sábado, 25 de janeiro de 2014

DANIEL



O caso do Daniel, o miúdo madeirense do Estreito da Calheta, de 18 meses, que esteve três dias desaparecido e apareceu, surpreendentemente, a cerca de três quilómetros de casa, é uma história de emoção, envolta pelo mistério que alimenta a narrativa da informação. O Daniel sobreviveu ao frio e à chuva e à desumanidade de quem o foi colocar no mato, perto de uma levada, desfecho inesperado de um presumível rapto, que assim parece toda a encenação factual do caso.
É verdade que a história se vai desenvolvendo, enquanto o miúdo recupera no conforto do Hospital do Funchal, que decerto para a criança criada num espaço físico de infra-humanidade e ausência de direitos, é um paraíso inesperado.
Nesta história, houve televisões que mostraram o habitat da criança, imagens a correr e decerto modo à margem da problemática do Daniel, que se vai esgotando à volta das pistas criminais que possam fazer luz sobre o mistério do seu desaparecimento. 
E essa é a outra história do Daniel. É verdade que os pais pertencem àquela categorias das pessoas que nunca foram meninos e o universo "familiar" come todos os dias o pão que o diabo amassou. O lugar do Daniel é um não-lugar social. A "casa" do Daniel é uma barraca ou um tugúrio que alberga oito pessoas, à margem daqueles bens civilizacionais que, nas Declarações dos Direitos do Homem, ou da Criança, ou na Constituição da República, devem ser pertença de todos e de cada um. O Daniel é ali que "vive" e ali deu os primeiros passos na descoberta de uma existência de rigores e privações: tudo a monte e fé em Deus! 
Os serviços da Segurança Social e da Comissão de Protecção de Menores acharão, até, que o Daniel é ali que é feliz, na contingência de uma sobrevivência que é, desde logo, o castigo mais duro da desigualdade. Eles saberão tudo isso, e até dirão que estavam a seguir o caso e que o Daniel estava monitorizado pelos Serviços. Dirão tudo isso, que porventura se adapta ao inventário e às regras do jogo. Só não conseguiram prever que ele um dia desapareceria e a luz iria incidir sobre o seu habitat.
E, então, perplexos bradamos raivas e punhais: que raio de país é este? Foi preciso um menino de 18 meses ter vivido a noite escura da morte, o frio e a chuva, num desaparecimento estranho, muito estranho, para sabermos que ainda se vive assim em Portugal. E que uma criança -- e não falta retórica de bons sentimentos sobre as crianças, que de facto deviam ser o melhor dos mundos -- pode viver num não-lugar, porque é esse, dizem, o seu destino. O Daniel, para quem, hoje, o Hospital é alívio, como na canção do Zeca, um dia há-de aprender.E talvez formule alguns porquês. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

LEVAR PORRADA E VER ESTRELAS!

Ilustração de ZÉ DALMEIDA
A Prof. Irene Pimentel escreveu que não tinha sido atribuída qualquer bolsa individual de doutoramento e pós-doutoramento da Fundação de Ciência e Tecnologia (FCT) na área de Astronomia, no concurso de 2013. 
Houve sempre quem tivesse medo dos astros, refém de mil medos sobre tudo aquilo que estava para além da Terra, e, na sua estupidez, encontrasse explicações arcaicas e mentecaptas em relação ao conhecimento da realidade. O poeta Gedeão bem avisa: "Tu é que sabias, Galileu, Galilei!". Porque ele sabia que, independentemente de abjurações e dos cânones do obscurantismo, então dominantes, havia uma verdade superior a todos os mecanismos repressivos da vida e da inteligência, que se tornou, aliás, verdade universal: "No entanto, a Terra move-se!"
Não sei se os senhores da FCT, e o seu chefe, Nuno Crato, também têm medo dos astros ou se nem sequer são capazes, por puro analfabetismo, de ver poeticamente as estrelas. Mas a recusa em dotar com bolsas a área da astronomia é, pelo menos, reveladora de um arcaísmo difícil de explicar no século XXI, quando o espaço se tornou em todo o mundo um vital interesse científico. O saber, nesse como noutros sectores, está ligado ao futuro do homem. 
Por mim, pobre cidadão comum, que gosta de observar as estrelas e os astros, para compreender a vida para além da Terra, que também gosta delas porque os poetas as sabem trabalhar (e as estrelas para quem as trabalha), não estranho tanto, esta como outras medidas da Fundação da Ciência e da Tecnologia e do governo que a tutela, e, infelizmente, tutela também os portugueses. Essas decisões voltadas para o passado, não são outra coisa senão o elogio da estupidez, pois uns e outros, FCT e governo, não têm feito outra coisa que dar-nos com o sarrafo do reino da Estupidez (é a austeridade, estúpido!) que todos os dias deixam os portugueses a ver estrelas. É essa a astronomia do governo:já nem esperamos pela pancada -- estamos sempre a levar porrada e a ver estrelas! Olá, se estamos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

PERDERAM A VERGONHA!


Ilustração de ZÉ DALMEIDA
O senhor ministro Mota Soares que, durante anos, acompanhou o senhor Paulo Portas, por feiras e mercados, festas e procissões, nas promessas de felicidade para os mais velhinhos e necessitados, jurando a pés juntos que, se um dia fossem governo, eles podiam estar descansados que ninguém se atreveria a mexer nos seus interesses, é agora um dos rostos da fábrica de pesadelo em que tornou as suas vidas. Vejo-o, na tvi, como se tivesse alvará da sem-vergonha, dizer alegremente que 87% dos pensionistas estão isentos da Contribuição Extraordinária de Segurança Social. Ele compôs aquele ar de ministro, capaz de dizer as coisas mais sinistras (a actualidade sórdida das desgraças colectivas) com um semblante de seriedade que faz lembrar a caricatura do escuteiro que ajuda a velhinha a atravessar a rua. É o cinismo no seu mais alto grau. Vejam como ele diz que 2,7 milhões de pensionistas não são atingidos por mais este roubo!
O que ele não foi capaz de dizer é que essa enorme fatia de de mais de 87% dos pensionistas vivem no fio da navalha da pobreza, num país em que o empobrecimento e a gradual desproteção social têm vindo a ser os únicos horizontes abertos aos portugueses.
Esta impunidade com que os governantes mascaram a situação real dos portugueses,é uma vergonha. Mas nos dias que correm que efeito tem essa natureza, se eles não coram, nem se importam com o estigma.    
Antigamente, quando um tipo, na desfaçatez de um comportamento eticamente reprovável, afirmava alegremente a irracionalidade dos seus propósitos, havia quem se admirasse da ousadia e exclamasse em tom de grave censura:
-- Aquele tipo perdeu toda a vergonha!
Às vezes, a reprovação social da malfeitoria obrigava os meliantes, um certo tipo de fauna que enganava os incautos com palavras envernizadas e tinha habilidades surpreendentes para iludir a atenção das pessoas de bem (como os do conto do vigário!), a terem algum pudor à publicitação da canalhice. E as notícias sórdidas de negociatas ou de saques ao cidadão comum, corriam à boca pequena.
Também havia os que, mantendo-se a bom recato, davam homem por si e eram figuras de mão os porta-vozes daquelas notícias péssimas para todos, excepto para alguns, os beneficiadores das negociatas à mesa do orçamento ou dos interesses específicos a que o poder escancarava as portas. Eram, apesar de tudo, ligações perigosas. Nos dias que correm, a negociata ou o esbulho (como agora se diz) assume, às vezes, a dimensão de crime social contra os sectores mais indefesos da população, contra os valores constitucionais do Estado, mas os seus autores já não sofrem a execração pública e a sua biografia nem sequer fica manchada com o lacre dessas indignidades. Até recebem prémios...
Bem podem os cidadãos gritar, como fizeram os reformados frente à Assembleia da República:
--Estes tipos perderam a vergonha…

Agora, eles nem sequer olham para trás. Continuam o seu trabalhinho de destruição social!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O PAÍS QUE DISPENSA OS MELHORES



Enquanto o ministro Crato dependurava no bengaleiro da crapulice,a sua bata de cientista "eduquês", centenas de jovens manifestavam-se à chuva e ao frio, em Lisboa, contra a política de razia na investigação científica, que culminou na brutal redução de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento. Eram centenas de jovens cientistas e o clamor da sua revolta era como se quisessem dizer que estavam ali a lutar por um futuro para Portugal. Era como se os gritos e as palavras de ordem quisessem afirmar que, defendendo o futuro, se manifestavam contra o regresso ao passado, à "apagada e vil tristeza" do elogio da estupidez que, no fundo, é o que representa sempre o ódio à ciência e à sua democratização, considerando-a um fenómeno meramente instrumental. Toda a gente sabe que não há ciência sem cientistas, cuja formação é um processo longo e uma aposta decisiva no desenvolvimento de um país.
Ao mesmo tempo que o protesto sobre o escândalo das bolsas aumenta, o ministro Crato, com aquele seu sorriso de engana tolos, e aquela voz melíflua que engole todos os dramas humanos, com a naturalidade de quem bebe um copo de água, deixou convenientemente de ser visto e, democraticamente, deu instruções de que não porá os pés no Parlamento para debater a questão. Podem os jovens protestar, podem os cientistas mais qualificados dizer que "isto é uma vergonha que o país pagará caro", que o mutismo de Crato fará um ruído brutal. 
De facto, o que tudo isto significa, na linha aliás da política que exporta os jovens mais qualificados para os mercados de mão-de-obra estrangeiros, é a subalternização da inteligência dentro do próprio país. Durante um tempo longo, tão longo que parecia eterno, os melhores (inovadores sociais e científicos) foram parar a masmorras, votados a exílios interiores e exteriores e as suas ideias colocadas no index. O ódio ao mérito, a desconfiança face aos saberes, tornou-se hoje, quando o conhecimento é poder, fenómeno mais sofistificado e porventura mais eficaz.
A política está farta de dispensar génios. Opta sempre pela mediocridade. Os exemplos dos prémios à estupidez chovem abundantemente na sociedade portuguesa. Por que afastam os melhores? Por que partem as pernas aos jovens cientistas? Por que os dispensam?


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

AS MONTANHAS E OS RATOS


Ilustração de ZÉ DALMEIDA
Todos os dias, ou quase, a narrativa da actualidade dá notícias de escândalos, com nomes e situações de facto, que provam indesmentivelmente a promiscuidade entre o poder político e o mundo financeiro, a fronteira contaminada entre as públicas virtudes e os vícios privados. Fazer um dicionário com a biografia desses figurões que entram e saem da política, com a maior desfaçatez, e ocupam lugares em grandes empresas em que eles próprios foram os negociadores, por parte do Estado, do caderno de encargos, seria empresa ciclópica, tantos são os artistas em cena.
Há, nestes jogos, artistas principais e secundários. No filme do BPN, todos ouvimos falar em Oliveira e Costa e Dias Loureiro – e toda a estrutura cavaquista envolvente –, além dos figurantes que também lá foram sacar. Todos ouvimos falar em Vara e nos negócios afluentes de sucateiros, e, ainda agora, outros escândalos vieram à luz do dia, com protagonistas como Marques Mendes ou o inefável Agostinho Branquinho, o tal que numa comissão de inquérito perguntou o que era isso da On Going, para logo a seguir se tornar seu quadro, e depois se pendurar no cargo de secretário de Estado do actual governo.
Se fossemos ao inventário dos dias buscar a expressão pública dos crimes económico-financeiros, catalogados como de “colarinho branco”, e confrontássemos depois o alarido social com as condenações transitadas em julgado, havíamos de pensar portuguesmente que “a montanha pariu um rato”. São longos folhetins, pasto de glórias da comunicação social, tribunais de papel alicerçados em contrabando de matérias de investigação, enquanto a justiça corre os seus termos. Há nomes de código que entraram no vocabulário comum, o tempo que já lá vai. Muitos desses crimes, sempre com formas peritas de defesa, acabam muitas vezes numa prescrição conveniente. O Estado é o lesado. Mais grave é o sentimento de impunidade que se respira, de tal forma que os “polvos”, à margem ou dentro do Estado, não param de aumentar. Em todos há quase sempre muitos milhões de fuga ao fisco, tráfico de influências, malfeitorias sustentadas por cumplicidades de poderes e ganâncias desmedidas. Entretanto, o arraial prossegue, o espectáculo da informação refina-se. Quem assiste ao circo, fica na expectativa. Com uma inquietação prévia: e se as montanhas de processos continuam a parir ratos?

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O ASSASSINATO DE MARCELO



Ainda a procissão das presidenciais vai no adro e já um candidato às Presidenciais foi assassinado. Costuma dizer-se que, na política, este tipo de crimes serve-se frio e os factos vieram comprovar o acerto do pensamento. O primeiro a cair foi Marcelo Rebelo de Sousa. Inesperadamente. E a coisa foi premeditada à distância, no ambiente de confusão ideológica que marca o PSD. Em vésperas de um Congresso, que não projecta no tempo muitas surpresas, o presidente do Partido anunciou a sua moção estratégica e logo deixou claro na definição do perfil do seu putativo candidato a Belém que para ali não terá lugar uma figura que seja "protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes ou um catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político." Mais claro não podia ser: o tiro só poderia ter um alvo: Marcelo.
Ele também não se fez esperar e reagiu, de imediato, dizendo que era ele o morto propriamente dito: "Ele quis excluir o candidato Marcelo Rebelo de Sousa, o que é perfeitamente legítimo." E não deixou de formular um reparo com aquela ironia fina que se lhe conhece: "No lugar dele, tinha seguido uma metodologia mais fácil, desde que foi inventado o telefone, que era pegar no telefone e informar directamente: Está fora de causa, desampare a loja".
A prematura morte de Marcelo como candidato presidencial é, também, um aviso de Passos Coelho à navegação de outros candidatos, com a estratégia do quem manda aqui sou eu... Não deixa de ser curioso que a faca longa que Passos estendeu contra Marcelo pode resultar num negócio perigoso, como naqueles filmes negros em que o final vai sempre num suspense crescente até desembocar numa fatalidade inesperada. Conhecendo o irrequieto e inteligente professor, como se conhece (olha que menino!) e a sua capacidade em disputar a Deus a criação de realidades e efabular cenários políticos que depois se tornam verdadeiros acontecimentos, talvez o assassinato do candidato se transforme numa faca de dois gumes. Passos que se acautele! 


domingo, 19 de janeiro de 2014

EUGÉNIO DE ANDRADE E A BEIRA



Eugénio de Andrade, se fosse vivo, faria hoje 91 anos. Ele costumava brincar com o facto de ter nascido na Póvoa de Atalaia, no dia da festa de S. Sebastião. A fidelidade à origem, ao lugar primordial, perpassa por toda a sua obra, em palavras e versos muito belos, podendo mesmo dizer-se que os territórios da infância e o tempo do "falar materno" marcariam, de forma muito nítida, a sua produção poética. Eugénio é muito claro na afirmação da certidão de nascimento da sua poesia: 

Numa aldeia da Beira Baixa, provavelmente em Julho ou Agosto, quando a força da canícula entra até pelas frestas mais estreitas da noite e nos impede de dormir, uma melodia sobe no coração da lua, e inesperadamente acaricia o corpo pequeno, intranquilo e solitário que era então o meu. Acabo de falar no nascimento da poesia e da música. 
(Poesia, Terra de Minha Mãe)
Fernando Paulouro com Eugénio de Andrade, na Póvoa de Atalaia
Nunca o céu de camponeses deixou de aquecer o seu labor poético, como se estivéssemos perante alguma coisa genesíaca, consubstanciadora de todos os lumes, seiva identificadora de tudo aquilo que é vida e amor e terra. E, ao mesmo tempo, fonte das oferendas corporais que simbolicamente ela respira. Ele próprio o disse numa das suas entrevistas: "Devo ao céu camponês da minha infância esse princípio de paixão que me leva a procurar nas palavras o rumor do mundo".
Entre outras coisas, no ensaio que escrevi (A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade), fiz a cartografia dessa relação do poeta com as terras baixas da Beira, questão sempre sua na perplexidade dos instantes ou na solidão dos dias, em que a tutelar imagem materna povoa o tempo.

Antes que perca a memória
das pedras do adro,
antes do corpo ser
um só e quebrado
ramo sem água,
devolvei-me o canto
rouco
e desamparado
do harmónio na noite.

Mãe!,
desamparado na noite.
(Coração do Dia)

Mas talvez nenhum texto explique tão bem a sua biografia como aquele em que Eugénio fala da sua origem e da identificação da sua poesia com as coisas simples da terra, com a essencialidade de um mundo cuja materialidade transparece em toda a sua arte poética e de que este breve extracto é bem elucidativo:

Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elemental (...)
(Poesia e Prosa)

Percebe-se assim melhor o que disse, na citada entrevista, a que Arnaldo Saraiva alude também no ensaio "Terra-Mãe, Matéria e Matriz Poética", quando o jornalista o questionou sobre o que tinha trazido de Póvoa de Atalaia. -- "Quase tudo", respondeu o poeta. -- "Minha mãe, a terra, a água, o sol, o vento. E também o espanto. E ainda a melancolia, que é a outra face do fervor".
Noutro passo, o entrevistador quis saber se tinha sido importante para o poeta ter nascido na Beira Baixa. A resposta não pode ser mais explícita:

Foi importante ter nascido numa pequena povoação do sul, com grandes espaços abertos à poeira dos rebanhos; foi importante ter sentido o ardor do vento e o cheiro da cal fresca; foi importante ter ouvido na noite a música do harmónio, o som do malho na bigorna no pino do Verão, o chiar dos carros carregados de feno ao fim do dia; foi importante colher as maçãs das árvores e mordê-las e deitá-las fora, ou mergulhar os pés na água até ficarem de vidro.
(Poesia e Prosa)


Na Casa da Eira, Póvoa de Atalaia, 1992
Um dos mais antigos e belos poemas de Eugénio de Andrade, intitulado "Canção", escrito quando o poeta tinha dezasseis anos, é, do mesmo passo, uma homenagem  ao veio lírico de tão velhas raízes na poesia portuguesa, mas também uma evocação da Beira e dos seus balcões, dos balcões de Póvoa de Atalaia. A "Canção" transporta-nos aos velhos trovadores e sempre que ouvi o poeta dizê-la, com o rigor exacto dos silêncios, o que torna ainda mais mágico o momento da poesia, pareceu-me sempre que o tempo ficava suspenso das palavras.

Tinha um cravo no meu balcão; 
veio um rapaz e pediu-mo
-- mãe, dou-lhe ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
-- mãe, dou-lhe ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração:
mas se o rapaz mo pedir
-- mãe, dou-lho ou não?
(Poesia, pag. 11)

Os versos de Eugénio também eles, como a poesia que os deuses devem usar, são capazes de nos enlear como sintomático ritual onde a noite não existe, porque só encontramos estrelas no céu da sua poesia, mesmo que sejam inalcançáveis e as palavras abrem-se "à mais pura madrugada" nessa viagem interminável a um mundo em que o homem é a exacta medida de todas as coisas.

Nada podeis contra o amor
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
-- e é tão pouco.
(Poesia, pag. 80)

O seu canto é sempre de índole superior, densamente humano ("Não canto porque sonho. Canto porque és real"), triunfador sobre o silêncio e a dor, mesmo quando esta, incicatrizável, impele a "ir com as aves".
Poeta do amor, como acto de plenitude, livre e libertador, a poesia do autor de Os Amantes Sem Dinheiro liberta, e, nesse acto de libertação gera mil cumplicidades numa poética em que vo esplendor do corpo é o impetuoso rio da vida, "corpo habitado" na plenitude do ser, como diria Ramos Rosa.
"Na porosa fronteira do silêncio", os versos de Eugénio de Andrade são uma magnífica âncora de esperança. E se ninguém, até hoje cantou tão bem a Beira, como disse Arnaldo Saraiva, também a Beira (e particularmente o Fundão)têm um dever de memória em relação ao poeta. Há meses, acompanhei um grupo à Póvoa de Atalaia, numa visita aos lugares do Poeta (à exposição na antiga Escola Primária e ao jardim fronteiro à Casa da Eira) e o que encontrei foi uma paisagem de abandono, que nos envergonha, a todos. Eugénio faria hoje 91 anos, se estivesse vivo. O problema é que ele está vivo nos versos e nas palavras que nos deixou. Não o esqueçamos.


UM TEXTO UNIVERSAL

AS MÃES*

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto -- não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas nas sombras dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem orfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Verchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada  pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, mudam a roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando a traquinice de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês -- e que só ela vê, só ela vê.

Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição.

*Texto lido, pela primeira vez, nas II Jornadas da Beira Interior, em Monfortinho, organizadas pelo "Jornal do Fundão"