segunda-feira, 9 de junho de 2014

QUE DIRIA HOJE O PADRE ALBERTO?

Uma terra é a soma de muitos rostos e acontecimentos que o horizonte temporal inscreve como singulares no registo colectivo que é o a-bê-cê da história local. Na persistência das terras se fazerem a si próprias, a memória é certamente uma coisa essencial da vida das comunidades, pois na edificação memorial convergem pessoas, referências identitárias e realidades comuns aos seus habitantes, que amam a casa comum onde nasceram e não a despregam do coração porque o sentimento de pertença é sempre uma raiz funda. Lembrar pessoas e instituições é, pois, um contributo para que a imagem de uma terra não se perca no limbo do esquecimento.
O Fundão comemorou hoje o 267º aniversário da criação do concelho. E, como acontece na sessão solene das festividades, distinguiu cidadãos e instituições, por justo merecimento. Mas gostaria hoje, sobretudo, de evocar uma figura, sem desmerecimento das restantes. Refiro-me ao Padre Alberto Neto.
Alberto Neto, que repousa no cemitério do Souto da Casa, sua terra natal, foi uma figura nacional, com um papel absolutamente notável na transformação da Igreja portuguesa, sobretudo nos tempos difíceis da ditadura, a que estava enfeudada por compromissos da sua alta hierarquia. O Padre Alberto Neto era uma daquelas pessoas que, pela inteligência e capacidade de comunicação, não deixava ninguém indiferente. Na multifacetada acção do seu múnus, na realidade eclesial que transportava, o compromisso social assumiu sempre carácter determinante. Havia uma palavra que combinava bem com o seu ser e estar, a palavra liberdade, a ela se ligando um conceito projectivo de justiça social e de igualdade que colocava o Homem como a medida de todas as coisas. Era abertamente contra a injustiça que se instalara na sociedade portuguesa, e que nos anos 60 (até ao 25 de Abril) era particularmente gravosa, e lutava pela paz, em tempo de guerra colonial, ficando ligado a um acontecimento determinante na consciencialização cristã contra a guerra, o caso da Capela do Rato. Hoje, à distância do tempo, a figura de Alberto Neto emerge como síntese de várias dimensões culturais e cívicas, designadamente a sua ligação à pedagogia e à Educação, à sua maneira de transmitir conhecimentos integrando a cultura na complexidade do mundo e, particularmente, da sociedade portuguesa. Do seu labor nas comunidades locais, em actos de verdadeira libertação, fala a Medalha de Ouro que lhe atribuiu o Município de Sintra ou o nome de rua que Belas lhe atribuiu; da sua acção pedagógica em liceus e escolas, sublinhe-se, apenas, que as duas últimas escolas onde foi professor (Queluz e Rio de Mouro) o quiseram como seu patrono, lá figurando o seu nome, homenagem das comunidades escolares.
Tive a honra de colaborar no livro "Padre Alberto Testemunhos de uma voz incómoda (Capela do Rato (68-73). Cito uma frase de um texto que lá figura, prosa apressada de jornal, por altura da sua morte: "Alberto Neto era um homem de diálogo e dele fazia um meio concreto a partir do qual a fraternidade era possível. A tolerância e a paz. A liberdade e a vida. E como medida de todos esses valores o Homem"
Ponho-me a imaginar o que diria o Padre Alberto face ao Portugal de hoje, às desigualdades cavadas fundo no tecido social, à fatalidade do desemprego, à lâmina da pobreza, às vidas destruídas. Imagino que estaria na primeira linha da cidadania lutando contra a injustiça, com palavras e acções, despertando consciências para a realidade que é preciso transformar. Ouvi-lo-íamos, porventura, repetir o que um dia escreveu: "A esperança é sempre possível mesmo que tenha de ser inventada".
Aqui está a palavra chave: esperança. Porque, nestes tempos de Troika, não têm feito outra coisa senão assassiná-la. É preciso inventar diria eu, num aceno ao Padre Alberto, o dia claro. Reproduzindo a esperança no país sitiado, como dizia o poeta.

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