quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

COMO ÍAMOS DIZENDO...

Na circunstância de retomar o diálogo (ou, neste sentido, a escrita), interrompido por motivos inadiáveis, esses que têm a  ver com a fronteira da vida, relembro sempre Frei Louis de Léon, quando, afastado dos alunos da Universidade de Salamanca, pelos esbirros da Inquisição, retomou tempos depois a fala com os seus estudantes, com a sabedoria de uma frase que ficaria célebre:Como íamos dizendo...
Sem as sombras de ausência de liberdade, que cercaram o Mestre de Salamanca, também eu tive o meu silêncio que, sendo breve, desde o dia 11 de Dezembro, foi fundo e total. Nessa prosa de há semanas, sabendo o que me vinha bater à porta, eu falei da luz, que foi o que Goethe pediu ao pressentir o fim da jornada e poisei os olhos na paisagem mais imediata, sempre deslumbrante na topografia dos seus detalhes.
E cá estou de volta, caríssimos Leitores, pedindo desculpa pelo justificado interregno, mas prometendo um dia destes falar desse outra experiência pessoal, que só tem relevância pela exemplaridade de um factor civilizacional português chamado Serviço Nacional de Saúde. Mas o que eu quero dizer hoje é que nestes dias de Dezembro, que abraçaram o Natal, houve muita luz. E sol aberto a cortar o frio glacial que, às vezes, sopra como demónio endiabrado da montanha. Ao olhar que regressa, prece-lhe outra e mais forte transparência das coisas, e, deixem-me confessar, essa surpreendente luminosidade que é a vida, para afastar para longe a sordidez em que se atola, para gáudio de idiotas, a sociedade portuguesa.
Regressemos, pois, à luz. O ano caminha para o fim e este bem merecia uns valentes tiros simbólicos no lombo porque a pobreza foi o seu grande título de glória. Vem aí 2015. Será pedir muito um pouco mais de humanidade? Uma réstia de esperança? Uma oportunidade mínima de felicidade para velhos e novos? Atrevo-me a pensar nesse sol de bondade e alegria, quando me lembro no meu neto Francisco e sobre o seu nome desfolho os versos de um poema de Jorge Jorge Guillén, magnificamente traduzido por Jorge de Sena (Poesia do Século XX. De Thomas Hardy a C.V.Cattaneo) que intitulou Criança, que ainda é a melhor coisa simbolizar O Ano Novo, a vida que se renova.

Claridade em corrente,
Círculos de rosa.
Enigmas de neve:
Aurora e praia em conchas,

Máquina turbulenta.
Alegria de lua
Com vigor de paciência:
Sal de onde brota.

Instante sem história
Teimosamente largo
De mitos entre coisas
Mas só com seus pássaros.

Se rica tanta graça.
Tão só graça, sempre
Tota, no olhar: e o mar
Unidade presente.

Poeta dos brinquedos
Puros sem intervalo, 
Divino, sem engenho:
O mar, o mar intacto!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

CORAÇÃO AO ALTO!

Não coisa mais fascinante do que a luz. A escuridão e a sombra são sempre restos, que só no tempo do sono parecem toleráveis. Esta coisa da luz, nos cristais e cintilâncias que oferece ao nosso olhar, é capaz de nos por a pensar em coisas bem mais profundas do que a rotina que parece estar destinada às suas oferendas de circunstância. Às vezes, é um sol a pino, que nos obriga a colocar a palma da mão à frente dos olhos para filtrar a paisagem e descortinarmos as coisas; mas na maioria das vezes é uma luz mansa que coa a realidade, poisa nas casas e nas ruas, nas árvores e nas florestas, cria as suas fronteiras de sombra, que também têm o seu encanto, e o tempo abre-se numa aleluia suprema, uma sinfonia da natureza e da vida. É muito curioso observar os detalhes que a luz, poisando nas coisas, oferece à medida que caminha pelo tempo de dia. Não me canso de andar à caça dessas alegrias, fragmentos de humanidade que os deuses, certamente de boa catadura, nos deixaram para sabermos gozar. Dias cheios, assim, mesmo quando os dias são curtos e a noite desce com o seu manto de frio e uma realidade glacial, que as iluminações do Natal não disfarçam, vem para ferir até aos ossos o corpo e a alma dos pobres que, de abundante, como disse o poeta, só têm o sol.
Agora, faço a mala e vou tratar do coração, que bem merece atenção e desvelo. Durante uns dias, lá vou eu recolher-me ao silêncio, até que a luz volte outra vez, definitiva e total. A reler Eugénio, que tem tanta luz nos seus poemas, fico com este

A luz,
a luz trazida
pelos rosados pés dos pombos
dos confins da alegria

-- quem pudera levá-la 
à boca e dormir apaziguado.

JORNALISMO DE SARJETA


Talvez não haja a profissão tão apaixonante como o jornalismo e a história está cheia de exemplos de pequenos e grandes heróis que arriscaram a vida ou morreram para cumprirem o dever de informar os os outros, dar-lhes uma ideia ou uma notícia, qualquer coisa que era simplesmente capaz de lançar o frémito de uma emoção ou colocar a consciência pública na primeira linha do pensamento. Às vezes, no meio das balas ou pesados bombardeamentos, como no Vietname ou em Salvador (é bom lembrar o filme), outras no cerco ignominioso da violência, brutal ou subtil, ou tentando irromper nas nuvens das fábricas de medos, que os poderes alimentam. Dizia Vásquez Montalbán, há uns anos largos, que não se pode exigir aos jornalistas que sejam heróis todos os dias, mas a verdade é que a classe se enobreceu com exemplaridades corajosas, com gente vertical que fez da palavra um combate superior de honra e dignidade. Olhamos para antigamente e vemos causas e lutas e combates desmedidos e desiguais só porque no alfabeto do jornalismo o homem deve ser sempre condição primeira e centro do mundo. Neste falar de uma classe que tem a honra por património comum, a liberdade foi matéria de inquietação e de sonho que fazia luz sobre a substância dos dias. Eram excepções à regra -- e excepções que a maior parte das vezes caíam na execração pública -- os atentados à dignidade alheia, as execuções sumárias a mando de interesses espúrios, os assassinatos de carácter, a forma acanalhada de colocar a consciência moral no alçapão das conveniências. Os que o faziam sofriam o opróbrio social porque, até se dizia, tinham vendido a alma ao diabo. Agora, isso é uma ilusão que já passou.
O jornalismo ainda se vive com paixão e na dilatação do seu universo ainda há gente formidável, improváveis heróis, pessoas que vivem no fio da navalha para cumprirem a tarefa de informar, com honra. Mas há o reverso da medalha: a contaminação da teologia do mercado (vender a alma ao diabo, pois então!), a abdicação de princípios morais, a submissão a fétidos projectos informativos de sarjeta, onde o homem é a medida de coisa nenhuma. No chafurdo dessas promiscuidades, todos os dias rasgam o os compromissos do Código Deontológico e mandam às urtigas a escala de valores que deveria pautar a honestidade da função. Esses, são os outros, que pululam por aí, com câmaras e microfones à ilharga, sem limites para as sujeiras de ocasião.
É o "tempo do desprezo", como dizia o Camus jornalista, quando lutava pela liberdade, através da informação, numa França ocupada pelo nazismo. E ele que fez jornalismo sob a bota do ocupante, e depois em plena liberdade, reflectiu muito sobre a exigência ética da prática da informação e no dever de salvaguardar o compromisso do interesse público, inalienável da própria função jornalística. Ele percebia os desvios que aí vinham e teve palavras premonitórias quando advertiu contra a inquinação do acto de informar, com a alegação de que "é isso que quer o público". Ele caricaturou que "se vinde jornais, todos os dias do ano, lhe soprar à volta o ar da mediocridade e do artifício, ele respirará esse ar e não o poderá ultrapassar". Ele pedia um jornalismo "à altura do país" de reflexão e de escrúpulo". e "um esforço quotidiano de reflexão e de escrúpulo". Ler estas palavras, escritas em 1945, parece um programa de exigência para os dias de hoje.
O panorama geral do jornalismo português reflecte, na sua floresta de enganos, uma grande tristeza e uma profunda doença moral. DE tal forma, que é lícito perguntar se o Código Deontológico serve para alguma coisa. O Eduardo Guerra Carneiro, que foi poeta e jornalista dos melhores, publicou um dia um poema intitulado "Isto anda tudo ligado!" que passou a ser citado, pelos anos fora, como metáfora de várias pantominices habituais na sociedade portuguesa. Também no jornalismo de sarjeta, que emerge da realidade, anda tudo ligado. Para glória do negócio e desgraça do jornalismo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ASSASINATO NO PARLAMENTO


Na sociedade portuguesa das últimas décadas, não se assistiu a um retrato tão impiedoso do capitalismo português como aquele a que temos sido confrontados, como público, na Comissão de Inquérito Parlamentar sobre o caso Espírito Santo, na Assembleia da República. Há um livro célebre de Manuel Vasquez Montálban (que saudades!), que se chama Assassinato no Comité Central, mas a história do romance decorre na intimidade de uma super-estrutura partidária, consagrada ao silêncio do altar das conveniências subjectivas e objectivas da situação.
Ontem, na maratona das audições de Ricardo Salgado e de José Maria Ricciardi, lembrei-me dessa ficção bebida na realidade, porque ao observador comum do duelo entre os primos lhe poderia parecer estar a assistir, sob os holofotes da política e da informação, à história de um outro assassinato, em directo do Parlamento, o do Banco Espírito Santo. As razões dirimidas por dois dos actores principais do crime mostraram, nas afirmações e nos silêncios, o que foi a ascensão e queda do Banco Espírito Santo e o acervo de negócios e engenharias financeiras do seu grupo, o GES. Desfilou por ali a anquilose do capitalismo português, na sua articulação de negócios e políticos, n extensão e submissão às ligações internacionais e às suas conivências fraudelentas. No ajuste de contas familiar, com o verniz encenado e paciente de Ricardo Salgado e a impetuosidade de Ricciardi, era muito mais do que os negócios da família que ali estavam em jogo: era oi retrato de um país, com séculos de donos e de mandantes na política, onde, durante anos, são possíveis estes esquemas, à margem das leis (e o BPN? e o BCP?, lembram-se?), convergentes em escândalos próprios das repúblicas das bananas. Matai-vos uns aos outros! O filme vai longo, mas o epílogo ainda está distante.
Enquanto o fim não chega, é bom buscarmos alento na arte dramática de Mestre Gil e na sua Romagem dos Agravados, que aqui ficam uns falares:

Porque tais carreiras sigo
e com tal dita naci
nesta vida em que nam vivo
qu’eu cuido que estou comigo
eu ando fora de mi.
Quando falo estou calado
quando estou entonces ando
quando ando estou quedado
quando durmo estou acordado
quando acordo estou sonhando.
Quando chamo entam respondo
quando choro entonces rio
quando me queimo hei frio
quando me mostro m’escondo
quando espero desconfio.
Nam sei se sei o que digo
que cousa certa nam acerto
se fujo de meu perigo
cada vez estou mais perto
de ter mor guerra comigo.
Prometem-me uns vãos cuidados
mil mundos favorecidos
com que serão descansados
e eu ach’os todos mudados
em outros mundos perdidos.
Já nam ouso de cuidar
nem posso estar sem cuidado
mato-me por me matar
onde estou nam posso estar
sem estar desesperado.  

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

QUEM SABE DE CARLOS DE OLIVEIRA?


Esta segunda-feira, de feriado, tão aberta ao sol e a céu azul, sem mácula de nuvens e asas de vento, foi tempo bom para a leitura. A luz, à sombra do frio, é mais suave, poisa nas coisas e nas paisagens, ao de leve, traça melhor os contornos dos detalhes. Mas falava eu em tempo de leitura. No outro dia, o José Pacheco Pereira inventariava o tempo de leitura de uma vida e media qualitativamente essa capacidade em 4 000 - 5000 livros. Fundava nessa razão desse limite a opção para ler as coisas passadas, já testadas pelo tempo, que valia a pena conhecer, deixando de lado, por opção, as novidades. Há um tempo em que, de facto, começámos a regressar aos prazeres da memória do que nos foi permitido ler e nos inquietamos com a falta de tempo para lermos tudo aquilo que desejamos. Penso que essa inevitabilidade talvez nos ajude a ocupar melhor os dias e a quebrar um pouco essa angústia. Lembro-me de Vergílio Ferreira dizer um dia que não havia pachorra, a não ser para os que o faziam por obrigação, para lerem as páginas completas do Padre António ou os 200 romances de Camilo. Dizia ele, sobre o Camilo, que em muitos casos se lia metade do romance e depois se acreditava no resto.
De facto, é tão vasto o mundo da literatura (com os tais livros que, dizia Miller, estão vivos e falam connosco) que ficamos com sincera pena de tudo aquilo que, por impossibilidade física, não irá suscitar em nós o estímulo e o prazer da leitura.
Ao longo dos dias, vamos construindo a casa da nossa literatura e da nossa escrita, como quem coloca pedra sobre pedra. E, nessa casa, temos os autores que amamos e fazem corpo connosco na tarefa de percebermos o mundo. Um desses, que frequento com enorme prazer, é Carlos de Oliveira, tão injustamente esquecido pelo analfabetismo triunfante. Poucos, como ele, trabalharam tão duramente, e com tanto rigor, na poesia e na prosa, a palavra. Essa tarefa de despojamento explicou-a ele em O Aprendiz de Feiticeiro: "O trabalho oficinal é o fulcro sobre que tudo gira. Mesa, papel, caneta, luz eléctrica. E horas sobre horas de paciência, consciência profissional. Para mim, esse trabalho consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e de e deduzido de si mesmo, o que me obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento e destino".
Então, dou comigo na Ereira, guiado pelas palavras do autor de Uma Abelha na Chuva. Vou com ele numa descrição fantástica sobre a morte do poeta Afonso Duarte. Escreve ele: "A Ereira, uma aldeiazinha dos campos do Mondego onde Afonso Duarte nasceu, visitei-a há várias estações. Quando desaba o inverno, aágua submerge tudo e a cheia vem marulhar ao rés das casas: "Ilha de Ereira, ó Guernesey dorida". As crianças chapinham de pés nus, os aldeões maldizem a vida, os barcos pairam como as gaivotas "em longes de inocência". E mais adiante tem esta descrição assombrosa:

Escrever é lavrar, penso comigo, olhando esta Ereira onde se fecha hoje o círculo que o seu cantor traçou com a própria vida. E lavrar, numa terra de camponeses e escritores abandonados, quer dizer sacrifício, penitência, alma de ferro. Xistos, areais, cobertos de flores, de frutos, se a chuva deixar, o solquiser, o tempo não reduzir as sementes e o coração a cinza. Tanta colheita perdida na literatura, e eu que o diga nesta linguagem de vocábulos pesados como enxadas, na voz lenta, difícil, entrecortada de silêncios, que os cavadores e os mendigos me ensinaram, lá para trás, no alvor da infância: um pouco de frio e neblina coalhada, sons ásperos, animais feridos.
Agora, pouco importa. Caminho entre o povo, atrás do caixão de Afonso Duarte, o extraordinário gravador de lápides rústicas, e sinto que nem todas as colheitas se perdem, que as coisas se compensam umas às outras no seu obscuro equilíbrio natural.
Ao longe, um fumo de casais, fumo ou rumor azul, como se a terra respirasse e nós a ouvíssemos. O sol, esse, ouve-se perfeitamente, é um zumbido alegre, um enxame de abelhas, um pouco à solta, que embate nos salgueiros tenros, tropeça no casario baixo da Ereira, se levanta e prossegue no tropel cintilante. Mestre, cai a manhã "aos silvos na água".
O enterro vai por uma ruela barrancosa, cheia de estrume, entre currais e sebes. Vacas espreitam dos estábulos, as primeiras corolas abrem nos silvedos. Os homens que transportam a urna a pulso param e descansam um pouco, mas logo a marcha recomeça, inexorável, ritual, dois ou três quilómetros de intimidade aldeã: cozinhas pobres, cristas rutilantes de galos, coisas toscas e nuas, velhos ou figuras de madeira rugosa, que se levantam dos portais e nos seguem. Os muros do cemitério, dessa brancura morta que só a cal tem,alvejam lá ao fundo. Assim caminha Afonso Duarte, vagarosamente, acompanhado por crianças, camponeses, alguns amigos, sol e flores, para os seus sete palmos de terra.
Chamem um dos velhos canteiros de Ançã (a dois passos daqui) e mandem gravar na campa do poeta o epitáfio que ele próprio escreveu:
                                                 
                                                A dádiva suprema é dar a vida
                                            Ao silêncio de pedra que é a morte.
                                                 Larga-me da vida, morte,
                                                  Faz-me da morte pedra.

Um desses humildes herdeiros dos escopros de João de Ruão. Chamem-no depressa. Com o sol que está, as palavras ficarão doiradas.

Reli (quantas vezes?) este lavrar de palavras, e por elas, pelas palavras de Carlos de Oliveira, já fui com os meus olhos à terra de Afonso Duarte (posso lá morrer, terra florida!) e às veredas da Gândara, que fazem parte do coração da literatura do autor de Mãe Pobre.
Páginas que, por muito que haja para ler, não podemos esquecer. É por isso que o silêncio sobre Carlos de Oliveira (das próprias Universidades) é simplesmente criminoso.

domingo, 7 de dezembro de 2014

A LIBERDADE TANTAS VEZES REPETIDA!

Soares por JúlioPomar
Lembro-me de um dia Eugénio de Andrade me ter mostrado um texto que lhe haviam pedido sobre Mário Soares. Era mais do que um desses depoimentos circunstanciais que se fazem como ritual de homenagem; era, na prosa belíssima de Eugénio, sempre tão carregada de poesia, um retrato, muito ao jeito do Rosto Precário, em que o poeta singularizava a dimensão humanista e cultural de Soares, e, sobretudo os seus combates cívicos, para deixar mais na sombra a parte mais dura da política. Era, também, o desprendimento do autor de As Mãos e os Frutos sobre os poderes. O que lhe interessava realçar era a comum humanidade que, em Mário Soares, é condição intrínseca e sublime da sua biografia. Lembro-me bem que a prosa terminava de uma maneira surpreendente, que a leitura de Eugénio (ele, que era um leitor fabuloso) carregava de sentido: Gosto dele, apesar de Presidente da República! 
Hoje, lembrei-me das palavras do poeta, que eu gostaria de reproduzir aqui, mas no universo dos meus papéis, que às vezes é mar revolto, a fotocópia que Eugénio me oferecera, sumira. Mas ficaram as linhas do retrato que, aos 90 anos (Parabéns, dr. Mário Soares!) ganhou maior nitidez. Quem conhece o antigo Presidente da República e teve a sorte de privar com ele, sabe do fascínio que é ouvi-lo contar histórias, que na maior parte das vezes se confundem com a história portuguesa do nosso tempo, mergulhar nos acontecimentos fantásticos da sua biografia política, conhecer a sua relação com o mundo dos escritores e dos poetas ou da cultura, num sentido mais vasto. É um mundo. Às vezes (lembrando-me de Ruben A.) penso que é uma síntese: o mundo à procura de Mário Soares e Mário Soares à procura do Mundo.
A estes aspectos do seu percurso de vida, já de si tão vasto e rico, o dr.Mário Soares acrescentou nos últimos tempos um compromisso absolutamente vital com a sociedade portuguesa: a pedagogia da inquietação. Num país que, muitas vezes, parece civicamente exangue, ei-lo a tornar-se fonte de energia de indignação, motor de rebeldia social, exemplo de coragem, contra as águas turvas da política, contra a desgraça de governo que nos atormenta, contra os políticos capatazes do ultra-liberalismo, contra aquilo que ele, às vezes, chama de vergonha nacional.
É essa capacidade de ousar, esse falar em voz alta (como se fosse a voz autónoma da pátria) que eu gosto de ver e sentir nele. No seu discurso, há sempre uma palavra dominante: Liberdade. Hoje, como ontem, essa ideia de luz sem a qual nunca teremos aquela "Pátria" sonhada num poema de Sophia (de que o dr. Soares gosta particularmente)

Por um país de pedra e vento duro 
Por um país de luz perfeita e clara 
Pelo negro da terra e pelo branco do muro 

 Pelos rostos de silêncio e de paciência 
Que a miséria longamente desenhou 
Rente aos ossos com toda a exactidão 
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento 

E pela limpidez das tão amadas 
Palavras sempre ditas com paixão 
Pela cor e pelo peso das palavras 
Pelo concreto silêncio limpo das palavras 
Donde se erguem as coisas nomeadas 

Pela nudez das palavras deslumbradas 
-- Pedra    vento    casa
 Pranto   dia   canto   alento 
Espaço    raiz   e água 

Ó minha pátria e meu canto 
Me dói a lua me soluça o mar 
E o exílio se inscreve em pleno tempo 

 Parabéns, dr. Mário Soares!

CANTO NÓMADA

Num tempo em que tudo é nómada, a começar pelo conhecimento, o que não deixa de ser uma condição fundamental para o exercício da liberdade, os livros de Bruce Chatwin, que morreu em 1989, tornaram-se fundamentais para percebermos esse apelo da natureza humana que, desde sempre, nos impele a passar por cima das fronteiras para ir mais longe. Desde o dia em que, na revista onde trabalhava em Paris, ele enviou ao chefe o célebre telegrama: "Fui para a Patagónia!" que ele transformou numa espécie de rosto da literatura de viagens. Ele foi, de facto, para a Patagónia e para todo o mundo, andarilho, trota-mundos, observador predestinado para a introspecção de pessoas e paisagens. Ele fez como nenhum outro a Anatomia da Errância e hoje, relendo os seus livros, aprendemos sempre alguma coisa de essencial sobre a realidade planetária, sobre os homens, as coisas e os territórios. É essa geografia sentimental que nos prende às palavras. Abro o seu livro Canto Nómada e lá encontro essas pistas. Chatwin ogarnizou um "Bloco-Notas", onde na contingência, como ele diz, da "fase andarilha" da sua vida poder estar a chegar ao fim, quis pôr no papel "a questão das questões: a natureza do desassossego humano". Ele cita Pascal para sublinhar que "num dos seus pensées mais sombrios declarou que todas as desgraças provinham de uma única razão: a nossa incapacidade de permanecer quietos num quarto".  Pergunta Chatwin: "por que é o homem imaginário de Pascal encarava os seus  confortáveis alojamentos como uma prisão?"
Nos "Bloco-Notas", inventaria um conjunto de citações e pensamentos muito curiosos sobre a natureza nómada da condição humana. Deixo alguns:

A nossa natureza  reside no movimento; a calma absoluta é a morte.
Pascal, Pensées

Um estudo sobre a Grande Doença: horror a um domicílio.
Baudelaire, Journaux Intimes

Que faço eu aqui?
Carta de Rimbaud, na Etiópia, à família

A vida é um hospital onde cada doente é possuído pelo desejo de mudar de cama. Um prefere sofrer junto ao fogão. Outro acredita que recuperaria melhor  sentado à janela.
Penso que seria feliz no lugar onde não estou e a questão de mudar de casa é assunto do constante diálogo com a minha alma.
Baudelaire, Algures Fora Deste Mundo

O homem com solas de vento.
Verlaine a propósito de Rimbaud

sábado, 6 de dezembro de 2014

INSUPORTÁVEL MENTIROSO


Há duas coisas que minam irreparavelmente a respeitabilidade dos políticos: a hipocrisia e a estupidez. Há tipos que desbaratam o respeito público por um falar repleto de hipocrisia e cinismo, que neles é tão natural que parece intrínseco às personalidades falsificadas que construíram na aprendizagem política; outros, desajustam-se de tal forma da realidade, que o povo diz que têm demasiada estupidez natural, pois nunca percebem verdadeiramente a substância das coisas. Esses públicos vícios, em alguns casos, confluem na mesma pessoa, como acontece com o primeiro-ministro Passos Coelho. No exercitar das suas falas, a hipocrisia e a estupidez natural convergem numa delirante ou propositada falsificação da realidade social, que no Portugal que somos é dramática e cheia de desumanidades.
Vi, por estes dias, nas televisões, Passos Coelho, numa reunião do seu partido, muito sorridente, falar da sociedade portuguesa, apregoando com uma chocante naturalidade (cá está o tal sintoma de desrespeito pelas pessoas) que a crise, em Portugal, até tinha diminuído as desigualdades, e recorrendo a uma metáfora marinha, teve a lata de dizer não ter sido o mexilhão que se lixou... Riu ele e outros alarves, que aplaudiram a tirada irónica do primeiro-ministro.
Não pode haver pior coisa num político que julgar os seus concidadãos estúpidos, ou, pelo menos, idiotas úteis. É que eles sabem no concreto -- pois sofreram na pele -- a devastação social que ocorreu em Portugal nestes três anos meio, com o governo de Passos & Portas (o Senhor Feliz e o Senhor Contente), executores das políticas de empobrecimento que foram alegremente além da Troika, de que eles foram a um tempo servis e exultantes executores.
Como é capaz um primeiro-ministro. a não ser que seja irresponsável ou inimputável, bolçar tais alarvidades,  quando, ainda esta semana, a OCDE, no relatório de avaliação sobre o nosso país, veio dizer que "Portugal tem uma distribuição de riqueza das mais desiguais da Europa e os níveis de pobreza são elevados" referindo, precisamente, que "a actual crise económico-financeira veio interromper uma fase de declínio gradual tanto da pobreza, como das desigualdades"? Como é capaz um primeiro-ministro, a não ser por manifesta má-fé, dizer uma mentira tão grosseira, quando, a OCDE vem avisar que as crianças são das principais vítimas da recessão? Como pode um primeiro-ministro, a não ser por um desejo incontrolável de mistificação política, afirmar que as desigualdades se atenuaram com a crise, quando, ainda recentemente, o INE veio informar que há "quase dois milhões de pessoas em risco de pobreza, o nível mais elevado desde 2005"?
Passos Coelho pode fingir que o seu Portugal -- dele e dos seus apaniguados -- é esse paraíso, onde, com o seu governo, tudo caminha para o bem e para a felicidade. Mas a maioria dos portugueses, que come o pão que o diabo ou Passos & Portas amassaram, que olha para o lado e vê a pobreza alastrar como uma nódoa, que tem na família gente desempregada e sem horizontes de futuro, que vê os mais jovens partir sem bilhete de regresso, sabe a enorme aldrabice que a visão idílica do primeiro-ministro representa. Sabem e não esquecem. Só o primeiro-ministro não sabe, ou não quer saber, o aumento dos suicídios em Portugal, de jovens e idosos, o mais dramático retrato de como a crise tem devastado um país chamado Portugal.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

APESAR DE TUDO, A ESPERANÇA!


Em Outubro de 1991, em plena ascensão e glória do cavaquismo, escrevi uma crónica que hoje reli, e, face aos dias sombrios que vivemos, me apetece reproduzir, como se aquele respirar de palavras que foi então o meu se pudesse sobrepor à realidade que faz o inventário dos dias de hoje:

Às vezes um fio de céu azul, às vezes uma mão que se abre a outra mão, às vezes uma palavra murmurada, quase a medo. Às vezes um gesto apenas, uma ideia, um pensamento. Às vezes um rosto, um breve sorriso, a ternura de um afecto. Às vezes um país: uma história desigual, o intranquilo caminhar de um povo, os dramas vividos nesse fazer e refazer da vida colectiva. Às vezes muitas lágrimas, nessa tarefa de um país se procurar a si próprio, nesse dramático lavrar de séculos. Às vezes o desencanto da vida,  igual à expressão épica de mil contradições, aventuras e desventuras naufragadas, quase sempre a pátria adiada que sonhamos. Às vezes as angústias para o dia seguinte, sabe-se se para o tempo todo que nos vai bater à porta!
Penso tudo isso, mas desvio subitamente o meu olhar para a esperança, esse alfabeto que alguns de nós ainda falam. É uma estátua de pedra, inteira, como muitas outras, no fabuloso Jardim do Paço, em Castelo Branco, esculpida decerto por mãos rudes de canteiros pacientes,  que a erosão do tempo, as guerras, as servidões, as noites mais tristes e sem estrelas, não destruíram. Resistiu a tudo. Ali está, intacta, vertical. Este falar de pedra, a que os anos.com a cor do tempo, deram mais força, é a imagem de uma grande serenidade. Como quem acena à inquietação do futuro, quev é a minha perplexidade de circunstância, parece que a oiço dizer: Apesar de tudo, a esperança!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

ECONOMIAS: UM LINGUAJAR


Desde que o cifrão tornou refém a política, instalou-se a ideia de que a economia era o discurso dominante. "É a economia, estúpido!", dizia-se para criticar desvios do pensamento único. Cristalizou essa retórica, muito repetitiva, claro, e fez-se uma espécie de Bíblia de políticos e comentadores. Todos os dias os vemos na tv, a esgrimirem números (de acordo com as suas conveniências!), vergados ao peso das Troikas e dos Mercados (uns e outros, não são pessoas de bem), muitas vezes a tentarem explicarem o inexplicável ou a darem lições de moral, convencidos de que a economia tem dimensão moral. Basta ver as trafulhices dos banqueiros, para percebermos a dimensão da mistificação. Hoje, o capitalismo tornou-se motivo de vergonha e ainda recentemente o presidente da Comissão Europeia, Junker, que está ligado enquanto primeiro-ministro do Luxemburgo a um esquema de favorecimento de grandes multinacionais, veio dizer: "Não se atrevam a descrever-me como amigo do capital". O capital tem as mãos sujas (até o Papa o afirma), mas os comentadores benevolentes estão aí para o glorificar, com o seu economês e o seu servilismo. O primeiro-ministro, Passos Coelho, aluno de Maria Luís Albuquerque, não poucas se enreda nas trapalhadas dos números, nas suas explicações de mandatário (e entusiasta) da Troika, que às vezes tomam expressão cómica.
Curiosamente, na leitura das Farpas de Eça, estão lá estampados, em corpo inteiro, estes novíssimos actores da política e do comentário. Em Maio de 1871, Eça fazia uma caricatura dessa mediocridade instalada na política. Era um tipo do Partido Reformista, "um estafermo austero, pesado, de voz possante".
Eça desenvolve a crónica:

"(...) Por fim, pouco a pouco, alguns jornalistas mais curiosos foram-se chegando, começaram a tocar-lhe com o dedo, a ver se era de pau. Era de carne, verdadeiro. Percebeu-se mesmo que falava. Então os mais audaciosos fizeram-lhe perguntas.
-- Senhor -- disseram -- espalhou-se por aí que vindes restaurar o País. Ora deveis saber que um partido que traz uma missão de reconstituição deve ter um sistema, um mprincípio que domine toda a vida social, uma ideia sobre moral, sobre educação, sobre trabalho, etc. Assim, por exemplo, a questão religiosa é complicada. Qual é o vosso princípio nesta questão?
-- Economias! -- disse com voz potente o Partido Reformista.
Espanto geral.
-- Bem! E em moral?
-- Economias! bradou.
-- Viva! E em Educação?
-- Economias! -- roncou
-- Safa! E nas questões de trabalho?
-- Economias! -- mugiu.
-- Apre! E em questões de jurisprudência?
-- Economias! -- rugiu.
-- Santo Deus! E em questões de literatura, de arte?
-- Economias!-- uivou.
Havia em torno um terror. Aquilo não dizia mais nada. Fizeram-se novas experiências. Perguntaram-lhe:
-- Que horas são?
-- Economias! -- rouquejou.
Todo o mundo tinha os cabelos em pé. Fez-se uma nova tentativa, mais doce.
-- De quem gosta mais, do papá ou da mamã?
-- Economias! -- bravejou.
Um suor frio humedecia as camisas. Interrogaram-no antão sobre a tabuada, sobre a questão do Oriente.
-- Economias! gania
(...)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BOM DIA, ANTÓNIO!


Há 40 anos que, semanalmente, no "Expresso", António nos surpreende com a invenção dos seus desenhos e das suas caricaturas. Ele tornou-se uma companhia indispensável para nos fazer sorrir, um sorriso que tem sempre origem na inteligência do seu traço, na leitura irreverente dos acontecimentos, na crítica personalizada de políticos, na arquitectura sóbria do seu humor. Quem não se lembra do preservativo enfiado no nariz do Papa João Paulo II, para criticar o arcaísmo da Igreja em relação à prevenção da SIDA? Na melhor tradição do Bordalo, ele não precisa de palavras para fazer a crónica da sociedade portuguesa e do mundo. Olhamos os seus cartoons, sustentados por uma funda cultura, e esse olhar é como quem bate à porta da ironia mais pura, essa que Octávio Paz dizia ser um traço identificador da civilização moderna. Olhamos, pois, e os estímulos estéticos da leitura da imagem que ele nos oferece são sempre múltiplos e enriquecedores. Às vezes provocam um sorriso amável, potros uma gargalhada funda, dessas que Eça dizia constituírem a notoriedade da crítica. Estes 40 anos de cartoons fizeram de António um companheiro que nos descodifica o mundo e, através de uma espantosa criadora, actualizada e actualizante, nos actualiza também a nós, seus devotados leitores. Bom dia, António!

domingo, 30 de novembro de 2014

UM INSTANTE APENAS

Ilustração de João Lourenço para o conto "Os Olhos do Medo", escrito pelo autor deste Blogue
Há instantes que nos tocam por dentro, cavam emoções e lágrimas, e na efemeridade da sua existência têm tão forte significado que parece demorarem uma eternidade a passar. Porque são dramáticos e tristes. Porque nos cortam a respiração. Foi assim que eu, assistindo pela televisão ao discurso de António Costa, no encerramento do Congresso do PS, pedir aos assistentes um minuto de silêncio pelas mulheres assasinadas na irracionalidade da violência doméstica. Foi uma pausa, densa e pesada, um silêncio fundo que parecia ter entrado, também, por nossas casas, numa súbita nuvem de consciência cívica. Silêncio absoluto que parecia ampliar-se, com maior densidade e peso, à medida que Maria do Céu Guerra lia os nomes das 34 mulheres mortas dentro de paredes de persistente solidão e continuada violência (penso eu) até ao desenlace final da irremediável morte. A Céu Guerra leu em voz múrmura, despojando de todos os artifícios as palavras que eram rostos de pessoas. Só os nomes de gente que desceu aos infernos mais profundos da ignomínia e da infra-humanidade. Crimes que em Portugal se repetem numa banalização doentia do mal. Foi um instante, apenas, mas no íntimo de cada um penso que uma lágrima se desprendeu para molhar a realidade absurda.

sábado, 29 de novembro de 2014

NESSE TEMPO É QUE ERA BOM...


É nos tempos difíceis que melhor se afere a maturidade de um povo e a sua determinação cívica. É verdade, como diz o povo, que é difícil fazer "boa cara ao mau tempo", e os dias que correm têm rosto sinistro, como se aquilo que um dia Mestre Gil pôs num dos seus Autos, para caracterizar a realidade, não fosse outra coisa que "a morte de nossas vidas". Há pouco, ouvi dizer, que uma das coisas piores que aconteceu aos portugueses nestes anos, pelo governo, foi o roubo da esperança. Há muito que eu próprio venho defendendo essa ideia, que não é outra coisa senão o reflexo da "apagada e vil tristeza" que os quotidianos de hoje oferecem aos portugueses e, poisando na poesia de Sophia, visíveis "pelos rostos de silêncio e de paciência/que a miséria longamente desenhou". Era esse o outro tempo.
O cerco das dificuldades e o espectáculo deplorável de uma certa política (a começar pela do governo Passos/Portas),  provoca hoje um ressentimento absurdo contra a democracia, com laivos de saudade da ditadura, só possível, penso eu, por estupidez e ausência de mínima cultura política. Quem não ouviu já algum basbaque suspirar: o que cá faz falta é um Salazar?
São alarvidades bolçadas por sujeitos sem memória, que não fazem a mínima ideia do que era esse tempo vil, onde a morte e a brutal repressão saíam à rua e o medo tomava tudo. Hoje, num domingo em que depois das chuvadas o sol espreitou, estive a reler a poesia de Nuno Júdice, um livro que frequento às vezes, pois a poesia ainda é o melhor remédio contra a iniquidade dos dias. O livro tem por título Fórmulas de uma luz inexplicável. Mas o poema que aqui vou deixar aos meus Leitores explica uma outra luz. Chama-se Nesse Tempo É Que Era Bom. É assim:

Os pobres ficavam à porta à espera que
lhes levassem a comida. Olhavam para dentro de casas, às escondidas,
e viam as paredes de mármore, o chão de azulejos, as escadarias
de pedra, as portas de grandes salões onde nunca iriam
entrar. Quando lhes traziam os restos de comida, embrulhados
em papel, pegavam neles, de olhos no chão, e iam-se
embora sem uma palavra. Nunca soube
se os comiam, às escondidas, para que
outros não tivessem a tentação de lhes roubar
as sobras do banquete; se os levavam para o casebre,
e os partilhavam com os filhos que tremiam de febre,
embrulhados em mantas; ou se iriam ser atacados
pelas matilhas de cães tão esfomeadas como
eles. Os pobres não sabiam o que fazer
com as suas vidas; mas eu sabia o que lhes iria
acontecer de cada vez que ouvia o sino dobrar, 
e corria para o cemitério onde o coveiro,
com todo o tempo do mundo, cavava um buraco,
dando tempo ao corpo, embrulhado na manta
grosseira, para arrefecer, até ser deitado na cova.

Nesse tempo é que era bom!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

TIRAR OLHOS


Ferreira Fernandes publica hoje uma das suas crónicas, no "Diário de Notícias", cuja leitura aconselho vivamente. Há uma inquietação latente, entre os que praticam a narrativa informativa, como agora se diz, a propósito de um conceito voraz de informação que se vem instalando na sociedade portuguesa, segundo o qual na informação vale tudo, porventura "até tirar olhos", para vender papel. Diluíram-se as fronteiras da respeitabilidade humana num atoleiro em que se legitima tudo -- até os persistentes ataques ad hominem, que não poucos reclamam como naturais. Ferreira Fernandes é a isso que reage. Assiste-se ao espectáculo deplorável e não podemos deixar de interrogar se o Código Deontológico serve ainda para alguma coisa. Porque, na verdade, o documento todos os dias é rasgado, publicamente.
Vale a pena ler a crónica de Ferreira Fernandes:

"Debica indícios, cronista, debica, e bolça certezas
João Miguel Tavares julga que por olhar muitas vezes para uma mulher a consegue engravidar. Ora, o indício de um interesse não garante a prova do teste positivo. Ontem, defendeu, no Público, que os "fazedores de opinião", a expressão é dele, deviam culpar Sócrates porque "ali entre 2007 e 2011, (...) se não havia provas, havia infindáveis indícios". A tese é velha, muitos dizem-na assim: "Não há fumo sem fogo...", "Eu cá não sei, mas dele já ouvi do pior...". Geralmente ouço o mesmo sentado no banco de trás, enquanto o taxímetro avança. Geralmente desligo-me das insídias e leio a última página do Público e os bons cronistas que lá escrevem. Ontem, como era quinta-feira, foi impossível: "Pois é, não havia provas, mas havia infindáveis indícios..." Quer ir pela Estrada de Benfica ou pela da Luz?" pergunta-me o do volante; sem perguntar pela rota, o da crónica dizia o mesmo. Ora, 835 suspeitas não fazem, necessariamente, uma culpa e 279 hipóteses não fazem, por si, uma prova. Por andares 320 quilómetros para o Porto não quer dizer que chegaste a Aljustrel, João Miguel Tavares. Deixa-me dizer-te que não só a quantidade não transforma sempre a qualidade,como, às vezes, uma só quantidade qualifica. Por exemplo. ontem só criticaste uma vez "aqueles fazedores de opinião que durante anos e anos defenderam José Sócrates contra os ataques ad hominem. Foi só uma vez, mas o suficiente para te dizer que és um pedaço de asno".

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CANTE ALENTEJANO


Sempre me impressionou a força do cante alentejano, pela dimensão colectiva e pela autenticidade das vozes, que parecem todas, como uma só, ligadas à terra. O poeta José Gomes Ferreira percebeu isso muito bem, quando escreveu: "Nunca ouvi um alentejano/cantar sozinho". De muitas maneiras, é assim que eu também vejo aquele canto, tão marcado na sua identidade pela sua arquitectura estética e pela autenticidade. Não há, nesta música coral, o mais leve artifício. Tudo à capela, homens abraçados às vozes, com o ritmo dos seus passos. Um dia, vi um destes grupos caminhar pela rua, desde longe. À medida que avançavam no espaço, era como se o colectivo de vozes se agigantasse até se fazer coro camarada com os que ouviam esses cantares, que incorporam a substância do tempo. Vêm do fundo dos tempos, velhos ecos gregorianos de angústias e de jornas de servidão, de sol a sol, sonoridades telúricas identificadoras da vida e das vidas.
Hoje, o cante alentejano, canto colectivo sem recurso a instrumentos,  que incorpora música e poesia, foi classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). A distinção foi aprovada pelo Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Estou a vê-lo: o grupo de cantadores, a povoar a solidão dos campos alentejanos, com o seu cante, na fraterna irmandade do seu tom colectivo, nos passos cadenciados e firmes com que as vozes fazem caminho, semeando humanidade. Parece que cantam o coração da terra.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

9 MILHÕES DE SUSPEITOS


No tempo em que os Tribunais Plenários eram a máquina legitimadora dos crimes da PIDE -- é preciso lembrá-lo --, o Luís de Sttau Monteiro escreveu um texto dramático que se intitulava Todos os Anos pela Primavera. A peça contava a história de um homem que, ano após ano, quando as flores desabrochavam e os campos eram sinfonias de renovação, era preso. Todos os anos pela Primavera, ia parar às masmorras por motivos que ele próprio não sabia, nem podia imaginar, urdidos pelas polícias, como de resto acontecera também ao senhor K, no espantoso romance de Kafka, O Processo. Tinha a profissão de suspeito, condição que era comum a 9 milhões de portugueses.
É claro que o livro (onde figurava, também, outro texto implacável contra a ditadura, A Estátua) mal saiu teve logo o destino da apreensão. A Polícia Política andou, como fazia sempre, no varejo das livrarias, à procura desse perigoso corpo de delito, que podia criar alarme social.
Era um tempo sem liberdades e garantias em que os cidadãos estavam nas mãos do livre arbítrio dos verdugos (juízes e acusadores dos Plenários incluídos). Era um tempo em que os fins justificavam todos os meios e o homem era coisa nenhuma, face à brutalidade da repressão e à intolerância à solta. Era um tempo de crueldade à flor da rua, de abusos do poder, de sonegação de direitos elementares.
Esse tempo de ignomínia, na história portuguesa, que é longo, muito longo, soma-se a muitos outros, com a mesma tipologia, em que o cacete se sobrepôs sempre às ideias e a liberdade era sempre passível de delito, e, por isso, expropriável. Aos absolutismos de vários matizes e aos três séculos de Inquisição e de inquisidores, juntam-se os 48 anos de ditadura, eternidade de um tempo que moldou mentalidades e as inquinou contra um espírito verdadeiramente livre e de pensamento em voz alta. A forma como, ao longo dos séculos, germinaram os inquisidores, sustentados por formigueiros de denunciantes-familiares do Santo Ofício, e, depois, os informadores da PIDE, são traços que explicam muitos tiques da psicologia colectiva e do comportamento do povo português. Ainda hoje, com o voyeurismo jornalístico à mistura (a pedir sempre mais sangue e mais e mais faca na liga), assistimos ao gáudio de manifestantes face a situações em que o homem é diminuído na sua dignidade essencial, e, porventura, podemos pensar que esses entusiasmos são restos  do mesmo regozijo e alegria que alimentavam a turba, que assistia aos espectáculos rituais das fogueiras em S. Domingos onde se queimavam livros "perigosos" e as vítimas da Inquisição.
Às vezes, é bom pensarmos nesses fantasmas que fazem parte do nosso cimento como povo, para percebermos as linhas com que nos cosemos no tempo que nos coube em sorte, cada vez mais povoado de suspeições, a que se ligam a indiferença servida por velhas debilidades cívicas e culturais e o descrédito face a políticos e instituições. Talvez a frase que hoje mais se ouve por aí é a que traduz essa desconfiança: não ponho as mãos no fogo por ninguém! Aí estão os resquícios mentais que fazem dos portugueses 9 milhões de suspeitos, não já apenas na Primavera, mas durante o ano inteiro.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

DIREITO À INFORMAÇÃO

Eram não sei quantos milhões, colados aos ecrãs das televisões, à espera que o sr juiz Carlos Alexandre, do TICÃO (é assim que se chama ao tribunal onde exerce a condição de super-juiz) esclarecesse os portugueses das medidas de coação aplicadas aos arguidos do processo "Marquês", que há dias se encontravam detidos, e onde pontifica o nome de José Sócrates, ex-primeiro ministro. É certo que na expectativa fundada da população, onde se misturam sentimentos difusos de ódio e paixão que a figura do político suscita, havia decerto muitos que seguem com desmedidas euforias tudo o que gira à volta da Justiça-espectáculo, desta vez encenada sem cuidados de sobriedade, com subtis humilhações.
Então, estavam os olhos colados às televisões, que, desde as 18 horas, começaram a anunciar: "Medidas de Coação anunciadas já a seguir". E as imagens, é verdade, mostraram funcionários judiciais a prepararem o lugar para o grande acontecimento mediático. E, já passava talvez uma hora, até veio a escrivã a testar o som, na mesa onde já se juntava uma multidão de microfones. As câmaras estavam, também, há muito preparadas para registar o acontecimento. Entretanto, passaram-se quatro horas, quatro horas, caramba, sem uma nota, uma explicação pequena que fosse. Nas televisões os comentadores e jornalistas repetiam-se, num filme em que pareciam ter sido, também eles, condenados àquelas cadeiras onde se sentavam e de onde não podiam sair para jantarem.
Quatro horas depois, foi lido o comunicado, cheio da cronologia dos interrogatórios, este a esta hora, aquele à outra, mais as pausas para refeições e descanso. E depois o anúncio, e só o anúncio, das medidas de coação. Mas quanto à fundamentação jurídica das mesmas, zero, nem uma palavra.
Num processo desta envergadura, em largos passos transformado num circo mediático, este espectacular tribunal resolveu tratar os portugueses como débeis mentais, sem direito à informação mínima. Apenas gostavam de saber as razões que motivam a prisão preventiva. Poucos terão gostado disso e alguns terão visto mesmo neste registo uma gratuita forma de arrogância. E, no entanto, eram não sei quantos milhões




O PROCESSO


Uma das coisas mais marcantes da genialidade de Franz Kafka é a forma como ele trata os universos absurdos, os poderes que criam realidades próprias, de que os cidadãos parecem reféns inescapáveis. O Processo e A Metamorfose são dois monumentos da literatura universal, obras que mergulham nos dramas mais profundos da condição humana. Por isso, sem mais palavras, aqui fica a sugestão de leitura para os dias que correm: O Processo, de Franz Kafka.

sábado, 22 de novembro de 2014

JUSTIÇA, APENAS


Ainda ontem aqui escrevia:"o país está doente e os portugueses estão doentes do país". E recuperava um texto de Eça, de Uma Campanha Alegre, em que o escritor fazia um retrato impiedoso da sociedade portuguesa. no ano longínquo de 1871, com um diagnóstico terrível: "O país perdeu a inteligência e a consciência moral". Ainda ontem. E, no entanto, já hoje a crónica judiciária e política oferece matéria de sobra para percebermos que, se calhar, a doença que alastra é fatalidade sem remédio. É verdade que os valores que enformavam a matriz ética da política, a devoção ao serviço público, a honestidade como norma elementar, tudo isso, se esboroou há décadas, numa subversão dos poderes que legitimaram ou tornaram banal toda a espécie de falcatruas e negociatas. Os interesses alteraram as regras do jogo, o poder financeiro passou a cavalgar com fúria o poder político, a promiscuidade entre um e outro moldaram, em larga medida, a prática política. A vocação do serviço público passou a ser retórica de circunstância e tratar da vidinha uma arte que se aprende, desde meninos, nas juventudes dos partidos. A política como tirocínio para serviço próprio é uma ideia que se generalizou num país de débil cultura política e cívica, numa pátria de indiferenças e de invejas onde a incapacidade para agir (agir civicamente, claro) leva à desculpabilização e ao encolher de ombros, legitimando com frequência os desmandos das figuras públicas com a ideia de que se trata de sujeitos espertos...
Ao arrepio desta anemia colectiva, surgiu na sociedade portuguesa uma surpreendente dinâmica justicialista, de que magistrados e polícias são obreiros persistentes. É bom pensar que a Justiça está cá para agir e que, nessa acção, não há cidadãos acima da lei. Aliás, uma das reservas que o cidadão comum faz à justiça é que ela não é igual para todos... O mais recente caso, depois de nuances que vêm de há muito, é a detenção do ex-primeiro ministro José Sócrates, sob grave suspeita de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. Foi detido no aeroporto da Portela, quando regressava de Paris, sob uma câmara atenta da SIC, que ali estava de atalaia.
São graves as acusações e espera-se que a Justiça actue, de forma a que o caso seja esclarecido à escala da sua gravidade e da proporcionalidade da dimensão mediática desencadeada. Os cidadãos têm perdido a confiança nos políticos e nas instituições (os próprios Orgãos de Soberania, como a Presidência da República, são hoje olhados desrespeitosamente) e a Justiça, esteio fundamental, também não vive propriamente num oásis de simpatia dos cidadãos.
Vivemos na sociedade da comunicação, mas não parece legítimo que se monte à porta do Tribunal, onde as coisas estão a ser investigadas, um autêntico circo mediático que alimenta, 24 horas sobre 24 horas, a opinião pública. E, o mais grave, é que esse tipo de prática tem conduzido em Portugal a "tribunais" de papel e de rua, com as suas execuções sumárias e as suas sentenças de circunstância.
Investigue-se, condene-se se houver provas para tal, dignifique-se o Estado de Direito. Nestas alturas, surgem sempre fantasmas, que saem dos armários da Justiça. E lembram-se casos altamente mediáticos e perigosos, que despertaram ódios e ajustes de contas, em que, no final, como resultado palpável, a montanha pariu um rato...
Desta vez, com um histórico criminal tão exaustivo, de que as televisões dão conta nos seus "julgamentos", espera-se que as coisas não se diluam na densa trama das suspeições. Seria absurdo e fatal para o país. É bom que, face à crónica judiciária, a exigência e o rigor permaneçam superando os julgamentos sumários. Justiça, apenas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

IMAGENS DE UM PAÍS DOENTE


O país está doente e os portugueses estão doentes do país. A devastação moral que ocorreu nestes últimos anos, os escândalos tolerados no universo político, o oportunismo verificado no âmbito dos partidos, o triunfo da mediocridade, o apadrinhamento das clientelas, a submissão aos interesses do dinheiro, a abdicação dos valores éticos, a falta de sentido de Estado dosa governantes, são sintomas dessa doença que, todos os dias, vai matando um pouco mais a esperança colectiva. A essa face da realidade, soma-se a outra: a do crescimento exponencial da pobreza, a emigração massiva dos mais jovens, o desemprego galopante (aquele que não é apagado dos ficheiros dos centros de Emprego!), os suicídios que se tornaram num fenómeno dramático na sociedade portuguesa.
Os últimos dias têm sido exemplares na expressão da crise que envenena as instituições. A imagem de um país que se vende a retalho, e onde vale tudo, a imposição de uma filosofia onde o que interessa é trazer para o país à beira mar sofrido, milhões de euros, uma cornucópia financeira que ninguém sabe onde começa ou onde acaba, está, clara como a água, no que tem emergido dos "Vistos Gold", que já levou à demissão de um ministro e à prisão de altas figuras do Estado, entre as quais o chefe da polícia de fronteiras.
Hoje, o vice primeiro-ministro, Paulo Portas, que foi o pai e a mãe desses Vistos Dourados, foi à Comissão Parlamentar explicar-se. Mas o que explicou ele? Que também há esta modalidade em outros quinze países da Uni-ao Europeia, que se nós não aproveitamos estes milhões outros os aproveitam, que os Vistos Dourados são investimento estrangeiro abençoado. Não se lembrou Portas de dizer que na Itália também existe a Mafia como expressão maior do crime organizado... e quev os paraísos fiscais não deixam de ser paraísos. Chamou ao seu pensamento sentido pragmático. Claro que esse pragmatismo levou-o a por de lado o contexto criminal e judiciário a que os seus benditos Vistos deram origem, com a alegação, claro, que não se pode meter nas questões da Justiça. Foi também esse pragmatismo ladino que o levou a perguntar à deputada do BE, como se lhe colocasse um dilema feito de esperteza saloia:
-- Quem é que produz mais empregos é a REMAX ou o Bloco de Esquerda?
É espantoso que um vice primeiro-ministro atribua aos partidos a função de criarem empregos (a não ser que estivesse a pensar no seu próprio emblema e na satisfação clientelar).
A doença alastra e parece que regressámos a 1871, quando Eça de Queirós, em Uma Campanha Alegre, fazia o seguinte retrato de Portugal:

"O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.O povo está na miséria.Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce..."

Era assim Portugal em 1871. E hoje?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

IDOSOS: E NÃO PODIA EXTERMINÁ-LOS?

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Há indivíduos que são abencerragens do passado, que passeiam por aí o arcaísmo das ideias, como se tivessem licença para apregoarem aos quatro ventos uma estupidez que eles julgam ser emblema de qualidade. O pior é que muitos deles têm lugar selecto em jornais e televisões iludindo o papel de comentadores.
Um deles, ainda ontem, no "DN", fez um exercício supremo de hipocrisia e de canalhice, bem reveladoras de um carácter inquinado pelas coordenadas ideológicas de um pensamento que impede a lucidez da análise e impõe sempre o olhar hipócrita sobre as pessoas e a realidade das coisas.
O senhor João César das Neves publicou, sob a forma de carta, um texto intitulado Ao pensionista enfurecido. Lembrou-se a pobre criatura (pobre é aqui um modo de dizer) de manifestar cinicamente solidariedade aos pensionistas para, no final, os culpar de estarem a ser sustentados "pelos impostos dos jovens". Esta ideia de desfazer os laços de solidariedade inter-geracional, acusando os idosos de serem os responsáveis pelas dificuldades dos mais jovens, é uma coisa abominável, do ponto de vista ético e social, que o campeão do cinismo tem praticado abundantemente.
Para se ver o calibre mental do sujeito, veja-se o início do artigo, verdadeiro modelo de cinismo: "Caro amigo, permita que lhe dirija algumas palavras, simples mas sinceras, para lhe manifestar a minha profunda solidariedade. Todo o país tem vibrado com o drama vergonhoso dos cortes de pensões, mas senti-lo na pele não é ver na televisão. É absolutamente inaceitável que tendo planeado o fim da vida confiado numa renda, aliás com garantia solene da autoridade pública, agora se veja defraudado nas justas expectativas. Este caso ficará na história como escândalo sumamente chocante e doloroso".
Como se estivesse a bater no peito e a fazer mea culpa, ei-lo a dizer: "Nada do que diga minora a infâmia". Mas o discurso muda subitamente, mete o pai ao barulho, e embrulha-se depois nas contas da sustentabilidade da Segurança Social, para depois dizer ao "pensionista enfurecido": "Mas acreditar que isso daria o milagre da multiplicação das pensões constitui enorme ilusão. Talvez já tenha ouvido dizer que não há almoços grátis. Por isso devia ter suspeitado da fartura da refeição logo que recebeu o primeiro cheque".
No final, sai-se com esta, João César das Neves: "Espero que não se sinta incomodado com a minha franqueza, e volto a dizer que tem a minha mais sincera, intensa e compassiva compreensão", mas logo a seguir acrescenta o seguinte P.S.: "Já agora só mais uma palavrinha. Deve estar a pensar que o problema é pior do que promessas enganadoras. Então não descontou toda a vida para receber a reforma? Não lhe ficaram com o dinheiro? Como podem agora negar o benefício? Bom, a verdade é que aquilo que descontou durante 40 anos, de um salário que começou baixo e foi subindo, nunca daria para pagar uma reforma quase igual ao último ordenado, durante os 20 ou 30 anos de vida na reforma. Essa é a outra face da crise: a sua pensão está há muito a ser sustentada pelos impostos dos jovens. O inimigo dos reformados não é o governo, mas a aritmética".
O sr. João César das Neves cumpre assim, desta forma cínica, a tarefa de ilibar o governo. Fala como se vivêssemos todos com reformas milionárias e trata os pensionistas como imbecis que não são capazes de fazer contas ou compreender a realidade. Faz tudo isso numa prosa coloquial e aparentemente amiga (aqui está a hipocrisia do dito), para desferir depois grandes caneladas ou punhaladas no magro lombo dos reformados. Nas suas brilhantes equações sociais, João César das Neves, deve concluir que a solução do problema radica na execução sumária dos idosos. Uma solução final à escala da demografia portuguesa.
Leio isto e lembro-me do Padre José Agostinho de Macedo que, quanto aos sujeitos que destilavam prosas como a de João César das Neves, dizia que havia muitos indivíduos que davam coices com as palavras. E logo acrescentava sabiamente: se uma besta dá um coice, não se corta a pata, puxa-se pela arreata. Doutra forma, João César das Neves há muito que andava ao pé coxinho...

CARLOS DO CARMO


A atribuição do Grammy Latino de Carreira, por "excelência musical", a Carlos do Carmo é uma distinção que honra Portugal e que, num tempo tão sombrio para o país, nos deixa respirar um pouco a nossa auto-estima colectiva. Carlos do Carmo, há muito que é um rosto deste país. E a sua canção e os versos que, cantando, tem espalhado por todo o lado, não só se tornaram expressão identitária de um povo. No seu canto, que mergulha em raízes profundas e antiquíssimas, ele soube captar sentimentos colectivos, como se se quisesse trazer à superfície a imagem autêntica da alma popular, nos sentimentos que povoam os dias e as noites de uma cidade, e, logo, por extensão de uma pátria. Quando se alcança essa projecção criadora, que se torna património comum, é porque o intérprete, neste caso o criador, se agigantam, participando do nosso imaginário. Se é verdade que Carlos do Carmo elevou o fado ao seu mais alto voo, actualizando-o sem nunca o desfigurar, deve sublinhar-se que num conceito de canção mais amplo, como realidade criadora, ele deu voz à poesia portuguesa, cantando os nossos maiores poetas. Na minha perspectiva, é essa síntese que o seu canto consubstancia.
Ao receber o prémio, nos EUA, Carlos do Carmo quis repartir o galardão "com o povo da minha terra" e disse que "não teria sido possível cantar 51 anos sem o seu apoio".
Agora, oiço o artista, numa entrevista à TVI, com a sua sobriedade, sempre diluindo na normalidade a sua condição de artista. O jornalista pergunta-lhe se ele se incomodou com o facto do Presidente da República não o ter felicitado. "De maneira nenhuma", responde Carlos do Carmo. "Recebi telegramas de felicitações dos Presidentes de quem gosto: Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio".
Que esperar de um Presidente da República que é intolerante e tem no plano cultural um terreno baldio tão grande, que o conduz a baralhar o número de cantos de Os Lusíadas, a não respeitar Salgueiro Maia ou a ignorar, ostensivamente, a obra de Saramago, o nosso único Prémio Nobel da Literatura?
Que esperar?






quarta-feira, 19 de novembro de 2014

LIBERDADE SEM DOMINAÇÃO


Rui Tavares publica, hoje, no "Público", um interessante texto, a propósito da questão de "Uma justa liberdade". Ele começa por contar uma curiosa história, publicada no último livro (Just Freedom) do filósofo Philip Petttit, sobre o conceito cívico e republicano de liberdade: "Um rebelde e republicano inglês, Richard Rumbold, à espera de ser enforcado no ano de 1685 disse uma vez estas palavras: Não pude nunca acreditar que a Divina Providência tivesse dado ao mundo uns poucos homens, já calçados de botas e esporas, e prontos para cavalgar, e criado milhões de outros já com selas nas costas e rédeas na boca, prontos para serem cavalgados. O tempo longo da História haveria de dar-lhe razão, uma e muitas vezes, e às palavras do rebelde, poderíamos acrescentar, com exacta medida, a metáfora dos versos de Alexandre O'Neill: "uma coisa pensa o cavalo/outra o que está a montá-lo"...
Rui Tavares diz que "é impossível ler este livro e não pensar na situação em que nos encontramos em Portugal e na Europa" e explica que o autor "propõe três testes para a liberdade: o da justiça social, o da democracia e o da soberania". Explica Petttit: "O primeiro resume-se assim: “Pode a pessoa olhar os outros nos olhos, sem deferência nem medo?”. O segundo: “Pode a pessoa participar, em condições de igualdade, nas decisões que afectam a sua comunidade?”. E o terceiro: “Tem a comunidade recursos e protecções suficientes para melhorar a vida dos seus, sem inferioridade perante outros no plano internacional?”
Estas é que são as verdadeiras questões da liberdade. Até que ponto elas são materilizáveis em direitos concretos dos cidadãos ou, dito de outro modo, até que ponto elas não são expropriadas aos cidadãos por interesses espúrios que se instalam, como donos, do Estado democrático. "Somos livres então?" -- pergunta Rui Tavares. E responde: "O nosso olhar para o patrão, o credor ou a autoridade é sem medo ou deferência? Participamos em condições de igualdade na tomada das decisões políticas que nos afetam? A nossa comunidade política pode dar prioridade às necessidades dos cidadãos sobre as exigências externas? A resposta é neste momento triplamente negativa e deixa-nos, claramente, sob dominação. O nosso conceito de liberdade poderia até ser mais ambicioso, e incluir a possibilidade de cada indivíduo florescer até onde levar o seu potencial. Mas, nos tempos que correm, não há missão mais urgente e primeira do que exigir, para nós e para os outros, esta justa liberdade sem dominação".
Como no poema de Eluard é a liberdade que dá sentido à vida e a vida que dá conteúdo à liberdade. A velha questão de saber o que é a liberdade e a urgência do conceito ter dentro de si conteúdos concretos no plano social, isto é, da vida real de cada um, coloca o problema na radicalidade dos direitos da pessoa humana e da construção de um espaço civilizacional que não pode ser expropriável. No fundo, aquilo que Anna Harendt, a propósito da crise da cultura um dia afirmou: “Para lá da grande influência que o conceito de uma liberdade interior não política exerceu sobre a tradição do pensamento, parece que se pode afirmar que o homem não saberia nada da liberdade interior se não tivesse primeiro experimentado uma liberdade que fosse uma realidade tangível no mundo”. E acrescenta a filósofa: “Nós tomamos consciência primeiro da liberdade ou do seu contrário na nossa relação com os outros, não na relação com nós próprios. Antes de se tornar um atributo do pensamento ou uma qualidade da vontade, a liberdade foi compreendida como o estatuto do homem livre, que lhe permitia deslocar-se, sair do seu lar, ir pelo mundo e reencontrar outras pessoas em actos e em palavras. É claro que esta liberdade era precedida pela libertação: para ser livre, o homem deve ser libertado das necessidades da vida. Mas o estatuto do homem livre não decorria automaticamente do acto de libertação” (Entre o Passado e o Futuro - Oito exercícios sobre o Pensamento Político).
É por isso que se pode dizer que o que está a acontecer a Portugal é um criminoso recuo civilizacional.

QUOTIDIANOS



Crónica

CONVERSA DE ENFERMARIA

Uma das coisas mais interessantes que, se calhar, mereceria estudo académico, é o tema do tédio hospitalar, que decorre das horas iguais, muitas vezes apenas quebradas pela rotina dos tratamentos e dos contactos com o universo dos médicos, enfermeiros e auxiliares. São todos excelentes e apostados com devoção na superação do desânimo ocasional das dores ou da desesperança, que magoa sobretudo a alma. As visitas são sempre instantes de alegria, e, logo, de liquidação sumária do tédio, se o doente não estiver com a morte a prazo.
Saramago também falou da angústia da noite branca hospitalar, e, no outro dia, António Lobo Antunes, numa entrevista ao Ypsílon, tocou no tema: "As noites dos hospitais são tremendas. É como conta o Proust, ficar à espera da manhã, como se a manhã salvasse alguma coisa e não salva".
Agora, afasto para longe a angústia das noites e fixo-me nos dias e nas tais horas iguais. E o que é mais interessante e verdadeiramente estilhaça o tédio das enfermarias, são as conversas marotas que, às vezes, surgem do nada.
Os meus colegas têm experiências diferentes. Um deles, com larga experiência de internamento, conhece por dentro as rotinas da vida hospitalar, os seus sinais e os seus ritmos, identifica os rostos que passam. É o exacto conhecimento de uma topografia que passou por várias especialidades. É um homem calmo e de ironia, dois olhos muito vivos que disfarçam a fragilidade de uma saúde com feridas interiores. Gosto do ouvir desfiar as suas histórias onde entram a casa, a família, os vizinhos -- a vida. Foi camionista de longo curso, andou por franças e araganças, e, subitamente, como se as palavras o libertassem do espaço em que está, os prazeres da memória poisam em aventuras galantes, ou nem tanto, mulheres boas iguais às artistas de cinema, vivências que, dizia ele, coleccionou com gosto, enquanto ia trabalhando.
-- O que é preciso é viver a vida, antes que ela nos encoste à parede!
O outro companheiro é um homem de 90 anos, com origem na ruralidade, que saltou fronteiras "a salto", quando Portugal era "uma fronteira entre a mágoa e a França". Ele ouve e sorri, com os olhos bem abertos, às peripécias amorosas das histórias.
Subitamente, o antigo camionista trava a fundo na narrativa e pergunta, com malandrice:
--Oh, senhor António o seu peru ainda canta? Ainda faz glu-glu?
O outro responde sinceramente:
-- Nem me fale nisso... Já não pia há muito tempo. Agora, já não sai do galinheiro!
Umas gargalhadas quebraram o tédio desse dia, na enfermaria do Hospital.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O CAMINHAR DA CIDADE NO TEMPO


É um acontecimento cultural relevante, que se prolongará até Janeiro, a exposição "Um Destino; Coisa Simples" sobre o Património Arquitectónico do Século XX do Fundão. Esta revisitação da memória urbana é muito curiosa e reveladora das singularidades que o Fundão soube construir no fazer e refazer da urbe, e, também, de como o tempo nos educa o olhar em relação à paisagem que nos cerca. Sendo um tributo à memória dos dias andados, é, do mesmo passo, um acervo precioso de imagens e de informações, na forma como se apresenta a memória histórica de alguns projectos e o seu percurso até à materialização final e à sua inclusão na espacialidade. E tudo isso com um conjunto de debates que estimularão o diálogo sobre estas questões. Apraz-me registar a selecção de obras dos Arquitectos Pires Branco e Chorão Ramalho, com raízes fundas nesta territorialidade, e que enriqueceram esta terra com o rasgo da sua aventura criadora. Num texto excelente, impresso na folha volante da exposição, Pedro Miguel Salvado assinala que "a mostra quis revelar alguns pontos da secular linha da escrita da paisagem arquitectónica, com as suas sonoridades, grafismos e imagens mnemónicas, do Fundão do século XX" porque "Fundão é "terra de nome palpável", cujo fio vital nenhuma parca do destino ousara algum dia quebrar".
O arquitecto Pedro Novo, da nova geração de fundanenses, que foi o curador e teve a ousadia da ideia, merece vivas felicitações pela forma como idealizou e construiu o espaço da exposição e pela viagem que nos oferece ao século XX fundanense.
Eu escrevi para o catálogo da exposição, que sairá durante o certame, um texto sobre o Fundão, que aqui deixo para os meus leitores:

"PEQUENAS PÁTRIAS

Li um dia um pensamento de Alain que se transformou numa espécie de bússola para a memória ou para o coração, como o nosso poeta Albano Martins gosta mais de dizer. Advertia ele que “às vezes, não é preciso ir longe – basta amar o que se vê”. Essa atenção ao que o olhar abarca, no detalhe imediato da proximidade, é sempre fecundo território de emoções: basta falar no território primordial da infância que é a raiz mais funda que nos prende aos lugares, que a memória regista e, às vezes, reelabora com o poder mágico da imaginação. Essa experiência é tão forte que, no meu caso, me tem servido de cardápio para crónicas ou mesmo para a ficção.
Esse amar o que se vê tem sido a minha carta de navegação, quando me faço à cidade ou poiso nos prazeres da memória e o olhar então desliza para antigamente como se fosse à procura do tempo perdido, de onde emerge o Fundão pequena e harmoniosa vila, cruciforme na sua espacialidade urbana, que tinha como fronteiras, a sul, o esplendor da serra da Gardunha, a velha estrada nacional 18 que conduzia à Covilhã e, a norte, a estação dos caminhos de ferro, com a Moagem à ilharga, cais de partidas e de saudades.
A geografia sentimental do Fundão, balizada pela explosão cromática da Gardunha e o dorso altivo da Serra da Estrela, foi sempre marcada por uma matriz popular e democrática, edificada pelos nossos avoengos, que vêm do fundo dos séculos, primeiro camponeses que desbravaram a terra inóspita e lavraram o agro minúsculo, e depois gente operosa dos ofícios com sangue judeu, de que a toponímia ainda regista breve memória.
Quando a Avenida da Liberdade se rasgou, alguns tiveram a percepção de modernidade e que estaria, ali, doravante, a fronteira entre o velho Fundão e o tempo novo que havia de vir, desenhando um urbanismo de novo tipo. A Piscina, durante muitos anos a única nos centros urbanos da Beira, e os cafés, outra marca de convivialidade democrática da terra que Steiner não desdenharia, se o soubesse, de incluir na sua cartografia da Europa, permitiam à vila um respirar mais amplo e sadio. Esta mutação poria fim ao termo da vila limitado pelos Terreiros de Cima e de Baixo, uma longa faixa de terreno que ia até à Auto-Transportes, onde se jogava à bola e depois, enquanto as casas não surgiram, se faziam os mercados e as feiras, que no aspecto agrícola pediam meças à escala nacional. Na realidade arterial da vila, era dominante a tal cruz, pontuada pelas capelas seiscentistas, em que se desenvolviam as ruas, que entroncavam no Alto do Chafariz, onde um polícia, geralmente acrobático, comandava o trânsito e os peões. Do centro administrativo (Câmara, Tribunal e repartições afins) e cultural (o Casino Fundanense), que era a Praça do Município -- já fora Praça da República -- passava-se para o Largo da Igreja, descia-se para Santo António ou subia-se para a Rua da Cale, a mais mítica de todas, ou caminhava-se para a Escola Primária ou o Parque das Tílias. Ao lado da Escola, no Largo de S. Francisco, também os putos que éramos jogavam à bola, desporto que durava até que um polícia malvado, cozido à sombra do quartel dos bombeiros, surripiava a bola e ia entregar o corpo de delito ao professor, que ele apreendia, e se estivesse de má catadura sovava os desportistas à réguada.
Neste quotidiano longínquo, a ocupação urbana da Avenida foi tomando forma. A terra dilatava-se a olhos vistos e o símbolo maior desses traços modernos era o Cine-Teatro Gardunha. Chegou a haver cinema quase todos os dias no Fundão, uns dias no Casino e outros no Cine-Teatro. Mas era neste que residia a novidade e a jóia, que foi o Teatro do Casino, acabou por ser demolida sepultando muitas noites de glória e um património fabuloso. Ir ao Cine passou a ser um hábito social. Outras noites de glória e acontecimentos marcantes se somaram aos antigos e, entre eles, a maior manifestação popular que já houve, no Fundão, penso eu, a visita de Juscelino Kubitschek, em 1963, a que depois se seguiram outras iniciativas culturais relevantes, promovidos pelo Jornal do Fundão de António Paulouro.
Agora, que o fenómeno urbanístico se alargou por campos e quintais, que a cidade como organismo vivo construiu outra realidade urbana, gosto de passear pelas antigas ruas do burgo, olhar os velhos edifícios de uma arquitectura sóbria (as poucas casas senhoriais são excepção) deter-me nos detalhes de um quotidiano que faz pensar na biografia da terra, e, permita-se-me a ousadia, dizer como Jorge Luís Borges dizia dos pequenos pátios da sua velha Buenos Aires, que estes lugares são as minhas pequenas pátrias."





QUANDO OS POETAS NÃO MORREM


Os versos são sempre a biografia dos poetas (Octávio Paz) e, por isso, a poesia vive para além do tempo. Em 19 de Outubro de 2012, Manuel António Pinto deixou-nos, partiu, foi habitar as estrelas que ele tanto trabalhou no universo da poesia, mas ficou presente em tanta coisa que escreveu. Hoje, faria 71 anos e eu que, seguindo as instruções de Henry Miller, falo com ele através dos seus livros, dos seus poemas e das suas crónicas (quanta saudade, caramba!), deixo-lhe um aceno de palavras,  como quem diz até já.
O Manuel António Pina teve muitos títulos de glória,muitos prémios, até teve o maior de todos, o Prémio Camões -- e a ele que tanto trabalhou a palavra e o verso na sua oficina criadora, ficou-lhe bem a distinção --, mas a sua grande aventura, do que ele verdadeiramente gostou, foi escrever. A escrita foi o seu respirar essencial e cumpriu esse destino (um destino por muitos livros), com a humildade de quem lavrava uma terra, plantava uma árvore ou construía pequenas e grandes coisas. Estou a vê-lo, outra vez, com o seu olhar bondoso, a sua atenção aos outros,porventura acolhendo no colo os seus gatos.
Os poetas não morrem -- vivem na substância dos seus versos. Então, querido Manuel António Pina, aqui deixo versos teus, como quem te oferece uma rosa ou cravo vermelho:

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramago & coisas assim
eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu:
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes,
chamando do fundo do meu coração.