sábado, 1 de março de 2014

GUITARRAS CHORAI!



Como Drummond de Andrade imaginou a chegada de Vinicius ao céu, com o seu violão e as suas canções, porventura erguendo uma taça a S. Pedro -- Saravah!, meu velho! -- também agora, quando Paco de Lucia vai a enterrar na sua Algeciras, penso que ele, com a sua guitarra e a sua música deverá ter transposto a porta de algum paraíso perdido povoando-o de alegria, rodeado de anjos, se anjos houver por lá.
Chamaram-lhe "o flamengo universal". E nesse universalismo, dentro da reinvenção do flamengo, cabem muitos mundos e muitas sonoridades, como o jazz e os blues ou a bossa nova. Como dizia o "El Pais", ele "transformou o destino do flamengo, reduzido naqueles anos (anos 60) à categoria de folclore nacional pelo regime e a reduto minoritário e quase insofrível pelos polvorosos festivais andaluzes".
Este músico, com raiz portuguesa -- filho de Luzia, de Castro Marin -- é imemorial pela sua genialidade, pelos acordes com que viveu por dentro a alma espanhola, os sons de Manuel de Falla ou de Joaquim Rodrigo (o concerto de Aranjuez, lembram-se?).
É essa memória viva que fica do seu percurso criador.É a emoção da sua música que continuará a fazer-nos sonhar com as estrelas.
É por isso que hoje, dia de partida e de saudade, aqui deixo o som de Paco de Lucia, trazido pelo Francisco Sena Santos, como quem lhe faz um aceno de despedida.
A MAGIA DE PACO DE LUCIA

UM COMUNICADO DE PINÓQUIIO


Pinóquio, que tem vindo a fazer o inventário diário das mentiras do governo, decidiu suspender a sua higiénica acção durante a quadra do carnaval. Afirma não desejar confusões, e, sobretudo, não ter possibilidades nestes dias de decifrar as máscaras da mentira em que Passos e Portas são exímios. Suas excelências têm agora uns dias para lançarem as maiores atoardas, desculpando-se depois:
-- É carnaval, estava a brincar...
Só que às vezes, mesmo no carnaval, há brincadeiras que podem ser perigosas.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


Portugal entra em maio, com a conclusão do programa de assistência externa, numa “nova fase” da sua história depois de um “longo e difícil caminho” em que “o pior está para trás”, afirmou hoje, em Madrid, Pedro Passos Coelho. "O pior está para trás". A sério ou é carnaval antecipado?

SAÍDA LIMPA?

Subitamente, a palavra "limpa" entrou no vocabulário político e não há dia que circunspectas pessoas, deputados, ministros (Passos Coelho e Portas, também) percam a oportunidade de falar numa saída limpa, no Pós-Troika. Até o PS, Seguro e Companhia, já morderam o isco da maioria e reclamam, também eles, uma saída limpa. Um cidadão fica atónito face a tanto descaramento. Será que não estiveram cá? Andaram por outro planeta e acabaram de aterrar? Estiveram à margem da desgraça colectiva que se abateu sobre os portugueses? Estarão a gozar com o Zé Povinho, que come e cala?
Como é possível, de facto, estes sujeitinhos andarem a embandeirar em arco com uma putativa saída limpa no pós-Troika, depois das porcarias (para não dizer outra coisa!)que andaram fazendo pelo país? Bem sei que Portugal não é uma cloaca, mas quando ouvimos falar em saída limpa, perguntamo-nos: Limpa de quê? De desemprego? De pobreza galopante? De direitos sociais roubados? De lágrimas e de tristeza?
Por favor, mudem de vocabulário, inventem qualquer coisa, mas limpa, não!
A porca do Bordalo já não é suficiente para caracterizar os grandes porcalhões destas políticas. Saída suja, é o que é! 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O PAÍS DA SUBMISSÃO


ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Talvez nada defina tão bem o cinzentismo português e a condição de povo atormentado pela fatalidade, medroso da mudança, como se os deuses tivessem aberto uma caixa de Pandora para nos imporem um inescapável destino de pobreza, do que a subalternidade cívica, a apatia e o tédio que configuram a indiferença face à realidade que vivemos. Eduardo Lourenço estudou bem essa ausência na sua "Psicanálise Mítica do Destino Português", mas o que é verdadeiramente confrangedor é que, quase quatro décadas depois de recuperada a liberdade (e todos os direitos que ela pressupõe), a submissão e um certo silêncio colectivo persistam como verdadeiro comportamento caucionador do fio da navalha em que o país caminha. Isto é: como se não tivéssemos, como povo, direito à definição do futuro.
Envoltos no manto diáfano da política espectáculo, onde o futebol é eleito como fenómeno de consumo diário, moldados à genefluxão do altar (que ainda define e gradua boa parte do estatuto social), estupidificados pelas escolas de mansidão que são as televisões e os jornais, uns desistem por não acreditarem (veja-se a crescente abstenção), outros transferem a responsabilidade inerente à sua condição de cidadãos para que os outros decidam por eles ou, então, encolhem os ombros com a desculpa de que os políticos são todos iguais. Há depois a legião, cada vez maior, dos que têm medo, sentimento que nasce da inquinação da democracia e de um caceteirismo político que na sua intolerância agita o papão do desemprego (mais de um milhão) e da liquidação das políticas sociais como forma de conter "o rebanho vegetal e só".
É verdade que tudo isto gira na fronteira da irracionalidade, que aliás os protagonistas do poder dominante aproveitam nos jogos de mistificação em que são verdadeiros especialistas. cada vez menos decidem por todos, criando a ilusão de que não há nada a fazer e que as alternativas se esfumam em nevoeiros sebastianistas. O melhor, dizem esses papas do comentário político, é apenas mudar alguma coisa para tudo ficar na mesma, viva a Troika, mais a austeridade, mais o desemprego, mais a pobreza!
É assim. O que eles querem verdadeiramente é que os portugueses capitulem, desistam definitivamente, espécie de escravos dos tempos modernos, pois sabem que se desistirem da política, abandonando a intervenção cívica, a política (isto é: os que governam) ocupar-se-ão deles.
E como no poema de O'Neill vaguearão por aí como "rebanho pelo medo perseguido"

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

Não foi o senhor Passos Coelho que perguntou e repetiu e repetiu e repetiu se estávamos melhor ou estávamos pior? Continuemos a ajudá-lo a encontrar respostas concretas às suas angustiadas perguntas. Título do "Diário de Notícias": "Portugal piora e passa a nono país mais pobre da UE". E da notícia: "Em Portugal, a riqueza média por habitante, corrigida pelo poder de compra, cairá de 75,2% da média europeia (28 países) em 2013 para 74,8% em 2014. Dizem as previsões de Bruxelas que Portugal, segundo aquele indicador, passa a ser o nono país mais pobre perante o nível médio da União Europeia. Será ultrapassado pela Lituânia, tendo a Estónia já no seu encalço". Mas a Troika (que está aí) mais o seu governo já definiram na sua cartilha que o empobrecimento é para continuar! Mais austeridade, mais cortes nas pensões e nos salários. Estamos melhor ou estamos pior?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

AQUELE QUE FAZIA SOLUÇAR OS SONHOS


Paco de Lucia transformou o seu destino em música. Quando as televisões e as rádios começaram, pela manhã, a divulgar a notícia da sua morte inesperada, no México, aos 66 anos, lembrei-me logo dessa vida feita de música e de como Paco de Lucia, com a sua guitarra, interpretava a alma de Espanha e da sua Andaluzia. Há quem diga que ele renovou e universalizou o flamengo, mas a verdade é que a sua arte, mesmo quando tocava a fundo o coração de Espanha, foi sempre capaz de se traduzir numa mensagem universal, quando ganhamos a ilusão de chegarmos à "inalcançável estrela", de que falava Eugénio de Andrade. Ainda agora, ouvindo-o tocar Manuel de Falla, Albeniz ou Joaquim Rodrigo (o concerto de Aranjuez) penso que são compositores ou intérpretes geniais (como ele) que nos ajudam a olhar a música como uma arte divina.
Por mais voltas que dê, quando vou ao encontro da sua música, é sempre a alma de Espanha que eu encontro ou reencontro, como se caminhasse por dentro da Ibéria, com jardins de emoções à minha volta. Penso, por isso, que poderia sobrepor o nome de Paco de Lucia àquele poema em que Lorca fala de uma guitarra:

"A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca 
redonda
(...)"

É isso. As mãos de Paco de Lucia, abraçadas à guitarra, faziam soluçar os sonhos. Oiçamo-lo, muitas vezes, como se a eternidade se prolongasse no tempo e decerto seremos felizes como "o que agradece que na terra haja música", assim diz um dos versos de Borges.

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

"Estamos melhor ou estamos pior?", eis a pergunta retórica de Passos Coelho, no Coliseu, repetida uma e muitas vezes. Respondemos a sua excelência com o título do "Diário de Notícias": "Grandes Hospitais recusam tratar doentes da província". "São José juntou-se a S. João e Santa Maria (aliás a todo o Centro Hospitalar de Lisboa)e deixou de receber doentes fora da sua área. Administrações justificam decisão com restrições orçamentais e gestão de listas de espera".
Acrescento eu: em qualquer país civilizado isto dava origem a um tumulto. Mas neste Portugal, os que vivem longe, no interior, são indígenas considerados mortos ou prestes a serem abatidos ao efectivo do regimento. É isto a tal social-democracia de que falava Passos Coelho?



terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

AGORA, AGUENTA!


Ninguém esquece as palavras arrogantes do banqueiro Ulrich, quando, face às políticas de esbulho do governo, geradoras de pobreza e desemprego, disse, com desplante, ao povo: "Ai aguenta, aguenta!" Esse aguenta não esconde o elogio às tais políticas que têm assassinado a esperança dos portugueses. Lembrei-me, pelo "aguenta, aguenta!" de uma fábula publicada no "Jornal do Fundão", no final dos anos 60. e que é bem actual e até um aviso, em período quase pré-eleitoral, quando os autores das políticas da desgraça já pensam eternizar-se no poder. Aqui fica.


Uma fábula
de MÁRIO CASTRIM
Agora, aguenta!

TINHA o cavalo um tipo bestial
era soberbo, altíssimo, imponente.
E como certa gente
do mundo trivial,
a augusta cabecinha
não respondia à lábia que ele tinha,
aos anseios de glória no fino galopar.

Mas vamos à história.
Contar sempre é melhor que discursar...

Na calma da manhã, quando ele estava
a saborear a fava
e a palha de centeio
viu o dono trazer
a albarda, o freio,
a cilha. Tudo digno de se ver.

Metal brilhante
coiro flamejante
e ele truca, na fava.
O dono assobiava.
Lança-lhe a albarda
aperta a cilha
mete-lhe o freio
oh, oh, que maravilha
enquanto enfarda
o gosto a sol que vinha do centeio...

Lança-lhe a albarda o dono.
Os estribos lhe deixa, ao abandono
a cilha, sem brandura
aperta, aperta, na barriga aperta,
logo o freio lhe acerta
na engrenagem da mastigadura...

Viu-se o cavalo ao espelho. Sem favor
aquele trato
dava-lhe um certo ar de baronato,
de fidalguia!
Dava, sim senhor!
Seria exigir muito à humanidade
(ou à cavalidade, com certeza!)
que tão grosso animal não fosse presa
de uma certa vaidade...

O dono dá um salto.
Relâmpago! O assalto
toma o cavalo rombo
de surpresa.
Azamboado
quando acordou, montado
já o tinha, no lombo.

Lutou, esperneou, patada, espuma.
O desespero, em suma.

-- Agora? -- diz-lhe o lobo, entre o folhedo
que a floresta sustenta
-- Devias pensar nisso, mais mais cedo.
Agora? Agora aguenta!

De sugestões a fábula é um campo rico.

Eu, por aqui me fico.

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


"Estamos melhor ou estamos pior?, perguntou Passos Coelho. Fazemo-lo a vontade, respondendo com dados hoje divulgados pela Comissão Europeia. Titulo do "Sol": Portugal é dos países mais débeis em oportunidades de emprego".  E acrescentava: "A disparidade entre o sul e norte da Europa, em termos de oportunidades de emprego, tem aumentado, e Portugal é dos países com maiores debilidades, revela a Comissão Europeia.






segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A DECADÊNCIA E O ATRASO



Quase ao mesmo tempo em que decorria a festa do Coliseu, Vasco Pulido Valente publicava no "Público" (ontem) uma crónica que arrasava o estado de coisas a que chegámos. O título é, desde logo, elucidativo: "A decadência: "o bom aluno". O cronista começa por situar no tempo a questão: "Empurrado pelas circunstâncias, foi Cavaco Silva quem finalmente atestou a menoridade indígena com a expressão "o bom aluno". Bom ou mau o aluno é por natureza um ser incompleto e subordinado".
A conclusão da crónica é elucidativa:
"Contrariado ou alacremente, o Estado preencheu esse fosso e, para o preencher, pôs de parte o código do "bom aluno", como se ele já não lhe servisse e o país se bastasse a si próprio. Cavaco assistiu calado a este desastre, que ele próprio provocara, e consentiu sem uma palavra que a sociedade e o Estado se afundassem tranquilamente em dívidas tão absurdas como irredimíveis. Com a salvação da Pátria do PSD e de Passos Coelho voltaram as pragas tradicionais da "decadência" e do "atraso", que depressa redescobriram os vícios atávicos do português: a sabujice, a dependência, a resignação e uma espécie de sebastianismo de trazer por casa na forma obscura e longínqua do BCE. Nem falta a ditadura dos partidos do centro, nem a melancólica impotência do Presidente da República. Depois do fracasso da "modernização" democrática, virão vinte anos de vacas magras e de cinismo ou desespero. E agora o remédio é duvidoso e talvez mortal"
Estamos tramados e eles fingem que não sabem!

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

"Estamos melhor ou estamos pior?", perguntou Passos Coelho no Congresso do Coliseu. Continuamos a responder, com dados objectivos, à insistente retórica do Primeiro-Ministro:
"Mais de 94 mil doutores estão sem trabalho", titula hoje o "Correio da Manhã", informando que "os Centros do Instituto de Emprego registaram em Janeiro, cerca de 500 novos desempregados por dia".

LEMBRANÇA DE ANTONIO MACHADO


Um anúncio no "El Pais", de sábado, fazia uma singela evocação do 75º aniversário da morte do poeta Antonio Machado, em Colliure, França. Recordava-se o poeta em três linhas, "com emoção e gratidão". Anotei a palavra gratidão e também eu a podia ter escrito nesta evocação efémera. Porque António Machado é um grande poeta e podermos ler, ainda hoje, a sua arte poética, é sempre aventura deslumbrante. 
Atravessada a sua vida pela Guerra Civil, tomou o partido da humanidade, defendendo a República contra a usurpação franquista, e por isso morreu no exílio.
Machado é um daqueles poetas que coloca nos versos um frémito de emoção que é impossível deixar-nos indiferentes. Tenho, à minha frente, a Antologia Poética (edição bilingue), cuja leitura frequento com regularidade, e é um fabuloso trabalho de José Bento.
É uma visão de conjunto da sua poesia e lá é possível descobrir, por exemplo, a sua "via pessoal e intimista" e a dimensão telúrica dos seus versos. José Bento sublinha "o diálogo do poeta com as coisas que o rodeiam, o escutar as escuras águas, a visão da paisagem como um estado de alma que se procura fazer ecoar no leitor, a atenção dada ao mistério, aos sonhos, às recordações".
Quem teve a sorte de andar pelos campos de Sória, naqueles dias de luz suave, quando o sol em vez de queimar poisa uma luminosidade que parece descrever a paisagem com maior autenticidade, percebe como os versos de Antonio Machado se sobrepõem àquela realidade, como projecção do "seu mundo interior".

Terras pobres, terras tristes
tão tristes que têm alma

Machado dirá dessa fidelidade à terra e ao homem: "Cinco anos na terra de Sória, hoje para mim sagrada, orientaram os meus olhos para o essencial castelhano".
Não esqueço que foi de Eugénio de Andrade (refiro-o no meu livro A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade, numa dessas conversas longas, durante uma visita ao chão da Beira, que, depois de termos regressado à célebre canção do Eugénio ("Tinha um cravo no meu balcão;/ veio um rapaz e pediu-mo...") lhe ouvi dizer um poema de Machado que nunca mais esqueci.

La plaza tiene una torre,
la torre tiene un balcón,
el balcón tiene una dama
la dama una blanca flor.

Há pasado um caballero
- quién sabe por qué pasó! -,
yse há llevado la plaza,
con su bacón y su dama,
su dama y su blanca flor

Antonio Machado. Os seus versos continuam a viajar connosco no tempo.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


“Há uma diferença entre o tempo das estatísticas macro e a forma e o momento em que cada português e a sua família o sente na sua casa”, disse Portas para logo de seguida acrescentar que o “sem isso não havia condições para os portuguesese terem um melhor 2014, como há condições para ter”.