sábado, 21 de dezembro de 2013

O CHUMBO!

Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
Ainda não se apagaram de todo os ecos do rotundo chumbo que o Tribunal Constitucional infligiu ao governo e à sua Lei da Convergência das Pensões para esbulhar os velhinhos. 13 a 0, é obra! O caso teve efeitos dramáticos na equipa de Passos Coelho e, ainda agora, o ambiente do casarão de S. Bento parece mais de sexta-feira Santa, de luto carregado e muitas lágrimas, do que propriamente de época natalícia, com alegria a jorros, prendas catitas e coisas finas e boas.
O primeiro-ministro convocou os ministros para S. Bento, onde, por acaso, a essa hora, não havia à porta nenhuma manifestação de indignados, a protestar, e suas excelências, sempre tão distraídos com os problemas do país -- nem se lembraram do Constitucional --, foram todos lampeiros para lá, julgando ir para a festa de Natal, que o primeiro sempre oferecia, jantarzinho e prendinhas a condizer com a quadra.
À medida que se encaminhavam para a sala grande, da lareira, onde costumam ser as entrevistas para as televisões, estranharam logo o ar soturno e fúnebre. De festa, não havia sinal. Até a árvore de Natal, sempre a piscar, a piscar, tinha as luzes apagadas, caramba! De facto, quando Passos regressou do Conselho Europeu, vinha de faca afiada e com umas ventas que metia medo ao susto. Ele berrou para o assessor de serviço (eram tantos, que nem se lembrava do nome: não tinha o caderninho à mão):
-- Desligue-me aí essa merda da árvore de Natal, que o tempo não está para festas nem luminárias…
O outro curvou-se e desligou. Murmurou para dentro: “Hoje, este gajo está intragável! Saiu-me cá uma besta...”
Quando estavam todos os ministros e o foram chamar, lá dentro, ele irrompeu na sala, com aquele passo acelerado que ele gosta de praticar, para as televisões mostrarem que é um tipo decidido e determinado, e mal dera tempo para os ministros se sentarem, quando avisou logo:
-- Este ano não há festa de Natal!. -- e perante o ar perplexo da maioria (maioria, sim, digo bem, estavam lá os tipos do PSD e do CDS que fazem de ministros), desfez as dúvidas. -- Estes gajos do Tribunal Constitucional deram-nos cabo do Natal! Mas eu aviso já que não estou em condições de pôr o meu lugar à disposição… Daqui ninguém me tira!
Portas fixou os olhos num dos cantos e pareceu-lhe ver o vulto de Salazar, a sorrir, e deu um gritinho suave. Abanou a cabeça, como se quisesse despertar para a realidade, e escapou-lhe:
-- Que disparate!
-- O quê? -- exclamou Passos, julgando que o comentário era para ele.
-- De maneira nenhuma! -- esclareceu o outro. -- É que tive uma visão: julguei ver o vulto do Senhor Prof. Oliveira Salazar, ali, por detrás do reposteiro.
Pires de Lima, embevecido, não se conteve e correu para lá.
-- Não está cá! Ora, bolas…
Moedas também ficou inconsolável:
-- Gostava tanto de falar com ele, pedir-lhe uns conselhos para as Finanças, sobre a melhor maneira de continuar a lixar o povo!
Passos Coelho chamou-os à ordem.
-- Este chumbo do Tribunal Constitucional, ainda por cima por unanimidade, é uma ferida muito grande, vai demorar a sarar! -- exclamou o primeiro-ministro. -- Mas esperem pela demora, vão ver o que aí vem… Este país está a ficar ingovernável, já nem se pode ir aos bolsos aos velhinhos...
-- Eu cá já apaguei a minha linha vermelha! -- ouviu-se a voz de Portas. -- Agora a minha especialidade são as exportações para o Dubai, sobretudo pastéis de nata e azeite com folhas de ouro...
O primeiro-ministro é que não se calava. Voltou à carga:
-- Eu já não posso ver aquelas togas pretas, os tipos parecem aves de mau agoiro. E o presidente, com aquele ar seráfico, a dar conferências de imprensa, a falar em falta de confiança e em medidas avulsas, quando a lei era tão estrutural --  assaltava os bolsos dos velhinhos, desmoralizava-os, visava a estrutura dos idosos, que só pensam nas reformas… e não fazem nada!
-- O que é chato é ter sido por unanimidade! -- esclareceu Pires de Lima. -- Que Deus nos ajude…
Foi quando se ouviu a voz sibilina de Portas:
-- Votaram todos, até o Machete!
O ministro dos Negócios Estrangeiros apurou o ouvido e só teve tempo de responder:
-- Não fui eu, foi o outro!
-- Isso não interessa. -- disse Passos, como se quisesse pôr um ponto de ordem à discussão. -- A verdade é que votaram todos contra, nem um só defendeu a nossa política. É um desastre completo…
A das Finanças estava num mutismo total e, a dada altura, começou mesmo a soluçar:
-- O que vai ser do meu Orçamento! O que vai ser do meu querido Orçamento!
E Pires de Lima:
-- Santo Deus!
-- Ainda por cima, quem pediu isto foi o Cavaco! -- lembrou-se Passos. -- Que grande sacana, sempre a fingir que não sabe nada, de nada, e agora pregou com isto no Constitucional. Deve ter sido a bruxa da Manuela que o aconselhou...
-- Este ano não não leva bolo rei da Nacional! -- era mais uma piadinha de Portas, lembrando-se subitamente do gozo dos tempos do “Independente”, quando Cavaco era o bombo e o bobo da festa.
De repente, o silêncio foi quebrado por um toque estridente da campainha. E ouvia-se, já, distintamente, um badalo a chocalhar dalim-dalim-dalim.
Era o pai Natal. Olharam todos uns para os outros, expectantes, e o Moedas, aos saltinhos:
-- Afinal, sempre há prendas…
Enquanto se elevavam as expectativas, como agora se diz, já irrompia na sala um volumoso pai natal, com um saco cheio de embrulhos e umas cordas, que lhe saíam da proeminência da barriga:
-- Ô, Ô, Ô. Ô, Ô, Ô… -- gritava ele, poisando o saco e passando os olhos pela sala que, aliás, conhecia bem. -- Ô, Ô, Ô! Trago prendas para todos.
O primeiro embrulho, muito bem encadernado com lacinhos laranja, era para Passos Coelho:
-- É uma bóia!. -- estendeu os braços o pai Natal. -- O senhor não anda para aí a dizer que se for ao fundo, o país vai consigo… Tome lá. E ainda leva um livrinho, para se entreter...
O segundo a receber presente foi Paulo Portas. Era uma belíssima máscara de Tartufo.
-- Fica-lhe bem, o senhor é um aldrabão, um mentiroso compulsivo! -- comentou o pai Natal. -- Esta, sim, é uma máscara irrevogável!
Percebeu-se um sorriso sacana no rosto do primeiro-ministro. E já o pai Natal dizia que para os outros era cinema e literatura.
-- Ô, Ô, Ô! Ô, Ô, Ô!
Avançou para Machete, e começou a tirar do saco filmes de Hitchcok:
-- Tome lá a “Intriga Internacional”, a ver se aprende alguma coisa, é que me saiu cá um anjinho!
Para o Crato, havia um, muito bem embrulhado, repleto de dizeres em “eduquês”:
-- O Professor Chanfrado! Sim, que você é completamente doido...nem é preciso ser avaliado!
Pires de Lima recebeu o livro de Afonso Cruz, “Jesus Cristo bebia cerveja”.
-- Santo Deus! -- balbuciou ele, como se aquilo fosse pecado.
Para Mota Soares saiu um Anuário das Misericórdias e o livro, de Cornan McCarthy, “Este País não é para velhos!”
E Maria Luís Albuquerque, qual seria a prenda? O enigma desfez-se logo, quando do embrulho saiu o romance “Maria dos Canos Serrados”, de Ricardo Adolfo.
Risinhos de Paulo Portas, a segredar para Mota Soares:
-- Ela não é uma espingarda, é um canhão sem recuo!
-- Ô, Ô. Ô -- continuava o pai Natal, que já tinha nas mãos outro filme de Hitchcok, “O homem que sabia de mais”, e foi direitinho parar a Poiares Maduro.
-- Você tem essa pose que é tudo só sabedoria e nada de política… -- apontava-lhe o dedo o pai Natal. -- Mas cá para mim, tens muito terreno baldio!
Já faltavam poucos, mas ainda havia prendas para Paula Teixeira da Cruz -- que recebeu o filme “A Comédia do Poder”, de Claude Chabrol --  Aguiar-Branco ficou com o disco “Eu hei-de ir a Viana” e com o filme “Ligações Perigosas”, Assunção Cristas levou o romance “Deixa lá/Más novas”, de Edward St. Aubyn. O pai natal virou o saco, do avesso, e saiu de lá o último volume. Era para Carlos Moedas: “Keynes contado às criancinhas”.
-- Ô, Ô, Ô! -- continuava a berrar o pai natal, enquanto, abrindo o casaco, começou de lá a retirar laços de forca, muito bem feitinhos, com um toque claramente artesanal. -- Ô, Ô, Ô! Ô, Ô, Ô!
-- Para que é isto? -- perguntou Portas, muito ladino.
-- É para se enforcarem! Antes que matem de todo o país. --  Ô, Ô, Ô!
Passos não se conteve e avançou sobre ele. Conseguiu puxar-lhe a barba, que era grande e vistosa. Os olhos quase lhe saltaram das órbitas. Era o dr. Mário Soares, que sorria.
Entre estupefactos e amedrontados, foi a debandada geral.
Passos Coelho foi visto, a chegar a casa, branco que nem um cadáver. Deixara cair, à entrada, um vistoso embrulho colorido. Era um livro de Pedro Vieira. Chamava-se “Última Paragem: Massamá”.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

OS OLHOS TRISTES DA CAIXA DO HIPER


Neste tempo de luzinhas a brilhar nas árvores e campainhas a tocar nas ruas, longe dos não sei quantos sem-abrigo que a Misericórdia de Lisboa anda agora a contar (parece que não faziam parte das estatísticas!), um rio de gente corre para as compras de Natal, muitos iludindo a abundância que não têm. Há os que ficam à margem de qualquer banquete, alguns com tal peso de marginalidade que nem se aproximam das breves sopas aquecidas para pobres ou das consoadas improvisadas pelo catálogo da solidariedade social, que no dia de ser bom até a Troika e o governosinho dos seus capatazes autorizam algumas migalhas sociais. 
Nestes dias, o corre-corre das compras enche os templos do consumo, as grandes superfícies convidam todos a entrar, mesmo aqueles que não precisam de nada, porque têm, sobretudo para esses, aquilo que lhes convém...
Também por ali o cenário do Natal é uma especificidade para a fantasia e o cenário desperta apetites a criancinhas e não só. Aparentemente, é um mundo feliz, longe das lágrimas da crise, o que por ali anda em movimento. Era assim a paisagem até que os meus olhos poisaram nas jovens caixas, que mecanicamente, ao longo de muitas horas (estas não escapam às 40 horas ou mais!) colocam em sacos a montanha de compras dos clientes e depois põem as máquinas registadoras a desdobrar facturas e a receber pagamentos. São jovens, muito jovens, adivinho licenciadas a que o país fechou as portas de outros horizontes, e estão ali, de pé (“já nem sinto as pernas”), com os olhos cansados pela turbulenta navegação das horas.
Muitas vivem no fio da navalha e sabem que serão trucidadas na selva da precariedade, a tal flexibilização laboral onde os direitos não existem e o trabalho toca a fronteira da escravatura moderna, as tais condições que o governo diz serem óptimas para o futuro da economia. As filas, com os carrinhos atulhados de compras, dilatam-se. E elas lá estão, peças de uma engrenagem poderosa, direitas, repetindo mil vezes os mil gestos de todos os dias, olhos cansados, a máscara de sorrisos de circunstância no fio dos lábios, e as palavras que fazem a liturgia do instante:
-- Boas Festas! Bom Natal!
Tento imaginar as realidades quotidianas deste mundo precário, e, como num filme, imagino um plano a correr sobre os rostos das jovens caixas do hiper, procurando detalhes de um dia, instantes breves de vida. Tudo mecânico e industrial, como convém. Os sorrisos a escorrer e os votos natalícios na ponta da língua. Mas numa delas (terá o despedimento à vista, pensei eu, para mim só) pareceu-me descortinar duas lágrimas que caíam sobre um embrulho colorido, com um belo laço de fantasia.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A VERDADE CONTRA A NOITE DOS ASSASSINOS

Juscelino Kubitsheck e António Paulouro, durante o almoço, no Fundão
Manifestação emocionou Juscelino
O tempo também é um grande escultor da verdade, se assim quisermos acrescentar um qualificativo à espantosa ideia de Margarite Yourcenar. Aconteceu, agora, com uma figura de relevo do século XX, Juscelino Kubitschek, presidente da República (1956-1961), criador de Brasília, que afirmou no mundo o Brasil como pátria da democracia e da cultura. Essa saudade intensificou-se à medida que a ditadura militar ia deixando na sociedade brasileiro o seu longo cortejo de prisões, torturas e assassinatos.
As circunstâncias da morte de JK, em 22 de Agosto de 1976, alegadamente num acidente de viação, deixaram sempre muitas dúvidas, que a ditadura silenciou, à semelhança do que acontece sempre para defesa dos mandantes dos crimes desta natureza (lembram-se do assassinato de Humberto Delgado?)
Agora, a Comissão de Verdade Vladimir Herzog, de S. Paulo, vem afirmar que Juscelino Kubitschek foi assassinado, na sequência de um complot organizado pela ditadura militar. O antigo presidente do Brasil, depois que regressara do exílio, articulava a oposição ao regime militar e era, de facto, a grande figura congregadora, que mobilizava a luta democrática contra a ditadura, ameaçando o poder dos mentores dos “esquadrões da morte”, responsáveis por inumeráveis mortes, torturas e desaparecimentos.
Isso amedrontava os agentes da Operação Condor, aliança político-militar entre as ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Numa carta enviada, em 1975, a João Baptista Figueiredo, então chefe da ditadura brasileira, o serviço de informação de Pinochet afirmava-se preocupado com a possível vitória de Jimmy Carter nos EUA e com o apoio a políticos de oposição à ditadura na região, como o chileno Orlando Letelier e o próprio JK. Ambos foram assassinados, depois das maquinações sinistras programadas na noite dos assassinos.
No caso de Juscelino Kubitschek, esta justiça póstuma que parece vir a caminho, tem um sabor especial para este nó de terra que se chama Fundão. Eu conto, brevemente. António Paulouro, que visitara o Brasil, convidou JK a visitar a Beira, designadamente Belmonte. Em Janeiro de 1963, Kubitschek, cumprindo a promessa, desembarca em Lisboa, com uma comitiva de ilustres personalidades, como Darcy Ribeiro, reitor da Universidade de Brasília e figura de proa da intelectualidade brasileira.
Salazar, não tolerou que Kubitschek viesse a convite de Paulouro e do JF, fez tudo para silenciar a visita. JK  esteve em Castelo Branco, falou da varanda do “Jornal do Fundão”, foi à Covilhã e a Belmonte. A censura cercou de silêncio (como se não tivesse existido) toda a visita organizada por António Paulouro, só autorizando notícias da parte oficial, em Belmonte.
O Fundão era então uma pequena vila (Juscelino disse que lhe parecia estar na sua terra natal, Diamantina) e viveu a maior manifestação colectiva, de que há memória. As pessoas perceberam, então, o que era a manipulação da informação pelo poder, a desfiguração da realidade. Chamaram-lhe o muro do silêncio e protestaram. Até o presidente da Câmara enviou um telegrama ao Presidente do Conselho, a protestar. Foi demitido, claro.
Foi em Janeiro de 1963. O dia em que JK começou a mudar a sua ideia de Salazar (já escrevi, há anos, um texto sobre esta singular questão, no JF). O Fundão, que guarda a visita de JK como acontecimento maior do seu século XX, bem pode sentir-se um pouco mais feliz por saber que, pelo menos na memória, o assassinato de Juscelino Kubitschek não ficará impune.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

OS APARTHEID EUROPEUS

Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
A Europa, é Tony Judt que o diz, nunca resolveu bem os problemas da memória, e a geometria imponderável da sua construção reflecte muito esse problema mal resolvido. É, porventura, essa circunstância histórica que, hoje, envenena lentamente as conquistas civilizacionais, e, sobretudo, a sua dimensão humanista. É verdade que tudo isso se vai esfumando lentamente. Os mandantes da Europa, e os governos, seus serventuários menores, são todos, no fundo, obedientes servidores do polvo financeiro, cujos tentáculos estrangulam a vida dos que acreditaram que a Europa podia ser um espaço de cidadania, moldado por direitos e valores, que se plasmavam na construção de um Estado social e de bem estar, onde a felicidade seria possível.
Os donos da Europa, os conglomerados financeiros fazem dos mercados braços instrumentais de políticas que apenas visam destruir os fundamentos das sociedades. Às vezes, os executores dessas malfeitorias chamam-se Troikas (incorporando siglas sinistras como FMI, por exemplo) acolitadas por submissos capatazes nacionais, e passeiam pelos países os efeitos nefastos da sua acção: desemprego, pobreza, direitos sociais reduzidos a zero ou quase. E eles prosseguem a sua acção predatória até que os padrões se ajustem (uns e outros estão sempre a falar em ajustamentos) aos interesses específicos dos donos da Europa e suas Mafias capitalistas.
Esta Europa cava, de muitas maneiras, a sua sepultura. A insensibilidade vai abrindo uma cova funda. O "El Pais" publicou na edição de domingo uma excelente reportagem, intitulada "Visita aos apartheid europeus", da autoria dos jornalistas Lúcia Abellán e Miguel Mora. A questão central é o racismo e a emergência dos estigmas dessa doença letal, decerto com raiz no problema mal resolvido da memória, como advertia Judt.
Nessa reportagem, escrevem os autores: "os judeus confessam que voltam a ter medo. Os ciganos vão a colégios segregados em alguns países, A Europa reencontra-se com o fantasma do racismo". A isto podíamos acrescentar a vergonhosa forma como tem sido tratada a imigração que vem de África, tragédia dos que morrem nas praias do Mediterrâneo, crime continuado de que a ilha de Lampedusa, nos últimos anos, se tornou uma espécie de cemitério simbólico dos próprios ideais europeus.
A Europa e os seus donos não olham para estas coisas. Na reportagem sobre “os apartheid europeus”, os seus autores levantam uma questão moral: “Todos os dirigentes europeus, sem excepção, glosaram esta semana os méritos de Nelson Mandela.Muitos pronunciaram frases brilhantes e assistiram aos funerais do homem que venceu o ódio racial e o apartheid. Mas justamente na União Europeia, onde a crise não termina, o desemprego afecta 25 milhões de pessoas e há 80 milhões de pobres, a xenofobia e o racismo não deixam de aumentar”.
Os dirigentes europeus são hoje a medida ética de coisa nenhuma. Daí que, entre as palavras e os actos, haja a distância de um abismo. A retórica, assim, é uma mero exercício de hipocrisia.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

MEMÓRIA DE COMBATENTES DA SOMBRA

Ilustração de Zé Dalmeida
Penso que foi Edgar Morin que um dia disse, referindo-se ao século XX e ao longo inventário de crimes contra a humanidade que esse tempo contabilizava, que o homem, às vezes, fugia da realidade e evitava pensar sobre ela, como forma de arranjar um calo de indiferença para poder suportar a crueldade. Num certo sentido, aí radica, embora apenas em parte, alguma disponibilidade de pessoas e instituições para uma alegre distração da realidade concreta, evitando incómodos confrontos com a história e os seus fantasmas. Entre nós, não faltam exemplos de amnésia programada, deixando no silêncio uma longa e tenebrosa factualidade criminosa contra pessoas de bem, mortas ou perseguidas por uma ideia, uma crença, uma sede de justiça de justiça elementar, às vezes uma palavra de revolta ou uma bandeira vermelha empunhada ao vento, desafiante. E, no entanto, o tempo longo de ignomínia, de fogueiras, de prisões, de torturas permanece como anquilose de comportamentos e mentalidades na sociedade portuguesa, perseguida ainda pelo "medo de existir" (José Gil).
Ponho-me a pensar nas pessoas de bem, tantas vezes cidadãos comuns dos melhores, que sofreram tratos de polé, agressões físicas e psicológicas, intolerâncias e perseguições, vidas transformadas em tragédias, quotidianos cercados de lágrimas. Muitos, nunca deixaram que lhes assassinassem a esperança e, por isso, assumiam-na em palavras e gestos de insubmissão e resistência.
Às vezes, penso em lugares que mantiveram essa reserva moral de cidadania intacta e era como se fossem, colectivamente, gente de espinha direita, que levantava os olhos do chão e encarava de frente a opressão. O Tortosendo foi, durante muitos anos, um desses lugares míticos. Foi isso que me veio ao pensamento quando, num destes dias frios e de folhas caídas, me vieram dizer que tinha morrido o Alfredo Craveiro. Penso que ele era o último de um grupo de combatentes da sombra, que fizeram daquela vila operária, uma "vila vermelha", com tudo o que esta designação tinha de desafio ao tempo sinistro do salazarismo. O Alfredo Craveiro era um homem sensível à cultura e ao associativismo, que construiu quotidianamente nos tempos heróicos do Unidos, quando a promoção cultural era um acto de libertação e, por isso, brutalmente reprimida. Era um homem bom.
Eu aprendi muito com esse universo afectivo do Tortosendo, aprendi sobretudo humanidade, e guardo na memória rostos e nomes de gente fabulosa, que praticava o alfabeto cívico da liberdade de forma comovente, tantas vezes arriscando tudo o que havia para arriscar. De certa maneira, o Américo de Oliveira, que também fazia da solidariedade questão maior da vida, foi a minha ponte para esse mundo humanamente fantástico. Nunca esqueço, no limiar do Natal, nos anos 60, a vaga de prisões que a Pide fez no Tortosendo e a imagem do grupo de mulheres desses presos políticos que vieram para pedir auxílio (foi meu irmão Zé que os defendeu no Tribunal Plenário do Porto), e que à distância do tempo, ainda hoje, nos rostos dessas mulheres, nos seus olhares de lágrimas geladas, me parece ter visto figuras reais de pietás ou mães coragem que, no meio da maior adversidade e injustiça, afirmavam exigência de liberdade, ou melhor, de dignidade.
O Tortosendo fazia parte da geografia da repressão. Porque faziam lá greves e festejavam o Primeiro de Maio, crimes sem perdão para os algozes no poder. Havia prisões, o medo andava sempre no horizonte. Mas lutavam, e,como no poema do Egito, a esperança parece que se reproduzia.
Neste adeus a Alfredo Craveiro, regresso inevitavelmente ao universo de nomes de cidadãos e resistentes desse Tortosendo, que agora me parece longínquo. Regresso a gente que já partiu. O Júlio Machado, o Apolinário (tão massacrado nos interrogatórios da Pide), o Alfredo Costa, o Frazão (que foi para Coimbra), o Carrola. E, noutro plano, uma figura excepcional de democrata, com um sentido de solidariedade que ainda hoje me espanta, que ajudava os familiares dos presos políticos e movia meio mundo para que outros pudessem ajudar também. O senhor José Ribeiro fazia tudo isso, com um sorriso de tolerância nos lábios. Era um homem calmo, que repartia simpatia. Gostava de livros e de jornais (além de industrial de panificação possuía uma livraria, que era um ponto de encontro), teve um papel crucial no Unidos, quando tentaram encerrá-lo, e a amizade que naturalmente cimentei com ele foi até ao fim um convívio de aprendizagem mútua.
Um dia, já depois do 25 de Abril, fiz uma reportagem com ele, Passeámos longamente pelas ruas da vila e ele, na sua fala pausada, contou-me histórias dos tempos heróicos. Ficou-me sempre na memória uma delas, que então escrevi. Um ano antes do 25 de Abril (1973), perto de Maio, uma brigada da Pide foi ao Tortosendo (iam lá recorrentemente). “O cabo da GNR foi à Livraria procurar por mim”, contou-me José Ribeiro. -- “Disse-me: “Oh, sr. Ribeiro! venha lá ao posto, que já lá estão, outra vez, aqueles filhos da puta da Pide,,,”. “A coisa estava a mudar, era o 25 de Abril no horizonte!”, exclamou, com uma sorriso largo, o meu amigo José Ribeiro.
Combatiam, uns à luz do dia, outros na sombra. Uns e outros, com pequenas parcelas de humanidade, ajudavam a mudar o mundo.