sábado, 22 de fevereiro de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA



"Estamos melhor ou estamos pior?" -- pergunta de Passos Coelho na abertura do Congresso do PSD.
Título do "Público", hoje: "São cada vez mais os agregados familiares com carências alimentares".

UMA CRÓNICA DO BAPTISTA-BASTOS


O Eugénio de Andrade, um dia, sacou do bolso uma carta do Herberto Hélder, para me dizer: "Está a ver, são estas coisas que nos tornam ricos!". O autor de Ofício Cantante dizia-lhe, a propósito de Poesia, antologia que reunia a sua obra poética, que ele era o maior poeta vivo português. 
Hoje, quando abri o "Jornal de Negócios" e deparei com a crónica do Baptista-Bastos (A Caneta das Sete Léguas), lembrei-me das palavras de Eugénio e de como, afinal, são menos os valores materiais, e mais os outros valores, que fazem o oiro do dia.



Os dois Fernandos, meus amigos
Com maior ou menor aproximação sabíamos uns dos outros, os tempos foram indo, «Olá! Como estás?», a morte e o assombro, a velhice e o desgosto de um 25 de Abril que fora assassinado pelos predadores do costume.
Fernando Tordo, 65 anos, compositor, poeta, intérprete, emigrou para o Brasil, mais propriamente para o Recife. Não tinha trabalho no país que o viu nascer e, segundo o "Diário de Notícias", é um dos oito mil "idosos" que, nos últimos dois anos, foram embora daqui. "Emigrem! Emigrem!", exclamava o untuosamente inesquecível Miguel Relvas, logo secundado, na ignóbil recomendação, pelo dr. Pedro Passos Coelho. A debandada é alucinante. Mil e quatrocentos jovens, rapazes e raparigas, abandonaram Portugal porque Portugal os abandonou. "O meu País não me quer", dizia um cartaz, nas mãos de uma miúda, fotografada pelo "Público", e acerca da qual escrevi, no Negócios, uma crónica que circulou pela net.
Estes casos não só atingem a indignação como o coração das pessoas, que vêem que a falta de respeito, a ausência de consideração e o desdém como política atingiram níveis surpreendentes.
Tordo é um dos nomes mais importantes da cultura portuguesa, conheço-o e somos amigos há um ror de anos. Ele viveu, longo tempo, na Rua da Saudade, ao Castelo, no mesmo prédio do Ary dos Santos, seu parceiro inesquecível, e onde também viveu Alexandre O'Neill. Na mesma rua, em épocas anteriores, lá morou José Rodrigues Miguéis, o extraordinário romancista de "A Escola do Paraíso". Mais abaixo, em Alfama, habitei, durante 32 anos, um rés-do-chão, e costumávamo-nos encontrar, o Manuel Cavaco, eu e o Tordo, no Cantador Mor, casa de canto, comida e bebida de que o nosso amigo era proprietário, no Largo do Contador Mor. Com o Ary víamo-nos, eu e a minha família, numa leitaria próxima, e eram sempre conversas agradáveis, irónicas com o Ary, nimbadas pela amizade entre todos. "Temos de nos aguentar à bronca!", uma frase que corria o grupo, como escudo e defesa dos tempos que começavam a correr mal.

Com maior ou menor aproximação, sabíamos uns dos outros, os tempos foram indo, "Olá! Como estás?", a morte e o assombro, a velhice e o desgosto de um 25 de Abril que fora assassinado pelos predadores do costume, de que estes, os de agora, são herdeiros ainda mais vorazes.

A decisão do Fernando Tordo em ir-se embora surpreendeu-me, apesar de tudo. Um dos quatro filhos, o João, escreveu na net uma comovente carta de despedida, não ocultando os insultos e as calúnias de que pai é alvo, por energúmenos em embrião, que se escondem na vileza do anonimato. O homem que deixa a pátria bem-amada é um português de lei e um dos homens mais irrepreensivelmente sérios e decentes que conheço. Um "idoso" (detesto a palavra, propendo para "velho") que marcou a sua época com talento, coragem e dignidade, sem nunca desistir do propósito de ser feliz. Lá vai ele, o meu amigo.

Esta notícia pegou-me de supetão quando acabava de ler o segundo volume de "Crónica do País Relativo - Portugal, minha Questão", de Fernando Paulouro Neves, um dos grandes jornalistas do nosso tempo, e que tem a mesma idade do Tordo, por sinal igualmente amigo dos que nomeei. Este Fernando, sobrinho de António Paulouro, o fundador do "Jornal do Fundão", onde tem escrito a nata da inteligência portuguesa, tirocinou naquele semanário das Beiras, e foi seu director, continuando o notável trabalho do tio António.

Fernando Paulouro escreve num português de lei e as suas crónicas são exemplos do que de melhor possui a grande prosa portuguesa. Este Fernando também já não é director do "Jornal do Fundão", saído, feito sair, se assim o quiserem, por quem tem manifesta ignorância do que é um jornal. Também eu fui arrastado pela onda, e o Fernando Paulouro conta o episódio sórdido em uma pequena crónica. Devo dizer que fui colaborador do nobre periódico desde os meus vinte e poucos anos, e nas suas colunas escrevi alguns textos contra, que fariam torcer o nariz aos senhores a mando. Como agora.

Ao ler este belíssimo livro e ao fazer as conexões entre a vida destes dois Fernandos, meus amigos queridos, posso chegar à conclusão de que ambos, pela grandeza, pela violência das agressões têm sido exilados do interior ilustrando, de certa forma, a epítome do poeta maior que foi Daniel Filipe: "Pátria - Lugar de Exílio."

b.bastos@netcabo.pt

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

KIEV: A DOR QUE MATA



Nos últimos dias, as imagens da Praça da Independência, de Kiev, sobressaltaram o mundo. Pela extrema violência dos conflitos, pelos mortos e pelos feridos, pelo fio da navalha de uma guerra civil que parecia estar à mercê de um fósforo. Não faltaram sequer os atiradores furtivos, matadores de olhos gelados. As imagens que correm o mundo são, também, o filme de um tempo em que a Europa anda à deriva.
Vale a pena, por isso, ouvir esta crónica do Francisco Sena Santos (Sapo Notícias: o mundo visto por Francisco Sena Santos), que nos ajuda a perceber as raízes deste conflito. Oiçam-no:A NOSSA BATALHA DE KIEV

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


Em múltiplas circunstâncias, o povo português foi aprendendo o equívoco de alguns significados de palavras correntes. É o que acontece com provisório e definitivo. Para Passos ou para Portas, o que é provisório é definitivo e o que é definitivo é provisório... O que eles disseram sobre os cortes provisórios, durante o período de ajustamento. Hoje o "Público" titula, a toda a página, no rosto do jornal: "Governo prepara corte permanente dos salários na função pública". Também no privado (ao contrário do que tem andado por aí a propalar o ministro Pires de Lima) "o ajustamento salarial deverá ser transversal a toda a economia... os salários médios em Portugal (segundo Bruxelas) ainda deveriam registar uma descida adicional de 5%". Viva a pobreza!

A DANÇA DA MORTE DOS HOMENS VESTIDOS DE SOMBRA



São homens vestidos de sombra. Há-os um pouco por todo o lado, cada terra tem ou já teve alguma destas figuras que habitam o tempo, sempre vestidos de sombra, que passam junto às pessoas ou às paredes das casas como fantasmas (dizemos nós, os outros), que o mais fácil nesta triste contingência de viver, é, em voz murmura, dizermos que há muito se desligaram da realidade. E, no entanto, continuamos a vê-los passar nas suas peregrinações urbanas (peregrinatio ad loca infecta, como diria Jorge de Sena) e, se regressam depois de alguma passagem pela urgência hospitalar ou até de alguma pausa num centro de saúde mental, não falta que a súbita imagem produza exclamações sobre a sua resistência. 
Andam como fantasmas suspensos no tempo. Olho para eles, sem querer olhar, olhos baixos que é o nosso dispositivo da retina para os dramas incómodos. Mas olho, e que vejo eu? O tempo esfarrapou-lhes a idade, o percurso entre a droga e o alcoolismo envelheceu-os precocemente, a pobreza que é a sua companheira diária, desorbitou-lhes o olhar que parece engolir os detalhes em que se fixa, como se toda a realidade que lhes é exterior fosse uma margem, que eles só pisam brevemente. Perderam tudo na escala da humanidade possível, aquela que lhe reservaram como matéria condicional, convivem com o irremediável, disfarçam aqui e ali o seu vazio existencial com canções de decifração difícil, porventura a alquimia da linguagem que, por ser de uso pessoal, é intransmissível. Momentos fugazes, que a música é outra. 
Alguns, não têm eira nem beira, alimentam-se de alguma (pouca) caridade pública, outros estendem a mão à procura de uns euros. São farrapos humanos que alguns recriminam quando pedem, como se a sua anormalidade social fosse normal, “não te dou dinheiro porque vais gastá-lo em vinho ou em cigarros que fazem tão mal à saúde!”. Vivem sem tecto de acolhimento a roda do ano e sem abrigo durante as noites gélidas, caminham quilómetros à volta da cidade, à espera que o parco lugar do café, que lhes franqueia a porta à saída da cidade, abra madrugada alta. Às vezes, o tal euro dá para um café quente. 
Quem cruza a noite e vê um destes caminhantes, se ainda achar insólitas estas situações, espanta- se com o homem vestido de sombra, caminhando à toa por uma cidade irreal e um chão que parece não ter princípio nem fim. Um deles, que já retiraram da circulação, costumava sorrir nos dias de Verão, que é sempre a capa boa que os acolhe e faz da noite um tecto de estrelas para sonhos provisórios. Estes homens vestidos de sombra, que entre uma ida e volta à saúde mental, são despejados na rua como abcessos de uma sociedade que olha tudo isto com a indiferença perversa do economicismo, que não existe para resolver os problemas sociais, mas para geri-los, são actores de um tempo de salvação Lda. 
Existem em todas as cidades no país em que, por exemplo, foi preciso a Misericórdia de Lisboa, fazer o inventário dos sem-abrigo na grande capital. Houve piedosas criaturas que ficaram espantadas com a radiografia, onde não falta o desespero de gente licenciada! "Calcula tu, até há sem-abrigo licenciados!"  
Eles andam por aí, mas a sociedade, que é uma fingidora, finge que não os vê, e agora, com o catecismo das políticas sociais minimalistas, são fenómenos a abater para encurtar despesas ao erário público. Alguém diz: "Estão a morrer, Já se vêem menos!"  
Na memória tenho, outra vez, o homem vestido de sombra, com os olhos cada vez mais esbugalhados. Estou a vê-lo, nas suas deambulações empurrado pelo vento, curvado sob a chuva. Vai com a sua fala particular à procura de nada. Há-de passar uma e outra vez, no seu círculo de giz, como se fosse uma galinha tonta. 
Vestido de sombra. Como um fantasma que emerge do quotidiano.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A BEIRA, DE COMBOIO


A CP, agora na versão Refer, tem sido surda e muda em relação às críticas que o público tem formulado sobre a baixa qualidade de serviços oferecidos na Linha da Beira Baixa. Trata-se de uma desqualificação, depois dos vultuosos investimentos feitos neste equipamento. Fernando Dacosta viajou por ela. E o resultado foi a crónica hoje publicada no "i". Escreveu:

"Ir de Lisboa à Beira Baixa por via--férrea fez-se deslocação espinoteante em composições a fingirem de modernas, sem conforto, sem insonorização, sem climatização, sem bar (apenas uma ínfima máquina de cafés e chocolates), sem charme nem identidade – comboios de pindéricas linhas suburbanas, não (como foram no passado) de aprazíveis linhas nacionais.
Como foi possível fazer tal desconsideração às gentes de Castelo Branco, Alpedrinha, Fundão, Covilhã? Zonas de vultos como, entre outros, António Ramalho Eanes, Vergílio Ferreira, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Robles Monteiro, Maria Lalande, Cargaleiro, António Paulouro, Vasco Lourenço, António Guterres, José Sócrates.
Tudo estão a tirar às Beiras: jovens, transportes, escolas, correios, freguesias, memórias, tribunais, hospitais, jornais – jornais que acabam de revelar terem as auto-estradas da região perdido 40 por cento de tráfego e a CP 47 milhões (em quatro anos) de passageiros. Admiram-se?"

PARABÉNS, POETA ANTÓNIO SALVADO!

DO POETA ANTÓNIO SALVADO
Há tempos, pediram-me que seleccionasse alguns poemas de António Salvado. A tarefa obrigou-me a viajar pela sua vastíssima obra poética e poisar no prazer da leitura como só a poesia é pródiga, para seleccionar poemas que, de certa maneira,tivessem relação com o lugar primordial da poesia, a Beira, e, ao mesmo tempo, traduzissem o compromisso ontológico do autor com a palavra. Devo confessar que não foi difícil, para mim, proceder a essa navegação, pois recorrentemente (re)visito o lavrar de palavras de António Salvado, no seu longo ofício de paciência de recriação da língua. Já retratei, por mais de uma vez, o que significa esse labor na poesia portuguesa do nosso tempo e o que a consubstancia como aventura criadora única que ilumina o tempo. Vou à procura de palavras antigas, como se estivesse a ver António Salvado, ele e a sua solidão, na densa circunstância do poetar. Palavras minhas, a páginas tantas: “Às vezes, a verdadeira aventura é ficar. E construir, longe das tubas da glória, na solidão do interior português, uma obra, uma biografia, um tempo. António Salvado soube resistir às contingências de “província” (no que este conceito tem de arqueologia mental persistente na sociedade portuguesa), soube pensar o país de dentro para fora, e ter a suprema ousadia – nunca perdoada – de fazer coisas, promover a cultura dentro de uma cidade, numa região onde o pensamento, não poucas vezes, vive exilado. Muitos fingiram ignorar o seu trabalho, alguns olharam de viés a sua obra. Salvado resistiu a tudo. Se a poesia é o lugar da realização do ser pela palavra, é nesse universo criador onde se unem os dias (Kaváfis) e se aquecem os corações fraternos (Vicente Aleixandre) que encontramos uma biografia feita de versos, que é a vida de António Salvado. A fidelidade a um compromisso com o homem e com as raízes fisicamente próximas, eis o chão verbal dos seus versos: registo telúrico, espaços de maternas águas, terra de flores e de oferendas corporais, que ardem nos instantes, “coração da vida a latejar”. A poesia de António Salvado é essa mesa farta para o pensamento, povoada de cheiros, paisagens, rostos, mãos, sol, terra e pedras, neve, frutos e giestas; enseada onde se acolhem inquietações (“pouso a minha ansiedade no pilar da noite”), mas onde também se aquece o corpo do coração de uma escrita que é um lugar primordial de humanidade. É, pois, no país dos seus versos que a sua biografia se dissolve, num ofício rigoroso de palavras, na configuração clássica de uma cultura a pensar na universalidade, num poetar que, como diria Drummond, “é uma luta com as palavras, mal rompe a manhã”. Isto escrevi eu, e repito agora, para lembrar o poeta. Singularmente, às vezes com a cadência das próprias estações que transfiguram a realidade, os seus livros continuam a chegar-me. António Salvado continua a iluminar o tempo com os seus versos e as suas palavras de cristal. Parabéns poeta!

O IMPERADOR QUE NÃO GOSTAVA DA SOMBRA



No varejo crítico dos poderes encontramos sempre candidatos a déspotas ou a versões mais modernas de tiranetes, que no íntimo abominam a democracia (uma grande chatice) e apenas gostariam de ter a seus pés súbditos. Exemplos desses comportamentos demenciais abundam por aí: basta ver a arrogância dos que nos governam, a forma bestial como põem a pata em cima das pessoas, velhos ou novos. É verdade que, a maior parte das vezes, são sujeitos sem categoria e sem dimensão humana. Mas estão lá, como se tivessem sido ungidos por Deus, no cadeiral do Poder. Há anos, escrevi sobre esse universo pitoresco uma fábula, que depois incluí no I Volume de "Crónica do País Relativo". Lido o texto, à distância de alguns anos, não perdeu a actualidade. Eles ainda por aí andam. A fábula chamava-se O Imperador que não Gostava da Sombra"

Houve um tempo em que os imperadores e outros dignitários não suportavam a sombra. Tratavam dos negócios de Estado em grandes reuniões em que a sua vontade jamais era questionada. Os conselheiros, que eram súbditos, como o povo (embora julgassem que não) só sabiam dizer uma palavra: Sim! 
Passou muito tempo até que Sidharta rompesse as muralhas do palácio e viesse descobrir a dor humana. Os imperadores continuavam na sua liturgia áulica, na esperança de que o seu universo de poder pudesse crescer até ao céu e porventura alimentarem-se dele na procura de uma glória que, cada vez mais, exorbitava da terra. As nuvens, lá no alto, desenhavam eternas fantasias e o imperador começou a ver-se retratado nelas, caminhando pelo espaço como um deus. 
Quando, subitamente, as nuvens se desfaziam em tempestade ou em miúda chuva que fazia a terra respirar melhor, o imperador enfurecia-se e na raiva desses instantes mandava matar os súbditos que, segundo os ouvidos dos informadores, tinham levantado os olhos para o céu e murmurado que não era a figura do imperador que por lá andava, mas sim nuvens, que eram boas porque traziam a chuva e a fertilidade. 
O imperador deixou de olhar o céu e passou a fixar-se na água, que reflectia o seu rosto. Mas depressa o marulhar das ondas fragmentava a imagem e o rosto do imperador diluía-se no vazio. Logo o imperador mandava inquirir quem tinha agitado a quietude das fontes, dos rios e dos mares. 
Havia sempre culpados. À volta do imperador, os súbditos continuavam a balbuciar apenas a mesma palavra: Sim! Agora, o imperador queria um registo da sua figura, que fosse eterno e na força dessa eternidade já não pudesse configurar a efemeridade das nuvens nem da água. Mandou, então, que lhe erguessem uma estátua enorme, cuja dimensão encarnasse o mito em que ele próprio se alimentava. Vieram legiões de escravos e de trabalhadores, que arrastaram pedras da altura do palácio. Escolheu o imperador a maior e logo começou a ser cinzelada para adquirir a forma de colosso. Afeiçoou-se a pedra à sua figura que no meio da Praça foi crescendo, crescendo. 
Veio o dia da festa e o imperador chegou à varanda do palácio para olhar de frente a sua escultura, na certeza de que ela prolongaria infinitamente o tempo e realizaria a eternidade. Mas era grande o colosso e imensa a sombra que projectava. O imperador, como fazia a todos que lhe fizessem sombra, mandou decapitá-la. 
A estátua tombou, com fragor, no chão. O imperador sorria. Até que, subitamente, um dos seus áulicos conselheiros, talvez o mais fiel servidor, rápido como a sombra, fez um gesto rude com a mão e passou a fio de espada a cabeça do imperador. 
Nesse dia, a sombra tornou-se uma coisa natural e o imperador novo passou a ser apenas um homem. Os súbditos deixaram de ter medo das palavras. 
Séculos passaram. Sidharta passava finalmente a porta do palácio ao encontro da comum humanidade. Muitos milénios depois, continua a haver quem diga, quando a Praça se enche de vozes, que a democracia é uma grande chatice. Pena não ser tudo súbdito!


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

PASSOS COELHO DIZ ADEUS AO PASTEL DE BACALHAU



Depois que o Presidente Cavaco um dia disse, angustiado, que a sua reforma não dava para o sustento da família, não é de estranhar que Passos Coelho tenha dito, na Feira Alimentar de Lisboa, enquanto trincava uma patanisca, que o Primeiro-Ministro não está abonado para comer bacalhau. Durante a mastigação, Coelho asseverara que o bacalhau hoje é para gente abonada e não para ele.
Já o vice-Portas, que também foi ao local da festa (feiras é com ele!) não perdeu tempo com essas ninharias e petiscou e bebeu à barba longa, a ponto de ter confidenciado para os que o rodeavam:
-- Tenho de me manter sóbrio!
No caso de Passos Coelho, a questão é mais séria e impõe angústias para o jantar. O bacalhau é uma espécie de linha vermelha, como aquela que o Portas dizia ser a fronteira das malfeitorias contra os pensionistas. E, sendo assim, sua excelência tem que dizer adeus a muita coisa, até ao portuguesíssimo pastel de bacalhau. Que dirá a isto a Confraria do Bacalhau e os Amigos de Gomes de Sá? Proponho, já, que lancem uma subscrição para ajudarmos Passos Coelho a comer bacalhau...
Parece que já chamaram a ministra Cristas para ela elaborar uma lista de produtos abonados, onde constam o peixe gato e a cavala, atum (menos Tenório!), sangacho, frangos e codornizes, tudo de aviário, e peixe frito confeccionado à volta dos restos da lota.
Fora do quadro de ironia, que é o que as palavras do Primeiro-Ministro merecem, há quem pense que elas, no fundo, não traduzem outra coisa senão aquele humor negro que é a forma mais abjecta de um político gozar com os portugueses, que todos os dias comem o pão que o diabo amassou.

QUERIDAS PALMEIRAS



O Fundão deverá colocar-se em pré-aviso, sem qualquer cor, a avaliar por uma notícia que alguns jornais publicaram recentemente. Informavam, nem mais nem menos, que "uma praga de escaravelhos vermelhos que ataca as palmeiras está a ficar descontrolada, em Lisboa" e que "os insectos alimentam-se do interior das palmeiras deixando-as secas e frágeis".
Ora, desde que o Fundão vestiu ares pós-modernos, ao coberto vegetal autóctone passou a juntar-se, abundantemente, a plantação de palmeiras, especialmente à beira das estradas, não fossem elas escapar aos olhares dos viajantes.
Pode bem acontecer que os escaravelhos vermelhos descubram os palmares fundanenses e queiram banquetear-se com a sua suculenta seiva.
De resto, sabendo-se como algumas pragas, e não só de insectos, têm invadido esta terra, é bom que as queridas palmeirinhas se ponham de quarentena. É que o escaravelho vermelho é voraz!

AS PALAVRAS DE MOEDAS QUE ABALARAM O MUNDO


Desenho de Fernando Campos, in O Sítio dos Desenhos
A Europa ainda não se refez da severa crítica que o secretário Carlos Moedas fez numa conferência, em Lisboa, sobre a inércia reformista do velho Continente. Em Bruxelas, a Comissão reuniu de emergência e nas chancelarias das principais cidades decifraram-se, à pressa, as declarações do Adjunto de Passos Coelho. Nas Bolsas, temeu-se o pior e o senhor Hollande telefonou em pânico à senhora Merkel a pedir instruções, com urgência. O impacto das declarações de Moedas galgou, até, as fronteiras imaginárias da Europa, cruzou os Oceanos, Obama telefonou a Putin, mas a senhora Lagarde, quando lhe mostraram o telegrama com o despacho, amarfanhou-o na mão e deitou-o para o caixote do lixo, com uma frase assassina:
-- O Moedas? Conheço esse garoto e o seu fanatismo ultra-liberal, isto não é para levar a sério...
A verdade é que a conferência de Moedas tornou-se um fenómeno incontrolável: os principais jornais do globo deram-lhe as primeiras páginas e as televisões suspenderam as programações para fazer especiais sobre o assunto.
O "Le Monde" titulou:
CARLOS MOEDAS TEM POUCAS DÚVIDAS DE QUE "PORTUGAL TEM SIDO UM DOS PAÍSES MAIS REFORMISTAS NA UNIÃO EUROPEIA"
e o "Guardian", a toda a página:
"MOEDAS AVISA QUE HÁ PAÍSES QUE ESTÃO A ADIAR AS SUAS REFORMAS COMO PORTUGAL FEZ NO PASSADO!"
e o "New York Times", com um pouco mais de sobriedade:
"PORTUGAL FAZ TRÊS REFORMAS POR SEMANA!".

O relevo dado pelos principais meios de comunicação mundiais foi uma autêntica bomba-relógio nas opiniões públicas e nos círculos políticos. Conta-se que Cameron, no Reino Unido, retirou os pés da água, fez uma pausa na inventariação dos prejuízos das cheias do Tamisa e regressou, apressadamente, ao Gabinete para entrar em contacto com a Rainha, que apenas conseguiu responder-lhe:
-- Mo-e-das? I don't understand... 
De facto, para Sua Majestade, Moedas são Libras e ponto final.
Em Genebra, os negociadores para a Paz na Síria, chegaram a propor que esta bomba internacional, que deixou os beligerantes atónitos, talvez pudesse conduzir a um cessar fogo duradoiro. E, no Afeganistão, Karzai chegou a ponderar ser este o momento para os americanos regressarem a casa, pois ninguém daria por isso. Em Kiev, as manifestações pararam por momentos. E, na Itália, Renzi, indigitado por Napolitano para formar governo, desabafou a uma cadeia de televisão:
-- Só faltava cá o Moedas para me lixar as negociações...
A verdade é que nas ruas das principais cidades da Europa, de Paris a Berlim, de Roma a Madrid, de Londres a Oslo, eram rios de gente, repletas de cidadãos com jornais, desdobrados, nas mãos, decifrando as entrelinhas da conferência de Moedas e, sobretudo, procurando saber quem eram os países da Europa que metiam o reformismo na gaveta. Faziam-se conjecturas, mas ninguém arriscava um nome, tal qual como Moedas fizera, quando lhe pediram que nomeasse as lesmas europeias da agenda reformista.
Calara fundo, muito fundo, nos povos europeus o exemplo dado por Moedas, ao repetir que Portugal fez mais de 400 reformas desde o início da assistência financeira, mais ou menos três reformas por semana... Caramba! é qualquer coisa...
Foi talvez esse o argumento que espoletou manifestações colectivas gigantes por toda a Europa, um fogo que imparável, uma chama que se reproduzia à escala global. O sismo da política internacional tinha agora um epicentro chamado Portugal.
Nas manifestações que desfilavam pelos centros emblemáticos das metrópoles, os cartazes, na diversidade da sua linguagem, tinham quase todos o mesmo sentido. 
Em Paris, anotámos:
               
                "HOLLANDE NÃO SEJAS BESTA
                 APRENDE COM O MOEDAS"
Em Londres:
               
                "QUEREMOS SER COMO PORTUGAL!"

Em Berlim:
                "MERKEL CHAMA O PASSOS COELHO, 
                 DEPRESSA!"

Em Amesterdão:
                "REFORMISMO À PORTUGUESA, JÁ!"

Em Oslo, destacava-se da multidão, um enorme dístico:

                "QUEREMOS A PROSPERIDADE 
                 DE PORTUGAL!"

Em Madrid:
                "VENHA A TROIKA, 
                PARA SERMOS FELIZES!"

A coisa foi uma espécie de tsunami humano, com essas ondas gigantescas que arrasam tudo. Para a História ficou o seguinte registo do Papa Francisco:
-- A Europa, meus filhos, nunca mais será a mesma depois de Moedas (Moedas tinha o significado que o Papa costuma dar ao capitalismo selvagem). Que Deus nos ajude... a escapar do "milagre" português!








terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA



O ministro da Economia, Pires de Lima, afirmou hoje que "com moderação, os rendimentos dos trabalhadores devem ser alvo de progressão positiva nos próximos anos", referindo-se a algum aumento salarial.
"Depositamos esperança na comissão do IRS para que os portugueses que vivem do seu trabalho, e tão penalizados foram com o aumento da carga fiscal, possam beneficiar desta melhoria da economia já em 2015"
"Sol", edição on line

MAIS SINAIS


Mais Sinais de Fernando Alves, na TSF. De um pequeno detalhe nasce um retrato da política à portuguesa. Indispensável ouvir

2014-02-18 O Comer e o Coçar


NOVO LIVRO DE ANTÓNIO SALVADO


O poeta e escritor António Salvado vai apresentar no dia 25 de Fevereiro, terça-feira, às 18.30, no salão nobre da Câmara Municipal de Castelo Branco o seu último livro "Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo".
Esta obra, editada pela A23 Edições, reúne um conjunto de poemas inéditos do poeta, considerado muito justamente um dos nomes mais representativos e singulares da actual poesia portuguesa.
António Salvado nasceu em Castelo Branco (na rua d'Ega, a 20 de Fevereiro de 1936. Professor marcante do Ensino Secundário e Superior, museólogo com obra notável no Museu Francisco de Tavares Proença Jr, impulsionador das relações transfronteiriças, é autor de uma extensa obra poética e de ensaio, de antologias, tendo o seu percurso sido reconhecido várias vezes com prémios nacionais e internacionais. Em 2010, foi agraciado com o grau de comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada.
A sessão conta com a presença do autor, de Fernando Paulouro Neves e do presidente da Câmara de Castelo Branco, Luís Correia.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A CHAVE NA MÃO...



Como aqueles cangalheiros que, depois dos ofícios fúnebres, entregam a chave do caixão à família, como triste recordação do infausto acontecimento, assim fizeram os dirigentes da secção do PS do Fundão, quando, num destes dias cinzentos de inverno, afrontaram a chuva e o vento para irem entregar a chave da sede à Federação Distrital do partido, em Castelo Branco.
Não sei se a chave levava a envolvê-la um lacinho cor de rosa, mas a verdade é que Joaquim Morão, olhando o portador, que estava de olhos baixos e comprometido, quase soltou uma gargalhada pela cómica situação, mas conseguiu conter-se, que o momento era, de facto, fúnebre.
Ele quis desanuviar:
-- Então, quem foi o último a desligar a luz e a fechar a porta?
-- Fui eu, quem havia de ser! -- respondeu o Chico. -- Já lá não havia ninguém... Só a mulher da limpeza!
Morão olhou outra vez a chave, em cima da secretária, e voltou, à carga:
-- Só não percebo uma coisa. Se vocês já estavam mortos há tanto tempo, porque diabo só agora fizeram o funeral? Já nem vamos a tempo de mandar rezar uma missa de corpo presente, coitada da secção do Fundão...
O outro encolheu os ombros e olhou para o lado.
-- A Federação que resolva...
Face a este "inconseguimento frustracional", o presidente da Federação, com o seu espírito pragmático, já estava a pensar na situação, embora a complexidade das circunstâncias impusesse um forte sentimento de pessimismo. Deu um murro na mesa.
-- Só me faltava isto! -- e apeteceu-lhe classificar com um palavrão a inépcia dos socialistas do Fundão.
Ele bem sabia dos pouquíssimos militantes a pagar quotas (20, e olhe lá!), que a base de recrutamento se esfumara (longe do poder, longe do coração) e que esta morte, em período quase pré-eleitoral -- eleitoral, só mesmo para o governo -- era mais uma desgraça a acrescentar ao calendário da actualidade, que não está famoso.
-- É pá, que situação desconfortável! -- voltou a responder ao outro. -- Tu e os dois vereadores, nem dão para jogar uma partida de sueca... quanto mais. Só se inventar pessoas ou arranjar algum externo que vá para lá, como os tipos da troika, a governar o protectorado...
Ficaram as chaves em cima da mesa e Morão disse que tinha mais que fazer.

                             ***

Tocou o telefone no Largo do Rato. Temeram ser mais alguma patifaria do Passos (aqueles convites para o consenso), mas quando descobriram tratar-se do caso do Fundão, olharam uns para os outros, e ninguém se ofereceu para ir dar a notícia ao secretário-geral.
-- O Tó Zé fica furioso quando recebe estas notícias da Beira Baixa... Isto é pior que um debate na Assembleia da República!
Ainda estavam nisto, quando Seguro surgiu na sala grande, vinha desentorpecer as pernas, até tinha pensado ir dar uma voltinha ao jardim. Quis saber que alarido era aquele. Contaram-lhe, então, a história da chave e apeteceu-lhe logo dizer que a deviam meter num sítio que ele bem sabia. Mas um secretário geral, e sobretudo ele, não se pode dar a essas liberdades de expressão. 
De facto. no meio de mil e um problemas da política nacional, dos comentários assassinos do Marcelo na tv ("vejam lá, a direita quer que eu ganhe as europeias por cinco, que é para ser eu depois a perder as legislativas, que sacaninha, que cata-vento!"), mais as intrigas internas e a conspiração da imprensa ("não me chupam nem com molho de tomate!"), só faltava mesmo a deserção dos indígenas do Fundão. Quase esteve tentado a dizer que fossem levar a chave ao Costa, que ele é que abre todas as portas!
Por momentos, Seguro pensou se os militantes do Fundão, sempre tão radicais, não seriam tão irredutíveis nas suas opções como aqueles pequenos gauleses da aldeia de Asterix. Levam sempre tudo longe de mais. Sim, porque se lembrava bem de que aquela secção era o diabo e já fechara a porta na cara a dois secretários gerais, só porque os socialistas do Fundão eram fãs incondicionais do Guterres!
-- Caramba! aquilo não é uma secção é uma facção de uma claque de futebol! Será que também me fecham a porta na cara?
Então, Seguro parou para pensar e acabou por decidir:
-- Não quero perder mais tempo com isto. O Joaquim é o único que pode resolver o assunto. Dêem-lhe carta branca...
Telefonaram a Morão e a resposta misturou-se com uma enorme gargalhada:
-- Não se preocupem, já mandei vir um extraterrestre. Para o Fundão só mesmo um extraterrestre...

                           ***

Por linhas travessas, alguém comunicara a situação a José Sócrates, que um dia já endireitara a secção do Fundão, com mão de ferro. Ele interrompeu, por momentos, a leitura do "Le Monde",
e sorriu enigmaticamente.



PINÓQUIO E AS MENTIRAS DO DIA



Numa entrevista ao "Público", Vítor Gaspar recusou ser, enquanto ministro, o quarto elemento da troika. O mais curioso é que ele pensa que tudo se definia pelo facto de estar sentado do outro lado da mesa...
"Sem qualquer ofensa, o Vítor Gaspar foi olhado como o quarto dos Três Mosqueteiros . Como se viu nesse papel? 
Há pelo menos quatro coisas muito diferentes na sua pergunta. Com o devido respeito, a questão de me encarar como o quarto elemento da troika é simplesmente insultuosa. 
Mas foi uma ideia bastante generalizada na opinião pública. 
Recuso completamente esse papel. O meu papel é o oposto. Tive a honra de representar Portugal nessas negociações. A troika estava sentada do outro lado da mesa. As relações com as equipas da troika foram sempre boas, base fundamental para melhor defender os interesses de Portugal."

"Não há tentações nenhumas. Nós temos tido ao longo deste período muitas vezes o ónus de não noas termos preocupado com as eleições. E é assim que continuaremos"
Passos Coelho, Jornal "i"

Para os que andam por aí a deitar foguetes sobre um alegado "milagre económico" português ou para uma certa retoma da felicidade, oferecida pela excelência das políticas que sofremos, ofereço uma notícia de hoje, nos jornais: 
"A crise está a forçar "um número crescente de famílias" a prescindir dos serviços de água e saneamento, o que "pode ser uma bomba-relógio" para a saúde das populações, alertou uma especialista das Nações Unidas, a portuguesa Catarina Albuquerque. 
"O Sol", edição on line

domingo, 16 de fevereiro de 2014

CÂMARA DO FUNDÃO COMPROU O CONVENTO




Relativamente pobre em património construído de carácter monumental, o Fundão deixou, por incúria e desleixo, fazer do Convento de Santo António um monte de quase ruínas. Ao longo do tempo, por diversas vezes, escrevi prosas indignadas sobre o destino de morte anunciada do Convento, que o efémero do jornalismo acabaria por depositar no esquecimento. Em todo o caso, era um lugar com um papel importante na História do Fundão, cujo acervo e obras de arte (o altar, por exemplo) levaram sumiço,
Assistiu-se, inelutavelmente, à sua gradual morte, à queda dos telhados e das paredes, à destruição dos claustros, onde caçadores de tesouros, na ilusão do saque, agravaram a destruição. Ainda resta alguma coisa. A Câmara Municipal, recentemente, adquirira a Quinta do Convento (que no século XIX foi uma Estação Agronómica de estudo da Poemicultura: ainda lá restos das velhas árvores) e lá instalou um espaço de lazer que, decerto, enriquece o Fundão.
O presidente da Câmara do Fundão afirmou ontem que a Câmara chegara, finalmente, a acordo com os proprietários e adquirira o edifício do Convento ou o que resta dele. É uma boa notícia. E um desafio para recuperar o que for possível daquele património abandonado. Vale mais tarde que nunca.

O ELOGIO DA PEQUENA HISTÓRIA

Um aspecto do momento musical
Fui ontem ao auditório da Santa Casa da Misericórdia participar na apresentação de um livro sobre o Fundão, Rua da Cale... de passagem, de Álvaro Roxo Vaz. E o que fui lá fazer foi elogiar aquilo que se convencionou chamar de "pequena história", que só pode ser feita por quem ama a terra que é a sua casa comum. A Rua Cale é uma rua mítica do Fundão, povoada de imaginário, e eu próprio já um dia publiquei essa viagem mas procurando captar a sua dimensão fantástica, um meio passo entre memória e ficção, que muitas das figuras que a habitaram tinham essa vocação de nos fazer sonhar.
O Áivaro Roxo Vaz empreendeu uma digressão de outro tipo. Ao longo do ano, palmilhou a Rua da Cale e outras artérias afluentes, e, na conversa com o Fernando Carrolo, outro fundanense de raiz, procedeu a uma identificação topográfica, de grande rigor, sobre o que poderíamos chamar a alma daquela rua e de outras, trazendo ao nosso  convívio o nome das pessoas que ali viveram ou animaram o intenso comércio. A sua diversidade humana era o seu traço identificador e talvez ela caracterize, sobretudo, a raiz popular e democrática do Fundão,  que nasceu dos nossos avoengos camponeses e se dilatou com a capacidade das pessoas dos ofícios, verdadeiras corporações de fazedores que a engrandeceram no plano económico. Talvez nenhuma outra respire esse universo de diversidades e de saberes, que teve a sua glória no tempo em que o Fundão era uma vila.
Este livro chama o nome às coisas e é, por isso, um contributo para a memória local. Lembro-me sempre do que um dia disse Jorge Luís Borges sobre a cidade que amava, BuenosAires, a grande Buenos Aires. Confessou ele que o que mais gostava na sua cidade era caminhar pelas velhas ruas, olhar as antiquíssimas casas e a densidade humana dos seus pátios interiores.
O Fundão, à sua escala, também tem esses encantos particulares, pequenos detalhes que ajudam a definir este nosso microcosmos. O Álvaro Roxo Vaz fez bem em convocar o antigamente da realidade urbana da Rua da Cale e de muitas outras ruas revitalizando a sua memória, que é colectiva e é nossa.

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


Jerónimo de Sousa disse que, esta semana, o governo de Passos Coelho apresentou mais um "sucesso" de governação: um empréstimo de 3,5 mi milhões de euros, na recente emissão de dívida a dez anos. "Contas feitas, o novo compromisso significa um custo em juros de 50 milhões de euros por mês que vão ser limpinhos e sem osso para o bolso dos banqueiros, dos grupos que tiveram acesso a esse empréstimo", considerou o líder comunista. "Porque é um negócio colossal para os senhores do dinheiro: 5,1% de taxas de juros temos nós de pagar, superiores aos juros da troika, quando o Banco Central Europeu financia a banca  agora a preços ainda mais baixos, a taxas de 0,25%. Ou seja, pagamos com língua de palmo 50 milhões por mês a taxas de 5,1%, enquanto a banca vai buscar o dinheiro para investir a o,27%".

LOUVOR E MEMÓRIA DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES


A casa de Aristides de Sousa Mendes, onde deveria ser instalado um Museu, nunca foi recuperada
Em 2008, com o Manuel Vaz Dias, de Bordéus, e outros amigos, organizámos um Quinzena Cultural de Homenagem a Aristides de Sousa Mendes. Houve exposições, filmes e debates, veio a historiadora Irene Pimentel, a jornalista Diana Andringa (autora de um documentário sobre Aristides de Sousa Mendes, a Antonieta Garcia e já não sei se mais alguém. O acontecimento teve dimensão regional, mas ficou-me sempre a ideia de que Aristides de Sousa Mendes continuava, à margem. Sobretudo, à margem da democratização da memória sobre a sua figura e a dignidade que o seu exemplo evoca, num país que celebra mais a neutralidade do que a defesa da humanidade. Um dia destes, uma amigo falou-me no cerco de silêncio que, de certo modo, continua a rodear o nome de Aristides de Sousa Mendes, só quebrado há dias, quando, alguém se lembrou de falar nele para o Panteão, agora que as glórias póstumas (só algumas) parecem estar de moda.
Lembrei-me do que, em 2008, disse na abertura da Quinzena Cultural, e fui buscar as palavras numa memória actualizada e actuante, como quem faz mais um aceno de gratidão à acção de Aristides de Sousa Mendes salvando milhares de pessoas da bestialidade nazi. E as palavras foram estas:
Há momentos em que as palavras por nomearem um nome e evocarem a narrativa de um homem se transformam em luminosa memória colectiva, como se dessem voz a um tributo de gratidão que afinal o tempo jamais pagará integralmente. Aristides de Sousa Mendes, eis o homem. Um nome e um rosto, feito de milhares de rostos, o olhar fundo da perplexidade face ao drama da banalidade do mal, a expressão universal daquele heroísmo que só acontece quando o homem, face à história e à sua circunstância, é capaz de se despir do egoísmo e da matriz individual de que se faz a vida, para assumir, por inteiro, a responsabilidade ética de, à sua medida, tentar salvar a humanidade. 
Não encontro gesto mais nobre nessa coragem desmedida que se cruzou com o destino do comum dos homens como, em certa medida, era a vida do nosso cônsul em Bordéus. Olho Aristides de Sousa Mendes como um herói do nosso tempo, mas um daqueles improváveis heróis, que sobrepõem à vida a condição humana que é parte inteira da Humanidade. Porque a linha definidora que medeia entre o pensamento e a acção, esse instante privilegiado em que tudo se decide, foi marcado na biografia que lhe coube em sorte pelo dever de dignidade: a exacta consciência de que o homem deve ser sempre a medida de todas as coisas. Um herói, se quisermos, à Camus, que sempre, colocando o homem face à contingência do absurdo, pôs em questão esse “tempo de desprezo”, configurado a um mundo desumanizador e desumanizante, aparentemente – só aparentemente! -- legitimador de genocídios e de valas comuns, da morte elevada ao infinito, como em Auschwitz, inferno indizível, metáfora da própria morte da poesia e de Deus. 
E, no entanto, não faltaram os que, por critérios de subserviência – na política nunca faltaram sujeitos obedientes à infâmia da repressão contra a liberdade e a dignidade humana – funcionários diligentes de fornos crematórios, dentro dos campos de extermínio e fora deles, que à boa paz do quotidiano, achavam natural os crimes contra a humanidade, como se esses fenómenos fossem inescapáveis a uma natureza humana naturalmente mórbida e sanguinária, fatalidade que os deuses teriam urdido para castigar os pobres mortais. A vida seria assim uma coisa banal, menos para os milhões que viviam já a crónica antecipada de uma morte anunciada… 
Camus interrogou sempre: como foi possível? Como é possível? A mesma interrogação que nós fazemos, quando olhamos as fotos dos olhos rasgados de espanto das vítimas à espera como gado de extermínio no matadouro (o grito de Munch tornou-se símbolo imemorial do drama cósmico) ou a reprodução repetidamente actualizada das situações de infra-humanidade, remorso colectivo dos dias que correm: os iraques e as sírias da vergonha, as guerras esquecidas, os milhões (onde se contabilizam crianças) condenados à fome, à doença e à miséria, agora em pleno século XXI. Há um título de um livro de Rui Nunes que parece uma interrogação definitiva sobre a história longa da infâmia: "Que Sinos Dobram por Aqueles que Morrem como Gado?" 
Como é possível? E de novo Camus, voltando atrás no tempo, a lembrar a existência comum de sujeitos sensíveis, que faziam da tortura uma ciência e um ofício, e que depois de praticarem matanças colectivas entravam em casa pela porta de trás, à noite, pé ante pé, para não acordarem os seus canários de estimação, como parece que acontecia com Himmler… A duplicidade, as máscaras… 
Se faço esta crónica apressada da ignomínia é só para dizer, regressando à figura que nos reúne aqui, hoje e agora, que a grandeza de Aristides de Sousa Mendes radica precisamente no facto de ele ter ousado recusar uma realidade que ofendia a elementar condição humana, na coragem de dizer não às instruções do Ministério tutelado por Salazar, salvando milhares de pessoas acossadas pela besta nazi. 
Hannah Arendt explica bem esse compromisso de índole pessoal e solitário, síntese da angústia existencial em que cada um se expõe na radicalidade do confronto com o tempo e a realidade: “A moral refere-se ao indivíduo na sua singularidade”, escreveu ela. “O critério do justo e do injusto, a resposta à pergunta: “Que devo fazer?”, não depende em última análise nem dos hábitos e costumes, que partilho com os que me rodeiam, nem de um mandamento de origem divina ou humana, mas daquilo que decido a respeito de mim próprio. Por outras palavras, não posso fazer certas coisas, porque, se as fizer, deixarei de ser capaz de viver comigo próprio”. 
Aristides de Sousa Mendes foi capaz de viver consigo próprio. Por isso, lhe chamam “O Justo de Bordéus”. Desobedeceu a Salazar, passou milhares de vistos, salvou milhares de pessoas. Salazar não perdoou. Esse gesto humanitário valeu-lhe a demissão compulsiva. A sua vida transformou-se num inferno, e o quotidiano em 24 horas de miséria absoluta. Em boa verdade, por salvar os outros da fogueira, perdeu tudo. Morreu pobre e doente. 
O improvável herói, durante a ditadura cercado de silêncios, como se lhe impusessem uma dupla morte, foi sendo reconhecido no plano internacional como grande figura humanitária, e, quando Abril aconteceu, a sua dimensão histórica emergiu lentamente da opacidade do esquecimento. Aristides de Sousa Mendes ainda é uma personalidade incómoda. À medida que a exemplaridade da sua acção salvadora ganha força, em Portugal e no mundo, surgem abencerragens do salazarismo, como fantasmas subitamente despertados dos seus túmulos ideológicos, no afim de reescreverem a história, desfigurando-a. Recuperam a cartilha da obediência, reduzem-se à liturgia dos formalismos, às regras do cinzentismo funcional, e penduram no bengaleiro, como disse o poeta, a consciência. 
Esta Quinzena Cultural de Homenagem a Aristides de Sousa Mendes insere-se naquilo que os historiadores gostam de chamar combates pela memória. É um combate que diz respeito a todos, num tempo em que o efémero parece querer subalternizar tudo, como se os valores do homem, da cultura, da democracia fossem um enorme fardo. É, também, na sua geografia regional, uma forma de assinalar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Que melhor forma de comemorar essa Declaração projectiva de humanidade do que ligar-lhe o nome do “Cônsul Proscrito”?