sábado, 14 de dezembro de 2013

PORTUGALEX



Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
Hoje, às 17 horas, no Casino Fundanense, amigos reúnem-se à volta do meu mais recente livro, "Crónica do País Relativo - Portugal, Minha Questão" (II Volume) que é uma reflexão sobre a sociedade portuguesa e o "jornalismo de trela curta", que faz de muitas das redacções "lugares mal frequentados", como disse o Manuel António Pina. O livro é, também, de certo modo, uma antologia de crónicas, além de um diário iniciado no início de 2013. Estão lá crónicas do quotidiano, às vezes aqueles pequenos detalhes que Steiner dizia serem "pormenores de Deus" e que, pela dimensão humana, têm leitura à escala de um país, ou mais alé. Com um abraço aos meus leitores, que trazem sempre um amigo também, ofereço um dos textos do livro, publicado no longínquo ano de 1991. Tem por título "Portugalex", e é assim:

"Gente que por um nonada, como diria o Malhadinhas, é capaz de crivar à naifa o abdómen dum cristão. Gente que protesta quando lhe pisam os calos. Gente que silencia a pisadela nos calos do vizinho, mesmo que seja irmão. Gente que não gosta de matar galinhas, mas gosta de comer galinhas. Gente que se indigna e berra com as questões diárias e comezinhas. Gente que encolhe os ombros aos grandes problemas do país. Gente que inventa pátrias e Brasis. Gente que desgraça a vida por uma palavra ou um gesto. Gente que mata por um fio de água ou um protesto. Gente que dá o pão a quem tem fome. Gente que faz da vida uma tristeza enorme. Gente que morre a trabalhar. Gente que vai ao domingo ao futebol e fica à espera do domingo seguinte, para lá voltar. Gente que não arrisca nem petisca. Gente que vive para amar. Gente que gosta de púlpito porque o púlpito é que está a dar. Gente que gosta de ser herói todos os dias, num país que não dá para tanto. Gente que deseja ser santo mas morrendo, se possível, de morte natural. Gente que é capaz de lixar (e também linchar) o parceiro do lado, como é fatal. Gente que cospe no chão etcetera e tal. Gente que faz da vida o seu fado. Gente que morre de coração «inacabado». Gente que faz vénias e manguitos por tudo e por nada. Gente atenta, veneradora e obrigada. Gente que vai ali e já não volta. Gente que se aposenta da vida porque é chata. Gente que não tem onde cair morta... e mesmo assim arrota!"

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O PRESIDENTE QUE NUNCA DEVIA TER EXISTIDO


Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
A folhear o "Diário IV" dos "Cadernos de Lanzarote", de José Saramago, caíram-me os olhos numa reflexão sobre as eleições presidenciais de 1996, em que se opuseram Jorge Sampaio e Cavaco Silva, que mostra bem como nem sempre os desejos, por mais justos que sejam, se cumprem na realidade que nos cabe em sorte. É verdade. Às vezes, um homem sonha que os seus dias não serão visitados por uma espécie de criaturas que parecem incarnar demónios ou fantasmas que, sendo figuras do imaginário, afinal podem ser bem reais para atormentar a vida da gente. Às vezes, um homem pensa que há infortúnios, personificados em figuras de carne e osso (figurões da política), que jamais acontecerão a uma pátria. Mas a história se encarrega de desmentir essas ilusões e mostrar como essas circunstâncias nefastas reproduzem infelicidade e sofrimento. Demónios e fantasmas, então, não faltam por aí, semeando infernos ao domicílio.
É apenas um parágrafo da entrada do diário no dia 13 de Janeiro. Saramago escreve: "Em Lisboa , para votar. Encontro alguns amigos preocupados com o resultado das eleições de amanhã. Tudo aponta para uma vitória folgada de Jorge Sampaio, mas eles duvidam, parece-lhes bom de mais para poder ser verdade. Apresento um argumento para o qual não há resposta: "É impossível que este país tenha como presidente da República um homem chamado Aníbal Cavaco Silva. Não porque não fizesse sentido, mas porque o faria de mais".
Sampaio venceu, folgadamente, logo à primeira volta. Mas o outro voltou dez anos depois, a caminho de Belém, e lá ficou por inépcia e estupidez da esquerda. O resto já todos sabemos como foi e está a ser. Saramago dizia ser impossível, porque a acontecer teria sentido de mais. Lembrei-me de Pessoa: o que não faz sentido, é o sentido que isto tem. Os versos tinham como destinatário outro demónio. Chamava-se "António de Oliveira Salazar/ três nomes em sequência regular"...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O FIDALGO E O SEU CÃO PILOTO

Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
Há três ou quatro anos, escrevi um texto indignado sobre os quotidianos desumanos e cruéis, que passam à nossa volta e se aceitam como inevitabilidade fatal da ordem estabelecida, que o mesmo é dizer de uma sociedade organizada para parecer que a realidade é imutável. A escrita, continha dentro uma história real que exemplificava, na perfeição, essas situações que se banalizam no tempo e que, pela rotina da indiferença, somos tomados a tomar por naturais. Transcrevo a crónica, a que acrescentarei um epílogo, porque também a condição humana que a história reflecte, não é imutável. Dizia assim:

“Na caminhada intemporal do homem, o espaço da desumanidade parece eterno. Os estigmas sociais, tão contaminados pela doença da intolerância; as desigualdades, sempre fabricadas com perícia pela ordem que a vida dos povos foi estabelecendo como realidade inelutável (Portugal é o país da Europa com o maior fosso de desigualdade entre ricos e pobres, dizem os relatórios internacionais); a pobreza como condição inescapável de fatalidade (sempre houve ricos e pobres); a indiferença, como aceitação passiva de tudo aquilo que, por injusto, devia ser naturalmente estranho ao homem. Olhares fragmentários de uma realidade que se reproduz e amplifica, que parecem marginais à vida, mas estão bem dentro dela, expressão colectiva de todos os falhanços e de todas as mentiras dos que, subindo ao poder, nos andaram a prometer um mundo melhor e mais limpo e depois falharam, miseravelmente.
Na navegação dos instantes com que nos confrontamos no dia-a-dia, as imagens dessa injustiça social elementar, tomada como natural (até dizem: “é a vida!” – e há quem se inquiete: “qual vida?”) tornou-se uma enorme ferida exposta da sociedade.
A legião dos que foram desapossados de tudo, a começar pela dignidade, que engrossam agora o rio da pobreza, não pára de crescer e é visível nas ruas do nosso descontentamento, onde passam aqueles que apenas têm de seu umas migalhas de sol e dormem a céu aberto, enroscados em cartão, os seus lares amovíveis. Tudo isto, dizem, é natural, o mundo e os países têm gente a mais – e a riqueza, tão bem concentrada em meia dúzia, não dá para todos, era o que faltava!
Caminhamos, então, entre essas sombras, que às vezes andam à toa pela cidade, sem lugar cativo para viver, à espera do fim de uma linha a que chamam vida e quase sempre não é outra coisa senão morte.
O espaço da desumanidade parece eterno, dizia eu, e os infernos à medida de cada um, que durante séculos pareciam condenações póstumas, estão afinal, agora, bem dentro do tempo que muitos sofrem. Sabemos histórias de pessoas, que assim se chamam ainda, que desapareceram subitamente da nossa vista e viemos a saber depois que passaram a fazer parte daquela categoria de desgraçados que se chamam sem-abrigo, arrastando uma existência miserável que, ainda há anos, parecia condenação a que se julgavam imunes. A desumanidade não só parece eterna, como está dentro das coisas. Ainda agora, nas ocasionais deambulações pela cidade, encontrei o Fidalgo, um desses a que até o nome se cola como um riso de Deus, pela contradição material com a sua existência cósmica. Já uma vez escrevi sobre ele, quando vivia numa casa em ruínas, na rua dos Galegos, cujas janelas e portas desconjuntadas, a que se somavam paredes de geometria difícil, eram sinal de perigo iminente, que alastrava a uma varanda arcaica e periclitante, onde, às vezes, se estendiam ao sol peças de roupa, bandeira de pobreza. A Câmara foi sensível às efémeras palavras de jornal e arranjou-lhe um poiso, retirando o Fidalgo do seu perigo imediato. A casa, ou lá o que era, caiu pouco depois, e quando se passa ao largo e se olha o buraco, ainda há quem estenda a mão e aponte:
–Olha, aqui era a casa do Fidalgo!
Era. Ele anda por aí, pelo coração da cidade, fala à gente, pede um cigarro ou
qualquer coisa para beber, num  linguajar confuso. No outro dia, fixei-lhe o ros-
to lavrado pelas horas ou, se calhar, pelos minutos. O sol tisnou-lhe a pele, inscrevendo-lhe no facies traços de improvável índio das montanhas andinas. Caminhava pela rua, passos que balançavam, instáveis, o peso dos dias medido em cada metro. Lá ia o Fidalgo.
Ele e o seu cão Piloto, que o adoptou como dono e o acompanha por todo o
lado, como escudeiro fiel, capaz de o esperar horas a fio à beira de uma tasca ou de algum café onde entra, com a brevidade de fantasma.
O cão e o Fidalgo: duas vidas difíceis. O cão, que tem apenas três patas (uma terá sido decepada por automóvel em corrida louca) lá vai, atrás dele, suspenso do seu frágil tripé, apesar de tudo sacudindo a cauda por ter um dono para guardar. Um e outro balançam nos seus passos imponderáveis, sob o peso dos dias. A desumanidade parece eterna”.

Dizia eu. Dois anos depois dessa narrativa, o Fidalgo morreu. Num dia, de manhã, encontraram-no morto, em casa, ao lado decerto o seu cão Piloto, que nunca o largava e talvez, até, o tenha acompanhado, seguindo de longe, a meia dúzia de pessoas do funeral. A verdade, porém, é que o bicho, ele que cruzava as ruas da cidade no seu andar periclitante, e que por essa natureza insólita (o cão das três patas!) chamava alguma atenção, sumiu-se, desapareceu na curva da estrada, como dizem que acontece quando se morre.
Se agora lembro o Fidalgo e o seu cão Piloto, é que as luzinhas de Natal começaram a brilhar nas árvores e uma suave música vai-nos criando a ilusão de que a realidade pode não ser tão má, como às vezes a pintamos. Certamente, nesta quadra de ser bom, o Fidalgo aquecia mais alguns cigarros nos lábios, matava porventura melhor a sede e a fome, e o Piloto regalava-se com algumas migalhas de abundância fictícia. Mas quem já se lembra do Fidalgo e porque diabo o trouxeste hoje à conversa, mais ao seu cão Piloto?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O segredo de Nelson Mandela

Na liturgia da morte de Nelson Mandela, há uma boa dose de unanimismo cínico. Essa contingência da apropriação post mortem era, porventura, inevitável, num homem com a grandeza de Mandela, que marcou a história do nosso tempo de uma forma indelével, e que, ao contrário de muitos outros, que possuem dentro de si todas as verdades do mundo, não se limitou a interpretar o mundo -- mas quis, antes, transformá-lo, tornando-o mais habitável e feliz.
Todavia, a história de vida de Mandela é uma biografia política complexa, tão singular na persistência de ideia de justiça, tão determinada na conquista da liberdade, tão eficaz no louvor do diálogo, tão solidária na dimensão da fraternidade que não me lembro de um rosto e um nome terem assumido uma tão grande carga simbólica à escala planetária. Dizer Mandela -- Madiba para o seu universo de pertença -- é o mesmo que dizer Liberdade, Igualdade, Fraternidade, e, a esses qualificativos tão referenciais, poderíamos sempre acrescentar outros igualmente mobilizadores como Justiça, Felicidade, Resistência. É assim que olho para as imagens fragmentárias que pretendem ser a síntese de uma vida (como se a vida de um homem como Mandela se pudesse resumir num filme!), é assim que eu vejo, agora, de novo, com a emoção com que assisti à história em directo, que foi a sua libertação do longuíssimo cárcere.
O que me fascinou sempre em Nelson Mandela, mesmo quando começámos a perceber que na sua condenação a prisão perpétua, em Robben Island, ele era um homem livre, apesar de todos os trabalhos forçados e de todas as violências do Apartheid terem como propósito diminuí-lo na humanidade comum, que era a sua forma de ser e de estar. Não é possível, hoje, deixar de pensar nesses tempos duros e iníquos em que Mandela, por assumir a luta de libertação, era o prisioneiro número 46664, catalogado, pela ordem do poder dominante, como perigoso terrorista. E, por isso, um daqueles tribunais que condenam os justos, com artifícios legais que são meros instrumentos de repressão, o condenou a prisão perpétua. Alguns dos que abençoavam a sua condição de prisioneiro e consideravam Mandela como terrorista, um perigo para a sociedade, não deixaram de participar, agora, no elogio post mortem, no tal exercício de hipocrisia e cinismo em que a política é fértil.
Mandela foi um dos insubstituíveis. E mostrou que, na maior adversidade, como na mais intensa vitória, o homem ainda pode ser a medida de todas as coisas. De muitos acontecimentos, com a marca de exemplaridade moral, guardo o que ele disse quando recusou a oferta da sua libertação, sem condições. “A liberdade não se vende,só um homem livre pode negociar”, afirmou o cidadão Nelson Mandela, como legenda de irrecusável dignidade. É bom ler a sua autobiografia, “Longo Caminho para a Liberdade” para percebermos como o homem pode ser muito mais do que as suas circunstâncias. Mergulho nas densas páginas desse livro, e deixo-o falar, como se estivesse, afinal, a convocar-nos, com a sua sabedoria, para a exigência de uma cidadania plena:
“A liberdade é indivisível; as cadeias que acorrentavam um só elemento do meu povo eram cadeias neles todos, as cadeias em todo o meu povo eram cadeias em mim. Foi durante esses longos anos solitários que a minha fome de liberdade para o meu povo se transformou em fome de liberdade para todos os povos, brancos e negros. Sabia muito bem que o opressor precisava tanto de ser libertado como o oprimido. Um homem que rouba a liberdade a outro é prisioneiro do ódio, está preso por trás das grades dos preconceitos e da estreiteza de vistas. Não sou verdadeiramente livre se tiro a liberdade a alguém, da mesma forma que não sou livre quando me tiram a minha liberdade. O Opressor e o oprimido são igualmente privados da sua humanidade.
Quando saí da cadeia, essa era a minha missão, libertar tanto o oprimido como o opressor. Algumas pessoas dizem que isso se conseguiu agora. Mas eu sei que não é verdade. A verdade é que não somos ainda livres; alcançámos apenas a liberdade de sermos livres, o direito a não sermos oprimidos. Não demos o último passo da nossa viagem, mas sim o primeiro de uma estrada ainda mais comprida e difícil. Pois ser livre não é somente arredar as correntes, mas viver de uma forma que respeite e realce a liberdade dos outros. O verdadeiro teste da nossa dedicação à liberdade está a começar.
Percorri esse longo caminho para a liberdade. Tentei não fraquejar, dei passos errados ao longo do percurso. Mas descobri o segredo: que, depois de escalar uma grande montanha, apenas se descobre que há muitas mais montanhas para subir. Parei aqui um pouco para descansar, para deitar uma olhada à vista maravilhosa que me rodeia, para olhar para a distância, de onde vim. Mas posso descansar somente por um momento, porque com a liberdade vêm as responsabilidades -- e não me atrevo a demorar-me, pois a minha caminhada ainda não terminou”.
Nelson Mendela. Nosso Madiba!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O DIA EM QUE OS TIPOS DA TROIKA FUGIRAM DE PORTUGAL


Muitos anos depois, os leitores que no silêncio dos arquivos, por acaso, deixam cair os olhos cansados sobre as crónicas dos acontecimentos de Junho de 2014, ainda suspendem a respiração e se interrogam como aquilo aconteceu. Ficam com o olhar suspenso na dificuldade de imaginar a situação real, dado o cromatismo das narrativas e a vivacidade das descrições. Percebe-se, pelo fluir da história, que os cronista não conseguiram distanciar-se inteiramente da realidade e, em vez de relatos quimicamente puros, como dizem que devem ser os registos para a História, fizeram crónicas de jornal, com linguagem imediata, dando sobretudo expressão à fulanização dos actores políticos, em detrimento da dinâmica da política em movimento, bem visível e audível na Praça; a rua, na verdade, voltava a ser a circunstância geradora do dinamismo histórico dos instantes. Nestas ocasiões, bem sabemos que a emoção não se despe da escrita, como quem despe um casaco, e que, no imediato da prosa, contam muito a explosão social percepcionada, a vibração dos protestos, a determinação colectiva da indignação popular, fenómenos sociológicos que vieram desmentir a mansidão servil e os brandos costumes, como o governo gostava de catalogar a populaça. Então, um dos papéis encontrados, muito amarrotado, abandonado numa das arcadas, muito perto do palco dos acontecimentos, contava assim a realidade daquele dia.

Andavam todos muito entusiasmados com a visita da Troika para o último exame. A ministra Albuquerque dava gritinhos de contentamento ("Eu é que negociei! Eu é que negociei!"), mas quando foram informar o vice primeiro-ministro deste espectáculo em curso no Ministério das Finanças, Portas bateu o tacão, muito prussianamente, para exclamar:
-- Para mim, é irrevogável que a Troika é da minha alçada. Eles estimam-me muito, desde que eu meti no bolso as minhas linhas vermelhas e mandei para o inferno dos cortes os pensionistas e os reformados. Aliás, que culpa temos nós que eles agora durem tanto... O Macedo, honra lhe seja, bem tem trabalhado para que a falta de cuidados médicos no SNS avie a cambada dos velhotes e dê mais trabalho às funerárias! 
Portas ajeitou o nó da gravata e chamou Nuno Melo, que tinha passado pelo Ministério para lhe apresentar cumprimentos e receber instruções para a Europa:
-- Oh, Nuno! arranje-me aí um guiãozinho para a última visita da Troika, que eu não posso pedir nada a estes gajos do PSD, que são uns incompetentes e politicamente só metem água. Veja a múmia do Machete, as desgraças que tem feito! Tenho-me farto de apagar fogos por causa das suas besteiras...
Melo deitou mãos à obra e fez uma programação catita, com um roteiro para situações oficiais, as reuniões para o exame final, e depois um outro, para a vadiagem turística, com geografia de grandes restaurantes, visitas a lugares interessantes de Lisboa, uma sessão de fados, claro, e, até, com uma interrogação grande, à margem, a sugestão de meninas para o serão, aquela espécie de fruta que Pinto da Costa, nos tempos gloriosos, gostava de oferecer aos árbitros.
O vice-primeiro olhou para o papel, deu-lhe uma palmadinha com a costa da mão, e exclamou:
-- Não está nada mal, não senhor, tem aqui muita imaginação. Só aqui há uma coisa -- e torceu o nariz. -- Esta história das meninas… eu não gosto!
-- Olhe que eles, frequentam! -- disse o outro, com um sorrisozinho assacanado. -- Então aquele gajo do FMI, que tem um ar voraz, como é que raio ele se chama?, Subir, não é?, tem cá uma pinta -- e dando uma gargalhada: deve ser da escola do Strauss-Kahn...
-- Não se fie nas aparências dos tipos da Troika… -- ripostou Portas, com um gesto largo, estilizado das suas encenações nas televisões. -- Aquele alto e careca, que traz sempre a pasta agarradinha, debaixo do braço, com uns olhos frios por detrás duns óculos banais, até parece um guarda dum campo de concentração nazi, desfardado...
Riram os dois, a bom rir, mas à cautela riscou o programa das meninas,
No dia seguinte, o vice foi a correr ao primeiro, a S. Bento, e levava, no bolso, o guião.
Passos foi cordial, olhou para o programa, analisou, bateu-lhe amigavelmente no ombro, e, com um risinho cínico, perguntou:
-- Oh, Paulo! com tanta night, não faltam aqui umas meninas?
O outro fez um sorriso amarelo, enquanto o primeiro-ministro já o despachava para a porta, com a lamentação sacramental:
-- Meu caro, eu não tenho um minuto de descanso, é muita responsabilidade sobre os meus ombros, se eu me afundo, sabe, é o país que também vai ao fundo comigo. Meu Deus...veja o peso que isto representa...
Ainda Portas não tinha descido as escadas -- a pensar em voz alta: “este palerma julga que está a falar para a História…” -- e já o primeiro chamava o seu ajudante Moedas, grande especialista em vil metal, fazendo jus ao nome, e amante da Troika sobre todas as coisas.
O outro entrou esbaforido no Gabinete, e trazia no seu encalce a ministra Albuquerque, com quem estava num tete-a-tete financeiro, por acaso a falarem de moedas e da gravidez da dívida, que não parava de aumentar.
Passos exibiu o papel de Portas e não se conteve:
-- Olhem só para a merda (desculpe, querida!) de guião, parece a reforma do Estado, caramba! -- exclamou o Primeiro. -- A porcaria que ele me apresentou para a visita da Troika. Pode limpar o guião à parede...
A senhora ministra das Finanças corou um pouco, e tirou logo da mala mais um papel, que entregou ao primeiro-ministro, como quem tira (sem ofensa) um coelho da cartola:
-- Está aqui o programinho todo para a visita da Troika. Todinho. Eu cá sou tu-cá-tu-lá com eles... São uns queridos!
O primeiro foi lendo, e, à medida que lia, abanava que sim com cabeça, num assentimento tácito às ideias da ministra, tudo tão bem feito, tão profissional, tão prestigiante. Mas ainda meteu uma piadinha:
-- Não me diga que há aqui mãozinha do Gaspar?
-- Ora, o Gaspar! -- sorriu ela com aquele sorriso mínimo que, às vezes, escapa à cara de pau, que é sua imagem de marca. -- Ele agora, coitado, não tem tempo para mandar cantar um cego, até vai fazer as contas da crise, ao Costa, no Banco de Portugal…
Passos afastou-se um pouco, a pensar, mas a decisão foi rápida.
-- Está feito! -- respondeu. -- Muito bem achada esta ideia do conselho de ministros reunir com eles no Ministério das Finanças... que é a casa-mãe das finanças, enquadrada pela monumentalidade do Terreiro do Paço, lugar simbólico do poder. Excelente, Luisinha, excelente!
Passos sugeriu que o lugar da reunião fosse mantido em segredo absoluto, por medida cautelar.
-- Cautelar? -- arrebitou as orelhas, Moedas.
-- Sim, por precaução... -- respondeu Passos, umpouco enfadado. -- Eu próprio pedirei aos ministros que fiquem com o biquinho calado.


Brilhavam os lustres do salão nobre, estava tudo um brinquinho. Maria Luís Albuquerque fizera um ajustamento perfeito na decoração do ambiente, que era de festa, sem o parecer. Estavam todos os membros do governo mais o secretário Moedas, espécie de factotum do triunvirato, e, quando a missão dos empregados da senhora Lagarde, do senhor Barroso e do senhor Drahgi chegou ao salão, houve tempo para tilintarem taças de cristal num Porto de honra, em que todos participaram erguendo os copos:
-- À Troika, à Troika! à Troika!
Encaminharam-se para a enorme mesa, que tinha águas, bolachinhas e bonbons, quando surgiu o primeiro equívoco da reunião do Conselho de Ministros alargado. Os membros da Missão estrangeira ficaram ostensivamente de pé, à cabeceira da mesa, até que Passos Coelho, um pouco envergonhado:
-- Façam favor de se sentar e presidir, eu cedo o meu lugar...
E Moedas, muito solícito:
-- Eu dou assessoria, sou um humilde criado de Vossas Excelências!
Ainda os salamaleques não tinham acabado, e já o tipo do FMI, bruto que nem casas, sacava do bloco para a primeira recriminação:
-- Então não desceram os salários da privada? E na Função Pública os despedimentos vão a passo de caracol...
-- Mas... -- tentou balbuciar Passos Coelho.
-- E essa ideia peregrina de aumentar o salário mínimo... -- era, agora, o representante da Comissão. -- Julgam que estão na Alemanha...
-- Mas... -- era, de novo, Passos, mansamente.
O senhor Subir, do FMI, voltava à carga:
-- E as pensões e reformas, quando é que acabam, definitivamente, com essa excentricidade?
-- Mas... -- voltou a intervir o primeiro-ministro.
Ouviu-se, então, um enorme barulho, um clamor que vinha da Praça. O Terreiro do Paço transbordava de indignação, centenas de cartazes levantavam-se ao alto, como nos saudosos tempos do prec. Ouvia-se, distintamente, o coro das palavras de ordem -- "RUA", "TRAIDORES", "GATUNOS", "QUE SE LIXEM OS MERCADOS" -- e, quando Portas desviou subtilmente o reposteiro, para descobrir o que se passava lá fora, ficou com um ar apavorado, como fazia no tempo do "Independente", ao ouvir pronunciar a palavra Cavaco.
-- Aquilo é a revolução! Estão lá todos…
À frente via-se, distintamente, um enorme cartaz, empunhado por dois polícias, que dizia: “TROIKA GO HOME!”
Às vezes, ouvia-se a “Grândola” ou as heróicas, de Lopes Graça, “vozes ao alto, vozes ao alto!”, mas logo se agigantavam as imprecações colectivas, palavras de raiva e de indignação, que pareciam sacudir a cidade inteira.
Eles estavam sem pinga de sangue.
Levantaram-se da mesa, ao mesmo tempo, como se uma mola invisível os tivesse impulsionado, e começou então a ouvir-se a Praça toda a gritar:
-- Defenestração! Defenestração! Defenestração!
E Passos, que só tem bom ouvido para a música:
-- Lá estão os tipos com a cantilena dos comunas a pedir a demissão!
Foi quando o vice o interrompeu:
-- Eles não estão a pedir a demissão, estão a exigir a defenestração, que é bem pior!
Ouviu-se, num português medíocre, o homem do FMI perguntar:
-- Que coiso é isso de-fé-nes-tra-ção?
-- É lançarem-nos pela janela! -- esclareceu Maduro, adiantando a sua erudição.
-- A culpa é do Portas, que andou por aí a badalar que íamos ter, agora, um 1640 fiscal... -- ouviu-se alguém, em tom acusatório, das bandas do PSD. -- Isso lembrou-lhes logo traidores e defenestrações...
Lá fora, era o tumulto.
-- O que eles querem são as nossas cabeças -- pensou em voz alta, o ministro Pires de Lima, que tinha fama de soldado e de ler a realidade com objectividade.
O ambiente era, agora, de inquietação e medo. Passos estava fora de si, e ouviu-se claramente a sua voz, com força barítonal:
-- Se esta reunião era confidencial, como é que os gajos sabiam,que estávamos cá todos...
Os olhos viraram-se logo para Portas e um engraçadinho -- terá sido o Moedas? -- exclamou:
-- Foi um segredo irrevogável...
Chegou, entretanto, o primeiro relatório da Secreta. Estão lá todos. Nas linhas da frente, Mário Soares, os polícias e as forças armadas, a cgtp, a ugt, os indignados do "que se lixe a Troika", magistrados, professores, médicos, sem-abrigo, os da Aula Magna, trabalhadores dos estaleiros de Viana e dos CTT, e, num sublinhado especial, a negro, o relatório indicava a presença na manif (olho neles!) de Rui Rio, Pacheco Pereira, Capucho, Freitas e até de Alberto João, mas este muito mais longe. E dava outra informação: Seguro não foi visto!


Os gritos pedindo "Defenestração" eram cada vez mais fortes. Passos, sugeriu que uma comissão fosse dialogar. Mas ninguém deu um passo em frente. Marques Guedes auto-excluiu-se dizendo que tinha mulher e filhos, e o ministro da Defesa avisou logo:
--Eu cá nem sou militar!
Os olhares fixaram-se em Paulo Portas, mas o vice fingiu-se distraído, acercando-se de uma das janelas. Duas pedradas estilhaçaram os vidros e um petardo estoirou na fachada, ameaçador.
Crato, subitamente regressado aos velhos tempos, começou a cantar "a canção é uma arma" e, depois, como um louco, gritou para os tipos da Troika, que se tinham colocado a um canto mais sombrio da sala, transidos de medo:
-- De pé! Vítimas da fome!
Portas é que estava fora de si.
-- Oh, Aguiar-Branco, afinal onde estão os seus militares, e você, Macedo, que me diz dos seus polícias? Com que então estava tudo muito controlado, estava tudo no papo...
Era, outra vez, Passos, a reclamar contra o regabofe pré-revolucionário. Em desespero de causa, e temendo invasão, telefonou para Belém, a pedir auxílio ao Presidente. Houve um suspense na sala, o silêncio adensou-se, até que a cabeça de Moedas saiu debaixo da mesa, para perguntar:
-- Então?
-- Então, nada! Disse-me que estava bem de saúde, a tratar dos netinhos, com a Maria...
Foi Portas, lembrado das manigâncias dos ministros da ditadura, no 25 de Abril, que encontrou uma escapatória:
-- Eureka! Utilizamos a táctica do ministro da Marinha do Marcelo, que saiu por um buraco, aberto nas traseiras do Ministério...
Foi o que fizeram. Todos, menos Crato, que se disfarçou de estivador, e de Mota Soares, que se vestiu de motard, e saíram pela porta da frente.  Os outros, em bichinha pirilau, passaram por um buraco, na parede menos visível. Mas foi o diabo para disciplinar o grupo, todos queriam sair ao mesmo tempo. Iam, já, na dianteira, os elementos da Troika -- e Moedas a guiá-los: "sou um criado de Vossas Excelências..." -- quando alguém lembrou: primeiro as senhoras e as crianças. Avançaram Maria Luís, Teixeira da Cruz, a ministra Cristas e Moedas, que apanhou a boleia das crianças. Os tipos da Troika, quando se apanharam cá fora, volatizaram-se.
Passos foi, então, no encalce deles, depois de telefonar para a agência de informações dos EUA, que vigia tudo. No hotel, disseram-lhe que eles tinham ido, à pressa, para o aeroporto. Foi lá. Encontrou-os esbaforidos e descompostos, ainda um ar de pânico nos rostos, a caminho do check-in.
-- Então e a avaliação? -- perguntou o primeiro-ministro.
-- Passaram com distinção... Isto já não tem conserto. Deram cabo do país, como nós pedimos. A bandalheira é total. Parabéns!
Quando regressava a Massamá, pareceu-lhe ouvir ainda o clamor do levantamento popular. E uma palavra não lhe saía da cabeça: defenestração.




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

RUI NUNES E A ERRÂNCIA COMO PÁTRIA


Na galeria dos escritores portugueses do nosso tempo, Rui Nunes ocupa lugar destacado. No seu processo criador construiu um caminho muito próprio, dele, com um registo narrativo em que a reinvenção da realidade reflecte sempre um olhar de exigência sobre o chão verbal que consubstancia a linguagem, que é o alimento da sua literatura, onde a condição humana é a grande questão. O que me fascina na obra de Rui Nunes é, também, a sua sobriedade, a forma como este professor de filosofia, que faz vida na Alemanha, sem nunca perder o pé de Portugal, de cujos labirintos mentais gosta de fazer introspecção, para se aproximar e fazer leitura funda da real realidade. Rui Nunes tem construído a sua obra, à margem dos que manipulam as tubas da glória, num desprendimento sobre o ofício da escrita, que não é muito comum entre nós. Há dias, o escritor deu uma entrevista ao "Actual", do Expresso, que vinha naquelas páginas remetidas para o fim, em que diz coisas muito interessantes sobre Portugal e a Europa, designadamente sobre o conceito de pátria, que ele define como "o local onde se nasceu". Rui Nunes fala de uma ideia persistente na sociedade portuguesa ("o desgosto em relação à pátria"), considerando que "uma das coisas mais interessantes em Portugal é a presença constante desse desgosto" porque "a nossa história é uma sequência de abandonos da pátria". E explica: "abandonámos  a pátria pela Índia, abandonamos a pátria pela África, abandonámos a pátria pelo Brasil, pela Europa. O que significa que esse abandono da pátria está presente na nossa matriz. Daí que pense que a grande pátria dos portugueses é a errância".
Num outro ponto, o autor avisa que "quando os políticos fazem apelo ao conceito de pátria, estão a utilizá-lo de um modo indecente, porque estão a aludir a uma dimensão de natureza afectiva". Aqui, parei para um sublinhado meu, FPN: na retórica oficiosa da situação portuguesa, banaliza-se o recurso dos membros do governo à propaganda da pátria e do patriotismo, Paulo Portas chegou mesmo a considerar que o hipotético fim da presença da Troika, em Junho do próximo ano, era um 1640 fiscal! Este comportamento fez-me lembrar aquela advertência de Samuel Johnson, quando disse que o patriotismo, às vezes, é a última desculpa dos canalhas...
Rui Nunes é bastante crítico em relação à Europa que, diz ele, "tal como está organizada, chefiada por burocratas cínicos, destituídos de cultura, no sentido mais profundo, funciona como uma pátria concentracionária, como de resto todas elas".

Há, todavia, outras razões para louvar Rui Nunes, O An. Passado, escrevi uma crónica sobre ele, a que chamei "O barro das palavras", para sublinhar estarmos em presença de um escritor com raiz forte ao Fundão e à Beira. Transcrevo de Crónica do País Relativo (vol, Ii): "falemos hoje de um livro novo de Rui Nunes, autor de, entre outros, Que Sinos Dobram por Aqueles que Morrem como Gado?, ou Quem da Pátria Sai a Si  Mesmo Escapa? Há, neste escritor, uma raiz.Ele nasceu em Lisboa, em 1947, mas a sua ligação à Beira e ao concelho do Fundão tem ecos na sua obra ou não fizessem essas geografias parte da cartografia da sua infância. Refiro o Telhado como o centro desse mundo. No seu último livro, sintomaticamente intitulado Barro, há esta bela página: "Depois de Castelo Branco, até à Serra da Estrela. A pátria de uma das minhas infâncias.De metade de todos os meus nomes. Os da terra. Que proliferavam. Uma coisa era sempre nova. Um nome acrescentava a outro uma espécie de alegria. Dizê-los. Ligavam-se pelo olhar perguntador e formavam extensas frases. As mais extensas da vida. Gosto da memória da infância. De a escrever.Porque as palavras ainda não tinham encontrado a denúncia. Nem a traição. Avô,como se chama esta árvore? E esta pedra? E este bicho? E a palavra única surgia surgia, da indiferença de todas as árvores, de todas as pedras, de todos os bichos. Um pássaro, de todos os pássaros. Entre a Gardunha e a Estrela, a pátria tinha o tamanho de uma casa, via-se onde começava e acabava, apanhávamos rãs nos nos seus ribeiros e cágados, nos seus poços. Armávamos aos pássaros,sob as oliveiras. E ouvia-se a morte nos sons dos costilos a fecharem-se. Meus avós estavam parados na eternidade da velhice. E o tempo era uma repetição fulgurante”. Rui Nunes e a memória de uma raiz chamada Beira.