sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O BURACO

Ilustração de Zé Dalmeida
Andam os portugueses avergoados ao peso de uma crise que floresce em incontabilizáveis dramas humanos, psicologicamente abatidos pelas estatísticas galopantes do desemprego, amedrontados com o fio da navalha da pobreza, pessimistas não quanto ao amanhã que nunca cantou, mas sobre o presente que nos cai na sopa. Andam os portugueses desmoralizados pelas medidas da Troika e seu governo, com a angústia lavrada em cada dia, 24 horas sobre 24 horas de incerteza. Andam os portugueses perdidos como cegos no labirinto das desigualdades, uns reféns da fome, outros com o anátema de desempregados de longa duração colado à pele, habitantes de uma pátria sem horizontes de esperança. Andam os portugueses de olhos cansados porque o futuro lhes vai sendo expropriado por gente sem princípios, com brutais défices de humanidade. Andam os portugueses com raivas incontidas porque lhes roubam dias com migalhas de felicidade na velhice. Andam os portugueses assim, tristes de todo, a dizerem baixinho: “estou farto disto”, a murmurarem que “já não acredito nestes tipos” (eles traduzem isto em vernáculo!) e eis que surgem, de vez em quando, notícias do país catita, que mostram como, afinal, há sempre dois países dentro do mesmo chão. Não, não são notícias como a da charla do primeiro-ministro este Natal que, como Cristo fez a multiplicação dos pães, fez ele a multiplicação dos empregos em 2013. Só que o seu milagre saiu furado de todo: os 120 mil criados, eram apenas 22 mil! Empregos de aldrabice para consumo de idiotas úteis... Mas as notícias do país catita, que contrastam com as dificuldades impostas aos portugueses, falam de outros milagres, verdadeiros toques de Midas para aqueles que não precisam de jogar na lotaria para ganherem a sorte grande. E nem é preciso chegarem ao Natal para os prémios andarem à roda. Sempre com a sigla do BPN por cenário e os fretes do governo, que distribui as taludas à nossa custa. O Estado assumiu uma dívida de Cardoso e Cunha -- esse mesmo, o ex-alto comissário da EXPO (nomeado por Cavaco) --, ao BPN de nove milhões de euros. Já antes procedera a idêntica prática de bem fazer com Luís Filipe Vieira (o da bola) e Duarte Lima (que foi estrela do PSD). O BPN é a vaca onde eles mamaram e ainda mamam agora através das tetas do governo. Um escândalo sem fim, que entrou e está a entrar dentro dos bolsos dos portugueses. A maior parte dos figurões, são cães da mesma ninhada do cavaquismo. Todos, vorazes, deram golpes, ganharam milhões pela única razão de pertencerem à mesma linhagem política. Até Cavaco Silva e familiares andaram nessa alta roda da oportunidade dos negócios financeiros, que o povo, que é sempre espécie de escravo, paga e não bufa. Algum dia saberemos a extensão do escândalo? Quando oiço falar em BPN, devia talvez levantar os braços e ficar à espera da célebre frase, que os bandidos têm na ponta da língua: Isto é um assalto!. Em vez disso, vem-me logo à memória um grande buraco. E uma figura a emergir dele. Parece que ainda lhe chamam Presidente...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

CRISE EM TEMPOS DE CÓLERA

(Com a devida vénia a Gabriel Garcia Marquez)

Na contingência de um tempo que, dizem, acelerou a história, assistimos, cada vez mais desarmados face ao sistema planetário, que é a nossa casa comum, ao triunfo das desigualdades e à liquidação, gradual e sistemática, de tudo aquilo que poderíamos considerar a utopia (a palavra ainda não foi banida da circulação pelos novos catecismos do pensamento politicamente correcto), a utopia, dizia, do combate pela felicidade mínima. 
A história acelerou, as mutações sociais tornaram-se transversais a toda a sociedade, a globalização dilatou o mundo, como se quisesse cumprir a metáfora da “aldeia global”, a omnipresença da informação produzindo o charme discreto (ou nem tanto) de criar a ilusão de estarmos presentes no coração dos acontecimentos, onde quer que aconteçam, e, ao mesmo tempo, tornando próxima e comum a narrativa das feridas expostas do planeta, tudo isso não foi mais do que a descoberta de um admirável mundo novo configurado à ideia de um crescimento desmedido em que os fins justificam sempre os meios, na finalidade de objectivos onde o homem é, quase sempre, a medida de coisa nenhuma.
O fim do século, apesar da festa, e dos muros e fronteiras que caíam, às vezes para os dois lados da História, deixara um travo amargo na boca do mundo e não faltaram inventários de valas comuns e genocídios, de totalitarismos e dos seus mecanismos mais ou menos envernizados (lembramo-nos sempre de Hannah Arendt), de golpes e ditaduras militares, como no Chile e na Argentina, que instituíram o assassinato e a tortura com as bênçãos dos kissingers, de conflitos periféricos, chamemos-lhes assim, que contabilizavam milhões de mortos, fomes mais ou menos esquecidas, banalizadas pela lonjura, continentes como a África, descartáveis pela indiferença e hipocrisia internacionais, terra outra vez de condenados da terra, na perspectiva de Fannon, à espera de amanhãs que já não voltam a cantar; agora morrem em barcas artesanais ou traineiras, à beira das praias, despedaçados pelo sonho de uma aventura de pobres, como é a emigração em busca da Europa.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UM DIA DIRÁS

Ilustração Zé Dalmeida

Na desigual caminhada em que o Homem historicamente se afirmou são raros os momentos que, pela dimensão simbólica, ganharam expressão universal e se impuseram aos abismos das distâncias e das fronteiras como traços identificadores de elementar Humanidade. O Natal é esse dia. A fraternidade essencial da sua mensagem atravessou os tempos, polarizou esperanças, fez da igualdade um sonho projectivo sobre a realidade. Por essa ideia, se fazem tréguas, por esse dia se inventam futuros e utopias.  O Natal é esse rosto do Mundo. Na cronologia da Humanidade, poucos acontecimentos têm essa força mítica e encerram tão renovado capital de esperança. Na raiz dessa luz planetária estarão as ideias de um tempo novo, limiar de um Mundo onde o homem fosse a medida de todas as coisas e a vivência comum impusesse os valores da fraternidade e da justiça. Mau grado o tempo que vivemos, que assassina a esperança, somos confrontados com uma realidade que mostra no quotidiano as feridas abertas do triunfo das desigualdades, as valas comuns da fome e dos genocídios, a desgraça de guerras preventivas, as síria, os iraques, os afeganistões, que potenciam todos os crimes, as mitigadas ou expressivas fórmulas da exclusão social, as intifadas do desespero e da violência, os novos muros que se levantam edificando uma outra desumanidade. Se o Homem que hoje se projecta como cidadão do Mundo, se vê paradoxalmente mais desarmado e indefeso sobre o tempo histórico que lhe coube em sorte, se os valores agora se penduraram no bengaleiro do mercado público, se o padrão do vazio que modela os dias é o sintoma letal de uma sociedade que mercantiliza tudo, até o sonho, e elogia uma certa escravatura moderna, então o Natal é sempre um ponto de reencontro entre os homens catalogados de boa vontade. É uma pausa breve – muito breve – que leva a suspender armas, um instante em que o sonho de uma nova Humanidade fugazmente poisa na alegria de um instante, uma luz de utopia para se extinguir a seguir. O rosto dos dias portugueses carrega os traumas do viver, acena triste à conjuntura que afastou para longe o direito à felicidade mínima, sobressaltam as imagens dos meninos que estendem a mão ou balbuciam, a medo, que têm fome. A sombra de desumanidade que pesa sobre nós mata o Natal como sonho de tempo novo. Mas logo um limiar de esperança, breve e fugaz, se abre ao frágil coração dos dias. Tempo tocado por palavras de esperança e rebeldia, por gritos e gestos que não são mais do que a planetária inquietação da Terra. Viver. Respirar. Amar. Mais um Natal. Meninos que nascem em todo o Mundo num cromatismo de esperança. Um dia, em qualquer parte do mundo, ficarão à espera de outros Natais para dizer: é dia de ser bom. A caligrafia da esperança universal que é preciso repetir sempre. Como quem está de passagem e ama o efémero.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O TRIUNFO DA ESTUPIDEZ


Ilustração de Zé Dalmeida
Uma das mudanças com efeitos devastadores na sociedade portuguesa é a que decorre dos conceitos de informação e de cultura configurados ao estrito espaço dos negócios, sem outra virtualidade que não seja o deve-haver do cifrão. Esses modelos provenientes de uma prática capitalista, que agora se refinou como selva,  criaram a ilusão do espectáculo, tantas vezes apostado no vazio de valores, sempre submetido à teologia do mercado. A cultura está refém desse catecismo. É cada vez mais um negócio sem alma.
Nessas circunstâncias, os padrões apostaram na mediocridade e no analfabetismo (veja-se o caso das televisões e de uma imprensa voltada para o puro sensacionalismo, com a subalternização acéfala da cultura e da dimensão humana), fechando muitas vezes os horizontes do país num narrativa barata de faca e alguidar.“
É certo que não é só cá. Por todo o mundo, o quotidiano vai sendo moldado pelo minimalismo, como se o homem fosse gradualmente desapossado daquilo que é intemporal e definitivo, como destino da condição humana: a plenitude da arte, seja na música, na literatura, na pintura, isto é, em tudo aquilo em que o homem, sendo a medida de todas as coisas, é capaz de desafiar os deuses.
Há uns anos, o escritor espanhol, José Manuel Fajardo (de Granada), reflectiu sobre estas inquietações a propósito de livros e autores, e, sobretudo, dos géneros literários que os negócios editoriais (há cada vez mais conglemerados de editoras, transformando a literatura numa espécie de pensamento único) desaconselham como mau negócio. Os relatos, os contos (seguramente também a poesia) estariam entre a matéria literária sem interesse para o grande mercado. O escritor expressava a sua perplexidade a propósito da evocação do mestre do conto de mistério, Edgar Allan Poe, e terminava a sua crónica (“Maus tempos para Borges”) com esta tirada, que dá que pensar: “Se Borges tivesse hoje trinta anos e passeasse os manuscritos dos seus contos pelas principais editoras de Espanha ou de França, o mais provável é que lhe dissessem que não estavam mal, mas não eram rentáveis. Mais lhe valia pôr-se a escrever uma novela, com os ingredientes habituais do sucesso: violência, crime, sexo...”. 
Quem nos defende do triunfo da estupidez, mascarada de cifrões?