sábado, 1 de fevereiro de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


"Os socialistas tendencialmente gastam e a nós toca-nos poupar"
Paulo Portas na Convenção Nacional do PP, em Valladolid.
Só duas perguntas: e os submarinos? E a crise política que Portas protagonizou em Julho do ano passado, que custou umas centenas de milhões de euros ao Estado português? Poupadinho, hem!

FUGA DE CÉREBROS



Bartoon de Luís Afonso, hoje, no "Público"

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

PINÓQUIO OU AS MENTIRAS DO DIA



"Vejo sinais de melhoria na economia portuguesa e estou muito confiante que esses sinais se irão consolidar de forma mais sólida".
Mário Monti, "DN" on line

"Os portugueses continuam a consumir acima das suas possibilidades, a estrangular, dessa forma, a capacidade de investimento"
Representante Permanente do FMI em Portugal, "i" 

"A nível dos nossos investigadores temos um caminho longo a percorrer e esperamos percorrê-lo"
Nuno Crato no Parlamento, "Expresso" on line

A MONTANHA MÁGICA NÃO CURA OS MALES DO MUNDO

Ilustração de ZÉ DALMEIDA
Há não sei quantos anos que os mais poderosos do Mundo se sentam à volta de uma mesa e ali, com algumas anedotas pelo meio, praticam a liturgia dos bons sentimentos. Para a reunião ter um carácter mais global, convidam países emergentes, as novas potências ameaçadoras da sua hegemonia, e mais alguns países afluentes. Nos últimos tempos, a geografia pacífica dos senhores do Mundo, tornou-se problemática, com a indignação e a revolta a bater-lhes à porta, e poderosas cortinas de segurança a afastar deles os rumores do mundo. Davos, a cidade mais alta dos Alpes, é um bom local para este recolhimento do capitalismo mundial, onde, para além dos cifrões, às vezes, surgem algumas lágrimas adicionais sobre a fome e a pobreza, conflitos e bombardeamentos, políticas em que muitos dos participantes têm as mãos tintas de sangue. O ritual repetiu-se mais uma vez.
Este ano, a crise na Europa entrou nas discussões e foi muito curioso o retrato que, dela (crise), fez o inevitável Wolfgang Schauble, o terrível ministro das Finanças da senhora Merkel: "Os países-membros da Zona Euro que têm mais sucesso são os que enfrentaram programas de assistência, porque cumpriram a sua missão". A avaliar pelos traumas que o povo português tem sofrido, percebe-se o conceito do sucesso festejado.
Há anos que estes encontros acabam sempre com fotografias dos senhores do mundo a sorrirem, felizes com os espaços que governam. E, no entanto, ano após ano, fórum atrás de fórum, o Mundo vai ficando mais perigoso e injusto. Os dados são conhecidos, mas não parece que estraguem as digestões aos figurões de Davos que, pelos vistos, não é montanha mágica para os males do Mundo. Ao mesmo tempo que o Fórum decorria, e as máquinas calculadoras faziam o gráfico de lucros e de mercados emergentes, uma ONG, dessas que lida com a desgraça no planeta, dizia esta coisa de nos deixar em sobressalto: cerca de metade da riqueza mundial é actualmente detida por 1% da população, adiantando que as desigualdades económicas aumentaram rapidamente na maioria dos países desde o início da crise. No relatório "Governar para as elites: sequestro democrático e desigualdade económica", a Oxfam (assim se chama a Organização humanitária) conclui que a concentração de 46% da riqueza em mãos de uma minoria supõe um nível de desigualdade "sem precedentes" que ameaça "perpetuar as diferenças entre ricos e pobres até as tornar irreversíveis".
A ONG refere ainda que os cerca de 1% dos mais ricos aumentaram os rendimentos em 24 dos 26 países para os quais os dados estão disponíveis, entre 1980 e 2012, e que sete em cada dez pessoas vivem em países onde a desigualdade económica aumentou nos últimos 30 anos. Assim, os cerca de 1% dos mais ricos na China, em Portugal e nos Estados Unidos mais do que duplicaram os rendimentos nacionais desde 1980 e mesmo nos países com a reputação de serem mais igualitários como a Suécia e a Noruega, a riqueza dos 1% mais ricos aumentou 50% no período em referência. O relatório sublinha que a metade mais pobre da população mundial possui a mesma riqueza que as 85 pessoas mais ricas do mundo e que há 18,5 biliões de dólares (13,6 biliões de euros) não registados e em países terceiros de baixa tributação, pelo que na realidade a concentração de riqueza é muito maior.

A confiscação do poder político pelos interesses financeiros é uma das causas desta realidade. Mas os homens de Davos não querem saber destas imprecações. Na paisagem branca dos Alpes, eles não viram o gelo da desumanidade, Apagaram a luz e fecharam a porta. Regressam no próximo ano,com mais milhões de pobres no inventário!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

PINÓQUIO E AS MENTIRAS DO DIA

“O que é importante é criarmos as condições para que quem saia, o faça por vontade, e não por necessidade. Se for esse o caso, quem sair pode regressar com outras qualificações e conhecimentos. Pode estabelecer redes internacionais. Enriquece-se, para depois enriquecer o país"
Poiares Maduro, no Congresso sobre Migrações
("I" on line)

"A humanidade de uma sociedade manifesta-se na maneira como trata os mais fracos, os mais velhos, os mais doentes"
Angel Merkel, "Diário de Notícias"

O IMPOSTO DA MORTE...


Ilustração de ZÉ DALMEIDA
Quem ouve a euforia de Passos Coelho e dos seus ministros (Pires de Lima chegou a falar em “milagre”!) há-de pensar que toda a retórica não é outra coisa senão um jogo de demagogia (porventura a pensar em eleições) ou um exercício de ficção delirante em que suas excelências confundem desejos com realidade. Esta última situação é aquela em que os delírios (eleitorais ou outros) levam políticos a ver paraísos perdidos no meio das maiores tempestades e a luz clara da manhã no meio da noite escura.
Estes desfasamentos com a realidade seriam motivo, no caso português, de vigorosa gargalhada, se tudo isto não acontecesse ao mesmo tempo em que os pacatos cidadãos vêem os seus bolsos cada vez mais vazios e a vida a ser massacrada pelo esbulho de direitos duramente conquistados. É neste vale de lágrimas que os senhores felizes e os senhores contentes do governo fazem a propaganda do melhor dos mundos.
Apetece-me, por isso, como exercício de ironia triste, trazer aqui uma crónica de Carlos Drummond de Andrade, que publiquei em 1980, no “Jornal do Fundão” e que sabiamente se intitulava 

TUDO BEM


O ministro do Optimismo reuniu os repórteres e declarou:
-- A situação não é tão grave como estão dizendo. Aliás, a situação não é nada grave. Quem foi que disse que a situação é grave?
-- Ministro, os números…
-- Nunca ouvi os números dizerem alguma coisa. Número não fala. Se falasse, reconheceria que tudo está sob controle.
-- Perdão, sob controle de quem? Indaga um repórter.
-- Quando as coisas estão sem controle, é porque estão sob controle de si mesmas, e esta é uma questão muito delicada, é um controle intestinal, entende? Se não entender, não faz mal.
-- O custo de vida…
-- O custo de vida é uma ilusão. Não há custo de vida. O governo sustenta maternidades gratuitas. Ninguém paga para nascer. Além disso, para facilitar ainda mais a vida, cogitamos de estabelecer o imposto de morte. Todos os mortos pagarão esse imposto. Assim, ninguém mais vai querer morrer, e está salva a pátria. Eu não disse?
Em Portugal, não faltam ministros do Optimismo. E só falta mesmo o imposto da morte...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

PINÓQUIO OU A MENTIRA DO DIA



"Podemos ainda afirmar que o Estado Social de Direito, princípio estruturante da Constituição da República, não foi ameaçado nos seus fundamentos e alicerces. A Constituição, matriz fundadora da nossa República, não foi suspensa. Os portugueses revêem-se no modelo do Estado Social de Direito e querem que este seja preservado nas suas linhas essenciais"
(CAVACO SILVA, falando hoje, na abertura do Ano Judicial, a propósito dos quase três anos de política do governo, com a Troika)

QUANDO OS CARRASCOS TINHAM TOGA...



Interrogatório visto por João Abel Manta
A memória, sempre a memória, e a dignidade que é o dever de lutar por ela. Um combate decisivo contra o esquecimento e o silêncio. Não Apaguem a Memória, deve ser um clamor colectivo e persistente, mesmo que a evocação do tempo possa ser cruel e dolorosa. Essa responsabilização face à história representa, também, um compromisso ético e cívico, um dever de dignidade que toca a todos. Daí, que alguns actos, onde quer que aconteçam, assumam um significado de dimensão universal comum à diversidade planetária e à afirmação dos direitos humanos, como questão primordial.
Esse combate pela memória teve, ontem, na Sala do Senado da Assembleia da República, uma acção importante. Uma sessão promovida pela Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória (de que Helena Pato é incansável presidente)homenageou os advogados dos presos políticos nos Tribunais Plenários. Num país desmemoriado como o nosso, em que a amnésia é pacientemente urdida todos os dias, às vezes com a alegação besta de que "é melhor não se falar nessas coisas", outras porque é incómodo (e prejudica digestões) ir ao encontro de fantasmas do passado, o esquecimento é o alibi perfeito para aqueles que, no fundo, pactuam com a história da infâmia, onde quer que ela aconteça. Este comportamento, que fere a dignidade e se coloca fora da esfera moral, tem operosos especialistas, tipos que colocam na opacidade muita da história da ignomínia, como foi, por exemplo, a repressão política em Portugal, promovida pela PIDE, articulada pela sua grande mão, que foram os juízes dos Tribunais Plenários de Lisboa e do Porto.
Ora, o combate pela memória e pela sua democratização são essenciais e, como dizia George Duby, nele devem participar na primeira linha, historiadores, intelectuais e profissionais da informação. A todas essas categorias, acrescento os cidadãos, sem os quais a cidadania e a acção cívica ficarão sempre reduzidas. Não faltam hoje, com os crimes contra a dignidade, uma crescente consciência deste problema. Infelizmente, no caso da informação portuguesa, se retirarmos algumas excepções (a RTP 2 está a transmitir "Os limites da Dor", que trata da brutalidade da tortura infligida em Portugal aos presos políticos), acontecimentos como este que se viveu na Assembleia da República não merecem directos ou, apenas, meia dúzia de linhas apressadas.
E, no entanto, o que ali se passou tinha a ver com uma fatia importante da história portuguesa. Estando a homenagear-se advogados dos presos políticos, estava a evocar-se o heroísmo de portugueses que se bateram, com risco da própria vida, pela Liberdade, como lembrou Jorge Sampaio. E, no fundo, estava, também, a desmontar-se o funcionamento da grande fábrica da repressão e o seu sustentáculo, que foram os Tribunais Plenários, que em Portugal, mesmo depois do 25 de Abril, gozaram de estranha complacência.
Há meses, quarenta anos depois do golpe que levou Pinochet ao poder, com a sua longa máquina de crimes e ofensas à humanidade, os magistrados, representantes do poder judicial chileno, deram voz pública a um remorso colectivo e vieram assumir a sua “responsabilidade histórica” na instauração da ditadura militar no país (1973-1990), e apresentaram um pedido oficial de desculpas pelas “acções e omissões” que classificaram como “impróprias da sua função”.
“Sem ambiguidades,nem equívocos, achamos que chegou a hora de pedir perdão às vítimas, aos seus familiares e à sociedade chilena”, afirmou a declaração da Associação Nacional de Magistrados do Poder Judicial do Chile, assinalando que “as sistemáticas e brutais violações dos direitos humanos realizadas pela ditadura militar” e que “o poder judicial, em especial o Supremo Tribunal da época, capitularam na sua missão de tutela dos direitos fundamentais e protecção das vítimas do poder estatal”.
Em Portugal, onde, depois de 48 anos de ditadura, que tem a seu crédito mortes e torturas e prisões e crimes sem castigo, e que teve nos Tribunais Plenários o braço legitimador dessas barbaridades, nunca aconteceu um humilde acto de arrependimento ou de perdão a quem quer que fosse, por parte dos responsáveis das magistraturas. Em Portugal, os juízes do Plenário, caucionadores dessa desordem estabelecida, à margem dos direitos elementares, morreram de pantufas ou com estacionamento no Supremo Tribunal de Justiça, como prémio da sua nefasta actividade.

Lembrei-me dos carrascos desses tribunais da injustiça, porque era contra eles que os advogados, corajosamente, lutavam, em defesa dos presos políticos. Aqui está um bom tema de reflexão para os 40 anos do 25 de Abril. Não Apaguem a Memória!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

NA MORTE DE MANUEL JOÃO VIEIRA


Soube, há pouco, que o dr. Manuel João Vieira, advogado prestigiado de Castelo Branco faleceu em Lisboa, na sequência de uma queda sofrida a semana passada, que lhe provocou lesões graves. Manuel João Vieira era uma figura muito respeitada em Castelo Branco, um homem bom e solidário, que nunca deixou de exercer um persistente magistério cívico pela democracia e a liberdade. 
No seu percurso político, foi um socialista de relevo, deputado eleito à Constituinte, contribuindo, com a sua acção, para a edificação do Estado de Direito, que a Constituição da República consagra. Em Castelo Branco, foi presidente da Assembleia Municipal, podendo dizer-se que serviu a cidade com exemplar dedicação e independência.
Mas gostaria de ir um pouco atrás, ao tempo da Ditadura, quando o empenhamento cívico era perigoso e se corriam riscos na acção política que hoje parecem inimagináveis. Aí o vemos, candidato pela Oposição Democrática,às eleições de 1969, fazendo equipa com Alçada Baptista, José Rabaça e Domingos Megre. Em 1973, nas últimas eleições antes do 25 de Abril, quando ser candidato pela Oposição era já quase um delito antecipado, a constituição de uma lista foi uma tarefa difícil. O líder foi o Carlos Ambrósio Ferreira, outro exemplo de rara coragem, na denúncia do esbulho de direitos elementares ou da criminosa guerra colonial. Mas lá estava sempre,com a sua convicção e o seu empenho cívico, o dr. Manuel João Vieira. Eu não sei quantas vezes subi ao seu escritório da Rua D. Dinis, com o Carlos, claro, mas também com o dr. Vasco Silva, o dr. Armindo Ramos, o Carlos Vale e outros mais, seguramente o António Abrunhosa, Ulisses Garrido, o João Ruivo... Íamos lá, os jovens mais exaltados contra as violações de direitos, os mais velhos a abrirem caminhos no meio da névoa. Era preciso escrever comunicados e distribuí-los, fazer comícios, agitar as águas podres da política. O dr. Manuel João Vieira era sempre uma voz firme para contrariar desânimos.
Guardo esses momentos no inventário dos caminhos que fizemos, andando. E para mim foi muito bom ter estado com ele numa homenagem a Cunha Leal, no Alcaide, ou na última candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República. Encontrei-o depois em momentos relevantes da vida cultural albicastrense e lembro-me bem da última vez que o vi me ter dito, com entusiasmo no olhar, estar a escrever as suas memórias.
Agora, que partiu, aos 88 anos, guardo na memória o entusiasmo com que subíamos ao seu escritório na velha rua D. Dinis, porque tínhamos à nossa espera alguém que, no meio do desespero e dos medos, nos dizia que era preciso continuar e que "isto havia de mudar".

  










segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O JORNAL DO FUNDÃO NASCEU HÁ 68 ANOS



No aniversário de 1973, António Paulouro com Lopes Graça, Eugénio de
Andrade, Cardoso Pires e Óscar Lopes
Há sessenta e oito anos, no dia 27 de Janeiro, nascia na pequena vila que era então Fundão, um jornal que, independentemente da memória futura, faz parte da história do jornalismo português. Eu tive a sorte de viver aquilo que poderíamos designar a primeira série do “Jornal do Fundão, como aprendiz de jornalista,como jornalista,como chefe de Redacção de depois como director, até final de Dezembro de 2012. Acompanhei sempre António Paulouro, que o fundou e dirigiu, e fui seu sucessor, quando partiu, durante uma década, sempre com total fidelidade à sua matriz original e à ideia de que a cultura é um vector determinante da informação.
Um dia escrevi que talvez nada definisse tão bem a força das palavras como síntese de uma vida do que a metáfora borgeana, quando ele descobre nesse paciente de linhas escritas ao longo do tempo, o seu próprio rosto. As palavras, em qualquer jogo da criação, do jornalismo à literatura, têm essa virtualidade de se tornarem espelho dos seus autores, em que se reflectem sempre o homem e as suas circunstâncias, seguramente o rosto que, como em Borges, é a convergência de caminhos e desafios, de combates e de causas, de angústias e esperanças, de pessoas e da sua micro-história.

Capa do primeiro número do "Jornal do Fundão, em 27 de Janeiro de 1946
Assim, o rosto do “Jornal do Fundão”, nos tempos heróicos em que foi suspenso e era preciso resistir a uma censura especial, o tempo das minas e da silicose e da emigração, das batalhas pelo ensino público, pelo Regadio da Cova da Beira, pelo direito à saúde ou pelas acessibilidades (lembram-se do Túnel da Gardunha?), das lutas contra as desigualdades impostas como um destino colectivo. Olho para trás e para esses milhões de palavras que são jornal, a voz levantada com dignidade contra os poderes, um pensamento da região à escala do país, as palavras erguidas em indignações sobre direitos espezinhados.
Esse registo está lá, para o tempo futuro. Foi muita coisa, muitos anos em tempo de jornal, milhares de páginas presas ao fio da vida, retrato aproximado da sociedade que habitamos, filme de acontecimentos com história. São milhares de rostos, registo com tempo e lugar do que foi seleccionado da realidade. Esse caminho de palavras, que se fez andando, defrontando dias de sol brando e brisa suave ou mares procelosos, de vaga alta e vento agreste, está cheio de narrativas de angústias e esperanças, de dramas e gritos de libertação, de sagas fantásticas em louvor do homem, de resistências à ignomínia, de gestos de liberdade contra autoritarismos demenciais, de causas em que o homem é a medida de todas as coisas, de batalhas pelo desenvolvimento. Esse caminho, em que o jornal se fez a si próprio, é um tecido social de densidade humana
(lembro o poema de jornal do nosso Drummond:

O facto ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.

(Vem da sala de linotipos a doce música mecânica)

e, nessa perspectiva, nesse desígnio colectivo que foi o sonho de António Paulouro, está contido um compromisso de informação de serviço público, de liberdade face aos poderes e poderzinhos, de denúncia face às injustiças, de terra livre onde se semeiam inquietações dos leitores, de pensamento autónomo e diverso contra os interesses espúrios que, tão insistentemente, dominam a sociedade e nos impingem como fatalidade dos tempos que correm. Há um complexo de valores, que fazem a matriz ética do JF, que António Paulouro fundou há 68 anos e é nesse território de palavras que me revejo, sempre. O pão das palavras diz: a esperança tem sempre razão. É esse, de muitas maneiras e mais uma, o que o meu tempo do “Jornal do Fundão” ensina.

QUANDO A PIDE PRENDEU A SOPA

Há histórias fabulosas dentro da história do “Jornal do Fundão”. Ainda hoje causa espanto como António Paulouro projectou o Fundão e a região numa escala sem fronteiras. Basta lembrar os acontecimentos culturais que aqui tiveram lugar, a presença de Kubitschek, de Érico Veríssimo, de João Cabral de Melo Neto, de Odylo Costa, entre muitos outros.
A presença do poeta João Cabral de Melo Neto, no aniversário de 1966 (um ano depois da suspensão de JF) foi uma coisa que a PIDE e o governo engoliram mal. Tiveram que autorizar porque João Cabral era, também, diplomata brasileiro. Reuniu-se aqui um vastíssimo número de escritores.
O almoço, que era servido pelo Almeida Campos, do Montalto, um caso extraordinário na hotelaria, foi no Casino Fundanense. Mas o almoço nunca mais vinha. Até que Almeida Campos conseguiu telefonar:
-- Está aqui uma brigada da PIDE e diz que não deixa sair o almoço porque não está autorizado.
Diligências várias de António Paulouro. O governador civil acabou por autorizar com a condição de José Cardoso Pires não falar. Veio o almoço. Mas o autor de “O Delfim” acabou por falar.
Cardoso Pires (“Cardoso Pires por Cardoso Pires”, edição Dom Quixote)refere-se assim ao acontecimento:

Houve um almoço, era a festa de aniversário do “Jornal do Fundão” e, inesperadamente, vem um aviso do governador civil de Castelo Branco a proibir-me de falar. Porquê, por eu estar na mesa da presidência? Não sei. Mas pronto, proibia. Eu, sinceramente, não tinha a menor intenção de dizer fosse o que fosse, mas, perante a intimação, não tive outro remédio senão tomara palavra e denunciar a proibição que acabava de me ser comunicada. Apareceu imediatamente a PIDE que cercou o edifício e espancou brutalmente um criado. E pronto, a festa ficou por aí. Saímos por entre duas filas de pides que, para surpresa minha, não me deram voz de prisão, limitando-se a deitar-me olhares provocadores. Porquê? Ah, bom, nessa altura já o horizonte da Ditadura estava pouco promissor. O tal governador civil era ou tinha sido veterinário dum grande lavrador da região que o dissuadira de levar ao fim a operação policial, devido ao telefonema de um amigo que se encontrava no almoço. O obediente governador chamava-se Simplício Barreto Magro,um nome destes nunca mais se esquece.Logo a abrir o ensaio Técnica do Golpe de Censura deixo-lhe uma referência elucidativa; “Dedico estas reflexões”,digo eu lá, “a um cidadão sem letras, Simplício BarretoMagro, veterinário e governador fascista, o qual, proibindo-me, me obrigou a falar de liberdade”. É que aquela reunião foi realmente uma afirmação de liberdade em homenagem a um resistente como António Paulouro e ao jornal que ele dirigia”.

Nem os textos de Antes de Cristo escapavam...

domingo, 26 de janeiro de 2014

AS MÃOS E A PEDRA: OS CANTEIROS DE ALCAINS


Museu do Canteiro, Alcains 
Exposição A Arte e o Ofício da Cantaria
Há Museus que têm dentro de si uma memória tão forte da terra onde inscrevem o seu espaço museológico, que se tornam um lastro essencial da identidade local e regional. Assim é o Museu do Canteiro de Alcains, que agora comemorou 10 anos de vida com uma exposição muito interessante sobre a Arte e o Ofício da Cantaria, que é uma celebração dos Mestres canteiros da Batalha ou de Alcobaça.
Mas de cada vez que visito o Museu de Alcains (que integra o Centro Cultural) há um fascínio muito grande que se cola ao olhar, pois está ali, bem expresso, a memória do que foi a saga dos canteiros de Alcains, as pequenas e grandes maravilhas que edificaram, o diálogo entre a mão e a pedra, a sobriedade de uma cultura tradicional que se fez estilo e nessa natureza concretizou sonhos de beleza. Às vezes, esses trabalhadores da pedra estavam amarrados à finalidade do seu ofício, construir casas ou monumentos, mas sempre que possível deixavam a assinatura de um saber artístico em pequenos detalhes que sobressaíam da obra que eles iam talhando.

Museu do Canteiro, Alcains
Museu do Canteiro, Alcains
Não sei de profissão mais nobre do que esse diálogo secular entre as mãos e a pedra, que se perde no fundo do tempo, que edificou catedrais e mosteiros, às vezes monumentos de uma outra escala humana, uma igreja ou uma capela, um edifício senhorial ou simplesmente um chafariz, outras buscando caminhos de arte pura, certamente com toques de ingenuidade, porque a matriz popular estava na sua génese, como a estatuária que enriquece o Jardim do Paço, em Castelo Branco, que digna de ser vista.
Pedaços de uma aventura comum, que faz hoje parte da paisagem nobre do país e de que Alcains tem uma memória própria e saberes que também foram caminhando pelo mundo. Ouvir o registo de Michel Giacometti, na saga colectiva de um grupo de homens arrastando uma pedra, ver as ferramentas e os utensílios que, durante séculos, marcaram o ofício dos canteiros, percorrer o tempo através das belíssimas fotografias dos painéis, reencontrar a explosão do granito em obras de arte como a varanda de entrançados de pedra, talhada por estes homens de Alcains no Palácio de Idanha-a-Velha, é uma aventura enriquecedora do ponto de vista cultural, cheia de virtualidades históricas. É por isso que é um verdadeiro escândalo que as Escolas da região não visitem, como me disseram, um Museu com tantas ofertas pedagógicas. Porque, às vezes, não é preciso ir longe, basta amar o que se vê.

Exposição A arte da Cantaria
Museu do Canteiro, Alcains
Esta exposição sobre a Arte e o Ofício da Cantaria foi uma excelente forma do Museu de Alcains (que, aliás, está num belíssimo solar em que o granito é rei) assinalar o seu décimo aniversário. A mostra é, também, uma forma de nos ajudar a entender o papel da Escola da Batalha, que formou excelentes artistas reconhecidos em todo o mundo. A presença do dr. Luís Jordão e das Mestras canteiras, Cristina e Alzira, hoje empresárias de sucesso no mundo da cantaria e da requalificação, foi uma possibilidade de perceber melhor, com as suas explicações, as técnicas e a evolução da cantaria.
Homenageia-se ali, de certa forma, Mestre Alfredo Ribeiro (1931-2003), “um dos últimos Mestres de cantaria a habitar o Mosteiro da Batalha", que curiosamente dizia: “Eu não sei explicar como se traça na pedra a rosácea ou o troço da nervura que imagino fazer. Muitas vezes prefiro a sombra do sol à régua para fazer o traço. E pouco a pouco os lisos e os redondos aparecem…”


UM CANTEIRO NO MUSEU DO LOUVRE


Há uma colecção valiosa de instrumentos no Museu de Alcains, espalhados por várias vitrinas, que ali veio parar na altura da formação do Museu, e que tem uma história muito curiosa. Quem doou as peças foi o dr.Luís Jordão “porque ali, no Museu do Canteiro, é que elas estavam bem”. Ele contou que, tendo ido visitar obras que estavam a ser feitas no Louvre, um português, emigrante, canteiro que trabalhava no famoso museu, se aproximou dele com uma caixa de ferramentas.
-- Gostava que ficasse com elas… -- pediu ele. -- Eram do meu pai, passaram para mim, com elas aqui trabalhei! São suas.
As peças do canteiro que trabalhou no Louvre enriquecem o acervo do Museu do Canteiro de Alcains, museu cuja instalação teve orientação científica de Benjamim Pereira, uma daquelas figuras que podemos considerar como sábio.