sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O BORDEL DA POLÍTICA

Ilustração de Zé Dalmeida

Há uma reacção epidérmica de quase duas centenas de intelectuais franceses, num manifesto que afirma o seu direito de terem alegremente acesso à mais velha profissão do mundo. De facto, um projecto lei em discussão pretende tirar-lhes esse direito.
Também em Portugal recorrentemente surgem propostas para que o fenómeno da prostituição seja configurado à opacidade, impedindo que os virtuosos olhos dos cidadãos comuns se confrontem com a sua visibilidade na via pública, que é desagradável. Historicamente, esta questão está contaminada por grande dose de hipocrisia e cinismo, fazendo lembrar o poema de Sophia, quando falou daqueles sujeitos que não gostam de matar galinhas, mas gostam de comer galinhas.
Circunspectos jornais e televisões, que na sua narrativa da informação batem muito no peito e às vezes assumem posturas de balofo moralismo, são os mesmos que, em espaços de publicidade, fazem a apologia da prostituição, com sugestivas imagens e telefones, uma espécie de prostituição climatizada, longe dos olhares da rua.
Na verdade, há muitos tipos de prostituição, da política à alta finança, e, nestes casos, com práticas bem mais nocivas, no plano social, do que as que envolve a mais antiga profissão do mundo, onde a desigualdade e a margem têm peso determinante. A prostituição política tem formas expeditas e tão peritas, exerce-se a bom recato, nos gabinetes do poder, e revela sempre uma promiscuidade em que interesses espúrios, ligados ao dinheiro e aos mercados, se exercem contra o povo. A prostituição não é, apenas, a que se pratica no Parque Eduardo VII, ou à beira de estradas mais ou menos solitárias, mas a que se exerce, com carácter não irrevogável, através da mentira, pendurando no bengaleiro da conveniência política do momento a consciência.
Mentem, vestem posturas de anjinhos para enganar os cidadãos, metendo no bolso tudo aquilo que juraram servir, a começar pela Constituição, dizem uma coisa e o seu contrário, lançam o país na miséria, como se a pobreza fosse o único destino possível, são uma categoria de sujeitos que o povo, quando os vê sair rua, costuma classificar de "gatunos" e "mentirosos". Houve já quem os remetesse para aquela espécie de categoria de prostitutas respeitosas,
As vezes, quando as malfeitorias dos cavalheiros se tornam insustentáveis, o clamor sobe de tom e não faltam insultos que visam as suas mãezinhas e vão até à quinta geração. Mas a verdade é que são eles as prostitutas, capazes de vender o corpo e a alma, no bordel da política.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O ZECA AVISANDO A MALTA


Ao mexer em papéis perdidos, na gaveta do tempo, os olhos caíram nesta foto do Zeca. E como se o tempo tivesse parado, como Goethe gostava de dizer dos instantes surpreendentes em que a poesia é fértil em oferendas, regressei ao momento em que o Zeca cantou no Fundão para celebrar Abril. Era Maio de 1974, um mês que então já se podia cantar livremente ("eu canto para ti um mês de Maio", diziam os versos da "Praça da Canção") e a poesia estava na rua, iluminada pela arte poética de Sophia e a caligrafia de cores de Vieira de Silva, que nesse cartaz simbolicamente festejavam a liberdade livre que Portugal respirava.
Nessa noite de Maio, o Cinema Gardunha encheu-se de fraterno calor humano para celebrar os novos tempos, com o esplendor daquelas canções que, dizia Carlos de Oliveira, iam ao encontro das cidades futuras. Era, como então se dizia, um colectivo de cantores e cantautores, que incorporavam a nova vivência da liberdade na geografia sentimental de um país que se libertava lentamente de séculos de servidão e tirania. Ao arrepio do feitio do Zeca, sempre o comum dos homens, todos giravam à sua volta, num companheirismo que não assumia mácula de reverência mitificada, mas apenas tinha em conta que o autor dos "Vampiros" era verdadeiro símbolo da resistência, e, ao mesmo tempo, figura central da renovação da canção portuguesas e da sua poética. Não me lembro de todos, mas sei que estavam com o Zeca, o Fausto, o Adriano, o Manel Freire, o Fanhais, o Vitorino e mais não sei quantos.
Foi um concerto memorável. Lembro-me bem. Na solidão de um canto do Cine, o Zeca, exausto, com a cabeça sobre o tampo de mármore da mesa, a iludir o ganho de algumas forças para, minutos depois, amplificar no palco as suas canções de intervenção -- e lá vinham Os Vampiros, O Menino do Bairro Negro, porventura A Morte Saiu à Rua, arrepiante canto sobre o assassinato do escultor Dias Coelho, ou o célebre louvor de Catarina Eufémia. Não cantou as suas belíssimas canções líricas ou de matriz tradicional, que os tempos exigiam versos que pusessem os homens a pensar.
O que verdadeiramente espantava era a sobriedade com que o Zeca encarava o Canto Livre. Ele dizia-nos que era apenas mais uma voz a somar ao clamor colectivo de inquietação comum para transformar a realidade das coisas. Nos pequenos e grandes momentos, sobressaía a sua voz clara e inconfundível convocando-nos para o sonho da utopia de um país a edificar, mais habitável, "inteiro e puro". Talvez isso explique o facto de "A Grândola" se ter tornado hino de todas as esperanças, às vezes eco distante de uma revolução.
Olho para a fotografia dessa vibrante noite de Verão, lembro o coro que se aliava à voz do Zeca ("eles comem tudo, eles comem tudo") denúncia que então se cantava como se fosse uma exigência de mudança para os "vampiros" não voltarem mais, e penso como as canções do Zeca, quase 40 anos depois do 25 de Abril, têm cada vez mais actualidade e são hoje um suplemento de esperança para a "apagada e vil tristeza" dos nossos quotidianos.


É preciso avisar a malta! Com carácter de urgência.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

VITOR SILVA TAVARES: 40 ANOS DE RESISTÊNCIA



Estou grato à Alexandra Lucas Coelho por ter, no "Púlico Domingo", escrito uma belíssima prosa sobre "Vítor Silva Tavares & Etc". Fiquei a saber do lançamento de um livro sobre o Vítor: & Etc -- uma editora no subterrâneo, iniciativa justíssima, que assinala 40 anos de resistência. No deserto cultural, que é a informação em Portugal, recaíu um silêncio denso sobre o acontecimento, que não significa outra coisa senão o analfabetismo reinante. Escreve Alexandra Lucas Coelho: "Amante de livros e radicalmente livre", diz o primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vítor Silva Tavares. Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem alimentar o mercado".
O Vítor Silva Tavares sempre rompeu caminhos e lembro como a sua postura em recusar o lugar-comum cultural, o provincianismo balofo das ideias feitas, constituíram sempre um caderno de encargos que ele cumpriu sempre como obrigação cívica e cultural. Foi assim, por exemplo, quando a aventura do & etc... se transformou em realidade no "Jornal do Fundão". Eu era jovem e assisti, fascinado, a esse combate, uma experiência memorável.
O & etc... nasceu de uma ideia partilhada entre o José Cardoso Pires e o Vítor Silva Tavares, abraçada por António Paulouro, para quem a cultura era uma matriz fundamental do seu jornal.O primeiro número do & etc... saiu em Fevereiro de 1967, "magazine das Artes, das Letras e do Espectáculo que se transformaria no suplemento cultural mais importante e inovador publicado na imprensa portuguesa. Tudo, trabalho do Vítor Silva Tavares. Lembro-me muito bem como era: as provas eram remetidas à Censura, em Lisboa, sofrendo cortes sobre cortes, às vezes os textos eram totalmente inutilizados. Uma vez por mês, o Vítor Silva Tavares chegava ao Fundão, pela noite dentro, que a viagem de Lisboa, de comboio, era longa e chata. Quando o atraso do comboio era excessivo, o meu tio, António Paulouro, mandava arranjar uns pregos no Caninhas, com bom vinho do Fundão e uma aguardente velha, especialmente recomendada, e tudo ficava à espera do Vítor, no agasalho do seu gabinete (no Inverno a lareira crepitava).
No dia seguinte, o Vítor Silva Tavares iniciava a sua saga, na tipografia, cozendo os textos, escrevendo, paginando. E o & etc... saía. Era um território de liberdade, com um formato e um grafismo altamente inovador, que se foi publicando até 1970, com colaboração dos nomes mais destacados da cultura portuguesa. Tantos anos depois, ainda há quem se lembre desse suplemento cultural. Ainda há meses, num encontro sobre Eduardo Lourenço, na Guarda, o escritor Almeida Faria me dizia que o & etc... deveria ser objecto de uma edição fac-similada.
Do & etc... suplemento, o Vítor Silva Tavares passou ao & etc... revista e prosseguiu depois com a editora & etc.., aqui com "uma total recusa de subserviência aos poderes culturais", como assinala Alexandra Lucas Coelho. O que é verdadeiramente singular é a coerência do percurso de Vítor Silva Tavares e a alta qualidade das suas edições.

Uma vida, "o caminho de um só homem", escreveu Alexandra, "quase uma espécie de guerrilha, a força de um homem livre": Vítor Silva Tavares.

domingo, 24 de novembro de 2013

O MEDO DAS PALAVRAS

Ilustração de Zé Dalmeida

Parece que quem escreve ou fala, dando expressão pública ao pensamento e à indignação, sofre hoje a contingência do politicamente correcto, como um anátema ou uma censura digna de fogueira inquisitorial. Não faltam por aí criaturas sensíveis e virtuosas, que às vezes fazem lembrar fogosas virgens nos prostíbulos, apregoando aos quatro ventos a subversão das ideias dos cidadãos que se atrevem a levantar a voz contra a iniquidade reinante e a falta de escrúpulos de políticos que todos os dias nos oferecem o inferno no calendário da actualidade. Uns não percebem, outros fingem não perceber, que não são as palavras que são violentas, mas a realidade que elas procuram significar. Se dermos atenção aos quotidianos sofridos que hoje configuram a vida dos portugueses, percebemos imediatamente que há situações sociais que, pela dimensão de tragédia humana que incorporam, são indizíveis, isto é, nunca haverá palavras que traduzam a totalidade dos dramas.
Será assim, decerto, na sociedade portuguesa, face aos que sofrem a fome de pão elementar, aos humilhados e ofendidos que viram a esperança assassinada e não têm outros horizontes senão a morte a prazo, ou mais no imediato se lançam sobre a linha do comboio ou encontram outras formas expeditas de pôr termo à vida. Eles, os arautos do poder, fingem não perceber que transformaram Portugal num inferno e, sendo os obreiros dessa desgraça, tentam iludir a “espantosa realidade das coisas”, com o cinismo de uma indignação que só enganará os tolos. Os mesmos que mentiram e mentem, os mesmos que não respeitam a sua própria palavra, fazendo dela um mero expediente para alcançar lugares na galeria do governo, os mesmos que fazem o elogio da pobreza e de uma certa “escravatura” moderna no trabalho, armam-se agora de um discurso moral para increparem os que protestam, como se estes, porque dizem não, pusessem as ideias da pátria em estado de sítio.
Pensava nisto a propósito da sessão da Aula Magna e da liturgia do comentário dominante dos serventuários do poder em exercício e dos seus chefes da situação. 
O que eles gostariam mesmo era que não se dissesse absolutamente nada, ou dizendo, tivessem cuidado com as palavras para não importunar o sono e as indigestões de quem manda. Falassem -- mas com o alfabeto do politicamente correcto, estivessem calados.
Estes apelos à boa conformidade dos interesses do poder fez-me lembrar uma saborosa crónica de Jorge Reverte, em que o jornalista espanhol discorre sobre as questões da linguagem e da sua articulação com o politicamente correcto. Então, ele conta a história de dois canibais, pai e filho, que caminham pela selva e chegam a uma clareira. Aí, iluminados pelos potentes raios do sol tropical, vêem uma mulher branca, lindíssima, completamente nua. Os dois selvagens ficam atónitos, contemplando-a. O filho pergunta:
-- Comemo-la, papá?
-- Não! -- responde o pai. -- Levamo-la para a nossa cabana e comemos a tua mãe!”
Os que assistiam à cena riram-se com a anedota, menos duas mulheres que questionaramm o narrador:
--És um machista!”
O homem desculpou-se e mudou de conversa.
Uns dias depois, em circunstâncias parecidas, começa outra história.
Vão duas mulheres canibais, a mãe e a filha, pela selva. Ao chegarem a uma clareira, encontram um homem branco, belíssimo, totalmente nu. A filha propõe à mãe:
-- Comemo-lo?
-- Não! -- diz a mãe. -- Levamo-lo para a cabana e comemos o teu pai!
As mulheres que assistem à cena partem-se a rir, como os homens. Ninguém protesta.
O narrador, escreve Jorge Reverte, encontrara o ponto de vista correcto.
Mas a história tem a ver com outra coisa, bem mais grave. É que hoje, na exigência do ponto de vista correcto, não faltam os que querem impor a alteração da narrativa para mistificar a realidade. E querem, por isso, que contemos outra história. Ou não contemos nenhuma.