sábado, 11 de janeiro de 2014

34 EUROS POR DIA


Uma curiosa anotação,no blogue do embaixador Seixas da Costa, "Duas ou Três Coisas":
"O governo informou que 95% dos pensionistas estarão isentos do pagamento do "complemento extraordinário de solidariedade", que abrangerá as pensões superiores a 1000 euros.
Fica-se assim a saber que, em Portugal, 95% dos pensionistas vivem com menos de 34 euros por dia".

CONTRA A CORRENTE DO JOGO


No país do unanimismo, do porreirismo nacional, do pensamento único de acordo com a vaga comum da emoção, da exploração dos cadáveres com a naturalidade de quem vai ali e já vem, é bom anotar os que saem desse coro, que o Parlamento também abençoou, e pensam em voz alto a sua crítica. Os que fazem parte dessa procissão de conformidades, que também tem padres a guiá-la, fariam bem em ler a coluna que António Guerreiro publica, no "Ipsilon" (suplemento do "Público") sob o título de "Vergonha e auto-censura".
Contra a histeria colectiva que por aí vai, António Guerreiro adverte: "Em momentos excepcionalmente favoráveis ao apelo à dramatização e ao olhar que se satisfaz de maneira ambígua e cretina na sua própria emoção, as televisões mostram  a sua face mais abjecta: é quando tudo fazem para induzir as ditaduras do coração, porque esse é o seu alimento preferido e aquele que lhes permite exibir, na mais larga escala, o seu poder. Elas conseguem transformar um sentimento de luto num objecto de repulsa que nos faz desviar oi olhar, não por piedade, mas porque uma violência enorme é exercida sobre nós: a violência do despudor. A violência é diária (e tanto maior quanto já não basta evitarmos o ecrã para nos subtrairmos aos seus efeitos) mas tem evidentemente os seus picos. Pela morte de Eusébio, as televisões subiram a um desses picos já conhecidos e mostraram, mais uma vez,  a violência que são capazes de exercer sobre a nossa vergonha". E noutro passo: "Sentimos vergonha por ouvir os relatos, os comentários e as reportagens dos jornalistas porque há algo em nós que se sente ameaçado, desnudado, com tais palavras e atitudes. Sentimos vergonha quando um jornalista se aproxima de alguém que exibe ostensivamente o seu luto e a sua emoção e lhe pergunta: "O que é que sente neste momento?"
É verdade que, como diz António Guerreiro, "tanto os que sofrem (a violência) como os que a exercem nem sempre se dão conta da violência que estão a exercer e a sofrer". Mais uma razão para valorizar o pensamento dos que são capazes de dizer não, contra a corrente do jogo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

HAVEMOS DE NOS LEMBRAR



Haverá um tempo em que nos lembraremos sempre da criminosa morte dos Estaleiros de Viana do Castelo, das negociatas à sua volta, das cumplicidades governamentais, dos milhões que voam para os bolsos dos figurões que triunfam financeiramente à custa da impunidade tolerada ou abençoada pelos poderes. Havemos de nos lembrar destes tempos de "coniventes sem cadastro" (gosto sempre de utilizar o magnífico verso de Sophia) e da sua situação de cavaleiros da triste figura, como o ministro Aguiar-Branco. Havemos sempre de nos lembrar dos rostos daqueles trabalhadores a denunciarem que a história recente dos Estaleiros de Viana é um caso de polícia e que apenas reivindicam o direito ao trabalho. Havemos de nos lembrar sempre dos que bateram palmas à negociata e se riram alarvemente dos protestos dos trabalhadores. Havemos de nos lembrar sempre que o governo fez um frete, que lesa o Estado em muitos milhões, aos senhores da Martifer. Havemos de nos lembrar da cerimónia da transferência da coisa e dos rostos felizes dos comparsas da negociata. Havemos de nos lembrar.Mas então será tarde.

ROSTOS CAVADOS POR DIAS SOFRIDOS


Está na Moagem (Cidade do Engenho e das Artes), no Fundão, até 26 de Janeiro, uma exposição de fotografias de António Supico, que retrata, no dizer do autor, "Gentes da Beira". É uma mostra a preto e branco, despojada tanto quanto uma exposição fotográfica pode ser, e é um belíssimo acervo documental de um tempo e de um mundo que, porventura, já perdemos. São rostos cavados por dias sofridos, situações, uma ou outra paisagem minimalista, como se o fotógrafo estivesse a recomendar aos visitantes para não se distraírem do essencial, isto é, da gente. Percorre-se o universo exposto, os rostos sempre a interpelarem-nos, e o tal mundo perdido volta à memória para nos surpreender. Essa presença faz-me sempre evocar Lorca, quando disse que a fotografia cria em nós a ilusão da eternidade. E, de facto, os detalhes humanos, os rostos sofridos transformam-se em grandes-planos de quotidianos não tão distantes como isso, que revisitamos agora porque estão ali, à flor dos olhos, prolongando, assim, a tal ilusão de eternidade de que falava o dramaturgo assassinado às portas de Granada.
Logo a abrir, há uma fotografia que acompanha o título da exposição, que me sacudiu a memória. É uma foto com o rosto da Gregória, uma cigana de que alguns talvez ainda se lembrem. Esse rosto que o António Supico escolheu simbolicamente como síntese das Gentes da Beira fez-me lembrar uma crónica que escrevi sobre ela, em 2002, e incluí depois no I Volume de "Crónica do País Relativo", e que aqui deixo para os meus leitores,como sugestão para visitarem a exposição:

Antigamente, quando a cidade era uma vila de casas com quintais, limitada por campos agrícolas, e a estação de caminho de ferro, ao fundo, a pobreza – ou a exclusão social, como agora se diz – tinha na proximidade uma garantia de visibilidade que inquietava o quotidiano. Lembro-me de uma mulher de negro, sempre de negro, embrulhando no colo uma criança, que passeava pelas ruas a sua desgraça, acolhendo-se às casas onde sabia que podia receber uma réstia de azeite ou de pão com conduto para mitigar a fome. Durante anos e anos, vi-a passar, sempre cozida às paredes, em postura defensiva, e sempre com uma criança ao colo, nas suas aproximações à vila. Era uma mulher de negro, negro dos pés à cabeça, onde só o rosto moreno de cigana sobressaía, com aqueles traços fundos que lavram na face toda a biografia da miséria. Era a “Gregória”. Quantos anos carregaria ela? Ninguém sabia. Mas todos a haviam reconhecido sempre como velha, muito velha, nas suas deambulações pela sobrevivência que era a sua aventura de pobre. 
A vila tornou-se cidade, dilatou o urbanismo de mau gosto pelos campos agrícolas e dos quintais de então, já poucos restam. Numa margem da improvisada circular, existe há muitos anos, uma barraca de madeira. Feita de tábuas desconjuntadas, onde o roupa estendida na corda parece uma bandeira de infra-humanidade apontada à pressa de quem passa na estrada. É a casa da “Gregória”, longe, afastada de tudo e de todos, onde ela vive e tem comido o tal “pão que o diabo amassou”. 
Subitamente, a cidade começou a mexer-se para aquele lado e a rodear de casas e de obras a solidão do seu universo. E a Gregória pressentiu que a sua “ilha” de pobreza estava em perigo. Olhava as máquinas, ameaçadoras, à espera do irremediável, e interrogava-se, perplexa, como a cidade caminhara em direcção àquele tugúrio, sempre tão distante de tudo, sempre tão afastado de todos, sempre à margem da vida. E logo lhe vieram dizer que tinha de sair dali, daquele lugar onde há décadas não havia ninguém e ela julgara ser a sua casa, o espaço e o tempo dos seus dias. 
A velha cigana, com o seu único filho, porventura o que sobreviveu, que arrasta, agora que cresceu, deficiência bem notória, ainda se aventura pelas ruas da cidade na sua faina de sempre: ser pobre de pedir. Não faltam os que vêem a sua silhueta negra e se abismam com a sua longevidade. “Aquilo é que é resistência!” Um dia destes, por sinal, fazia frio e o vento de neve vindo da Estrela fustigava a chuva, a Gregória veio mesmo ao Jornal, não para pedir, mas com o seu pranto e os seus choros, arrastando a queixa de que a Câmara lhe vai demolir a barraca. “Também somos filhos de Deus... Não podemos ficar ao frio e à chuva!” Um pranto contra a desumanidade. A Gregória, metida nas suas vestes negras, continua a chorar, a pedir uma casa, a solicitar ajuda como se a vida estivesse por um fio. Alguém diz: “Vejam lá, tem 110 anos!”
De vida?


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

GOLEADA MONUMENTAL DE EUSÉBIO NO PARLAMENTO


Quem diria que Eusébio, poucas horas depois de nos ter deixado, regressava para dar uma goleada monumental aos deputados de treta do nosso Parlamento. Ainda se está para saber como ele conseguiu fintar os seguranças, agora sempre de olho vivo em quem entra na Assembleia -- todos e cada um são potenciais indignados contra "a choldra" em que o país se tornou! --, mas a verdade é que o Pantera Negra fez o que quis do Parlamento, cuja equipa demonstrou uma falência anímica total, falta de serenidade e de sentido das oportunidades, que no futebol são fulcrais.
De facto, ainda o corpo de Eusébio mal descera à cova e pouco arrefecera, e já os grupos parlamentares, na cola de António José Seguro, que assumiu funções de capitão da equipa, reuniam para manifestar unânime decisão de concordarem com a transferência dos restos mortais de Eusébio para o Panteão que, disseram logo, deverá ocorrer daqui a um ano.
Ora a jogada, é uma entrada fora de tempo, daquelas de carrinho que dão logo direito a cartão vermelho e recolha ao balneário. Nas regras do jogo, a lealdade e a fidelidade ética são componentes que não podem ser desprezadas, e, quando alguém se aproveita de um cadáver ainda quente, para explorar a emoção e a dor alheia, então trata-se de anti-jogo execrável, cedência sem limites à irracionalidade do populismo e da facilidade, inquinando o resultado final.
Eusébio, que todos consideraram, nas múltiplas biografias traçadas, uma pessoa séria, incapaz de se aproveitar das circunstâncias para honrarias, a expressão quotidiana da simplicidade mais pura (não gosto de dizer humildade), vê-se confrontado com esta desvairada corrida dos deputados, para marcarem a agenda política e irem ao encontro dos votinhos futuros, graças a Deus. Ninguém quer perder a corrida...
Daí a goleada de Eusébio, que chutou contra eles e com tal força, que Seguro, Jerónimo, Catarina Martins (depois substituída por Semedo), Montenegro e Magalhães tiveram de desviar-se não fosse a força da bola decepar-lhes a cabeça (será que têm?) E mesmo Assunção Esteves, que guardava a baliza, deu um frango clamoroso, quando se enredou em contas de má pagadora.
No final, face à goleada, os deputados da treta recolheram aos balneários cabisbaixos. É que a goleada foi histórica. Na "flash intervue", ainda se ouviu Eusébio:
-- Estes tipos não percebem nada disto! Nem ao menos aprenderam com o Vieira, caramba, que lhes deu uma lição... Quando lhe perguntaram se o Estádio da Luz iria mudar para o meu nome, ele disse que não era altura de discutir isso, assim, a quente!


A PERGUNTA QUE NUNCA TEVE RESPOSTA

Ilustração de Zé Dalmeida
Quando um ano termina e outro começa, surgem os balanços, onde não faltam os economistas especializados na crise a fazerem a revisão da matéria dada e a vaticinarem futuros imediatos com menos dramas, mais sopa e mais sorrisos. Confundem-se, assim, com os políticos de serviço à Troika, que prometem paraísos domésticos à nossa escala, sempre com a reserva, claro, de que o inferno pode estar à espreita, se o povo não se portar bem. Nessa suave imagem de felicidade, de que eles são os obreiros, há sempre a tendência de esquecer outras realidades, que, aliás, os relatórios e os inventários comprovam: no ano que passou aumentaram os ricos e dilataram-se os pobres. Nos países do sul da Europa, essa tendência, que se regista há anos, comprova o aumento das desigualdades e uma certa falência da construção europeia, designadamente no tocante à coesão social e ao bem-estar dos cidadãos. Em Portugal, onde há cada vez mais pobreza e a fome se tornou fenómeno banal do quotidiano, os papagaios da política só vêem anjos celestiais em respiração acelerada de felicidade absoluta, como se a desgraça de vida em que nos meteram fosse coisa do passado. 
Há quem encare tudo isto como uma fatalidade justificada pelos mil milhões de pessoas que passam fome no mundo inteiro e pela ignomínia de um, em cada seis habitantes do planeta, não ter para comer o elementar pão-de-cada-dia. Estas afirmações, que deveriam sacudir a consciência colectiva, comovem cada vez menos. E não faltam os que dizem que o reino dos céus existe para realizar justiça póstuma desses condenados da terra, pois bem sabemos todos a serena sentença bíblica que afirma ser “mais fácil o camelo passar no buraco da agulha do que o rico entrar no céu”. Mas como se sabe, as metáforas, por muito bíblicas que sejam, não enchem a barriga a ninguém. 
Então, talvez fosse curioso que alguém lesse aos políticos e aos especialistas da crise a célebre tirada de Almeida Garrett (Viagens na Minha Terra), em que o grande escritor denuncia: “Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?” 
Uma pergunta que nunca teve resposta.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

NATALIDADE À MESA DO CAFÉ


Pintura de Paulo Ossião
Num destes dias frios de Janeiro, o pequeno café estava quase deserto. Entravam pessoas apressadas, tomavam a "bica" ao balcão, um ou outro dava dois dedos de conversa, "está um tempo horrível". e desandavam para a rua, enfrentando a chuva e o vento. Na mesa que tem vistas sobre a Praça, com janelas largas de vidro, uma mulher sozinha distraía a sua solidão vendo os pingos da chuva escorrerem sobre o envidraçado.
No espaço, que não é muito, as mesas acomodam-se umas ao lado das outras, numa partilha de intimidades, e havia uma em que um jovem se sentara. Retirara um livro da mochila e começara a passar os olhos pelas páginas, enquanto, de soslaio, fixava a porta de entrada. Não vinha ninguém. Regressava ao livro, navegava por ele, à procura duma passagem especial, as folhas corriam impelidas pelos dedos. Outra vez os olhos na porta. Ninguém. A senhora do canto permanecia com os olhos presos à chuva, numa relação que devia ser distração antiga.
A chuva, do lado de lá da vidraça, transforma a paisagem ou dá-lhe, pelo menos, momentos surpreendentes, é um bom espectáculo e de borla. As bolhas de água, densas, deslizam pelo vidro e há sempre uma ou várias a recomeçarem a viagem. E depois há sempre gente em movimento: "olha aquele tipo encharcadinho de todo, parece um pingo em andamento..." Subitamente, o tempo piorou, a chuva deixou de ser íntima, cai, agora, grossa, intensamente, e lá fora, soprada pelo vento, poisa nas folhas que esvoaçam até ao chão. 
-- "Está um tempo dos diabos!" -- diz outro, acabado de entrar.
O jovem continua a ler, sempre com os olhos a vadiarem até à porta, e ao balcão, chegou agora um sujeito, que já pediu um café e um pastel de nata, e que desabafa, furioso, contra "a merda de país em que vive", questionando o que está do lado de lá, sobre "a quadrilha que nos está a roubar todos os dias". O outro diz que sim com a cabeça, que ele também é assaltado, pois, então, e remata a conversa com uma receita definitiva: 
-- Isto já só lá vai à porrada!
A chuva amainou, já não bate nos vidros, com tanta força, e volta a ver-se melhor a paisagem, lá fora, sem o filtro da água. O jovem que lê, abriu um sorriso largo no rosto. Uma rapariga tinha transposto a porta e já estava ao lado dele.
-- Está um tempo! -- exclamou ela, enquanto despia a gabardina e dizia que queria "uma coisa bem quente" para lhe aquecer a alma. -- Tenho frio até aos ossos...
-- Então? -- perguntou ele, e a conversa ficou suspensa, no silêncio.
Ela já estava sentada, rosto fechado, até que os olhos procuraram os dele, muito fixos, aqueles olhares que parecem significar a vida toda. Ele reparou que uma pequena lágrima se escapava, como um pingo de chuva furtivo, do rosto da companheira. Depois ela falou:
-- Ele disse que não admitia mulheres grávidas, que quem quisesse ter filhos ficasse em casa.
-- E tu? -- perguntou o companheiro.
-- Eu disse que ia ter um filho!
O jovem anuíu com a cabeça e pareceu-me ver um leve sorriso no seu rosto. Meteu o livro na mochila e deu-lhe um beijo.
Lá fora, a chuva era outra vez mais intensa. Fustigava os vidros e o vento soprava, forte. Estava um dia triste.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O POEMA QUE ILUMINOU A VIDA DE MANDELA


É uma velha questão, que ajuda a animar debates de intelectuais, umas vezes por pura perplexidade filosófica, outras para fugir ao tédio das horas. Então, surgem as perguntas: que pode a literatura? Para que serve a poesia? No livro de Alberto Manguel, "Uma História da Leitura", no enfoque histórico que o autor faz sobre os livros e a leitura, há abundantes respostas a estas questões, que podem sintetizar-se numa delas: ler para viver.
No último "Babelia", Ángel Ruperéz, num texto sobre "Uma filosofia da resistência" abordava estas questões e acrescentava um exemplo que eu gosto de trazer aqui, a este espaço de pensamento e liberdade, ainda para mais porque fala de Nelson Mandela, a figura moral e política do nosso tempo que, tendo morrido há um par de semanas, parece já envolta em denso silêncio, que assim começa o caminho do esquecimento. "No Ano da Morte de Ricardo Reis", Saramago media esse tempo em nove meses, os mesmos que leva a criança a formar-se no útero materno. O que tudo isso quer dizer, é que a efemeridade do tempo é a verdade que abraça a memória depois da morte.
Daí que a literatura e a poesia criem nos leitores uma espécie de ilusão de eternidade, ajudando-os a iluminar os dias, por mais cinzentos que sejam. Quem não tem essa experiência de ver explodir a luz nuns versos de Pessoa ou numa página do Quixote, quem não viveu, no meio do negrume da ausência da liberdade, a salvação pela palavra?
Então, foi um poema intitulado Invictus, do poeta inglês William Ernest Henley (1814-1903), que se tornou companheiro de Nelson Mandela, durante os largos anos de cativeiro em Robben Island. Porquê este poema e não outros, que porventura Mandela também sabia de cor? Ángel Ruperéz explica que "o poema declara que o maior horror imaginável não consegue eliminar a força de qualquer das suas vítimas, graças à sagrada condição de que fala o quarto verso: a Alma invencível".
Então, o poema de Ernest Henley, companheiro de Mandela e que este, decerto, muitas vezes leu em voz múrmura, no silêncio das paredes do cárcere, alimentava assim de esperança, o prisioneiro:

"No meio da noite que cai sobre mim,
Negra como um poço que se afunda interminável,
Dou graças a deus, se é que algum deus existe,
Por ser o dono desta alma invencível.
Preso nas garras da cruel existência
Nunca gritei ou expressei dor.
Sob as feridas da minha péssima sorte
A minha cabeça sangra mas nunca se rende.
Para lá deste lugar de lágrimas e cólera
Vejo que se aproxima o mais sinistro Horror
E que o tempo ameaça, mas não os temo.
Não me preocupa que se fechem as portas
Nem que chova sobre mim uma chuva de castigos
Pois sei que eu governo o rumo da minha vida
E que sou o capitão da minha alma invencível"

Poemas, palavras, resistência. Tempo e circunstâncias. Jorge de Sena tinha razão: nunca a poesia salvou o mundo; mas nunca o mundo poderá ser salvo sem a poesia. Talvez isso responda à questão inicial.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

AS VÁRIAS MORTES DE EUSÉBIO


Para mim, já o escrevi, Eusébio será sempre um deus maior da bola,pela capacidade que teve em reinventar o jogo, pela genialidade dos instantes que ofereceu às multidões, pela ousadia em querer superar os limites humanos, pelos pontapés certeiros que deixavam atónitas as bancadas dos estádios. Fez muitos golos, e decerto outros faria, agora, contra o aproveitamento da sua morte, dos políticos (como o Cavaco que despachou logo três dias de luto nacional!, ou o Passos Coelho, que foi ao ataúde fazer festas no cadáver) aos comentadores e figurões que se dependuraram na sua morte para belos jogos florais de retórica fúnebre. 
Houve, é certo, momentos especiais, como o testemunho de Toni (vai aqui como exemplo) a relevar a dimensão humana de Eusébio e houve, sobretudo, o remake da grande festa dos golos, que essa, sim, é a verdadeira biografia de glória do "pantera negra". Bem melhor seria que, em vez de palavras de lugar-comum, nos oferecessem apenas os jogos em que ele brilhou, com os aplausos, em pano de fundo. Mas a informação, quando lhe cai nas mãos um caso destes, encena, ela própria, um ritual que explora até à exaustão. Foi o que aconteceu com o excesso de informação, a persistente reportagem, a objectiva visando o cadáver, como um enorme olho que apenas ali estivesse para satisfazer a morbidez da natureza humana, que gosta de amplificar o drama e a dor alheias. O que faltou em sobriedade, ganhou-se em exploração da dor do acontecimento, como matéria de seguros dividendos.
As encenações da morte, onde quer que sejam, na América Latina, na Ásia, na África ou na Europa, repetem sempre os mesmos detalhes e as mesmas técnicas, com os aproveitadores de cadáveres a fazerem sempre lembrar a metáfora do Dr. Jekyl e de Mr Hyde, de Robert Louis Stevenson, com o senhor e o seu criado a procurarem cadáveres no cemitério, para uso próprio...
É nas encenações da morte, que nunca fogem à dimensão do espectáculo, que se pode falar nas várias mortes de Eusébio. Era nisso que pensava, enquanto via o cortejo fúnebre desfilar pelas ruas de Lisboa, numa geografia fúnebre nunca vista. 
E se o deus da bola morreu, ficando para sempre o seu imemorial percurso como futebolista, a tal lembrança dos golos (que Manuel Alegre chama de poemas) e da glorificação dos estádios de futebol, que ele pisou, ficam, também, neste dia cinzento de Janeiro, como aceno afectuoso, a autenticidade das despedidas do universo benfiquista e daqueles rostos do povo, a bater palmas, com a lágrima ao canto do olho, nas ruas de Lisboa, num adeus de despedida e de saudade.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio, deus da bola


Há nomes que se tornam lendários porque na soma dos dias em que a vida se faz e se refaz edificam uma história que se singulariza, que se torna memória colectiva, que vive nas fugazes imagens dos instantes que alimentaram a ilusão e o sonho de multidões. Nos anos 60, o tempo já construía os seus ícones, retocados pelo mito que a sociedade do espectáculo, mais tarde transformada em paradigma dos dias vividos, exploraria até ao infinito. O futebol fazia já parte inteira do mundo do espectáculo, embora longe do fenómeno planetário e avassalador em que as televisões o transformaram, com as suas estrelas a criarem uma mitologia própria de consumo quase transcendental.
Eusébio, que veio do bairro da Mafalala, em Lourenço Marques (agora Maputo), para Lisboa, pertencia, como se viu depois, ao número dos que, marcados pelo génio, se transformam em lendas, cujo nome é declinado com admiração, porque, como Pelé ou Maradona, Ronaldo ou Messi, o universo da bola lembra coisas geniais que eles fizeram no futebol. Ainda embrionário o espectáculo do futebol, pela televisão, quem viu no Mundial de Londres, em 1966, o jogo de Portugal com a Coreia (o célebre 5-3), não esquece os golos do Eusébio, a sua força de "pantera negra", a sua corrida, como se gazela fosse, em direcção à baliza.
Tornou-se mito, e, na mitologia do seu universo, uma figura com peso simbólico muito forte, que nunca parou de crescer, estimulado pela retórica futebolística, em palavras, sons e imagens. Agora, que o fogo fátuo dos elogios "post-mortem", alimentam a pira da morte, num aproveitamento de queEusébio, diga-se, nunca deixou de ser objecto, prefiro lembrar os seus golos, a sua explosão de liberdade, dentro do campo, como deus da bola, e, fazendo-o, poisar na sua biografia inicial, de menino que jogava descalço no bairro da Mafalala, em Lourenço Marques (hoje Maputo), marcando golos de raiva contra a pobreza. Foram esses golos que o libertaram de um destino, não de improvável herói, mas de opressão.

OBSERVADORES


Noticia o "I", na sua edição de fim-de-semana: "O jornalista David Dinis vai dirigir o novo projecto de jornal online dos empresários António Carrapatoso e Alexandre Relvas, presidente da Logoplaste, segundo adiantou ontem o jornal "Meios e Publicidade". O projecto terá ainda como director o jornalista José Manuel Fernandes, ex-director do "Público" e vai ter como título "O Observador". Este diário deve ter a primeira edição no primeiro semestre do ano. David Dinis deixou ontem o semanário "Sol", onde era editor de política".
Ita missa est.

VOTAR CONTRA A REGIÃO




Ilustração de Zé Dalmeida/Pitecos
Lembro-me de um tempo em que, na leitura excessiva das  metáforas com que então se iludia a realidade, se falava da Beira Interior como uma espécie de “ilha sem barcos”. Essa imagem fugidia era, penso eu, agora, a procura de identificação breve de uma região, na sua secular subalternidade cívica e social de pequena pátria, na espessura temporal do seu isolamento, na persistência imutável da realidade que parecia elevar-se da “espuma dos dias”.
Ninguém melhor que Eduardo Lourenço identificou esse traço de vivência longa, esse arcaísmo supra-temporal de “uma interioridade que é sobretudo intimidade, longa conversa de séculos sem eco planetário nem sequer caseiro”.  No retrato dessa contingência periférica, Eduardo Lourenço assinala que “esta Beira foi o Portugal profundo, o Portugal do arado, da cruz e da espada confundidas como era lei do tempo, terra de gente em luta com a natureza avara, ganhando com suor e sangue o que ninguém lhe dava de graça, e sempre pronta para ir, não para o mar, mas além dos mares, para sítios que nem os sonhos avistam(...)”
Esta Beira, secularmente campeã do subdesenvolvimento, só despertou para os direitos colectivos com o 25 de Abril, na revolução tranquila que então se operou nas condições de vida das populações, da água e do saneamento básico, às comunicações, que hoje nos colocam mais perto da Europa. Mas esta Beira foi sempre débil no protesto e na indignação, quase sempre conformada aos bloqueios cívicos impostos por políticas que consideravam a gente de aqui uma espécie de cadáveres adiados que, apesar de tudo, procriavam. Tal só era possível pela anemia cívica construída na mentalidade por um tempo excessivamente longo de expropriação do direito à fala e ao gesto. 
Muita coisa mudou nestas décadas, mas não mudou o servilismo em relação ao poder central, a fidelidade partidária contra os interesses de todos, a aceitação das desigualdades como destino. Querem um exemplo? Aí vai. Batem-se as populações pela reabertura do caminho de ferro entre a Covilhã e a Guarda, a única medida lógica para o desenvolvimento regional, depois dos vultuosos investimentos públicos feitos na Linha da Beira Baixa que, aliás, nos últimos anos tem sido claramente desvalorizada. Levantaram-se protestos, críticas, até houve um autarca do PSD (Carlos Pinto) que, simbolicamente, caminhou pela via férrea em direcção à Guarda, para mostrar que era aquela uma obra necessária e urgente-
Levada à questão à Assembleia da República, pelo PS, que fizeram os deputados do PSD eleitos pelos círculos de Castelo Branco e da Guarda? Votaram contra a reabertura da via. Quando há eleições, defendem tudo e mais um par de botas. Depois, na Assembleia, tornam-se mansos cães de fila da maioria, obedientes à cartilha da partidarite, e mandam os interesses regionais às urtigas. E andam por aí, senhores felizes e contentes, como se vivêssemos no melhor dos mundos. É preciso lata!