sexta-feira, 7 de março de 2014

UMA CERTA MANEIRA DE SER

Na grande diversidade de um país pequeno, Portugal tem curiosos tiques, comportamentos surpreendentes detectáveis à distância. No tempo da ditadura (se calhar como hoje) ríamos da própria desgraça, o que levou os franceses a dizer: Les portugais toujours gais! Uma certa apatia conduziu à mistificação dos brandos costumes, todos os dias desmentidos pelos noticiários, com gente assassinada, um ou outro degolado à navalha ou até cortado às fatias.
Uma vez, discorri sobre questões prosaicas do quotidiano e escrevi uma crónica (incluída no Vol II de Crónica do País Relativo) que aqui deixo aos leitores como breve reflexão:

Será da natureza das coisas e decerto todos os povos adquirem, na crosta dos dias, tiques e comportamentos que, na longa duração do viver de cada um, se colam à rotina da vida colectiva.São,às vezes, pequenas coisas, que se repetem como o pão-nosso-de-cada-dia, traços da idiossincrasia colectiva, que por comodidade se podem assacar à maneira de ser de um povo. Um dia destes, observava a navegação apressada num café, gente que entrava e saía, funcionários em trânsito para o emprego, professores em doce pausa das reuniões e dos papéis intermináveis, estudantes no brouháhá dos intervalos,ao as mesas da terceira idade, onde gente dos cabelos brancos fala dos filhos e dos netos, às vezes com lágrimas furtivas pelo quotidiano de desgraça que é a morte de suas vidas.
No universo do café, então, a azáfama dos pedidos subia de tom e o balcão era uma plataforma de gestos a solicitar bicas, galões, também havia quem pedisse chá (de quê? de camomila, de limão, de cidreira, de frutos vermelhos?) e aquele bolo ali, para mim é um queque com meia de leite e mais um bolo de arroz e um pastel de nata e outro e outro e outro.
O filme do começo do dia ia acelerado e quem observava na mesa do lado, levantando os olhos do jornal para o bulício das palavras e dos gestos, o mundo repartido entre os que serviam e os que eram servidos, quase ficava cansado de navegação tão intensa.
Então, abriu-se também ao menu da curiosidade do observador de circunstância, a liturgia do diminuitivo, tudo em inho, que uns e outros praticavam alegremente. O cafézinho, o bolinho, o pãozinho, a aguinha, a bicazinha, o leitinho, o pastelinho , a empadinha...
Mas o universo do café, pensou o cliente da mesa do lado, é bem um mundo complexo, de decifração difícil. Pensou isto o observador enquanto na coreografia difícil do empregado, bandeja levantada ao alto, circulando por cima das cabeças, sobressaía, sempre que fazia o pedido, ao balcão, tantos cafés, e depois começava a desfiar as qualidades exigidas pelos clientes, reflexo sintomático de como o mundo nosso, nas pequenas e grandes coisas, é difícil de satisfazer.
Bem sabemos todos que De Gaulle também se queixou da sua França que, dizia ele, um país com tantas espécies de queijos, é ingovernável! 
Portugal marca pontos em diversidade, logo ao café. Dos pedidos que caíam sobre o balcão, o observador foi anotando:
-- Café sem princípio
-- Curto
-- Cheio
-- Pingado
-- Escaldado
-- Duplo
-- Repolhudo
-- Abatanado
-- Com cheirinho
-- Carioca à mesa
-- Expresso
-- Simbalino
-- Em chávena fria
-- Em chávena estreita
-- Em copo
-- De saco
-- À italiana
-- Capucino
-- Pintado (com limão)
E, no meio desta panóplia, ainda se elevou uma voz:
-- Para mim, um bem tirado!
As chávenas fumegam. O empregado lá vem, bandeja ao alto, acerca-se da mesa e, à medida que distribui os cafés, vai fazendo a revisão da matéria dada, declinando os nomes, uma a um.
O observador, o cliente da mesa ao lado, acabou de ler o jornal, há muito tomara simplesmente um café, e lembrou-se de uma coisa que Borges um dia escreveu: "criar banalidades consiste em inventar histórias verdadeiras". Esta é, seguramente, uma delas. 

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

Se não soubéssemos o estado calamitoso em que a Europa se encontra (e o estado comatoso de Portugal) poderíamos dar uma sonora gargalhada às insensatas informações, em Dublin, do primeiro-ministro Passos Coelho, que foram as seguintes: "Agora que os nossos adversários começam a culpar-nos das consequências da crise, tentando explorar eleitoralmente os sentimentos daqueles que têm sofrido mais e também o sentimento anti-europeu trazido pela crise é muito oportuno enfatizar que a nossa liderança salvou a Europa e o Euro e muitos dos nossos países da responsabilidade de velhas políticas de natureza socialista. Os nossos cidadãos demonstraram que eles podiam resistir aos maiores sacrifícios. Eles fizeram-no com o realismo daqueles que encaram os factos simples da vida e que entendem que a carga de dívida e a falta de competitividade não desaparecem com retórica política menor mas com esforço e soluções. (...) É por isso que é preferível não vender a nossa alma ao diabo da demagogia".



quinta-feira, 6 de março de 2014

A VIDA E A MORTE


A liberdade e os direitos  só se concretizam quando os seus conteúdos se afirmam no viver quotidiano das pessoas. É no concreto da vida, no compromisso que o Estado (como obrigação ética) assume em relação aos cidadãos, que essa galáxia de direitos, prescritos pela Constituição da República, se torna real e efectiva. Um dos aspectos mais sensíveis dessa realidade é o direito à Saúde e o papel que nesse sentido cumpre o Serviço Nacional de Saúde.
Talvez não haja domínio em que Portugal conseguiu materializar tão bem a dignidade de um povo como na forma como o Serviço Nacional de Saúde se plasmou no quotidiano da sociedade, afirmando que era este um direito inalienável e universal. Eu não sei se há perfeita noção do que acontecia antes do 25 de Abril, mas é preciso lembrar que a omissão de direitos, na Saúde como no resto, era a regra da ordem estabelecida. Um belo cemitério ao luar em que apenas os ricos tinham acesso directo ao tratamento de especialidades, enquanto à maioria estava reservado o destino da caridade dos hospitais das misericórdias... Nesse jogo entre a vida e a morte, morria-se a maior parte das vezes porque era assim que a sociedade estava organizada, e os mais pobres tinham sempre o conforto de paraísos póstumos que nunca gozavam.
É por isso que o Serviço Nacional de Saúde, apesar das malfeitorias que tem sofrido,  é uma âncora fundamental do Estado social e do direito à dignidade dos portugueses. Quem frequenta os hospitais públicos sabe do que estou a falar. Com regularidade me tenho cruzado com essa realidade e o que eu vejo, sempre, é Portugal a passar por esses espaços, numa imagem verdadeira da situação social do país. Em tratamentos, internamentos ou em exames -- que antes só estavam reservados aos ricos -- o país real está ali: idosos, cada vez mais idosos, mas também todos os outros segmentos comuns à população portuguesa, gente dominantemente frágil do ponto de vista económico e social, mas que o Serviço Nacional de Saúde acolhe não como números mas como titulares de direitos, gente que é preciso tratar.
Olho muitas vezes para essa realidade humana e percebo fios de esperança em cada rosto, como se o horizonte da vida se enlaçasse na humanidade daqueles corredores, daquelas enfermarias, daquelas salas de espera. Percebe-se que há, nos domínios da saúde pública, uma luta que às vezes salta dramaticamente para a espuma dos dias, com as dificuldades e restrições (aos direitos) que o sistema impõe cegamente, mas onde surge, sempre, a grande determinação de todos os profissionais -- todos, digo eu -- envolvidos na batalha pelo direito à saúde, que o mesmo é dizer -- pela vida.
Sei do que falo. E tenho na memória o universo dominante de muitos companheiros de viagem: gente que traz escrita no rosto uma vida inteira de trabalho, com rugas de sofrimento lavradas na carne, suportando a fragilidade económica dos dias, o desemprego dos filhos, sabe-se lá que dramas... Gente que sorri aos acenos de afecto, que agradece o interesse, com uma luzinha nos olhos que não é outra coisa senão a esperança de saber que ali se estão a prolongar dias para serem vividos com a felicidade possível.
Olho outra vez: rostos de serena paciência, como dizia a Sophia, E penso para comigo que é o país que será destruído quando a âncora social, que é o Serviço Nacional de Saúde, por absurdo, for vendido ao desbarato aos interesses privados.

quarta-feira, 5 de março de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


Passos Coelho andou, nestes anos de governo, a encher a boca com a desculpa de que os cortes salariais e nas pensões, bem como o "imposto" chamado de complemento solidário, que os reformados vêm suportando, era tudo provisório. Diz o ditado que se apanha mais depressa um mentiroso de que um coxo. E Passos Coelho tem sido mentiroso compulsivo. 
Hoje,o primeiro-ministro afirmou durante o debate quinzenal, na Assembleia da República, de que "não há condições para manter o nível salarial de 2011" insinuando que os cortes salariais e das pensões são definitivos. Eis a mentira como prática política sistemática.

O CARVALHAL É NOSSO!


Serra acima, a caminho do Carvalhal
Há clamores colectivos que vêm dos confins do tempo e resistem na memória efémera das coisas, como se quisessem iluminar os dias de hoje pela sua exemplaridade. 
O carvalhal é nosso! Foi esse clamor que, um dia, no ano de 1891, se elevou mais forte, como um grito que ecoou pela serrania. O povo do Souto da Casa, como se fora um gesto milenar, tomou o caminho da serra para repartir o uso do agro, com a alegria de quem exerce um direito tão natural como o ar que se respira. Levavam consigo, os homens, as alfaias do seu trabalho, enxadas, sachos, roçadoras, e as mulheres, com os farnéis, que assim exigia a festa. 
Nesse dia, pareceu a muitos que a subida fora mais fácil. Já lá estavam. Os olhos reconheciam os lugares, as arestas graníticas da Gardunha, os castanheiros despidos, sempre altivos, com aqueles troncos magníficos que precisavam de muitos braços, à volta, para medir o seu bojo de madeira várias vezes secular. 
Os olhos viram mais e abriram-se de espanto. O senhor Aquém, feitor da Casa Garrett, tinha já, por ordem dos senhores, derrubado alguns castanheiros e dizia agora ao povo que aquela terra era do Senhor e que a “sorte” das glebas acabara. Foi, então, que o povo cresceu para o feitor. Eram muitos como um só. 
-- De quem é o carvalhal? - perguntou o clamor. 
-- É do senhor Garrett! - respondeu António Aquém. 
Fechou-se mais o círculo, adensou-se a raiva, amplificou-se a voz colectiva. 
-- De quem é o carvalhal? De quem é o carvalhal? 
O homem queria garantir a fidelidade aos senhores e continuava a responder como se brandisse o título de propriedade dos Garrett. Uma e outra vez a pergunta se formulou -- de quem é o carvalhal? -- e um mais afoito, para grandes males, grandes remédios, decidiu: 
-- Vamos colocar-lhe no lombo um tronco dos que cortou e vai arrastá-lo até ao Souto, até que reconheça que o carvalhal é nosso. 
Parece que andou uns metros assim. Voltou a pergunta sacramental: 
-- De quem é o carvalhal? 
O Aquém cedeu: 
-- O carvalhal é vosso! 
Não estava satisfeito o povo, que exigia identificação plena com os direitos da população, de que ele, afinal, fazia parte, era um entre os mais. 
-- O carvalhal é nosso! 
E aí, sim, começou de novo a festa. Ele fazia parte do povo.Voltou a soar o tiro no cabeço. 

O céu é de quem no ganha
e a terra é de quem na apanha... 

Há muitos anos que não há repartição das glebas e o lugar do Carvalhal é um sítio fantástico e de lazer, menos inóspito, aonde se pode chegar por estrada florestal, e não por tortuosos caminhos de montanha. Mantém intacto o milagre de paisagens fabulosas. Já não soa a caçadeira do regedor no Cabeço do Tiro, mas eleva-se no ar, todos os anos, nesse lugar mítico, um foguete para sinalizar, agora, que a festa de convívio pode começar. 
De cada vez que subo ao carvalhal, em quarta-feira de Cinzas, para renovar a memória sobre a pertença colectiva do lugar, lembro-me sempre do espantoso conto de Tolstoi, A Terra de que um homem precisa. Há muitos anos, aqui, nas alturas da Gardunha, vivia-se idêntica sede e fome de terra com a mesma intensidade e porventura com a mesma esperança nos olhos camponeses, que o autor de Guerra e Paz tão bem retratou nas paragens longínquas da Rússia. É, sobretudo, esta tomada do carvalhal que o povo simbolicamente continua a celebrar, com um forte sentido comunitário, que parece tão forte como as raízes dos velhos castanheiros. Há sempre o som rebelde dos bombos. E muita alegria. Toalha estendida para quem vier por bem. Lembro, outra vez, o Zeca. Aqui está o Carvalhal: terra da fraternidade. Em cada rosto um amigo. 
O Carvalhal é nosso

terça-feira, 4 de março de 2014

UM SORRISO


Partilho este sorriso, através da música, por obra e graça do Manuel Freire. Para contrariar aquela ideia tão negra: Que tempos são estes em que sorrir parece um crime (Brecht tinha dito: em que defender uma árvore parece um crime)...
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PERFUMES DA GUERRA FRIA


Habituados aos conflitos regionais, que são longe da Europa e dos EUA, onde às vezes morrem milhões (a dor dos outros é a que é verdadeiramente suportável), olhamos com um certo desencanto e indiferença para os focos de tensão internacional,como se fossem fatalidades que os arranjos políticos das super-potência, ou o que resta delas, acabarão por resolver de acordo com os próprios interesses específicos.
Na aceleração da História que fez cair o Muro de Berlim e implodir o império soviético, ingenuamente se julgou que o mundo se tornaria um espaço mais convivial e pacífico, no quadro de uma globalização em que todos partilhariam alegremente o tempo e o espaço. Logo se viu que tudo isso radicava numa mitologia excessiva que não cabia na realidade. Porque se a guerra fria (URSS-EUA)aparentemente tinha os dias contados, do congelador foram retiradas outras guerras (Juguslávias, Iraques, Afeganistões...) que mostraram como os cidadãos estavam cada vez mais indefesos e viviam sobressaltos dramáticos, ao virar da esquina. Nesta situação, geradora de vários equívocos, assistimos a uns EUA que julgavam poder continuar a exercer o policiamento do mundo, quando já não tinha condições geo-políticas para o fazer, e à debilidade de uma Europa, que nem era capaz de ter política externa e de defesa, manietada pela NATO ou pelas contradições nacionais dos seus Estados, em que só a Alemanha tem voz activa.
É neste contexto que surge o problema da Ucrânia, em que a insensatez da Europa veio dar, de mão beijada, uma oportunidade à Rússia não só de reafirmar o controle da Crimeia (tão dependente de velhas engenharias sociais), mas de jogar o seu poder real num contexto mais global. Estamos face a uma situação em que a velha ideia de que a política é a guerra por outros meios, volta a mostrar as suas virtualidades.
Francisco Sena Santos (in Assim vai o mundo, por Francisco Sena Santos, Sapo Notícias) diz, em mais uma excelente crónica, contextualizadora do problema, que é o perfume da guerra fria que está a regressar. Vale a pena ouvi-lo.

PERFUMES DE GUERRA FRIA

segunda-feira, 3 de março de 2014

O BAILE DE MÁSCARAS EM S.BENTO


O salão do Palácio de S. Bento engalanou-se para o Baile de Máscaras, que o Primeiro resolvera convocar, dado o clima de festa que todo o Governo respirava, por via da saída limpa do pós-Troika. Exultante com os indicadores, Passos e Portas consultavam os papéis.
-- Veja as exportações, somos os melhores! -- exclamava o Vice.
-- Olhe, o desemprego! E a emigração! Ninguém nos bate...
Era Passos, e logo o outro, esfregando as mãos:
-- Isto é que é um país, caramba! Os funcionários públicos estão cada vez mais proletarizados e pobres, e os reformados piam baixinho! Gostei muito daquela sua ideia de que ainda vem aí mais pancada! Brilhante, porrada em cima deles...
Sorriam os dois, velhacamente, quando o Primeiro se saiu com esta:
-- Temos que festejar a nossa obra, Paulinho. Vamos promover um Baile de Máscaras para o nosso pessoal. Todos mascarados, não admito recusas...



Domingo Gordo amanheceu com um tempo endiabrado: chuva e vento de aviso laranja, prenúncio de tempestade. Que chatice, tiveram que cancelar-se as brincadeiras previstas para o jardim.
Mas o salão brilhava, havia serpentinas e confetis por todo o lado, e, a um canto, uma orquestra de via reduzida, tocava uma musiquinha para adoçar o ambiente.
Começaram a chegar os convidados. O primeiro a entrar foi o Vice Portas, que personificava o homem das duas caras. Espantosa a bifacialidade do homem. Como lhe ficava bem!
Entrou a correr, esbaforida, Maria Luís Albuquerque, e Portas quase deu um grito. Vinha mascarada de Vampira, e fazia uns trejeitos com a boca que lhe punham em relevo dois dentes que eram lâminas perfuradoras para chupar o sangue da manada.
Surpresa foi Pires de Lima, que trazia uma impressiva máscara de Cristo, com uma túnica que lhe tapava as sandálias, e pendurado ao pescoço um dístico: "Jesus Cristo bebia cerveja!"
O salão ia-se enchendo, a orquestra atacava agora uma coisa mais mexida. Teixeira da Cruz vinha de Merkel (sem sombra de bigode) e logo a seguir Aguiar-Branco era um marujinho na perfeição, com dois barquinhos na mão. Portas que olhara de longe, parecera-lhe ver dois submarinos, e murmurou:
-- Ora, a besta! Vir para aqui com uma coisa destas...
Que animação! Era agora a vez de Cristas, uma Maria Papoila a menear-se, muito campestre, seguida de Moreira de Silva, que vinha de escuteirinho das boas acções, e Mota Soares, de Anjinho, com duas asas que ele mal aguentava no lombo.
Todos muito aplaudidos, até Crato que vinha de Palhaço Mau, o que lhe ficava na perfeição. Houve uma exclamação na sala, quando surgiu Vitor Gaspar, de Super Homem, com uma imponente capa que levava no peito um enorme cifrão com a sigla do FMI. Trazia pela arreata um macaquinho, que dava pulinhos e só dizia "leva-me contigo, leva-me contigo, que sou fiel servidor do FMI". Era o Moedas, claro.
Outro grupo: Relvas era Lázaro, Santana Lopes um Sem-Abrigo, Marques Mendes um Asterix a pôr-se furiosamente em bicos de pés na esperança de ver qualquer coisa. E depois Marcelo, o Grande Mágico, que deu meia volta, fez uma vénia e explicou:
-- Eu vinha ali de táxi, e então lembrei-me: também lá vou! Foi um vaipe...
Comunicaram a Cavaco que a coisa já estava composta e ele entrou, a sorrir, para um lado e para o outro. Houve quem ficasse atónito: vinha mascarado de Presidente da República, às dentadas, vorazes, num enorme bolo de rei, que segurava com ambas as mãos. Quem ficou radiante com esta ideia foi o "nosso" Álvaro, que estava disfarçado de Pastel de Nata.
No meio do salão já Marques Guedes, mascarado de Polícia de Trânsito, tentava disciplinar a maralha. Preparava-se o ambiente para a entrada grandiosa de Passos Coelho, entretanto avisado de que já estava o Marcelo...
E ele surgiu, com a orquestra a tocar um tom mais épico. Fez-se um ah! geral, ele trazia duas máscaras, e a primeira era de Seguro.
-- Caramba! os gajos são iguais... -- exclamou, alto, Marcelo.
Ouviu-se Portas:
-- São dois em um!
Passos atirou Seguro para o chão, espezinhou-o, e colocou a segunda máscara que era a de que ele verdadeiramente gostava. E transfigurou-se: era um Pirata, pior que o Capitão Gancho! E com a voz de falso tenor:
-- A roubar ninguém me bate!



Estava-se nisto quando, com um estrondo brutal, um grupo forçou a entrada. E logo um deu um salto e desembainhou a espada. Era António Capucho, que fazia um Zorro imponente. E atrás dele, Três Mosqueteiros, equipados a preceito, o Rui Rio (Aramis), Pacheco Pereira (Porthos) Manuela Ferreira Leite (Athos). 
Estabeleceu-se uma enorme confusão. Zorro queria passar o Pirata a fio de espada, enquanto os Mosqueteiros diziam, alto e bom som:
-- É preciso limpar esta trampa! Tem que haver uma saída limpa para esta porcaria!
Foi a debandada. E o Pirata Passos Coelho saiu apressadamente pela porta dos fundos.
Mais tarde, no seu comentário da televisão, Marcelo:
-- Sabe, Judite! Foi um domingo gordo muito triste. O tempo  fazia má cara ao carnaval. Veja lá, eu caí por engano num Baile de Máscaras, que se transformou numa batalha campal. Já não se dança conforme a música. Bem, uma chatice... 

domingo, 2 de março de 2014

A MORTE DE ALAIN RESNAIS



Uma sensação estranha é a que deixa a notícia da morte de Alain 
Resnais, aos 91 anos, em Paris. Habituamo-nos a olhar para estas figuras gradas da cultura mundial como se fossem eternas, tal o grau de fascínio das suas obras, tal o contributo do seu percurso criador para a libertação da homem através da arte. Alain Resnais manejou como poucos a sabedoria de fazer rodar a máquina dos sonhos que é o cinema para tornar mais rico o nosso imaginário.
Há obras de Resnais que me acompanharam sempre, desde que, fascinado, as vi a primeira vez, porque elas me pareciam essenciais para perceber o compromisso do cinema com a realidade e com a memória. 
"Noite e Nevoeiro" (Nuit et Brouillard), o despojado e comovente documentário sobre a viagem de comboio para Auschwitz (aqueles que iam para a morte como gado), uma narrativa ao mesmo tempo poética e de memória funda sobre a descida ao inferno da mais absurda desumanidade. Essa faceta de reconstrução da memória, para evitar não perde-la definitivamente, sobre situações limite da condição humana acompanha o realizador em outras obras como "Guernika" ou "Hiroshima, Meu Amor", com o magnífico guião de Margarite Duras, uma simbiose entre dilacerada memória individual e colectiva, a ocupação francesa e a bomba de Hiroshima. 
Alain Resnais foi, noutro plano, um inovador. Marcou indelevelmente o grande cinema francês e os seus filmes alcançaram tal dimensão estética que o definiram, ao mesmo tempo como clássico (criador de um estilo) e inovador. É impossível não referir, da sua filmografia, "O Ano Passado em Mariembad", "O Meu Tio da América", "Medos Privados em Lugares Públicos", entre outros. Há dois anos, numa entrevista, perguntaram-lhe o que ele pensava da morte. "Essa é a grande questão", respondeu Resnais. "Desde que nascemos, estamos condenados, sabendo que a morte nos espera em algum momento. Eu gostaria de ter a inteligência de um professor da Sorbonne para responder a isso, mas só posso devolver a questão". Morreu agora, por sinal em tempo de carnaval, como aconteceu também com Charlie Chaplin. Outro génio do cinema.