sábado, 8 de fevereiro de 2014

O HOMEM QUE FAZIA SONHAR



Quando o Zé Pires me convidou para dizer algumas palavras, numa homenagem ao Carlos Correia, que eu aceitei com honra, ele impôs logo, como aviso à navegação, de que tudo isto era um segredo que tinha de ser bem guardado, até ao dia do acontecimento. Eu não lhe disse, na altura, mas pensei logo para os meus botões, que esse rapaz da minha idade que se chama Carlos Manuel Pires Correia, se soubesse do assunto, daria logo mil desculpas para não vestir o papel de homenageado, ele que tanto sabe de papéis e de teatro, na sua condição de dramaturgo. 
Na circunstância de manifestar a minha alegria pela iniciativa -- e não haveria melhor momento para o fazer do que num Festival Literário -- penso que apenas coloquei um pré-aviso, que o Zé Pires levou em boa conta. O Carlos Correia, que tem curriculo vasto, com um universo literário riquíssimo como ficcionista, dramaturgo, ensaísta, e também como professor universitário e pedagogo, e também como inventor de coisas, no mundo das novas tecnologias, onde soube articular como ninguém a inovação com o desenvolvimento, o Carlos Correia, pensava eu em voz baixa, autor premiado, lá fora e cá dentro, não suportaria uma apresentação baseada na liturgia dos sucessos, que são muitos, e do elogio, que, alás, no caso dele, será sempre bem merecido.
Mais convencido fiquei da minha razão, quando, um dia destes, fui reler uma autobiografia que ele publicara no seu sítio, na net, e que é um modelo de ironia, a começar logo pelo título 

Carta Aberta a Carlos Manuel Pires Correia 
redigida por Carlos, o escriba
endereçada ao dramaturgo Manuel
com cópia facsimilada para mestre Pires 
e mensagem electrónica dirigida ao multimediático professor doutor Correia"

Ora, o nosso amigo Carlos Correia, que começa logo por avisar que o incomoda “escrever sobre os diabos que em mim habitam” e ter “dúvidas enormes ao redigir esta autobiografia de calça curta”, mesmo se vertida em contentor e portefólio, modernice espalhafatosa dos tempos digitais”, faz depois uma espécie de ajuste de contas, ou melhor, um teatrinho, com os passos da sua biografia, dando a cada nome, como já se viu, um tratamento autónomo, como se cada um fosse um heterónimo diferenciado ou, todos juntos, personagens em busca de um autor, como ele próprio, Carlos Manuel Pires Correia, afirma distanciadamente. 
Eu peço licença para ler a parte final, porque é um exercício de estilo e de ironia de um autor singularíssimo: 
“Agora só me apetece - para finalizar em jeito de plágio descarado do Manifesto Anti-Dantas, de Mestre Almada Negreiros - acrescentar: 
morra o Manuel, morra! Pim!!!! 
morra o Pires, morra! Pam!!!! 
morra o Correia, morra! Pum!!!! 
A metralha "pim-pam-pum" despalavreou os figurões mas poupou o senhor-de-nós-todos, patrono da santíssima trindade. Personagens em busca de um autor que os domestique, estes aventureiros nasceram à imagem e semelhança dos três mosqueteiros, que no fim das contas feitas, acabam a quatro. Pois desengane-se o falso quarteto de aventureiros! Não são dotados da suprema omnipotência da trindade discutível, apenas assumem a soberba da sua própria impertinência. Pois já que assim é - eu seja ceguinho se não é!... - exijo e imponho ao senhor-de-nós-todos, o cronista patrono, que dos factos redija uma crónica em jeito hipertextual e, por vezes, hipermediático, a fim de certificar quão cansativo é coabitar com esta gentinha povoando um sótão tão sem cabelo mas com uma bigodaça explícita, exibida em jeito de compensação remissiva…” 
 Nesta contingência, que poderei eu acrescentar, que não possa cheirar ao bafio da retórica de encomenda, que ele detesta, e eu, também? 
Então, resolvi dar à minha fala, para escapar ao perigo, menos uma carga pessoal e de amizade, e mais um sentido colectivo, como se aqui estivesse a falar não eu, mas a Cidade que o viu nascer, em 1947. E nesta narrativa de um homem, Castelo Branco, que é terra de poetas e escritores, faz então um aceno ao seu filho, uma carícia de afecto, lembrando-se, porventura, que no tempo longo da sua história, o que de si tem mais imemorial é a aventura criadora dos seus naturais (oh tempo que isto começou, não é João Roiz de Castelo Branco?), a sua afirmação criadora à escala do país. 
A Cidade abre os olhos para os prazeres da memória e faz outro aceno de simpatia ao seu filho porque na sua biografia encontra, juntamente com palavras do imaginário literário, as palavras necessárias da luta pela liberdade, esse compromisso que torna a vida digna de ser vivida. Pensa a Cidade, então, que nem outra coisa seria de esperar de alguém que aprendeu dolorosamente, desde jovem, na matriz paterna, o significado dessa luta, e a Cidade, na sua memória selectiva, lembra logo esse grupo de cidadãos notáveis, os melhores de nós, que pagaram com a prisão o sonho de um país livre, e eis os nomes que a Cidade tem debaixo da língua, o Carlos Correia, o Vasco Silva, o Mário Barreto, o Tito Zuzarte, o Roque Barata. 
A Cidade revê-se, honrada, na biografia do escritor, e sabe de ciência certa que os seus livros, na literatura infantil ou no teatro, reflectem sempre uma comum humanidade e são um convite à utopia fantástica dos sonhos. Mais sabe a Cidade que ele, autor, considerou como fundamental a batalha pela promoção cultural, e nesse sentido produziu uma obra única para divulgar a poesia e o teatro portugueses, incorporando nessa acção todas as possibilidades que, logo no início, o mundo da electrónica ofereceu. 
A Cidade lembra-se do autor andar pelo país, com as câmaras de televisão às costas, levando à televisão o prazer da leitura, combate hoje ainda mais urgente e decisivo. 
A Cidade continua a acenar a Carlos Correia, orgulhosa pelos prémios nacionais e internacionais que ele recebeu, e sendo lugar de rico património histórico (e sabendo, também, como o património se está transformando em mera traficância de negociatas (olha lá, o caso dos Mirós!), comove-se com as perspectivas que o autor abriu no campo da divulgação do património cultural e sua defesa, vejam os casos de O Triunfo do Barroco e a Arte Rupestre do Vale do Côa, sinais da sua inquietação pelas riquezas do Território na caligrafia das suas artes. 
A Cidade sabe que Carlos Correia criou uma viagem interactiva sobre Ulisses, e um pouco emocionada pensa que ele hoje, está aqui em Castelo Branco, podendo dizer: Sou a sua Ítaca e a ela regressou! 
A Cidade está feliz por este seu filho ilustre, que andou tantos caminhos, escreveu tantas palavras e produziu tantas coisas belas, que “partilham uma sede de alegria” e nos ajudam, por vezes, a pôr um raio de luz na névoa sombria que nos cerca. 
Disse a Cidade e eu por ela. 
Obrigado, Carlos Correia! 
Fernando Paulouro Neves

(Palavras lidas no Festival Literário de Castelo Branco, ontem, 7 de Fevereiro, no Cine-Teatro Avenida)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

DRUMMOND DE ANDRADE, MAIS UMA CRÓNICA

Mais uma vez regresso ao baú da memória para me acolher à prosa de Carlos Drummond de Andrade, que eu tive a honra de publicar nos meus tempos do "Jornal do Fundão", de que Drummond foi colaborador exclusivo durante quase uma década. Escolho um texto magnífico e que também pode servir de metáfora para os apetites do Poder, em Portugal, onde já dizia o Zeca, eles comem tudo, eles comem tudo!

 O QUEIJO PARA DOIS 

A Situação comia o queijo sozinha, a Oposição tinha fome e também queria comer do queijo.
-- Negativo -- respondeu a Situação. O queijo não dá para todos. Mesmo que desse, o queijo nunca é para todos.
-- Então eu vou aí e tiro o queijo todo para mim -- ameaçou a Oposição.
-- Experimente para ver -- retrucou a Situação. O queijo nunca é para a Oposição.
E continuava comendo o queijo, comendo o queijo. Até que ele acabou. Vendo que tinha acabado mesmo ela se queixou da Oposição.
-- Viu o que você arrumou? De tanto reclamar uma fatia de queijo, ele foi minguando, minguando, e me deixou com fome. Você botou olho grande. Quando eu arranjar outro queijo, vou comê-lo escondido.

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


Sobre as mentiras que envolvem a trapalhada da venda dos Mirós, Pacheco Pereira fez um comentário sobre o governo, que o Pinóquiuo anotou:
“Tenho a certeza de que fariam o mesmo a qualquer património cultural. Não me admira que vendessem o Mosteiro dos Jerónimos só para saldar a dívida. O valor de uma determinada obra é secundária para este governo”. “Há aqui intermediários a ganhar dinheiro com isto.” O comentador acusa ainda Passos Coelho de subvalorizar a arte e a cultura. “No olhar do primeiro-ministro tudo são empresas e o que interessa é o valor material das coisas e a sua ilegalidade é irrelevante.”
Pacheco Pereira citado pelo "i"

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


Emigração explica dois terços da queda da taxa de desemprego. Afinal, explica o Diário Económico, Portugal não está só a exportar calçado e combustíveis. Também está a exportar desempregados. Escreve hoje o Diário Económico que os dados revelados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que dois terços da diminuição do desemprego verificada no quarto trimestre de 2013 ficou a dever-se à emigração. 
Diário Económico

O CORREGEDOR DE SANTARÉM SEM PAPAS NA LÍNGUA

António Valdemar na Biblioteca Municipal de Castelo Branco
HÁ TEMPOS, no “Diário de Notícias”, o António Valdemar, que em questões de memória pede meças ao melhor, contou uma saborosa história passada entre o corregedor de Santarém e o duque do Cadaval, que é um modelo de frontalidade, ironia... e, também, uma exigente amostra do uso da Língua portuguesa.
António Valdemar descreve o poder do duque do Cadaval, “símbolo de abastança económica e domínio político” que “de Melgaço a Lagos, até possuía estradas e caminhos próprios”. Por estas e outras circunstâncias não hesitava em tratar qualquer pessoa por tu, conta Valdemar que depois explica como o corregedor de Santarém não lhe permitiu tal atrevimento. “Na Biblioteca Nacional de Lisboa existe uma carta ao duque do Cadaval, enviada pelo corregedor de Santarém, insurgindo-se contra essa abusiva e injustificada forma de tratamento”. “Talvez seja interessante conhecer o conteúdo da carta, encabeçada por dois superlativos conspícuos e concluída sob os respeitosos auspícios da Divina Providência: “Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: Se o meu nascimento me pôs nas circunstâncias de V. Ex.ª me tratar por tu... caguei para o nascimento; se o meu honrado cargo, que há muito exerço, de corregedor de Santarém permite que V. Ex.ª me trate por tu... caguei para o cargo. Mas se nem uma nem outra condição consentem semelhante linguagem... caguei para o tratamento. Queira, pois, V. Ex.ª elucidar-me para saber se posso cagar para V. Ex.ª. Deus guarde V. Ex.ª.: O corregedor de Santarém”. Hoje, face a tanta arrogância de meia-tijela, que campeia por aí, apetece responder como o ilustre corregedor...

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CORRUPÇÃO E MENTIRA



Quase ao mesmo tempo em que a União Europeia revelava que 77% dos portugueses consideravam que não há condenações suficientes pela prática da corrupção, o diário "El Pais" consultava as actas secretas do Fundo Monetário Internacional e chegava à triste conclusão que a Alemanha, a França e a Holanda, num dos piores momentos da crise do euro, tendo-se comprometido a que os seus bancos apoiariam a Grécia, não se desfazendo dos títulos da dívida grega, fizeram precisamente o contrário. Essas medidas "eram uma das bases para vencer as importantes resistências no seio do FMI para conceder o maior pacote de empréstimos da sua história". Escreve o diário madrileno: "Mas os três sócios europeus não cumpriram a sua palavra. Nascia então a Troika". 
Isto é curioso porque mostra como a União Europeia, no fundo, apostou na agudização da crise, desde que os interesses dos seus super-bancos fossem salvaguardados. O leitor, mais ou menos distraído, poderá dizer: mas o que tem isso a ver com a corrupção em Portugal e o seu florescimento à volta dos interesses político-partidários, que se ocupam dos negócios do Estado? É que a filosofia subjacente à forma como Berlim e Paris não honraram a sua palavra no caso grego (que depois alastrou à Irlanda, a Portugal e a Chipre) - e tratava-se de salvar a Zona Euro - é o sinal do vale tudo na política. O que é preciso é sacar e, se possível, mandar os valores às malvas. 
É por isso que o ar pretensamente moralista dos burocratas europeus e dos seus chefes tem sempre um insuportável sentido de cinismo. Porque eles também institucionalizaram a mentira... Daí, também, que o discurso da Europa sobre a corrupção soe a falso e tenha pouca credibilidade, já que o vale tudo das engenharias financeiras (off-shores, lavagem de dinheiro, tolerância em relação às máfias de diversa tipologia) tem sido a teoria dominante, embora, às vezes, envolta em panejamentos verbais de fazer chorar as criancinhas... 
No caso português, é certo, a percepção da corrupção tornou-se uma coisa difusa, um mistério, que raramente coloca os meliantes no chelindró. As denúncias caem, a maior parte das vezes, em saco roto, e a culpa, como se diz por cá, morre solteira, com alibis de prescrições, recurso a grandes escritórios de advogados, às formas peritas que evitam o calabouço. Vejam-se as denúncias de Paulo Morais relativamente ao conglomerado político-partidário. Ele chegou a dizer que a Assembleia da República era o centro de negócios. Algum deputado se sentiu atingido e o processou? Que eu saiba, não. Vejam-se os protagonistas do BPN (um deles até pertencia ao Conselho do Estado) e os seus beneficiários (Cavaco e a família incluídos). Alguém fala nessas coisas? Vejam-se os clientelismos que proliferam na roda dos poderes? Alguém se incomoda com isso? Veja-se o que aconteceu a um jovem de 20 anos, que, doente grave, embarcou num ambulância em Chaves, e andou de hospital em hospital para ser atendido, até chegar a Lisboa. Precisava de uma consulta de neurocirurgia. Está em coma. Já sei que se abrirá um inquérito. Mas acontecerá alguma coisa? O ministro da Saúde será demitido ou algum secretário por ele? 
É por essas e por outras que os portugueses já interiorizaram que a política do vale tudo (se calhar, até tirar olhos!)  é que está a dar! Alguns até dizem, por aí, como conselho para o comum dos mortais se safar no meio da selva: 
-- O que é preciso é ser esperto! Não vê o Dias Loureiro?
Outros também dão um conselho curioso:
-- Se quer algum tacho, já sabe, não se esqueça de trazer o cartão do partido no bolso! É remédio santo...

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


"Desemprego cai para 15,3% no último trimestre de 2013 Taxa anual aumentou 0,6% em relação a 2012. Mais de 100 mil pessoas «desapareceram» dos números" 
Título da TVI 24

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


"O que queremos não é reestruturar a dívida portuguesa, o que queremos é pagá-la, criando as condições para que a nossa economia cresça, mas também gerindo as nossas finanças públicas de modo a libertar excedentes que, no fundo, libertem a própria economia, as empresas, os cidadãos, as famílias do peso que essa dívida hoje nos impõe". Passos Coelho, na apresentação da Coligação pra o Crescimento Verde (aviso à navegação:não se trata do Sporting)

O CRIME DE LONDRES FOI SUSPENSO

Afinal, o crime anunciado, foi suspenso. Não sei se lá foi ou não a Scotland Yard denunciar o ilícito da transferência das obras de Miró, mas a leiloeira Christie's cancelou a venda dos 85 quadros de Joan Miró provenientes da coleção do ex-BPN. A leiloeira, em comunicado, disse que o cancelamento resulta "da disputa nos tribunais portugueses", na qual "não é parte interessada". "Apesar de a providência cautelar não ter sido aprovada, as incertezas jurídicas criadas por esta disputa em curso significam que não podemos oferecer as obras para venda de forma segura". Quer dizer, Passos Coelho e Barreto Xavier bem podem limpar as mãos à parede. A ilegalidade originária do "negócio" é desprestigiante para o país. Do mal o menos: os quadros vão regressar a Portugal, de onde nunca deviam ter saído.

UM CRIME PRESTES A ACONTECER



Há um crime contra o património cultural português, que está prestes a acontecer num leilão de obras de arte, em Londres. E Esse crime, que jamais poderá ser avaliado em toda a sua extensão, tem como autores materiais o Primeiro-Ministro Passos Coelho e o seu ajudante Barreto Xavier, que acode pelo nome de secretário de Estado da Cultura. Um e outro, como aqueles sujeitos que assaltam museus e delapidam património, decidiram vender a fabulosa colecção de 85 quadros do pintor Miró, que o Estado detinha na sequência da nacionalização do BPN. 
É verdade que quem tratou da transação foi a Parvalorem, que gere os activos tóxicos do BPN, e que por acaso é detida 100% pelo Estado. Ainda recentemente o governo injectou nesta e na outra sociedade sua congénere qualquer coisa como meio milhão de euros não se sabe muito bem para quê! 
Eu não sei se Passos Coelho e Barreto Xavier sabem quem é Miró e o que ele representa como génio da pintura universal, tão pouco desconheço se alguma vez viveram a emoção estética de olhar para os seus quadros ou se fazem a mínima ideia do valor imemorial daqueles quadros. Digo isto por não encontrar qualquer justificação para um "negócio" que empobrece tão gravemente o património nacional, e, aliás, viola frontalmente a Lei de Bases do Património Cultural, tendo merecido parecer negativo da DG do Património Cultural. Que fez correr o governo? Que o fez violar tão desvairadamente a Lei? Que interesses obscuros estão no meio de tudo isto? 
A juiza do Tribunal Administrativo de Lisboa (Guida Jorge), que apreciou a providência cautelar interposta, não a acolhendo, afirma, no entanto, na sua decisão que "o despacho do sr. secretário de Estado (Barreto Xavier) é manifestamente ilegal, permitindo a concretização da venda das obras, não obstante a ilicitude da sua expedição". E só indeferiu a providência cautelar, argumentando tratar-se de uma decisão empresarial, apesar de ser uma empresa com 100% de capital público! 
Dizem que, na melhor das hipóteses, o leilão dos quadros poderá render 80 milhões. Mas o Estado, e estou a citar o "Expresso", gastou entre 55 e 60 milhões de euros para recuperar as obras que estavam em off-shores e que tinham dívidas ao BPN. Agora, o mesmo Estado desfaz-se delas, para sacar uns milhões, e fá-lo deliberadamente fora da lei. 
Isto só é possível num país onde a bandalheira e a impunidade sejam uma ferida gangrenada que não vai cicatrizar nunca. No cinema, todos certamente já assistiram a cenas em que a moral acaba por triunfar sobre manobras esconsas e ilegais. Essa memória cinematográfica, faz-me lembrar aquela situação em que está o leiloeiro pronto para bater o martelinho e arrematar um conjunto de obras de arte famosas, quando, subitamente, entra na sala a Scotland Yard e inviabiliza o lance, às vezes prendendo os meliantes que traficam arte. 
Pudesse, hoje, em Londres, o primado da lei impor-se à patifaria barata de um governo que, segundo o "Expresso", com a autorização do leilão, "pode agora respirar mais fundo". 
Entretanto, o país fica irremediavelmente mais pobre.

COMO O NAVEGADOR SOLITÁRIO VENCEU A MORTE


Jose Salvador quando pisava terra
No meio da narrativa da actualidade, que todos os dias é um longo e penoso inventário de crimes e desgraças, mortes e fomes, conflitos e genocídios, tudo à escala planetária, como convém ao mundo globalizado que é o nosso, ainda há histórias com final feliz, como a que protagonizou um pescador mexicano, Jose Salvador Albaniaga, de 37 anos, que um dia se fez ao mar, com o seu barco de pescador, para caçar tubarões, e sobreviveu mais de um ano à deriva no Oceano Pacífico. Esta longa jornada de sobrevivência do navegador solitário só foi possível porque nesses longos dias de mar e mar e mar e ondas, e muito sol, se alimentou de sangue de tartaruga, peixe cru, carne de gaivota e da sua própria urina. 
Alguns, sempre com excesso de transcendência no espírito, informados da situação, seriam logo levados a gritar que foi milagre. Salvador, homem de muito mar e decerto habituado à funda solidão do oceano, olhou as estrelas e os peixes, e o céu, tanto céu, que à noite adensa todos os mistérios, avaliou e mediu o tempo, não fosse outra vez surpreendido pela medonha tempestade que o levou a perder o rumo. Nessas longas horas foi construindo a sua própria sobrevivência. E ao fim de 13 meses e mais de 12 mil quilómetros, a pequena embarcação foi encontrada por pescadores, encalhada num atol, na Micronésia. Dizem as notícias que ao pisar terra, Jose Salvador Albaniaga terá dito: "Agradeço a Deus e aos pássaros que matei para comer". 


Esta história levou-me para o ano distante de 1955, quando se conheceu uma outra história de náufragos que comoveu o mundo e a que Gabriel Garcia Marquez, então jovem repórter, trouxe para aquele espaço em que o jornalismo se torna disciplina maior da literatura. Oito membros da tripulação de um navio de guerra da marinha colombiana tinham caído ao mar e desaparecido, no meio de uma tempestade, no Caribe. Escreverá depois Gabo: "A busca dos náufragos iniciou-se de imediato, com a colaboração das forças norte-americanas do Canal doPanamá, que fazem trabalhos de controle militar e outras obras de caridade a sul do Caribe". 
Nesta história, o único sobrevivente, chamava-se Luis Alejandro Velasco e tinha 20 anos. Durante dias, Garcia Marquez ouviu e apontou a narrativa do náufrago para uma grande história, que publicou em capítulos, em El Espectator. Em 1983, numa passagem por Barcelona, encontrei numa livraria uma edição do livro que ele tinha publicado, em 1970, com o título Relato de um Naufrago que esteve dez dias à deriva numa jangada sem comer nem beber, que foi proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas de beleza e feito rico pela publicidade, e logo aborrecido pelo governo e esquecido para sempre. 
Este livro é uma peça fundamental da história do jornalismo, daquilo que é a arte de repórter, da sua fidelidade à história. No último capítulo diz, com uma sinceridade desarmante, o náufrago: "O meu heroísmo consistiu em não me deixar morrer". A história do pescador mexicano que saiu a caçar tubarões, fez-me lembrar a história da história de Garcia Marquez, sobre um náufrago. E, também, O Velho e o Mar, de Hemingway, a fabulosa narrativa de outro velho pescador, que também pescou um tubarão gigante, e que ele rebocou na sua pequena embarcação. A defesa do troféu de caça, da investida do bando de tubarões, o diálogo entre O Velho e o Mar, torna-se numa descrição épica e poética que o leitor tem pena de ver chegar ao fim. Quando alcança a praia, o Velho só leva a carcaça do tubarão, mas é a sua glória. Dizer que esta é uma das grandes novelas da literatura universal, é talvez uma banalidade. Mas quem fala hoje em Hemingway? Quem o frequenta como prazer de leitura?

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

PINÓQUIO OU A MENTIRA DO DIA



"O futuro da indústria portuguesa não deve passar pelos salários baixos(...) No outono de 2013 achávamos que já tínhamos feito o suficiente neste domínio e que o custo do trabalho já tinha sido suficientemente reduzido em 2011 e 2012" 
Pires de Lima, Ministro da Economia, ao jornal francês "Les Echos" 
"Público"

OUTRA CRÓNICA DE ARTUR PORTELA




Outra crónica notável de Artur Portela, publicada hoje, no "i". Aconselho os que amam o prazer da leitura e o exercício da crítica inteligente a frequentarem o Blogue A Nova Funda, de Artur Portela. Mas hoje, com a devida vénia ao querido amigo Artur Portela, ofereço a magnífica prosa aos leitores de Notícias do Bloqueio:

OS PRAXISTAS ESTÃO NO PODER E OS CALOIROS SOMOS NÓS TODOS

 "Tomando na devida linha de conta o perigo da generalização, as humilhações de que somos praxisticamente vítimas são graves e crescentes 
Há o Primeiro-Dux. 
O Vice-Primeiro-Dux. 
A Papisa de Estado e das Finanças. 
O Dux de Estado e dos Negócios Estrangeiros. 
O Dux da Defesa. 
O Dux da Administração Interna. 
A Papisa da Justiça. 
O Dux da Presidência e dos Assuntos Parlamentares. 
O Dux da Economia. 
O Dux do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia. 
A Papisa da Agricultura e do Mar. 
O Dux da Educação e da Ciência. 
O Dux da Solidariedade, do Emprego e da Segurança Social. 
E o Dux da Saúde. 
Alguns deles acumulando com as funções de Cabidos de Cardeais. 
Ou seja, as praxes e os praxistas estão no poder. 
Ardem fitas nos Conselhos de Ministros. 
E os caloiros somos todos nós. 
Cidadãos, contribuintes, jovens, idosos, desempregados, mal empregados, funcionários públicos, empresários, agricultores, pescadores, operários, trabalhadores em geral, médicos, enfermeiros, farmacêuticos, investigadores e bolseiros universitários, professores, polícias, gnrs, bombeiros, mas também pais, mães, filhos, netos, avós, sobrinhos, primos. 
Tomando na devida linha de conta o perigo da generalização, as humilhações de que somos praxisticamente vítimas são graves e crescentes. 
A fome. 
Os cortes. 
O desemprego. 
Tomemos três grupos específicos. 
Os funcionários públicos verificam que o limiar da pobreza já está dentro das suas casas. 
Os idosos tomam conhecimento de que as suas pensões foram brutalmente reduzidas. 
Os jovens são convidados ou a viver longe ou a morrer perto. 
Respirar dói. 
Morre-se administrativamente. 
E, todos nós, caloiros, somos obrigados a dizer, em coro: 
- Somos menos do que lixo, somos cidadãos! 
E: 
- Somos cidadãos, somos menos do que lixo!  
E: 
- Somos menos do que lixo, somos cidadãos! 
Reclama a oposição contra este poder praxístico-governamental, cada vez mais discricionário, sobre cidadãos indefesos e aterrados. 
Não entende a oposição as vantagens deste praxismo para a superação da crise e para o endurecimento da pele de um povo melancolicamente tenro. 
Corre que o governo vai passar a participar nas reuniões do Conselho de Ministros de capa e batina. 
E a queimar fitas. 
Demonstrando, perante o patronato e perante a Europa, que os portugueses, frequentando e sofrendo a violência das praxes universitárias, a essa violência se habituando, e nela se formando, são, todos, altamente qualificados. 
Logo, submissos. 
Logo, empregáveis. 
Regressará, triunfalmente, tipo Tintim em Nova York, sob uma chuva de páginas rasgadas de listas telefónicas, um antigo Dux de uma universidade em voga. 
Embora faltoso. Esse que foi - avant la messe -, Cabido de Cardeal. 
Veremos se aprés aussi." 

 Escritor e jornalista, escreve às segundas-feiras, no "i"
arturportela.com/blogue | www.arturportela.com

O TEMPO DAS VACAS SAGRADAS



Ilustração de ZÉ DALMEIDA
Desde que a política ficou refém das engenharias financeiras, que a Democracia, ferida na divisão de poderes que era a sua sustentabilidade, arrasta a sua anquilose pela Europa. Há tempos, numa prosa indignada contra essa realidade, escrevi que Montesquieu continuava a chorar. E dizia que se falava muito na dimensão ética da política e pouco na subversão da divisão dos poderes, tal como a democracia os tinha consagrado. A noção moral, que devia ser intrínseca às virtudes da acção política, desvaneceu-se, e uma entidade tão nebulosa como o sistema financeiro comanda tudo à escala do planeta. Os mandantes das políticas deixam de ter rosto, o carácter próximo e mesmo nacional da governação é agora um mistério maior que o da Santíssima Trindade, recheado de anjinhos, que se dissolve nos caminhos do mundo. 
Esse descrédito, que fere a própria percepção da identidade, gera o desinteresse e a indiferença das populações, que passam, em muitos casos, a aceitar tudo como uma canga da fatalidade. Li, agora, no "El Pais", uma entrevista com o escritor italiano Andrea Camilleri, mestre da novela negra, que curiosamente, falando de Itália, parecia estar a falar de Portugal. Advertia ele que "se um povo se resigna está acabado". A resignação é um bom tópico para percebermos a fundura da crise da Democracia. Há tempos, Pacheco Pereira mostrou-se escandalizado com a "abulia crítica" que atravessava a sociedade portuguesa, cuja narrativa da informação ou do comentário é o sinal de um vazio escandaloso. A questão arrasta-se penosamente pelas televisões e pelos jornais. 
A informação em Portugal, salvo honrosas excepções, transformou-se num terreno baldio em relação à consciência crítica sobre a realidade, optando, muitas vezes, por estender a escudela aos interesses económicos dominantes, onde pontuam muitos "anjinhos". A “abulia crítica”radica também num tipo de provincianismo que leva essa fauna a encarar os sujeitos do poder como “vacas sagradas”, imunes a qualquer pensamento crítico ou a uma informação mais objectiva e autónoma, do ponto de vista do pensamento, que ainda é o melhor utensílio que tem o homem, embora se diga por cá, como “voz de deus”, que pensar é perigoso.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O "EUZINHO"


Luiz Filipe Pondé é um filósofo e escritor pernambucano, cronista da Folha de S. Paulo. Um dia destes fui agarrado pela sua escrita, logo pelo título “Euzinho”, um exemplo de como a língua portuguesa, com o contributo criador brasileiro, é um organismo vivo, que se mexe no espaço, como dizia Mestre Aquilino. “Euzinho” é, desde logo, uma realidade verbal um pré-aviso de um mundo interior e pessoal cada vez mais diluído num sistema que tritura o cidadão comum. Euzinho. Na sua crónica, Pondé vai ao fundo do conceito de tradição e estabelece, às vezes com uma ironia amável, o confronto que muitas vezes se estabelece entre aquele conceito e a ideia de modernidade. E adverte, logo de entrada: “A modernidade é uma declaração de guerra à ideia de tradição. Mas nós, modernos, continuamos a não perceber isso, e o resultado é que suspiramos como bobos diante do que pensamos ser uma tradição, apesar de detestarmos qualquer sinal verdadeiro de tradição”. Explica Luiz Felipe Pondé que: “A cabala não vai salvar meu casamento. Meditação não fará de mim uma pessoa melhor no trabalho. Imitar a alimentação de monges tibetanos não aliviará minha inveja. Frequentar cachoeiras indígenas não fará de mim uma pessoa menos consumista. Tatuar palavras védicas não me impedirá de fazer qualquer negócio pra viver mais. Visitar templos no Vietnã não fará de mim alguém menos dependente das redes sociais. Desejar isso fará de mim apenas ridículo.” 
Então, ele, considera que “a única forma de tradição a que a maioria de nós ainda tem acesso é a língua materna” e depois faz este enquadramento delicioso: 

“Homens que sustentam sua mulher e filhos são tradicionais, mesmo em tempos como os nossos em que todo mundo mente sobre isso. Levar seus velhos ao hospital, enterrá-los, em agonia ou com absoluta indiferença, é tradição. Andar pela casa à noite pra ver se tem algum ladrão, enquanto sua mulher e filhos ficam protegidos no quarto, é tradição. Ser obrigado a ser corajoso é uma tradição, maldita, mas é. Pular sete ondas numa Copacabana lotada nada tem de tradicional, é apenas chato. Tradição é ir pra guerra se não sua mulher achará você covarde. Lavar louça, fazer o jantar, lavar banheiros, morrer de medo diante do médico. Falar disso pra quem vive uma situação semelhante a você. Ter que passar nas provas na escola. Ter que ser melhor do que os colegas. Sangrar todo mês. Tradição é pagar contas, enfrentar finais de semana vazios e não desistir. É sonhar com um futuro que nunca chega. Engravidar a namorada. Ter ciúmes. Odiar Deus porque somos mortais. Ter inveja da amiga mais bonita, do amigo mais forte e inteligente. É cuidar dos netos. É educar os mais jovens e não deixar que eles acreditem nas bobagens que inventam. Tradição funciona como hábitos que se impõem com a força de um vulcão, de um terremoto, de um tsunami, de uma febre amarela. Nada tem a ver com se pintar como aborígenes pra defender reservas indígenas ou abraçar árvores. Evolução espiritual é um dos top em quem quer "adquirir" uma tradição. Mas esta nada tem a ver com "buscar" uma evolução espiritual como forma de fugir de filhos que têm febre ou compromissos afetivos. A evolução espiritual verdadeira é algo que nos acomete como uma disciplina aterrorizante. Teste definitivo: você busca evolução espiritual pra aperfeiçoar seu "euzinho"? Lamento dizer que qualquer evolução espiritual (se existir) começa com você esquecer que seu euzinho existe.” 

 Grande, Pondé!