sábado, 15 de fevereiro de 2014

ALBANO MARTINS: A TRADUÇÃO COMO TRABALHO POÉTICO





Uma boa notícia: realiza-se, finalmente, no dia 24, pelas 18 horas, no Museu Nacional Soares dos Reis, do Porto, a cerimónia de entrega do Grande Prémio de Tradução Literária A.P.T. / S.P.A. relativo ao ano de 2012, atribuído ao poeta Albano Martins pela sua tradução da Antologia da Poesia Grega Clássica, uma edição da Editora Afrontamento, Porto. O Júri, constituído pelo escritor Vasco Graça Moura e pelas Professoras Annabela Rita e Isabel Ponce de Leão, estará representado na cerimónia por esta última.
Trata-se de mais um reconhecimento, desta vez nacional, do fabuloso trabalho de tradução de Albano Martins. Só um poeta da sua dimensão, penso eu, pode iluminar tão bem os textos originários, enriquecendo-os com o conhecimento e a prática da arte poética, como Albano Martins tem. E não só em relação à poesia grega, encontramos essa fidelidade; também as suas traduções do espanhol (sobretudo de Pablo Neruda) ou dos poetas italianos são obras de um rigor e de uma plasticidade, que fazem sempre da leitura uma aventura enriquecedora.
Em 2012, foi publicado um livro de homenagem, 100 Poemas para Albano Martins, com contributos de poetas de Portugal, Espanha e Brasil. A edição tem prefácio de Eduardo Lourenço e foi coordenada por Maria Sameiro Barroso
Convidado a participar na homenagem, está lá um poema que eu intitulei "Trouxeste do mundo grego outro sol", e que aqui deixo como um abraço ao querido amigo Albano Martins, por mais esta distinção justíssima.

Trouxeste do mundo grego outro sol
e do ofício das palavras o teu canto
é um vento suave que sobe
as escarpas dos dias.
Frágeis são as palavras
disseste e a voz do olhar
falou então das searas e do trigo
da eira visitada pelos pássaros
das casas e das fontes abandonadas
das flores do salgueiro e da água
que fecunda a secura verde.
Olho-te sentado na pedra da memória
à beira da escola escutando a música
do tempo da infância
inconcretos domínios do passado
há uma perdiz que esvoaça
entre versos e um melro
poisado numa tarde quente
de remos escaldantes
a margem azul desenha serras
vertical o desejo
é coluna para os lábios.
Sempre o mesmo nome, o teu
escrito a vermelho no chão
entre poemas e livros
geografias sentimentais, vastos continentes
antigas sabedorias
e o ponteiro da bússola a gravitar
impondo o coração.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

NA ESCOLA JOÃO ROIZ DE CASTELO BRANCO



Nas deambulações pelo Festival Literário de Castelo Branco também me coube ir falar com os mais jovens da tribo à Escola João Roiz de Castelo Branco. Fui lá com a autora de literatura infantil, Margarida Santos, e devo confessar que ia um pouco de pé atrás. O universo era de jovens de 14 e 15 anos e sabe-se como, muitas vezes, a vontade da Escola nem sempre coincide com o desejo dos alunos. Vim de lá a olhar com mais esperança a questão do prazer da leitura, que é hoje, se calhar, um dos desafios cruciais da Escola.
Então, era uma sala ampla, completamente cheia, e naquela manhã cinzenta de Fevereiro, o tempo correu depressa na descodificação do trabalho do escritor e do prazer da leitura. E, surpresa nossa, depois de mais de uma hora de conversa, com muitas perguntas, um grupo não saiu da sala e ficou connosco mais algum tempo para colocar outras questões afluentes sobre literatura e jornalismo, às vezes com uma inquietação criadora de desmedido olhar sobre o rumor do mundo.
Penso que a Prof. Helena Diogo falara, logo no início, da literatura e deste Festival Literário como A Festa da Palavra. Eu também achei que a conversa na Escola João Roiz foi uma uma bonita festa, pá, como diria o Chico Buarque, numa canção célebre sobre o 25 de Abril. Aliás, no início da sessão, também se ouviram canções do Zeca. Bonita festa, pá!

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


Paulo Portas, afirmou hoje que o Governo espera poder começar "uma moderação" do IRS ainda em 2015, sem concretizar o que essa moderação quer dizer, mas disse que a margem de manobra não é grande. "Devemos poder iniciar uma moderação do IRS ainda em 2015, não porque seja o ano das eleições".
Paulo Portas na Assembleia da República

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

IN MEMORIAM DE MENERES PIMENTEL



Acabo de ler a notícia da morte do dr. José Meneres Pimentel. Na galeria das figuras portugueses do século XX, Meneres Pimentel ocupa um lugar destacado e a sua personalidade sobressai na política pela dimensão moral que conferiu sempre às relevantes acções de serviço público que protagonizou, quer como ministro da Justiça nos governos liderados por Pinto Balsemão, quer como Provedor da Justiça ou conselheiro do STJ, onde o seu sentido de independência prevaleceu sempre em relação aos poderes.
A biografia do dr. Meneres Pimentel tem uma ligação mais funda ao Fundão, onde foi delegado do Procurador da República, nos anos 50, e à região, sobretudo a Penamacor (pelo casamento). Como magistrado, a sua presença no Fundão ficou marcada por extrema coragem, no caso da Lipocina, que o "Jornal do Fundão" denunciou e que Salazar tentou silenciar. Foi o caso da morte de várias crianças pela administração de um medicamento chamado Lipocina. A denúncia veemente do jornal levou à investigação e ao julgamento do poderoso laboratório. A acção de Meneres Pimentel foi determinante e o caso, não há muitos anos, foi referido pelo Infarmed como muito importante para a política do medicamento.
As vezes que contactei com o dr. Meneres Pimentel -- visitou algumas vezes o JF, cuja história considerava notável -- fiquei sempre com a certeza de estar perante um homem bom e excepcional, que fazia das conversas um momento de prazer, pela cultura que nele era um acto de sobriedade e pela tolerância, que era sempre o seu olhar ameno sobre o  mundo






A SENHORITA MARIA LUÍS


Não resisto a transcrever para os meus leitores uma saborosa história que um amigo me enviou sobre sua excelência a senhora ministra das Finanças. A crónica é de Alfredo Barroso, centrada numa anedota, e possui aquela ironia que é sempre mais eficaz do que todas as críticas.
O título é

 A senhorita Maria Luís é como o armeiro branco da anedota...

e a crónica é como segue:

  «Este governo não tem nada contra os funcionários públicos nem contra os pensionistas», disse a inefável ministra das Finanças, senhorita Maria Luís Albuquerque, explicando que o alargamento da famosa Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES) justifica-se pela «necessidade de garantir a sustentabilidade das contas públicas». Esta extraordinária declaração da senhorita Maria Luís fez-me lembrar uma famosa anedota, que, por acaso, me foi contada pela primeira vez pelo Raul Solnado, num jantar de aniversário, há mais de 20 anos, e que reza mais ou menos assim:

Numa cidade do sul dos EUA, um preto entra numa loja de venda de armas, é recebido ao balcão pelo armeiro branco dono da loja, vai olhando para as armas expostas nas vitrinas e vai perguntando:

- O senhor tem uma pistola Beretta?
- Não tenho, não senhor!
- E tem uma Walther?
- Não tenho, não senhor!
- E tem uma Smith & Wesson?
- Não tenho, não senhor!
- E tem uma espingarda Remington?
- Não tenho, não senhor!
- E tem uma Brownning?
- Não tenho, não senhor!
- E tem uma Kalashnikov?
- Não tenho, não senhor!
- E tem uma pistola-metralhadora UZI 9MM?
- Não tenho, não senhor!
- E tem uma Breda M37?
- Não tenho, não senhor!
- E tem um lança granadas de espingarda Energa m/953?
- Não tenho, não senhor!
- E tem um lança granadas Battlefield 4 MGL?
- Não tenho, não senhor!
- E tem uma BaZuka by runie84?
- Não tenho, não senhor!
- Oiça lá, o senhor tem alguma coisa contra os pretos?
- Tenho, sim senhor! Uma Beretta, uma Walther, uma Smith & Wesson, uma Remington, uma Brownning, uma UZI 9MM, uma Breda M37, um Energa m/953, um Battlefield 4 MGL, uma BaZuka by runie84, e ainda, se for preciso, um Canhão Sem-Recuo de 106MM!
A senhorita Maria Luís também não tem nada contra os funcionários públicos e contra os pensionistas, a não ser a Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), os cortes brutais nos salários e nas pensões, o aumento dos impostos e das contribuições para a ADSE, a diminuição dos subsídios de doença e de desemprego, assim como das comparticipações nos medicamentos, o aumento das taxas moderadoras no SNS, etc, etc, etc..."

Que grande tiro!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MINISTROS DE PAPEL HIGIÉNICO


Um aspecto da exposição de Madrid
Os caminhos da arte, como os de Deus, são insondáveis. Ontem, deparei com uma curiosa notícia no jornal "El Mundo", de Madrid que informava que, até 1 de Março, poderia ser visitada a exposição "IS Pain". do artista madrileno conhecido como "le frére", que retrata em papel higiénico a classe política espanhola.
Aqui está uma forma de alcançar a imortalidade através do papel higiénico. Enquanto lia a notícia, lembrava-me do universo político português e de como os seus titulares dariam uma boa exposição deste tipo. E, a avaliar pelo quer últimamente nos caiu em cima, bem poderiam juntar aos ministros, os elementos da Troika, e fazer a exposição numa enorme latrina, onde, decerto, os seus retratos ficariam bem.







PINÓQUIO E AS MENTIRAS DO DIA


Passos Coelho agradece à Troika por conduzir o país ao "caminho da estabilidade", titula hoje o jornal "i". "O primeiro-Ministro agradeceu "o apoio da Uniâo  Europeia  e do Fundo Monetário Internacional fazendo um balanço positivo da situação económica de Portugal nos últimos três anos. Coelho deixou uma palavra de agradecimento à Troika também por levar o país ao “caminho da estabilidade”.
Passos Coelho, segundo o jornal "I", edição on line 
"Cavaco Silva não quer empresas concentradas na redução de salários. O Presidente da República defendeu hoje o relançamento industrial, apontando a "indústria do futuro" como uma atividade capaz de conciliar as dimensões económicas, ambientais e sociais, e repetiu o apelo ao investimento na investigação e desenvolvimento”.
Cavaco Silva no encerramento do Encontro da Cotec

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A SUIÇA

A crónica de Francisco Sena Santos. Vale a pena ouvir.

FUCK THE EU?

QUE É FEITO DE AMÉRICO RODRIGUES?


Que é feito do Américo Rodrigues? Que lhe aconteceu? Terá passado à clandestinidade? Terá ficado submerso pela neve? Perdeu-se no nevoeiro da Guarda?
Antigamente, tinha notícias dele no "Café Mondego", mas há muito que esse ponto de encontro se sumiu, situação que Manuel Pope, há tempos, considerou um desastre; hoje, leio coisas do Américo no facebook, prosa boa, mas de passagem, marcada pela contingência do instante.
Como na canção do Adriano, pergunto então ao vento que passa, notícias do meu amigo, mas o vento cala a desgraça, o vento nada me diz.
Depois de diligências várias, vim a saber que ele tinha sido remetido, como um móvel velho da autarquia, para o Paço da Cultura, e aí exilado, dentro das grossas paredes do Paço, como antigamente faziam os déspotas, quando, não podendo eliminar os cidadãos incómodos, os tentavam suprimir pelo silêncio. Durante dias, então, um homem, olha as paredes, espreita pelas janelas a vida, cá fora, mede a espessura do tempo, as horas que demoram a passar, e nesse ambiente crepuscular, poderia, decerto, dizer como Santo Agostinho: "Eu sei o que é o tempo, mas deixo de sabê-lo quando alguém me pergunta por ele". O calendário dos dias parece mover-se ao ritmo provinciano, e, se calhar, a ele, que é poeta e foi amigo do António Ramos Rosa, apetece-lhe pensar no "boi da paciência" e poeticamente mandá-lo embora. Mas a circunstância pessoal faz-lhe lembrar, antes, de outra poesia da primeira fase do autor de "O Grito Claro",  o Poema dum funcionário cansado -- "sou um funcionário cansado dum dia exemplar".
O homem tem tempo de sobra para, nos dias "exemplares" que está vivendo, pensar nestas e noutras coisas da natureza humana e seu carácter mórbido, e, subitamente, porque o universo é absurdo, viaja até Kafka e aos seus processos e metamorfoses, como se quisesse questionar-se a si próprio:
-- De que sou eu culpado?
De pensar e fazer coisas, de existir, atitudes bastante suspeitas e perigosas no país ainda afeiçoado ao "reino cadaveroso da estupidez".
Ele vive essas lentas horas, cortadas por uma ou outra diligência circunstancial -- a hábil e expedita justificação do seu actual lugar profissional--, e pensa que nem faltou a neve, um dia destes, para suavizar o quotidiano e convidar ao sonho. O seu pensamento é uma ave criadora que navega por outros continentes, bem diferentes daqueles onde a cultura é um delito que não prescreve. O homem não se rende ("há sempre alguém que diz não", diz a balada), e logo criou um grupo de teatro, sua paixão de sempre, que eu vou gostar de ver subir ao palco do TMG e logo sonhou outros versos e outras prosas e outras crónicas e outros saberes dos outros.
À medida que o tempo passa, cada dia, cada mês, afinal o homem exilado dentro das quatro paredes do Paço da Cultura, o Américo Rodrigues, está afinal cada vez mais presente na sua Cidade, que ele continua a sonhar todos os dias como grande espaço de esperança e utopia.
Porque ele sabe, comoJorge Wagensberg, que "o tempo passa, sempre acaba passando, é só uma questão de tempo".

PINÒQUIO E A MENTIRA DO DIA



"Portugal bateu em 2013 o recorde de sempre das exportações. Temos um sector exportador que representa hoje praticamente 40% do PIB"
Paulo Portas, "Sol" on line

"Combustíveis foram responsáveis por 55% da subida das vendas ao exterior"
Título, a toda a página, da edição de hoje do "Público"

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O OUTSOURCING DE PASSOS COELHO


Oiça o leitor mais um Sinal dos fabulosos Sinais de Fernando Alves. Desta vez é sobre Outsourcing, que já aqui comentamos. Mas o Fernando tem o dom de amplificar a nossa voz.

2014-02-10 Outsourcing

EM LOUVOR DA MEMÓRIA

A casa que foi do Dr. José Monteiro, na Praça do Município do Fundão
A geração mais antiga de fundanenses recordará, por certo, o nome da dr.ª Ana Rosa Monteiro, que há dias faleceu em Lisboa, onde residia. Filha do dr. José Monteiro, investigador da história e da etnografia do Fundão, estudos que são hoje um acervo documental muito importante da nossa memória colectiva, é justo assinalar que Ana Rosa Monteiro deixou, também, pelo estudo,  o seu nome ligado a questões da cultura fundanense.
O dr. Salvado Sampaio, já quando se falava abertamente da importância dos antecedentes locais de Fernando Pessoa (primeiro, através de João Gaspar Simões, depois por Arnaldo Saraiva, e já muito depois, por Anita Novinski), lembro de me ter dito um dia que a primeira pessoa a falar nisso fora Ana Rosa Monteiro, na tese de licenciatura que fizera, penso que nos anos cinquenta, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
O dr. Alfredo da Cunha, no excelente ensaio sobre a história do Fundão, que publicou nos "Subsídios para a História Regional da Beira Baixa", destaca outra investigação de Ana Rosa Monteiro, ao fixar um sub-dialecto da região do Fundão, que é uma curiosa viagem ao mundo das palavras do nosso chão verbal de matriz camponesa.
Eis, então, esta memória fragmentária sobre alguém que também deixou um contributo breve (mas importante) sobre a história local.

PINÓQUIO E AS MENTIRAS DO DIA


"Eu tomo muitos cafés, demasiados. Cada vez que o faço eu vou com o meu NIF e peço às pessoas a factura. Para baixar impostos"
Paulo Portas,  "irrevogável", ao "i" on line, a propósito das "facturas da sorte"

Conta hoje o jornal i que Passos Coelho contratou uma empresa, em regime de outsourcing, para assegurar o atendimento telefónico na residência oficial do primeiro-ministro por 25,1 mil euros. Isto apesar de ter no seu gabinete dez secretárias pessoais, nove auxiliares, e 12 pessoas a prestar apoio técnico-administrativo em São Bento.
Passos Coelho e a cartilha da sua austeridade 

DA SUIÇA A CEUTA...


Quase ao mesmo tempo em que a Suiça, num referendo liderado pela direita, aprovava o limite de circulação de trabalhadores europeus no seu território, conheciam-se dramáticas circunstâncias dos imigrantes mortos na fronteira de Ceuta. A dimensão do caso, para já, cifra-se em 14 mortos (há, pelo menos, mais 6 desaparecidos), mas o inventário da tragédia dos sem-papéis subsaharianos, mortos no mar ou à vista de terra, é uma longa e triste vala comum.
Na quimicamente pura Suiça, paraíso de bancos e financeiros, que tanto se desenvolveu à custa de mão-de-obra estrangeira (há lá cerca de 250 mil portugueses), na abertura de estradas e de túneis e de muitas outras infra-estruturas, o resultado do referendo não deixa de ser um aviso inquietante a uma onda xenófoba e imbecil que percorre a Europa, e que o populismo da direita e da extrema-direita têm capitalizado no alargamento das respectivas bases sociais. Que dirá a União Europeia a tudo isto?
Já o caso de Ceuta e Melilla (podíamos falar também de Lampedusa) é diferente. Ali, é a luta pela sobrevivência dos "condenados da Terra", para utilizar a expressão célebre de Franz Fannon. A luta pelo direito ao pão e à vida, a esperança de uma existência mínima, é o desespero que os move até à fronteira da morte. De onde vêm eles? São homens, mulheres e crianças, habitantes de um continente que a Europa, depois do saque, tornou descartável, e que hoje só olha com a ganância dos países ricos em matérias-primas como o petróleo e os diamantes.
O homem tornou-se medida de coisa nenhuma. E a Europa importa-se pouco com isso.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

MÚSICA NA NOITE FRIA


O concerto na Moagem
Fiuza Duarte, João Santos e João Roxo

A nossa companheira música, expressão cara ao Maestro Lopes Graça, aqueceu ontem a noite fundanense, no concerto realizado na Moagem. Os aplausos da noite não eram para aquecer, como às vezes se diz, mas para saudar e festejar "Les Triplettes de Lisbonne", uma formação jazística chefiada pelo jovem músico fundanense, João Roxo, que estudou música, tocou no Hot Clube e hoje prossegue o seu percurso criador, com a determinação de sempre.
Ouvia os sons que se elevavam do palco e era impossível não perceber que a música que ali nascia tinha uma marca muito pessoal e uma paixão que, aliás, os três elementos da banda partilhavam com sorrisos.
Então, as palmas aqueciam a noite fria, à medida que a música ias avançada, tocada por três óptimos executantes: o João Roxo (clarinete/sax tenor), o João Santos (guitarra) e Fiuza Duarte (contrabaixo). O mentor da banda esclareceu que o grupo (atenção ao nome) "celebra a sonoridade e o reportório característico do Gipsy Jazz onde se incluem standards norte-americanos das primeiras décadas do séc XX" dando atenção à obra dos "mais célebres nomes deste género musical, tais como, Django Reinhardt e Stephane Grappeli".
Ás vezes, percebia-se que eram longas as raízes originárias daquele universo musical -- e João Roxo bem o referiu com um toque de ironia: se calhar, a melhor coisa que os americanos deixaram na Europa, depois da Guerra -- mas depois logo a aventura criadora superava uma certa nostalgia para uma afirmação tematicamente mais veemente e a fábrica de sons mexia com o nosso tan-tan interior.
Uma noite bem passada e uma nota da capacidade criadora de uma nova geração de fundanenses que, nos mais variados campos da Cultura, espalham o seu talento por outras cidades e lugares.
Uma nota: faltou apenas, para tudo ser completo, uma folha de sala que prestasse mais informações sobre o concerto e os seus executantes.

A LOTARIA DAS FACTURAS


Vasco Pulido Valente escreve hoje, no "Público", uma crónica que intitula "Abjecção" sobre a lotaria das facturas que o Governo inventou e que visa obrigar toda a gente a pedir factura com a miragem de assim poder ser contemplada com um carro "topo de gama". Diz o iconoclasta cronista que a forma expedita de o Governo tornar os cidadãos em polícias (à paisana) e em denunciantes. 
"Acho a ideia tenebrosa: vexatória, indigna, irresponsável, excessivamente parecida com episódios conhecidos da Ditadura e dos regimes que ela imitava e venerava", escreve VPV que depois faz uma encenação da cena final do sorteio da lotaria: "Estou daqui a imaginar o indivíduo gordo e triunfante que atrapalhou a vida a centenas de pessoas, que tinham cometido o erro de confiar nele. O sr. Passos Coelho, seguido da sua trupe e da sua inconsciência. O automóvel cintilando ao longe. O premiado começará por apertar a mão a S. Ex.ª, com uma grande vénia. E, a seguir, S. Ex.ª retribuirá com um pequeno discurso sobre as vantagens da coesão social, do enorme esforço que se espera do conjunto da pátria e dos milhões que a operação angariou para os pobrezinhos, que ele particularmente estima. Um secretário entregará a chave do carro ao polícia e denunciante do ano e essa virtuosa personagem tornará a apertar com respeito a mão do sr. Passos. A sociedade portuguesa avançou um novo passo para a abjecção"
A Bem da Nação!