sábado, 18 de janeiro de 2014

A NEVE, UMA BALADA E OUTRAS COISAS...

A Guarda sob neve
Nestes dias frios, quando a névoa se dissipa e olhamos a Serra da Estrela, é o manto branco que a cobre que nos faz sonhar. Hoje, até houve sol -- "não há sábado sem sol, nem domingo sem missa", diz o rifão -- e durante horas pudemos ver mais longe, no horizonte, e, de onde quer que olhássemos a Serra, era sempre a neve que vinha ao nosso encontro, como se quisesse transportar-nos para os territórios da infância, quando a neve, também por aqui, era visita farta e rotineira.
Nessas alturas, é dos livros, lembramo-nos sempre da Balada da Neve, de Augusto Gil e da sua toada poética, tão intimista e simples, que era coisa que, desde a escola, todos trazíamos na ponta da língua. Estou a dizê-la em voz baixa, pequeno preito à poesia de bons sentimentos:



Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
. Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…
E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

A personalidade dos poetas, a sua navegação de versos, nunca é linear. E Augusto Gil, que tinha bons sentimentos, sem dúvida, também tinha ironia e um dia decidiu exercê-la, escrevendo para a gaveta ou pelo menos para um círculo reduzido de amigos. No autor de Luar de Janeiro ou do Canto da Cigarra, Natália Correia, que recuperou dois poemas inéditos, pertencentes à Biblioteca de Cardoso Marta e os incluiu na célebre Antologia de Poesia Erótica e Satírica, que organizou com ilustrações de Cruzeiro Seixas -- livro que o salazarismo reprimiu vigorosamente --, considera que "o sarcasmo erótico" é um dos traços dominantes da obra de Augusto Gil. E acrescenta a seguinte informação: "Circulam ainda deste autor poesias satíricas inéditas, às quais Ladislau Patrício (figura grada da Guarda, que também exercitava a ironia com talento, acrescento eu, F.P.N.) faz referência no livro Augusto Gil, Notas sobre a sua Vida, sua Doença e sua Morte. Seu Espólio Literário. Achando-se as referidas sátiras em nosso poder (colecção de manuscritos da Biblioteca de Manuel Cardoso Marta) entendemos destiná-las a esta Antologia(...)". Um deles, intitula-se "Noite de Núpcias", que foi assim glosada pelo autor de "A Balada da Neve":


Enquanto despia o fraque
Junto ao leito de noivado,
Escapuliu-se-lhe um traque
De timbre aclarinetado…


A noiva olhou-o de lado,
E pôs-se, com ar basbaque,
A remirar o bordado
Das botinas de duraque…


Houve, após este momento,
Naquela noite de gala
Um duplo constrangimento.


E o noivo disse-lhe então:
-- Oh filha, cu que não falas
é cu sem opinião.

A poesia tem destas coisas. Um nome, Augusto Gil, um poema, A Balada da Neve, assim começámos para acabar no sarcasmo de uma Noite de Núpcias...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O ELOGIO DA ESTUPIDEZ


Ilustração de Zé DALMEIDA
Quando um país começa a cortar pela cabeça, produz efeitos altamente nefastos sobre o futuro, pois compromete irremediavelmente as condições de desenvolvimento de um país, a médio e longo prazo. Houve um tempo em que, em Portugal, se fazia desgraçadamente o elogio do analfabetismo e da estupidez, em que o acesso à Cultura e à Ciência eram uma espécie de heresia. Agora, neste mesmo país, a mudança qualitativa que se tinha alcançado com investimento na ciência, está a ser posta em causa, como se Crato estivesse a cantar, no Ministério da Educação, a canção do "tempo volta para trás", na versão em "eduquês", claro.
Hoje mesmo, Vasco Pulido Valente escreve no "Público": "A Fundação para a Ciência e a Tecnologia atribuiu 298 bolsas de doutoramento, ou seja, a quase 40% dos candidatos que se apresentaram. Para estudos pós-doutorais, a que concorreram 2035 pessoas, a dita Fundação deu generosamente 233 bolsas, ou seja, 11,45% do total. Muitas coisas se poderiam dizer sobre isto. Mas, como se escreveu neste jornal, os cortes foram um "massacre" que afectará muito tempo a Universidade portuguesa e que mata de repente uma tendência que já começava a ganhar uma certa força. O responsável pela coisa é o dr.Nuno Crato, ainda ministro de um governo que por aí vai sobrevivendo, sem direcção, sem programa e sem coerência".
Como os meninos que, no Congresso do CDS, pediram o retrocesso da escolaridade obrigatória, de 12 para 9 anos, não faltam, como se vê, arautos do elogio da estupidez. Uns apregoam-na, com a impunidade de terem alvará dela, outros executam-na alegremente no governo que dizem da República...

O RISO DE CARLOS V


Ilustração de Zé Dalmeida
Carlos V, no seu túmulo em Yuste, deve ter-se rebolado de riso, ao ver atribuído a Durão Barroso um Prémio com o seu nome, celebrando simbolicamente a Europa. Os elogios ao presidente da Comissão Europeia estariam, decerto, envoltos em panejamentos verbais de cinismo e hipocrisia. Marionete da senhora Merkel, o consulado de Barroso à frente da União Europeia, correspondeu, de uma forma muito nítida, não só a uma grave subalternização da Europa ao nível planetário, mas sobretudo à falência dos seus valores civilizacionais, completamente subjugada -- e incapaz de responder -- aos ditames da cartilha do neoliberalismo financeiro e à teologia sem rosto dos mercados.
Tudo aquilo que, de mais sólido, constituía o projecto europeu -- que garantiu uma paz duradoura na Europa, o que não é de somenos -- a coesão social e uma Europa verdadeiramente dos cidadãos, deu origem a dezenas de milhões de desempregados e ao avassalador crescimento das desigualdades, sobrepondo à responsabilidade solidária o poder dos egoísmos e o domínio sobranceiro da superpotência dominadora, que no quadro da UE é sempre mais igual do que os outros, como se estivesse a administrar despojos de guerra de soberanias limitadas.
Durão Barroso é o rosto deste tempo. O que há meses alguns dos principais jornais europeus escreveram sobre a sua acção política, como responsável cimeiro da União Europeia, foi arrasante, como caricatura de incapacidade e de incompetência.
É por isso que Carlos V, ele que foi imperador determinado e fazia ouvir a sua voz em todo o espaço europeu, deve estar a rebolar-se de riso. Depois, na pompa e circunstância da cerimónia de Yuste, ainda se ouviu o argumento infantil de Durão Barroso a dizer que a Europa não tem culpa da crise, fazendo lembrar aqueles garotos que, descobertos no meio da traquinice, se desculpam:
-- Não fui eu, foram eles!
Curiosamente, ele também disse, à frente de Passos Coelho, que "o desemprego é o maior drama que a Europa enfrenta" e que "a mobilidade deve ser uma opção e não, como muitas vezes acontece, a única alternativa". Dizia aquilo frente ao primeiro-ministro de um país que tem taxa elevadíssima de saída de jovens para os estrangeiro e que um dia até aconselhou os mais jovens da tribo a emigrar...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

COVILHÃ À FRENTE NAS EXPORTAÇÕES


A Covilhã na dianteira das exportações. Colho a informação de um apontamento do Prof. Artur Anselmo. Dados curiosos para percebermos o pulsar da economia no distrito de Castelo Branco. Eis a informação:
"A Covilhã foi, em 2011, o concelho do distrito de Castelo Branco que mais exportou, com um valor de 159 milhões de euros, revela um estudo realizado no âmbito de uma pós-graduação no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).
O estudo “Distrito de Castelo Branco em números”, realizado no final de 2013 por Jorge Moutinho Garcez, pós-graduado em Gestão Empresarial pelo ISEG, revela ainda que o concelho de Vila Velha de Ródão foi o segundo mais exportador, com cerca de 61 milhões de euros.
Castelo Branco aparece em terceiro lugar, com 46,3 milhões de euros de exportações, seguindo-se o Fundão, com 21,1 milhões.
Segundo o estudo, os dois concelhos que menos exportam foram Proença-a-Nova, cujo valor das exportações foi pouco mais de dois milhões de euros, e Vila de Rei, com 36 mil euros de valores exportados".

JUAN GELMAN TINHA OS OLHOS TRISTES





Juan Gelman com a neta
Morreu no México, um grande poeta argentino, Juan Gelman. Foi Prémio Cervantes 2007 e Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, em 2005. Viveu exilado no México desde o golpe de Estado dos militares, em 1976, que impuseram um sanguinário regime de terror. Esta poderia ser uma síntese apressada de Gelman, mas sabemos como a biografia dos poetas são os seus versos. No caso de Juan Gelman, ele foi mais do que isso, foi poeta da liberdade e do compromisso social, com um legado cívico notável na luta contra a impunidade dos assassinos fardados que governaram a Argentina.
Numa definição notável, Juan Cruz, no "El Pais", chamou-lhe "o poeta dos olhos tristes". Talvez isso faça alguma aproximação ao inferno que Gelman viveu em vida, quando os militares assassinaram o seu filho e a sua nora, depois de ter dado à luz, e lhe raptaram a neta, que só conheceu 23 anos depois. Exilado no México, não voltaria mais ao seu país. O general responsável por aqueles crimes foi, entretanto, condenado a prisão perpétua. Umdia,perguntaram-lhe quem era. E ele disse:
-- Quem sabe. Eu, não.
De Juan Gelman, partilho poemas e prosa poética. E em Maio de 2008, quando foi distinguido com o Prémio Cervantes, escrevi um texto sobre ele, que incluí no I Volume de "Crónica do País Relativo", e que hoje aqui deixo como simples tributo de gratidão a quem tanto nos deu em palavras de cristal.


A COR DA LIBERDADE
Guardo a intervenção do poeta argentino Juan Gelman, ao receber o Prémio Cervantes, como um dos textos mais notáveis dos últimos tempos. As palavras do poeta, de lucidez extrema e arrepiante, carregadas de sentido histórico e poético, interpelam o tempo que estamos vivendo e são um aviso a todos os que se comprazem no efémero de uma sociedade pontuada de vazio e de esquecimento. Fiquei com o texto suspenso, a maturar uns dias, e a ele voltei agora como matéria de inquietante reflexão para os dias que correm.
O poeta convocou Alonso Quijano e por mais de uma vez mostrou que as palavras intemporais do Quixote, no seu universo fantástico e de dimensão humana, o ajudaram nos tempos difíceis do exílio, como conforto encontrou também em Santa Teresa e São João da Cruz, decerto pelo sereno misticismo. Juan Gelman caracterizou “estes tempos mesquinhos, estes tempos de penúria, como dizia Hölderlin” e lembrou que “em cada três segundos e meio um menino de menos de cinco anos morre de doenças curáveis, de fome, de pobreza”.
É preciso lembrar que o poeta argentino tem inatacável autoridade moral para falar da dor. A ditadura militar argentina matou-lhe o filho, liquidou a nora e “raptou” a neta que aquela havia dado à luz, antes de a matarem. Gelman buscou-a até encontrá-la. O Quixote, confessou na cerimónia do prémio, abriu-lhe mananciais de conforto e porventura a humildade de perceber que “cómico é o rosto da tragédia quando se olha a si própria”.
O autor de “Violín y otras cuestiones” lembrou que “a ditadura militar argentina fez desaparecer 30 mil pessoas” assinalando que “a palavra desaparecido é uma só, mas encerra quatro conceitos: o sequestro de cidadãs e cidadãos indefesos, a sua tortura, o seu assassinato e o desaparecimento dos seus restos no fogo, no mar ou no solo ignoto”. Juan Gelman (“Eu morria muitas vezes e mais com cada notícia de um amigo assassinado”) mergulhou na desumanidade para interrogar: “Há recordações que não precisam de ser chamadas e sempre estão aí e mostram o seu rosto sem descanso. É o rosto dos seres amados que as ditaduras militares fizeram desaparecer. Pesam no interior de cada família, de cada amigo, de cada companheiro de trabalho, alimentam perguntas incessantes: Como morreram? Quem os matou? Porquê? Onde estão os seus restos para recuperá-los e dar-lhes um lugar de homenagem e de memória? Onde está a verdade, a sua verdade? A nossa é a verdade do sofrimento. A dos assassinos, a cobardia do silêncio. Assim prolongam a impunidade dos seus crimes e a convertem em impunidade duas vezes”. O poeta lembrou que “os homens não lograram ainda o que Medeia pedia: curar o infortúnio com o canto” e não esqueceu “os que dizem que não se deve remover o passado, que não se deve ter olhos na nuca, que é preciso olhar para diante e não encarniçar-se em reabrir velhas feridas”. “Estão perfeitamente equivocados” considerou Gelman. “As feridas ainda não estão fechadas. Latem no subsolo da sociedade como um cancro sem sossego. Seu único tratamento é a verdade. E logo, a justiça. Só assim é possível o esquecimento verdadeiro”.
Lembrou tudo isso o poeta que contrapôs a este mundo de sombras, a realidade poética. “Mas aí está a poesia: de pé contra a morte”. Para Juan Gelman, a invenção poética exige que “o poeta despeje em si caminhos que não percorreu antes, que desabroche as mazelas da sua subjectividade, que não escute o estrépito da palavra imposta, que explore os mil rostos que a vivência abre na imaginação, que encontre a expressão que lhes dê rosto na escrita”. O escritor argentino terminou citando Marina Tsvetaeva, a grande poeta russa aniquilada pelo estalinismo. ”Ela recordou uma vez que o poeta não vive para escrever. Escreve para viver”.
 

O ÚLTIMO POEMA


O último poema de Juan Gelman, publicado ontem, no "El Pais"
Verdad es

Cada día
me acerco más a mi esqueleto.
Se está asomando con razón.
Lo metí en buenas y en feas sin preguntarle nada,
él siempre preguntándome, sin ver
cómo era la dicha o la desdicha,
sin quejarse, sin
distancias efímeras de mí.
Ahora que otea casi
el aire alrededor,
qué pensará la clavícula rota,
joya espléndida, rodillas
que arrastré sobre piedras
entre perdones falsos, etcétera.
Esqueleto saqueado, pronto
no estorbará tu vista ninguna veleidad.
Aguantarás el universo desnudo.

Juan Gelman
La Condesa DF
28 de octubre de 2013




P

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

AS PALAVRAS E AS COISAS DE FERNANDO ALVES


Todas as manhãs, como quem toma o primeiro café, vou ao encontro dos Sinais, do Fernando Alves, na TSF. Acontecia-me o mesmo com a crónica do Manuel António Pina (que saudades!), que era sempre um exercício de estilo fabuloso. O que me fascina nos Sinais do Fernando Alves é a emoção do seu falar, as palavras perto do coração, a rara capacidade para seleccionar a realidade, que é o saber maior do jornalismo. Ele fala do mundo, vai longe a buscar temas para o seu livro de todos os dias, mas é capaz de mergulhar nas raízes locais, às vezes microcosmos com dignidade universal, e pegar neles para nos dizer que esses detalhes humanos, pequenos pormenores da vida, são parte inteira da nossa comum humanidade. O Fernando Alves faz, assim, com apurada sensibilidade cultural, retratos da aldeia global, às vezes deixando-nos o sabor amargo da perplexidade de sabermos que estamos face a qualquer coisa que nos escapa, a nós, cidadãos cada vez mais desarmados face à vida armadilhada. Outras vezes, o seu olhar andarilho capta grandes-planos -- uma história, um rosto, uma vida -- que são imagens efémeras deste nó de terra chamado Portugal.
Os Sinais são uma espécie de voz primordial, matinalmente pura, a descrição de um tempo cheio de singularidades, a narrativa da esperança em forma de crónica sonora. Por que não há coisas destas nos jornais, onde a crónica (na tradição literária do jornalismo português) é hoje um género mal tolerado, provavelmente pelo alegre analfabetismo reinante. Oiçam o Fernando Alves, caramba! E percebam como a matéria da vida ainda é o alimento essencial de quem escreve.



2014-01-14 Ameaças à liberdade  -- Clique e oiça uma crónica de Fernando Alves

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

HUMOR FRANCÊS



A ligação extraconjugal do presidente François Hollande tornou-se um acontecimento político dominante da sociedade francesa. Enquanto se aguarda a conferência do presidente, o "fait-divers" de Hollande, fora do Eliseu, não escapou ao humordo "Charlie Hebdo".

EUSÉBIO, 50 ANOS COLONIZADO


Para matar saudades de "A Funda", de Artur Portela, e da sua escrita acutilante, da sua prosa inventiva, da sua ironia com toque queiroseano, vou ao Blogue A Nova Funda,onde encontro boa matéria de reflexão sobre a actualidade portuguesa: às vezes, a síntese do país e dos seus actores e figurões cabe por inteiro numa boa gargalhada que a escrita de Portela provoca. Habituado a lê-lo no antigo "Jornal do Fundão", de António Paulouro, foi comigo como director do JF, até final de 2012, que ele iniciou a publicação de A Nova Funda. 
Hoje, ofereço aos leitores uma crónica de Artur Portela, publicada no "i". É sobre Eusébio e, sem dúvida, a melhor que sobre ele se publicou na imprensa portuguesa.


Eusébio foi colonizado durante 50 anos. Por dois regimes. De formas mais ou menos explícitas.
Colonizado e aclamado.
Colonizado e festejado.
Colonizado e medalhado.
Colonizado e iconizado.
Colonizado e mundializado.
Não que não houvesse, também, o propósito de não o colonizar. Não que não houvesse, também, genuína admiração, simpatia, afectividade, solidariedade. Não que o jogador e, sobretudo, o homem fossem, conscientemente, cúmplices da manobra.
Mas que o colonialismo finds its way. Mas que a trama navegou em automático. Em automático político. Em automático sociocultural. Pobre que fosse, o colonialismo português. Pobre que seja o pós-colonialismo português.
A ideologia é o mais categórico dos automatismos.
E Eusébio sempre tão afectuoso, tão inocente, tão autêntico, tão disponível, tão a jeito, tão simbólica e funcionalmente capitalizável, tão mostrador, tão rentável, tão usado, tão funcional, tão tripas e tão coração, tão andarilho, tão viajado, tão vagamundo, tão fotografado, tão póster, tão marketing, tão merchandising, tão embaixador, tão convocável, tão convocado.
Isto é, tão ainda bola de trapo, escondida no cauchu. Tão ainda, e sempre, moçambicano, por português que fosse. Sendo sempre a infância a pátria da pátria. De ouro que lhe prometessem ser, se viesse para o Puto, a bola.
Veio.
Tudo, então, aqui, tostões, tremoços e porreiríssima malta.
Hoje, o negócio é outro. Hoje, o preto é branco. Portugal é o Moçambique europeu. E quase todos, independentemente de estar ou não estar em causa o futebol, somos colonizados. Pela Europa do Norte e pelos seus jovens capatazes locais. Tarzan é alemão.
Não soubemos. Mas fomos todos a enterrar há uma semana. A bater palmas. Mais uma vez. Cauterizando em festa a ferida em que nos convertemos. Em que nos converteram. Em que nos estão a sangrar. E essa festa, esse chorar a rir, é o segredo do futebol. E, por maioria de razão, do futebol português. Um dos futebóis mais políticos do mundo.
Bela encenação. Um estádio com a relva pintada de verde e as bancadas pintadas de vermelho. Ao centro, amarelo dourado, um esquife. Um estádio bandeira. Fica bem, bem fica.
Um Portugal sangue.
Poderíamos, ao menos, ter o rasgo e a inteligência estratégica de – não descomparando Eusébio e Ronaldo, no género Rei é Rei, Valete é Valete –, lançar, isso sim!, uma ponte de bravura e de afectividade e de identidade entre Eusébio e Ronaldo. Perante o mundo. E dentro da nossa esperança.
Quem é que ainda não percebeu que acabamos de, implicitamente, decidir que, daqui a cinquenta ou sessenta anos, Ronaldo estará, também ele, no Panteão?
Acabe-se com esta funesta e portuguesíssima coisa que é termos inveja da vida.
arturportela.com/blogue
www.arturportela.com

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

AS LÁGRIMAS DE RONALDO


Ilustração de Zé Dalmeida
Há quem diga que os campeões não choram, mas por mim gostei de ver o Cristiano Ronaldo emocionar-se ao receber a Bola de Ouro. No galarim da alta competição e do espectáculo, em que os ícones por vezes têm excessivos retoques, na sua fabricação, é bom deixar falar o coração e mostrar fidelidade às raízes. A autenticidade é, também, a dimensão humana dos verdadeiros campeões. Ele rompeu o destino periférico de menino pobre da periferia. Ele marca golos do arco-da-velha. Ele deixa-nos atónitos com os seus pontapés e os seus dribles. Ele, na engrenagem da alta roda do futebol, tem uma identidade própria. Ele derrotou Joseph Blatter. Ele é um fenómeno comum ao imaginário de um país. Ele merece um grande abraço de Portugal.

MANUEL DA SILVA RAMOS FINALISTA NAS "CORRENTES D'ESCRITA"


Manuel da Silva Ramos é um dos autores seleccionados para o Prémio Literário Casino da Póvoa, que irá ser atribuído durante o Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, que se realiza em Póvoa de Varzim. O anúncio oficial do vencedor será feito em 20 de Fevereiro. O livro de Manuel da Silva Ramos (natural da Covilhã) é o romance “Pai, Levanta-te, Vem Fazer-me um Fato de Canela”, editado pela A. 23 Edições.
Entre os os outros escritores selecionadas estão Rui Zink, Ricardo Menéndez Salmón, António Cabrita, Pepetela,José Eduardo Agualusa, Juan Marsé, Inês Pedrosa, Michel Laub, Julieta Monginho, Valter Hugo Mãe, Dulce Maria Cardoso, Mário de Carvalho, Sandro William Junqueira e Manuel Jorge Marmelo.
Em análise, até lá, vão estão as obras "A Instalação do Medo", de Rui Zink, "A Luz é Mais Antiga que o Amor", de Ricardo Menéndez Salmón, "A Maldição de Ondina", de António Cabrita, "A Sul. O Sombreiro", de Pepetela, "A Vida no Céu", de José Eduardo Agualusa, "Caligrafia dos Sonhos", de Juan Marsé, "Dentro de Ti Ver o Mar", de Inês Pedrosa, "Diário da Queda", de Michel Laub e "Metade Maior", de Julieta Monginho. São também finalistas "O Filho de Mil Homens", de Valter Hugo Mãe, "O Retorno", de Dulce Maria Cardoso, "Pai, Levanta-te, Vem Fazer-me um Fato de Canela", de Manuel da Silva Ramos, "Quando o Diabo Reza", de Mário de Carvalho, "Um Piano Para Cavalos Altos", de Sandro William Junqueira e "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", de Manuel Jorge Marmelo.

A PAISAGEM, ÀS VEZES...



Num fim-de-semana desigual, depois da matéria solar que nos encheu a alma, com luz intensa e céu azul, veio a chuva que, ontem, fustigou as horas e nos fez pedir agasalho. Ainda assim, a paisagem é sempre pródiga, se a soubermos olhar, mesmo nos excessos que fazem soar avisos de alertas coloridos para nos precavermos de aventuras que, às vezes, se transformam em tragédias. Lembro-me sempre da Serra da Estrela, quando a neve lhe lima as arestas graníticas e torna o espaço unidimensional, uma espécie de paisagem polar que dilui as diferenças e os lugares. Lá mais para cima, para aqueles espaços onde a presença humana é mais escassa, a brancura da neve, que é tão leve, impõe um silêncio pesado, só desfeiteado pelo vento. Se o tempo abre um pouco, os olhos poisam numa dimensão fantástica, que assim é o sortilégio da neve, mas às vezes, subitamente, eleva-se a tempestade, uma neblina densa desce sobre o horizonte e a geografia e o que ela alcança para lá do olhar, reduz-se a escassos metros e parece, então, que o tempo e o espaço é todo igual, oferecendo aquela angústia que a relativa perda do sentido de orientação agudiza até ao desconforto.
O senhor José Milhano, que conhecia a Serra como ninguém, ensinava essas coisas aos exploradores de circunstância que nós éramos, e fazia-nos sempre um retrato objectivo da Serra da Estrela, nas suas grandezas e misérias. Armado da sua mochila, com mantimentos e um suplemento de vinho à mão de semear, ele palmilhava a Serra, sabia de cor os caminhos e as veredas, conhecia-lhe a intimidade dos segredos. No tempo em que não havia telemóveis e alguns turistas mais ousados, que olhavam para a imensidão da Serra e diziam: "isto é canja!", se perdiam nos labirintos da neve, o senhor Milhano e grupos de montanheiros iam lá resgatá-los, ajudando os bombeiros nessas fainas de Inverno.
Houve, até, casos que redundaram em tragédia, como aconteceu com o exercício de um grupo de paraquedistas, lá nos confins do cimo da montanha, que, surpreendidos por uma violenta tempestade de neve andaram às voltas, às voltas, não sabendo o chão que pisavam e foram encontrados, muito mais tarde, quando o tempo amainou, mortos, dispersos pela paisagem, excepto um, que tinha ficado longe, para trás. Há quantos anos foi isto, pergunto-me agora, pensando nesses militares que morreram inanimados, cercados de pânico, no abismo da tal paisagem branca que lima as arestas do terreno. A montanha foi, então uma imensa cova gelada, onde ficaram sepultados. Só eles e a sua circunstância da neve.
Nem eu sei por que diabo me lembrei disto, agora, talvez pela neblina espessa que hoje enevoou a Gardunha e seguramente a Estrela, pouco deixando ver um palmo, à frente do nariz. Ou talvez, quem sabe?, por ter visto a espantosa fotografia que o "Liberation" publicou, de uma Nova Yorque gelada, fazendo sonhar realidades fantásticas ou levando-nos ao encontro do cinema que já antecipou, com efeitos especiais, a grande cidade quase submersa e gelada.
Mas olha-se a foto e temos que concordar: a paisagem, mesmo nas adversidades climáticas, é sempre pródiga a oferecer-nos beleza. Basta sabermos olhar.

domingo, 12 de janeiro de 2014

ARNAUT, GASPAR & OS PRÉMIOS



Ora aqui está um fim-de-semana rico em transferências. É o mercado de Janeiro, não do futebol -- mas da política. Só na edição do "Expresso" colhem-se notícias de mudanças sensacionais, embora de certa maneira os artistas continuem a jogar todos no seu clube de sempre, que é a grande agremiação de interesses do capitalismo ultra liberal, na sua configuração actual. O clube é o do dinheiro e do cifrão, aonde se chega catapultado pela esfera do partido e da política.
O que é interessante nestas notícias é notar que a passagem pelos governos ou por cargos dirigentes do mundo partidário confere passaportes extraordinários para o universo dos negócios, isto é, para lugares cimeiros das organizações financeiras mundiais,  onde os cães da mesmo ninhada, ou aparentados, se juntam em matilhas vorazes para disputarem, como prebendas, os vários ossos levados aos altares dos mercados.
Para se chegar a esses céus é preciso dar provas de fidelidade aos interesses em jogo e daí que o tirocínio pelos governos ou pelas respectivas esferas de influência, onde se fazem favores e cobram favores, onde se estabelecem conluios de favorecimento, revele as qualidades dessas personalidades que parecem sempre peritos na arte da dissimulação, com ar cândido e voz suave, que fazem lembrar meninos de catequese e de comunhão diária. E, no entanto, nem sequer disfarçam a sua participação em negociatas (às vezes, privatizações) em que os vencedores são quase sempre sempre os futuros patrões... A história recente está cheia desses casos, que atormentam a democracia portuguesa e inquietam apenas alguns do bloco central de interesses, onde se recrutam, habitualmente, os premiados.
Vêm, então, as notícias deste mundo e do outro, com títulos galopantes e fotografias de encher a página. "Arnaut no topo da Goldman Sachs", titula o "Expresso", a toda a largura da página, sobre José Luís Arnaut, conhecido dirigente do PSD (que é natural da Covilhã), dando conta que "o advogado, ex-ministro e amigo pessoal de Durão Barroso vai para o conselho consultivo internacional".  E no desenvolvimento da notícia, o semanário acrescenta: "Arnaut está associado a grandes operações. Esteve nas privatizações da REN e da ANA, tendo sido a escolha da TAP para a operação de venda de capital que o Estado tem na companhia (o que não se concretizou). A sua nomeação, como administrador não executivo para a REN foi polémica. A empresa é cliente do seu escritório, que participou  através de um contrato com a então Direcção Geral de Energia, na elaboração das propostas de lei de base e diplomas regulamentares do que viriam a ser o novo enquadramento legislativo  nos sectores da electricidade, gás natural e petróleo."
Mais grave, todavia, é o que o "Expresso" diz a seguir: "Na recente oferta  pública de venda dos CTT, Arnaut já acompanhou a compra por parte da Goldman de 4, 99%, o que tornou o banco o maior accionista dos Correios. E nas negociações dos Swaps com o Estado,  a firma de Arnaut representou também os interesses de alguns bancos entre os quais a Goldman e a JP Morgan (...)".
Ora, quem ler com alguma atenção o livro de Marc Roche "O Banco -- Como a Goldman Sacs Dirige o Mundo", não ficará com grandes ilusões sobre a natureza das políticas que sofremos e a sordidez que as determina, no plano próximo da nossa comezinha realidade e na dimensão macro onde os infernos se cozinham. Alguns se lembrarão do papel que a Goldman teve na urdidura da crise financeira mundial, da sua participação, através de homens de mão, como Monti e Draghi, por exemplo, na mistificação, por exemplo, das contas gregas...
Outra notícia: "Gaspar avança para o FMI com apoio de Merkel". O ex-ministro das Finanças, executor e defensor das políticas da Troika (depois demitiu-se porque confessou que a receita falhara...) candidatou-se a responsável pelos assuntos fiscais do FMI.
Um e outro caso, são bem a nota de que a Goldman Sachs e o FMI sabem pagar a quem os serviu tão bem, e com tamanho empenho, ainda que para isso lixem o mexilhão que neste caso não é outra coisa senão o povo português. Amor com amor se paga!