sábado, 7 de dezembro de 2013

VICTOR JARA, LEMBRAM-SE?





Ontem, na noite fria de Alpedrinha, numa tertúlia de amigos, o Francisco Fanhais veio, trazendo a viola e a sua generosidade, dar-nos um suplemento de esperança, com as suas canções e os poemas de Sophia, e também o cancioneiro do Zeca, com as suas histórias, as suas esquinas de amigos e os rostos de igualdade. O tempo estava gélido, cá fora uma geada a pintar de branco telhados e campos, mas a fraternidade do canto e dos poemas era um lume que nos aquecia a aqueci a alma. A certa altura, o Fanhais falou dessa capacidade do canto e da poesia para acordar consciências adormecidas, como acontecia antes do 25 de Abril, depois da liberdade e agora, outra vez, nos dias de hoje, de tempos sombrios de pobreza e de direitos sonegados. E falando no fio destas coisas, que se cruzam com o tempo vivido, surgiram as histórias com o Zeca Afonso e memórias de jornadas com outros companheiros de liberdade.

Lembrei-me então dos combatentes da sombra, e, não sei porquê, como um gelo que de repente se interpusesse na noite fria, surgiu-me a memória e a imagem de Victor Jara crucificado (é uma metáfora, claro) no Chile que a besta fascista de Pinochet (esse mesmo, que o FMI e os Estados Unidos de Kissinger e outros comparsas abençoaram!) transformara num inferno de mortes e assassinatos. Mas porquê este gelo súbito da memória, que feria como uma lâmina? Por um nome,apenas: Victor Jara. 
O cantor, que fazia da canção uma arma, tornou-se um símbolo da batalha por um mundo fraterno e justo. As suas canções constituíam uma música de esperança e ouviamo-lo como se ele fosse um daqueles poetas que parece que vêm do fim do tempo e cujas sílabas procuram apenas uma “humanidade nova a inventar”. 
Victor Jara era a voz do Chile democrático do Presidente Allende, mas as suas canções passaram por cima das fronteiras como música universal em louvor do homem. Quando Pinochet, com a cumplicidade americana, fez o golpe fascista e tomou de assalto La Moneda, pondo fim a uma experiência democrática de socialismo, Victor Jara logo foi encarcerado. Era perigoso, cantava poetas e despertava consciências! O que lhe aconteceu depois, sabe-se e ainda arrepia só de ouvi-lo contar. Os torcionários de Pinochet queriam calar a sua voz, mas fuzilá-lo não era talvez suficiente. A morte foi um ritual longo, uma lenta crucificação sem cruz, aqui não é metáfora, não. Foram-lhe partindo lentamente os dedos das mãos, perigosos porque tocavam viola, e desfigurando a face e a boca, corpo do delito da fala e do canto. Foi um homem desfigurado, totalmente aniquilado na sua estrutura humana, um corpo de massa informe, que os carrascos despejaram naqueles locais sombrios que eram os cemitérios ao luar de Pinochet. 
Entre muitos crimes contra a humanidade, o assassínio de Victor Jara comoveu o mundo. Victor Jara era um jovem que sorria ao sol da liberdade. Ele e não sei quantos mais milhares de outras vítimas, encontradas em lugares longínquos, valas comuns, ou desaparecidos na vertingem da violência, deixaram por fazer muitos gestos de amor, muita felicidade, muitos beijos e alegria, como Jorge de Sena escreveu num poema célebre a propósito dos fuzilamentos de um pintor chamado Goya. Fica sempre muita vida por haver. No caso de Victor Jara, ficou a memória feita de canções pela liberdade. Mas a memória do crime é uma lâmina de gelo que desassossega a memória. A imagem de Jara dissolve-se lentamente, ao som da Grândola, a tal canção que incomoda certa gente.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

ABRAÇO PARA O ZÉ DALMEIDA, INVENTOR DE ALEGRIA


Preso a uma reunião do Conselho Geral da UBI, a que não posso faltar, não poderei ir dar um abraço ao Zé Dalmeida, ao Museu Bordalo Pinheiro, na inauguração da sua exposição de cerâmica sobre os poetas.Lá irei, logo que possa, porque o universo da poesia, na aventura criadora do Zé, tem um lugar muito especial. No caso do Zé Dalmeida, que já fez tantas exposições, o lugar do acontecimento, ligado a Bordalo Pinheiro, tem uma enorme carga simbólica, pois no garimpo da ironia, na paixão pela cerâmica, no traço da caricatura, este fundanense das artes plásticas nunca escondeu uma admiração funda pelo criador do Zé Povinho, que ele, aliás, recuperou para exercer uma crítica admirável sobre essa figura mítica nos labirintos de uma Europa, que nos olhava de longe. Mas a paixão pela obra criadora de Bordalo foi tão forte que o Zé andou pelas Caldas da Rainha, seguindo as pisadas do Mestre, praticando a arte da cerâmica no calor de uma actualidade política e social, que é sempre o melhor alimento do humor.
Companheiro de mIL projectos culturais, não esqueço que o Zé Dalmeida ilustrou “Os Fantasmas Não Fazem a Barba”, numa leitura notável das minhas personagens de ficção, a que ele soube dar força, nunca se desviando da dimensão humana da narrativa. São tantas as vivências de companheirismo, tantas as cumplicidades culturais, que sempre que o Zé Dalmeida acrescenta mais um facto à sua biografia de artista, a mim me parece que esse passo não é outra coisa senão o caminho que se faz andando, connosco (os seus amigos) a seu lado, partilhando as alegrias dos instantes que ele é pródigo a criar.
Tenho escrito algumas vezes sobre o Zé e a sua obra, e agora, como se quisesse dar-lhe um abraço de palavras, fui buscar um texto que sobre ele escrevi em 2002, e dele retiro um pedaço para um retrato abreviado do seu percurso criador: “Sempre a sonhar fazer coisas, sempre voando sobre a realidade, reinventando-a, com os seus desenhos, a sua pintura, o seu humor, as suas cores. Penso que ele trouxe das alturas da Beira, essa capacidade de olhar ao longe e para longe, essa capacidade de saber ver o conjunto e o detalhe, essa humildade de saber olhar a árvore e a floresta, essa percepção das cores bebida no alto da Gardunha. Vejo sempre o Zé indiferente aos aplausos da claque, jamais trazendo os prémios (e tem muitos) na lapela da realização pessoal. Gosta, sobretudo, de partilhar os sucessos com os amigos. E, sobre tudo isso, guarda intacta uma fidelidade à terra que foi o seu universo original, matriz identitária, memória ancestral de saberes e de sabores. Inventor de alegria, é o que ele é, digo eu, acrescentando logo: e de ironia”.
É isso: alegria e ironia são coisas presentes em tudo o que o Zé Dalmeida faz. E é esse traço identitário da sua aventura criadora que estará presente na exposição “Poetas como Nós”. amanhã, dia 6, a partir das 19 horas, no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa.
Saravah, Zé!

QUEREM MATAR OS MAIS VELHOS DA TRIBO


Talvez não haja exemplo de maior desumanidade -- prática política verdadeiramente criminosa --, do que a relação conflitual que o poder instalado, segundo o figurino da Troika, estabeleceu com a geração mais velha, esse universo de pessoas que passou uma vida inteira a trabalhar, suportou desigualdades e servidões, comeu o pão que o diabo amassou, chega ao fim da linha às vezes numa situação socialmente frágil, e que ainda sustenta filhos e netos, cujas vidas este governo desgraçou. Essa geração mais velha é tratada agora com total desprezo, como se viver mais tempo fosse um pecado capital, que tem de pagar caro, em sofrimento e dor.
Não percebem esses tipos que, assassinando a esperança aos mais velhos da tribo, estão, também, a matar os horizontes de futuro dos mais jovens. A grande maioria vive a equação dos dias com a sobriedade possível, conta os tostões que restam para perceber se ainda pode ir à farmácia comprar os medicamentos que o médico prescreveu, ou se o dinheiro do mês, ferido por cortes injustos, ainda dá para prolongar a sopa. Querem muito pouco, já falham as forças para a indignação do protesto, encontro muitos que me dizem apenas quererem que os deixem viver os dias que restam em sossego, e se possível ("não é pedir muito, senhor") não lhes retirem o sol que gozam como benesse suprema, num banco de jardim ou colados a um muro branco, ou de pedra larga, no resguardo quotidiano do Inverno. Às vezes, estão sozinhos, falam para si próprios as agruras da vida, ou acompanham as companheiras de uma vida nessas deambulações pelos bairros da cidade ou pelo largo da aldeia, onde os vizinhos são a solidariedade de proximidade, que garante a felicidade possível dos dias.
São felizes nessa precariedade, nesse padrão de vida austera, e muitos dizem-me que são felizes assim e só temem que venha o dia em que lhes tirem o sol e os remetam para aqueles lares que são espécie de armazéns onde se aguarda a vez de morrer. Os que configuram o país a uma austeridade demencial fazem da vida um deve-haver de morte:  quanto mais cedo partirem melhor, que o universo da velhice é improdutivo e só dá despesa. Uma vergonha.
Fiquei a matutar nisto porque li o artigo de Pacheco Pereira, no último sábado, no "Público", intitulado "Os velhos: não é possível exterminá-los?", que é uma radiografia cruel sobre o que se está a passar em Portugal com essa geração, o que representa um retrocesso civilizacional lamentável.
É um longo texto em que, na parte final, o autor utiliza a metáfora sarcástica de Jonathan Swift (“Swift escreveu em 1729 uma sátira sobre a pobreza na Irlanda chamada Uma moderna proposta para evitar que as crianças dos pobres irlandeses sejam um fardo para os seus pais e o seu país e para as tornar um benefício público). Pacheco Pereira escreve logo a seguir: “Aconselhava os pobres a comerem os filhos, como meio de combater a fome, “grelhados, fritos, cozidos, guisados ou fervidos”. Na verdade, quando se assiste a este ataque à condição de se ser mais velho -- um aborrecimento porque exige pagar reformas e pensões, faz uma pressão indevida sobre o sistema nacional de saúde, e, ainda por cima,  protestam e são irreverentes --, podia avançar-se para uma solução mais simples. Para além de os insultar, de lhes retirar rendimentos, de lhes dificultar tudo, desde a obrigação de andar de repartição em repartição em filas para obter papéis que lhe permitam evitar pagar rendas de casa exorbitantes, até ao preço dos medicamentos, para além de lhes estarem a dizer todos os dias que ocupam um espaço indevido nesta sociedade, impedindo os mais jovens de singrarem na maravilhosa economia dos “empreendedores” e da “inovação”, será que não seria possível ir um pouco mais longe e “ajustá-los”, ou seja, exterminá-los?”

Estas palavras de Pacheco Pereira fizeram-me lembrar um grande escritor italiano, que eu cita com alguma frequência. Élio Vitorini, escreveu no pós-guerra uma novela que intitulou “Consideram-nos mortos e morrem”. Agora, aqui, neste país do sul, tantos anos depois desses anos que respiravam tragédia e pobreza, me lembro da ficção de Elio Vitorini para dizer que eles, os nossos homens do poder, consderam os velhos quase mortos, e querem matá-los.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O ELOGIO DA POESIA



O poeta Nuno Júdice, que há dias foi galardoado com o Prémio Rainha Sofia, em Madrid, foi hoje, ao fim da tarde, homenageadp No Teatro Nacional D. Maria II. A homenagem, claro, foi à poesia portuguesa, de que Nuno Júdice é um dos nomes mais destacados. O poeta leu, no final, um poema (dedicado a Bernardo Sassetti). Não havia melhor forma de fazer o elogio da poesia.

ADEUS, CORREIOS!

Ilustração de Zé Dalmeida
Começa o Requiem pelos CTT, como empresa do Estado, isto é, de todos nós, altamente lucrativa -- que contribuía para a sustentabilidade financeira do país, desígnio nacional com que o governo anda sempre a encher a boca. Agora, outros valores mais altos se levantam, os do dinheiro, que é o que implica a cedência de um bem público aos interesses privados. Neste processo, como em outros (os estaleiro de Viana, por exemplo), as públicas virtudes, que deviam ser inseparáveis do governo, foram dependuradas (como as consciências) no bengaleiro do mercado público, para utilizar um verso de Manuel Alegre.
Mas tendo em conta a tipologia da empresa e a sua dimensão pública, é preciso lembrar aos mixordeiros da política que os CTT cumpriam uma função social à escala do território, articulando a possível relação com o mundo de precárias unidades sociais do mundo rural, quebrando muitas vezes a solidão do espaço e do tempo, participando do universo das populações mais isoladas. Como outras empresas do mesmo tipo, em todo o mundo e, particularmente na Europa, cumpria o serviço público, conceito que esteve, aliás, na génese da sua criação.
Durante anos, os CTT lutaram pelo projecto de um Banco público, que foi sempre questão bloqueada pelo poder (o dr. Luís Nazaré bem lutou por isso...). Agora, no processo de privatização, já se noticia essa possibilidade. É certamente a magnanimidade do governo na forma da negociata se revelar uma espécie de euro-milhões garantido para os beneficiários
Neste momento do início do Requiem pelos CTT, lembro a saga de homens e mulheres que, a pé, calcorreavam montes e vales, defrontando invernias e meios inóspitos, à chuva, à neve, ao vento, ou expostos ao calor abrasador do sol a pino, na estiagem longa e rigorosa da Beira, levando aos ombros o saco com  encomendas e as cartas, que às vezes vinham de longas distáncias, dos caminhos da diáspora, para atenuar os "labirintos da saudade".
Longe dos tempos das novas tecnologias, que fizeram do mundo uma aldeia, houve casos verdadeiramente heróicos, como o caso da Ti Emília do Correio, da Barroca, que, nos anos 80, o "Jornal do Fundão" trouxe a público, homenageando uma velhinha, de cabelos brancos e sorriso bonito, que tinha dado várias voltas à Terra a distribuir correio, e vivia, então, com uma reforma de miséria.


Talvez nada defina melhor o carácter de interesse público dos CTT do que a a história de vida da Ti Emília do Correio, como lhe chamavam nessa corda de aldeias isoladas que ela servia, como se fizesse festas aos filhos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

DANÇAS DE MORTE NA MENTIRA DOS BRANDOS COSTUMES





O mito do país dos brandos costumes é desmentido a toda a hora com a narrativa de quotidianos sombrios, habitados por pessoas reais, onde a violência contra a mulher, pelo seu carácter demencial, se transforma em banalização de infernos à escala doméstica. Às vezes, são dramáticos universos psicológicos, agressões que, por serem íntimas e privadas, na opacidade de quatro paredes, se revelam feridas de difícil cicatrização, ou que não cicatrizam nunca; outras, são situações que emergem da crónica judiciária, que se eleva da espuma dos dias, episódios banhados em sangue que alimentam abundantemente o jornalismo de faca e alguidar, explorador da dor alheia até ao osso.
Durante muitos anos, a debilidade cultural e uma sociedade esvaziada de valores, impôs a subalternização da mulher, tratando-a mais como objecto do que como pessoa, e a mentalidade resultante de uma realidade social profundamente desigual e temporalmente longa na história aceitou sempre como natural, até no plano jurídico, aquilo que o não era. Daí a complacência com que era tolerada a violência contra a mulher no espaço doméstico, como se se estivesse perante a fatalidade de um destino de que não haveria escapatória possível.
É verdade que a sociedade portuguesa viveu mudanças qualitativas assinaláveis, depois do 25 de Abril, visíveis também na mutação da mentalidade colectiva, e que a situação da mulher sofreu, também, uma mutação profunda, sobretudo no reconhecimento de direitos. A literatura documenta bem a configuração dos universos femininos, no antigamente e agora.
No entanto, a questão da violência doméstica, transversal a toda a sociedade, permanece como fenómeno bem presente na realidade, que as estatísticas, aliás, registam, embora pecando decerto por defeito, dado o carácter solitário dos crimes e a pressão social que envolve as vítimas. Nunca saberemos os casos que ficam impunes, sepultados no silêncio e na indiferença
Ganhar consciência cívica desta mancha criminosa que ainda alastra pela sociedade portuguesa (e por todas as regiões) é um dever de dignidade e de cidadania. Vale a pena referir o papel que tem vindo a ser realizado pela Coolabora (programa Violência Zero), prevenindo e acompanhando, pedagogicamente, situações de violência contra as mulheres, algumas na fronteira do limite entre a vida e a morte. 
Vemos, ouvimos e lemos (diz o poema de Sophia) -- não podemos ignorar. Ainda esta semana, o semanário "Reconquista", de Castelo Branco, revelava, em manchete, que havia mais de uma centena (113) novos casos de violência doméstica, em 2013, no distrito. E, ao nível do país, sem brandura de costumes, não faltam histórias que acabam muitas vezes em homicídios, tragédias com requintes de crueldade. Danças de morte que, às vezes, ao contrário do drama de Durrenmatt-Strindberg, acabam antes dos doze assaltos.