de 3.200 pessoas. No universo de tortura que o Chile, pelo menos 28 mil foram torturados e mais de mil  permanecem desaparecidas até hoje.
O acto dos juízes chilenos deve ser sublinhado num país como Portugal, onde, depois de 48 anos de ditadura, que tem a seu crédito mortes e torturas e prisões e crimes sem castigo, e que teve nos Tribunais Plenários o braço legitimador dessas barbaridades, nunca um humilde acto de arrependimento ou de perdão a quem quer que seja, por parte dos responsáveis das magistraturas. Em Portugal, os juízes do Plenário, caucionadores dessa desordem estabelecida, à margem dos direitos elementares, morreram de pantufas ou com estacionamento no Supremo Tribunal de Justiça, como prémio da sua nefasta actividade. Quando os juízes chilenos fazem mea culpa, é bom lembrarmos como, em Portugal, quase quarenta anos de vida democrática, têm conduzido a um hábil esquecimento desses criminosos que actuavam em nome de leis que eram o símbolo da iniquidade.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

MUDAR AS REGRAS



Mario Benedetti (leio no “El País”) contou uma saborosa história (que lhe tinha sido transmitida pelo poeta equatoriano Jorge Henrique Adoum) que não era mais do que um grafitti num edifício. Dizia assim: “Quando tínhamos as respostas, mudaram-nos as perguntas”. A observação parece de proveito e exemplo para aquilo que nos acontece a todos, pobres cidadãos desta triste e pobre Europa, que todos os dias vêem mudadas, por políticos ou zelosos funcionários de troikas, as regras da vida, rasgados os compromissos, assaltados os bolsos dos contribuintes. As perspectivas de futuro, o direito à esperança, a crença na democracia, as hipóteses (mínimas) de felicidade, tudo nos é roubado por criminosos sem cadastro e sem inquietações éticas. “Quando tínhamos as respostas, mudaram-nos as perguntas”. As respostas, que continuamos a saber, sejam quais forem as perguntas, são cada vez mais sombrias.

domingo, 17 de novembro de 2013

COMILÂNDIA


Como se quisesseem desmentir o anátema da desertificação, a que o centralismo as condenou, as terras do interior inventaram festivais de gastronomia que sacodem agora a apatia dos indígenas e fazem cócegas aos estômagos dos visitantes. Como antigamente faziam os partidos, quando eram os militantes de base (e não empresas) que cumpriam as tarefas de propaganda local, levantam nas avenidas ou nas ruas, entre árvores de tronco grosso ou candeeiros de iluminação pública, dísticos apelativos às pupilas gustativas, ou à beira das estradas, cartazes provocatórios à fome.
A Comilândia abre os seus menus, na confluência das diversidades no garfo ou na simples competição de vizinhança, pois cada terra se agarra ao seu uso com a hiperidentidade de não querer ficar orfão de tudo. A Comilândia transforma-se, assim, no microcosmos das regiões que não temos, e, em vez de uma dimensão regional para os comes e bebes, divide-se o mal pelas aldeias, pois assim se abençoa a felicidade de todos.
A verdade é que não há semana ou mês que os brios culinários de aldeias perdidas na serra ou em vilazinhas de relativo crescimento urbano não se mobilizem para a invenção de um cardápio de circunstância que anime as hostes locais ou desperte a curiosidade dos forasteiros. Esta política, apoiada por todos os poderes locais, é melhor e mais eficaz do que inaugurar fontanários ou fechar escolas, que é uma actividade muito em voga nos tempos que correm. Há até, segundo parece, fundos comunitários para iludir a desertificação ou simular uma fugaz alegria colectiva.
Quem passar pelas ruas e avenidas já não estranha a rotina dos dísticos que anunciam o calendário das festas, tantas e tão variadas que dão para todos os gostos. Festa dos Míscaros, Festa das Castanhas, Festa dos Enchidos, Festa das Sopas, Festa da Pastinaga, Festa das Cerejas, Festa dos Queijos, Festa do Pão, Festa dos Chocalhos, Festa das Chouriças, Festa do Feijão Pequeno, Festa das Papas, Festa da Caça, etc… O registo é efémero, pois a elas haveria a juntar os bodos e todas as outras iniciativas animadas por confrarias, que vão do Vinho e do Azeite à Cherovia ou às urtigas e aos nabos.
Num país marcado por tantas desgraças e apertos de cinto, estas festas têm porventura um sentido lúdico e popular, que talvez engane muitas fomes. Mas não deixa de ser curiosa expressão política de episódicas tradições, confinadas há uns anos a uma geografia limitada, e que agora se reproduzem para sã alegria do povo.
Em tempo de crise, em dias de um país ao contrário e de estômagos vazios, com gente com vontade de comer da barriga à boca, como por cá se dizia antigamente, até se pode pensar que o senhor Passos Coelho, mais a ministra Luís das Finanças e o Pires da Economia buscam nesta Comilândia os sinais da inversão do ciclo da recessão e da retoma da economia. Andarão por aí, disfarçados, a provar os míscaros dos chefes, os queijinhos à medida, dos enchidos divinais, tudo com pipinho de bom vinho a compasso?