sábado, 4 de janeiro de 2014

EPITÁFIO PARA UMA EUROPA




A Europa é uma realidade distante, mitificada ou omitida, quando de paraíso prometido passa a demónio. Há silêncios comprometedores e os políticos tiveram sempre medo de confrontar o povo com o espaço europeu, que integramos. Por alguma razão, nunca se realizou um referendo sobre a Europa. E,no entanto, é preciso pensá-la e amadurecer o seu conhecimento, pois só assim a cidadania europeia será realizável. Numa crise, como a que estamos vivendo, a Europa parece mais distante, menos parceira e mais agiota, defensora de interesses financeiros e egoísmos dos poderosos.
Os versos dos poetas são, muitas vezes, premonitórios sobre o futuro, como que adivinhando o tempo ou a sua anquilose. É por isso que vale a pena ler o poema que Nuno Júdice escreveu em 2008, "Epitáfio para uma Europa", incluído no livro "A Matéria do Poema" (Dom Quixote). Aqui fica:

"Limpo do Espírito o unto da Europa, e deito-o
nas feridas do ocidente para que sequem mais
depressa. A Europa impregna-me com a sua febre,
que eu acalmo com a água de um ócio de
culturas. A Europa atravanca os passeios da memória,
e obriga a empurrá-la para deixar passar
os que chegam. Às vezes, a Europa encosta-se
às esquinas, como se não fizesse nada,
e confundem-na com a puta da noite, como
se ela estivesse à venda; mas o que ela faz
é oferecer o corpo a quem a quiser. De outras
vezes, a Europa é a virgem que não quer
descer do altar, como se alguém a adorasse,
ainda, e lhe acendesse as velas de uma devoção
de milénios. "Tirem-me a Europa
da frente", dizem os que querem chegar
mais depressa aos lugares que a Europa 
já descobriu, e perdeu, há muito. "Quero ser 
como a Europa", dizem outros -- os que 
andaram atrás dela, e não souberam acompanhar-lhe
o passo, e caíram no primeiro obstáculo,
vendo acumularem-se por cima de si os corpos
de quem vinha atrás. A Europa enlouqueceu
e pede que a fechem para que ninguém mais
acredite no que ela diz. A Europa é o mocho sábio
da fábula, e as crianças juntam-se à sua volta
a pensar que vão aprender alguma coisa. Tiro
a Europa do mapa e meto-a no bolso. E quando 
alguém me pedir lume para o cigarro, vou puxar
por ela e acendo-a. Se o mundo arder, a culpa é
de quem me pediu lume; se a Europa se apagar,
deito-a fora e troco dev isqueiro."

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

LÁGRIMAS DE CROCODILO...

Ilustração de Zé Dalmeida
Ainda há quem se lembre do dia em que o Presidente Cavaco se queixava que as suas reforma e pensões (qualquer coisa como dez mil euros) não lhe chegavam para as despesas? Poucos falam nisso, e, no entanto, o mesmo Cavaco caucionou um Orçamento em que os reformados e pensionistas, já de si tão fortemente esbulhados, levam com a ripa de mais um imposto, a que chamam taxa extraordinária de solidariedade (bonito eufemismo para lixar os mais velhos), que abrange logo as pensões acima dos mil euros... O Presidente Cavaco, que está no clube das aposentadorias milionárias, chorava lágrimas de crocodilo sobre a sua condição de reformado, um acto indigno num país que deixou de ser de miséria mansa, para ser de miséria violenta, onde a maioria dos reformados recebem pensões baixas, muitas a roçar uma natureza miserável. 
Poucos já se recordam dessa tirada, que define o carácter de um Presidente em tempo de crise, e ninguém falou nisso -- temos todos mais que fazer -- no instante em que o tal Orçamento que ele promulgou, sem sombra de inconstitucionalidade (diz, ele, Cavaco), vai novamente ao bolso de milhões de pensionistas que vivem abaixo da irrevogável linha vermelha do senhor Paulo Portas.
Ninguém também falou ou fala neste senhor vice primeiro-ministro, que passou de defensor dos idosos, que tinha a sisma dos grisalhos, a exterminador dessas mesmas pessoas, de cabelos brancos, a quem o Poder só pensa cristãmente abreviar a morte
para equilibrar as despesas da Nação, tudo pela Nação, como dizia o Salazar. Coitada da linha vermelha, que tem sido espezinhada, onde já vai o síndrome! 
Nem um, nem outro, querem saber destas realidades comezinhas da vida dos portugueses. Estão-se maribando, é o que é. E o melhor, para distrair a maralha, é a bola. O Presidente Cavaco, para limpar as mãos das borradas inconstitucionais que tem permitido, vai condecorar como cavaleiro da Ordem do Infante, Cristiano Ronaldo. Que grande golo! Mas tenha cuidado.Já dizia o O'Neill, uma coisa pensa o cavalo, outra aquele que está a montá-lo.






O VENENO PELA MANHÃ


Desperta um pacato cidadão, meio estremunhado espreita o 
horizonte, que está cheio de nuvens ou com chuva batida pelo vento, e prepara-se para começar o dia pondo-se “a pau” com as notícias, que são a realidade comestível em termos de actualidade informativa. Enquanto não chega aos jornais, que é lá mais pela “bica” matinal, pára, escuta a rádio, e olha, de soslaio, para a televisão, que agora oferece em abundância tristes despertares matinais. Logo pela manhã, não faltam socos no estômago, notícias de guerras, de atentados, e de dramas com q.b. de angústias (há sempre mortes trágicas por via de desvarios demenciais, ou nem tanto), o cutelo dos aumentos (a electricidade, o gás e o mais que se adivinha) sobre a cabeça, tudo o que o pacato cidadão irá pagar com língua de palmo, no calendário sofrido da vida.
Ainda agora, nestas horas que deviam ser serenas, com os fumos das festas do novo ano a dissiparem-se no ambiente, o pacato cidadão, mal apurou ainda o ouvido ao som dos instantes da rádio e já sobre ele correm nuvens negras de expeditas malfeitorias governamentais, sempre vestidas de ameaças, para prepararem os pobres humanos que somos para os aumentos da taxa de solidariedade social (são os chamados impostos mascarados de taxas) que os pensionistas têm de suportar, além, claro, de outras medidas que o governo vai calibrar, como diz alegremente o porta-voz, com o ar mais natural do mundo. Isto e mais todas as notícias de sangue (“assassinou...”) e de “bas-fond”, além de revisões da matéria dada (às vezes) quanto a coisas que cheirem a corrupção como o BPN (será que algum dia serão condenados?) ou os escândalos à volta dos Estaleiros de Viana (bem podem os trabalhadores fazer manifestações...) e todo aquele universo de sujeitos vorazes que rondam a mesa do orçamento.
Logo pela manhã, é assim. E quando esfregávamos os olhos de espanto, face à “espantosa realidade das coisas”, surgem os comentadores blá-blá-blá a falarem em consenso, a receita milagrosa do presidente Cavaco para sairmos desportivamente da crise. É o veneno que corre pela manhã. Que nos vai matando, lentamente.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

ESTE DIA, HÁ CEM ANOS...


Oiço, agora, a voz do Francisco Sena Santos (que saudades temos todos das suas manhãs, na RDP, em que ele nos acordava com a actualidade portuguesa e mundial!), com o registo nervoso que era o seu estilo de nos envolver nos acontecimentos, dizer no sapo notícias, que é o seu espaço informativo, onde ele nos dá conta do tempo que vivemos: "Faz agora, neste começo de 2014, exactamente cem anos, que a Europa marchava para o cataclismo. A crónica é sobre a Primeira Grande Guerra (1914-1918), que devastou a Europa (Sena Santos diz: "quando a Europa se suicidou"), envolveu mais de 70 milhões de soldados e provocou 12 milhões de mortos civis e 9 milhões de soldados. 
Também nas guerras, há grandes, médias e pequenas, e as duas que lavraram de morte e destruição a Europa foram logo catalogadas entre as primeiras, pois o cortejo de crimes e sofrimentos, os assaltos de desumanidade e as valas comuns são tão grandes que olhamos para esses conflitos como realidades demenciais: o absurdo tornado absoluto.
Esta, de que falamos hoje, já se disse, foi grande e assim ficou catalogada para a História, o que não foi exemplar, nem serviu de grande coisa, pois 31 anos depois, o crime voltava a eclodir, ainda mais besta, com ignomínias e holocaustos a esmagarem a Humanidade, construindo um século sombrio, como lhe chamou Max Gallo.
Olhemos o centenário da Primeira Grande Guerra, com olhos críticos e questionemos a memória do tempo para percebermos como a política e a insensatez dos que não quiseram ver a realidade, ajudou a empurrar a Europa para o abismo e para "a espiral dos totalitarismos". 
Um século depois, a União Europeia (fundada para evitar mais conflitos da mesma natureza) é hoje atravessada por guerras de outro tipo, mais subtis e sem milhões de mortos, é certo, mas igualmente eficazes naquilo que é a destruição do homem e uma profunda ferida civilizacional. Os exércitos são, às vezes, invisíveis, e os conflitos burocratizados contra os cidadãos, agora como antes, desarmados face aos sistemas que banalizam o mal e o tornam inevitável. 1914. Ano, pois, para a Europa se pensar e repensar. Da outra vez, bastaram dois tiros. E agora?

Há imagens que perduram. Portugal participou no conflito e escreveram-se páginas de grande heroísmo, daqueles heróis anónimos (os improváveis heróis) que deram tudo pela Pátria e não receberam nada. Também é bom lembrá-los, nesta evocação centenária. Há ainda quem se lembre de ver esses "heróis" passearem-se pelas terras, com os traumas de terem sido gazeados no conflito, a sobreviverem de esmolas. Quantos deles (lembram-se?) morreram na miséria mais atroz? Quantos?




quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O PROGRAMA (DA TROIKA) SEGUE DENTRO DE MOMENTOS



Ilustração de Zé Dalmeida
Uma das coisas mais nocivas à expressão democrática das ideias é, seguramente, aquilo que se confinou ao exercício do pensamento único, ao politicamente correcto, fórmulas de mistificação que escondem sempre partes da verdade, que o mesmo é dizer da realidade, quando falam da nossa vida colectiva. Ainda agora, ouvi a “conversa em família” do Presidente da República, acenando aos portugueses com votos de Ano Novo, numa retórica em que, chegados ao fim, não sabemos se os tempos futuros são bons, maus ou assim-assim. Acredito que são péssimos.
Há muito, que no seu politicamente correcto, o Presidente deixou de falar em limites para os sacrifícios, com que ele gostava de fustigar um governo de outra cor. Agora, vergado à liturgia dos mercados, ele próprio teólogo deles, sacode da consciência tudo o que, no Orçamento que já promulgou, ele sabe que são saques aos bolsos dos portugueses e reformados, não se detém sequer, com essas miudezas. O desemprego, a pobreza, a emigração... Pois. Não sei quê o consenso, não sei quê o segundo resgate, não sei quê o programa cautelar, não sei quê o apoio dos nossos parceiros europeus. Sim, sim, eles têm sido de uma solidariedade a toda a prova! Sabe-se o que isso significa. Pois. Eles (os nossos queridos parceiros) devem estar como os tipos daquelas tascas, cientificamente dispostas ao longo da topografia dos enterros e na geografia segura dos cemitérios, que colocavam à porta, em letras garrafais: “Há volta cá te espero", "Hoje, há passarinhos!”. Neste quadro fúnebre, o funeral é patrioticamente o nosso e os passarinhos fritos somos nós!
O que é mais triste é iniciarmos o ano ouvindo estas charlas políticas que apenas visam fazer dos que têm a desdita de as ouvir de idiotas úteis, aquela categoria sociológica do "come e cala!". É caso para dizer que, a seguir ao discurso, em vez de um bocadinho de hino, como dizia o António Silva, deveria vir a advertência: o programa da Troika segue dentro de momentos… Pianinho!

Mas pronto, no primeiro dia do ano, é de bom tom afastar a tristeza e poisar em realidades mais prosaicas. Então, mudo a agulha, para uma história que, por acaso, tem a ver com o politicamente correcto.
De facto, anotei, há tempos, por ter gostado dela, uma saborosa crónica de Jorge Reverte no “El País” em que ele discorrendo sobre as questões da linguagem e o politicamente correcto, contara uma história passada numa Praça de Madrid. Não sei se o narrador começara com a célebre abertura “era uma vez…” e depois dera corda larga à imaginação, ou se contando um conto, lhe acrescentara um ponto. Mas a história era de dois canibais, pai e filho, que caminhavam pela selva e chegaram a uma clareira. Aí, desfrutando dos fortes raios do sol tropical, vêem uma mulher branca, lindíssima, completamente nua. Os dois selvagens ficam atónitos, contemplando-a até que o filho perguntou:
-- Comemo-la, papá?
-- Não! -- responde o pai. -- Levamo-la para a nossa cabana e comemos a tua mãe!
Os que assistiam à cena riram-se com a anedota, menos duas mulheres que questionaram o narrador:
--És um reles machista!”
O homem desculpou-se e mudou de conversa.
Uns dias depois, em circunstâncias parecidas, na mesma Praça, outra história, com registo diferente.
Vão duas mulheres canibais, a mãe e a filha, pela selva. Ao chegarem a uma clareira, encontram um homem branco, belíssimo, totalmente nu. A filha propõe à mãe:
-- Comemo-lo?
--Não! -- diz a mãe. -- Levamo-lo para a cabana e comemos o teu pai!
As mulheres que assistem à cena, rebentam a rir, e até os homens, que seguramente não tinham conhecimento da versão anterior, acham graça à anedota. Ninguém protestou.
O narrador, escreve Jorge Reverte, encontrara o ponto de vista correcto...





terça-feira, 31 de dezembro de 2013

QUE FIZERAM DA ESPERANÇA?



Ilustração de Zé Dalmeida: "No limiar do Novo Ano"
Chegamos ao fim de 2013 com o credo da crise na boca, o gosto amargo do desespero, a esperança tantas vezes assassinada,o rio de lágrimas em que a vida se transforma, como se fosse fatalidade saída de uma caixa de Pandora manipulada pelos deuses modernos, que são aqueles cavalheiros do bas-fond financeiro, cães da mesma ninhada de selectos terrorismos de Estado. O ano caminha para o fim, passeia pelas ruas das suas últimas horas, o calendário está quase a virar a página, um toque só é quanto basta, como as folhas que caiem sopradas pelo vento. E o resultado final da caminhada é quase um cemitério ao luar. Ano mau, ano péssimo, que só para alguns deixará saudades.
Um costume antigo da Beira, proveniente porventura do fundo do tempo, quando a vida era duríssima e a pobreza uma visita presente no quotidiano das populações como benção que prometia paraísos póstumos, manifestava as indignações individuais dos que tinham queixas a ajustar contra os doze meses que se esgotavam nos últimos minutos do ano. Diziam eles, com certeza ganha no imaginário rural, que ele, o ano, estava velhinho, mas ainda assim, merecia ser atormentado na expiação final dos seus dias. Então, carregavam as caçadeiras com cartuchos sobrantes da caça, e,à meia noite, disparavam para o céu, na esperança de um chumbo fazer mossa,ainda que de raspão, ao velho ano. Ouviam-se, distintamente, na solidão dos campos, os ecos dos tiros, que se extinguiam, logo, a seguir, que o novo tempo já estava a bater à porta e devia ser bem recebido, pois era um aceno de esperança. Se fosse agora, grande fuzilaria se precisava para ser proporcional às malfeitorias e aos desastres sofridos nos 365 dias que o calendário nos ofereceu! Esse tempo herdara já dos anos anteriores, é verdade, os sinais de desgraça e de morte, que a espessura dos dias foi mostrando inelutavelmente, numa diversidade de males, que até parece que os infernos, na diversidade dos seus matizes modernos, voltaram para envenenar irremediavelmente as sociedades.
No limiar de um Novo Ano, não faltam angústias planetárias (as feridas abertas de sírias, iraques, afeganistões; a geografia política dos terrorismos e fundamentalismos) e angústias domésticas, estas tão nossas, tão portuguesas, que expõem na sua crueza dramas -- que as estatísticas nunca são capazes de medir na totalidade -- provocados pelo desemprego e pela pobreza que já não é capaz de encobrir a fome. Às vezes, a narrativa informativa dá nota dessas realidades e até pode acontecer que se detenha uns segundos nesse fio da navalha onde o homem é a medida de coisa nenhuma. São casos passageiros, dizem, que fazem parte do registo efémero dos dias. Nestas alturas, em compasso de festa, costuma-se perguntar pelos acontecimentos e figuras do ano, como se a vida pudesse ser resumida assim e os balanços circunstanciais fizessem concreto registo dos danos. 
Desculpem-me o pessimismo, mas talvez o acontecimento do ano possa ser aquele fenómeno relatado em passo de corrida (se é que foi mesmo relatado!) daquelas pessoas que puseram termo à vida, porque a sociedade os catalogou como dispensáveis, porque esgotaram as migalhas de esperança, porque se cansaram dos infindáveis dias do desemprego de longa duração, porque a família ficou subitamente destroçada, porque o clamor dos filhos a pedirem pão era uma acusação de culpa. Porque,porque, porque. Quando Camus mergulhou na fatalidade do seu Sísifo, e diz que o suicídio (estou a citar de memória) é porventura o problema mais sério da filosofia, poderia estar a falar-nos desta realidade de horizontes fechados que é a crise (com as suas políticas), que destrói o homem na sua elementar dignidade.

O resto é silêncio. Com 2014 a bater à porta, talvez fosse bom pararmos um pouco, antes de entrarmos no Novo Ano, e reflectirmos sobre os dias andados, questionando os autores de uma outra filosofia suicidária, de matriz económica e financeira, que produziu a hecatombe que se conhece, com as suas receitas gananciosas e o seu nefasto catecismo de capitalismo selvagemu, que o própria Papa abomina e critica. No chão português, tirando dois ou três que, pela notoriedade das burlas, ficaram presos, ou a contas com a justiça, os outros, a maioria, do alto da impunidade da sua relevância, continuam a dar cartas e conselhos e até a materializar políticas. Portugal não tem emenda. É possível, em consciência, desejar um bom e feliz Ano Novo? Talvez seja melhor dizer, apenas, caríssimos leitores, como faziam os emigrantes portugueses na década de sessenta, quando se despediam: “Saúdinha!”

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

HISTÓRIAS DE DIAS PRECÁRIOS


Quando o restaurante ficou quase vazio, uma mesa ao fundo juntou discretamente proprietários e empregados para a refeição de circunstância. Época de Natal: os bons sentimentos multiplicam-se. Estava lá uma mulher nova, bonita, de traços eslavos, que tinha trazido para a mesa um daqueles livrinhos com plásticos para proteger fotografias. Observei mais atentamente o quadro. Ela ia folheando o pequeno álbum, à medida que comia, percebia-se que era qualquer coisa de inseparável que levava consigo para onde quer que fosse. Não falava português, ou apenas o mínimo que uma fala estrangeira comporta nos primeiros dias: o-bri-ga-do!. Estaria por cá, de facto, há pouco tempo, os seus olhos ainda abarcavam a paisagem física e humana, com total espanto. Exprimia-se sobretudo por gestos das mãos, um outro prolongamento da fala, e fazia-o com alguma exuberância, como se quisesse explicar no momento a biografia de uma vida sofrida. Os seus dedos, outra espécie de olhos, iam indicando o universo familiar que girava à volta das fotografias, que ela, de vez em quando, juntava ao coração e apertava muito. Apontava e sorria. Os que a rodeavam iam descodificando, em voz alta:
- É o filho!
- É o marido!
- São os pais!
- Esta é a tua irmã? I-r-m-ã!
Ela ia dizendo que sim, ou que não, conforme os acertos ou desacertos das legendas que os outros atribuíam às fotos. Abanava a cabeça para dizer que sim, e quando isso acontecia os olhos iluminavam-se de estranha luz. Sorria, sorria muito, quando apontava o menino da foto, o filho, que eu, de longe, imaginei um menino de olhos tristes, como são todos os que não têm a mãe ao alcance dos seus braços para o colo. Mas (reparei eu) quando o dedo indicador parava na particularidade daquela imagem, o rosto explodia numa súbita imagem de felicidade, como se a fotografia, naquele exacto momento, abolisse todas as distâncias e fizesse o milagre da proximidade. Então ela, fechava os olhos e beijava a foto, uma e outra vez, mas logo caía nela e os olhos povoavam-se outra vez de tristeza. Sobre a mesa ficava uma breve ilusão de realidade: fragmentos de vida, memória possível e à distância dos dias felizes.
As fotografias eram, afinal, um pedaço da pátria eslava, o elemento material que humanizava a sua condição de emigrante em país distante. Chamava-se Maria e era, decerto, um rosto entre muitos que partilhavam a mesma condição. Naquele momento, não sei porque estranha contingência, outras emigrações, muitas, vieram à minha lembrança, histórias de dimensão dramática e de muitas mortes, como as que agora estavam em moda, com gente que foge de um continente, em parte, descartável, chamado África, à procura de pão elementar, em busca de um breve limiar de condição humana. Batem à porta da Europa, e a Europa não os ouve, assobia para o lado e lava as mãos. São centenas e morrem nas praias ou engolidos pelas ondas, quando, muitas vezes à vista de terra, as frágeis embarcações naufragam levando para o fundo sonhos de uma libertação mínima. De repente, aquela fotografia dos cadáveres, alinhados e tapados por lençóis brancos, em Lampedusa, pareceu-me a metáfora real da aventura de pobres que é a vida (vida?) de muitos que foram sempre tratados como gado e nunca tiveram direito à inclusão mínima. Outra história trágico-marítima. Bem pode ser essa a imagem do ano que está a findar, pois contém toda a carga de desumanidade em que a sociedade é pródiga. Se quisesse dar algum alento à metafísica do instante, poderia dizer que aquilo não é outra coisa senão uma certa morte da Europa, tão banal e já tão dentro de nós, que nem nos atrevemos a perguntar por quem os sinos dobram, pois sabemos, de ciência certa, que eles dobram por nós. 
Adivinho então que, no vestuário molhado de náufragos, de muitos deles, há, também, muitos daqueles plásticos que protegem fotografias do universo íntimo, como as de Maria, e que eles traziam coladas ao coração, como seu único e intocável tesouro.

domingo, 29 de dezembro de 2013

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, MESTRE !



Ainda hoje me emociono (serão decerto esses instantes que fazem parte daquela pessoalíssima sensação a que chamamos emoção estética)desta vez provocada pelo prazer da leitura de crónicas de Carlos Drummond de Andrade. Durante quase uma década, nos anos 80, tive o raro privilégio de mergulhar de forma profunda no universo criador do grande escritor brasileiro, aquele de quem José Saramago disse que teria merecido, mais que ele, ter ganho o Prémio Nobel da Literatura. Nesse tempo, que ainda recordo com um frémito no coração, Carlos Drummond de Andrade publicava uma crónica no "Jornal do Fundão", em exclusivo para Portugal, e esse território de jornal, que o grande poeta assinava, era um espaço de palavras luminosas que nos ensinavam a olhar o quotidiano como matéria sublime de literatura. O "Jornal do Fundão" tinha uma matriz informativa em que a cultura era vector determinante, e, articulava uma relação com o Brasil coraçãomente, como diria outro vulto brasileiro que sabia inventar palavras, João Guimarães Rosa, cabendo nesse desafio (em tempos da ditadura) figuras como Érico Veríssimo, João Cabral de Melo Neto, Odylo Costa, que vieram ao Fundão depois de Juscelino Kubitschek, que aqui esteve em 1963. Então, nesse tempo, todas as semanas, um envelope grande era colocado na minha mesa de trabalho. O sobrescrito, com os carimbos da praxe, atravessara o Atlântico e poisava no "jornal do Fundão". Lá dentro, vinham três crónicas de Carlos Drummond de Andrade, com a chancela do "Jornal do Brasil", que ele publicava no diário brasileiro. Eu escolhia uma para para a semana em curso, e guardava as duas outras,como património imperdível, para depois. À distância do tempo, olho para essa tarefa que se fez rotina ao longo dos anos, como se nas minhas mãos tivesse um daqueles "pormenores de Deus" de que fala Steiner, tal era o prazer da leitura, a dimensão criadora que Drummond dava à crónica, um espaço multifacetado onde cabiam fragmentos de diário, detalhes do quotidiano, poesia, memórias avulsas, aforismos. O que se aprende no mundo criador de Drummond! Hoje, neste final de ano tão cinzento e triste, em que os velhos em Portugal são quase coisa nenhuma, sofrendo ofensas do Poder que os elegeu como grupo a abater ao efectivo do regimento, apetece-me abrir o baú das crónicas de Drummond, e oferecer aos meus leitores, uma delas, que fala precisamente de um velho e que, escrevendo sobre ele (um apontamento do quotidiano), fala da vida. Aqui a deixo para o puro exercício do prazer da leitura.
O Velho
Carlos Drummond de Andrade

Vocês não acreditam, mas também este cronista costuma ir ao Banco, e não é só para pagar contas de luz, gás, telefone. Vai conversar com o gerente --  um gerente simpático, desses que não coçam a orelha quando a gente propõe uma segunda reforma de título. Mas quem sou eu para pleitear tamanha mercê? Procuro o gerente para conversar sobre amenidades, e ele me ouve com paciência e atenção. Até me conta coisas de seu filho, o Escritor. O Escritor tem três anos e escreve literalmente em todas as paredes da casa. Fareja livros com gravuras e sem gravuras e aprende coisas que eu, possivelmente, ignoro. A curiosidade intelectual do Escritor é insaciável. Assim fazemos do Banco, sem prejuízo dos interesses bancários (pois o gerente é uma fera para trabalhar no meio das maiores apoquentações) um lugar de grato repouso.
Ontem o gerente estava tão assoberbado de clientes, papéis, telefonemas, recados, que não tive coragem de me aproximar. Fiquei à espera na poltrona, ao lado de dois rapazes que também esperavam. Esperavam e conversavam sobre política, inflação, Copa do Mundo. Eu ouvindo por força da proximidade, sem interesse. A certa altura, um perguntou:
— E como vai o Velho?
— Meu Velho? — respondeu o outro. Aquele vai sempre bem. Melhor do que eu, você e todo o mundo.
— Qual a última dele?
— Não tem última. Todas são novas e contínuas. Aos sessent'anos (sessenta e lá vai fumaça), nada, corre, entra em pelada, monta, joga volei e só não rema porque não encontra companheiros com a mesma fibra, para disputar regata. Enquanto isso fuma e bebe.
— E...no resto?
— No resto ele ainda é de goleada. Parece mentira, mas as mulheres adoram o Velho, e ele capricha para dar conta do serviço.
— Quantas vezes ele já casou?
— Perdi a conta. Quatro ou cinco, se não me engano. Ou seis. O extraordinário é que nenhuma das ex se queixa dele, todas que conheço continuaram suas amigas e, de um modo ou de outro, dão a entender que o desempenho dele era cem por cento. Sabe de uma coisa?
— Sei. Você tem inveja dele.
— Tenho. Pra que vou mentir? Meu primeiro casamento não deu certo, o segundo menos ainda. Então desisti, agora sou freelancer. Mas com o Velho é diferente. Todos os casamentos funcionaram.
— Então, por que acabaram?
— O Velho tem uma teoria que casamento não pode esfriar e virar rotina. Antes que isto aconteça, ele passa uma conversa manhosa na gatona (é especialista em gatonas) e o último episódio da novelinha é vivido sem choro nem briga. Um sábio.
— Um mestre.