sábado, 15 de março de 2014

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Num tempo em que a problemática da historiografia local era quase uma mera curiosidade, sem a dignidade científica que indiscutivelmente merecia, o dr. José Monteiro, no caso do Fundão, mostrou que não era assim. À distância do tempo, e para lá das clivagens ideológicas que a produção da História traduz, as suas investigações constituem hoje um contributo importante para a escrita de uma narrativa histórica mais actualizada e actualizante. Mas induscutível é o acervo que José Monteiro nos deixou, não só na investigação histórica, mas também na etnografia e mesmo no campo da linguística local.
Os anos 40 foram particularmente fecundos nessa investigação tematicamente plurifacetada, de dimensão vastíssima, que é o prosseguimento de uma paixão nascida no convívio com o Prof. José Leite dev Vasconcelos, que não devemos temer em catalogar como sábio. O dr. José Monteiro acompanhou-o pela geografia da Beira e penso que isso foi determinante para os seus trabalhos futuros. De resto, ele próprio explicou essa influência tutelar num texto escrito, em 1941, intitulado O Mestre da Etnografia Portuguesa no Fundão - O Sábio e o Homem".
Como Mestre Leite de Vasconcelos, José Monteiro anotava tudo. Palmilhou o concelho, andou de terra em terra percebendo costumes antiquíssimos, investigou achados arqueológicos, que depois estudou, descreveu paisagens e lugares, falou com pessoas anotando milhares de dizeres tradicionais, que bem merecem uma edição cuidada, aliás na sequência da memória dessa pesquisa deixada no registo do "Jornal do Fundão, pelo eng. Bartolomeu Monteiro. Penso que era uma obra de grande interesse e utilidade, porventura um estudo crítico que desse maior expressão à importância desse trabalho, para melhor se compreender o mundo que já perdemos, mas que é necessário guardar na memória colectiva como traço distintivo de identidade.
Hoje, na voragem de um tempo mais rápido do que a própria sombra, em que os acontecimentos envelhecem rapidamente, esse labor de muitos dias, muitos meses e muitos anos, cavando fundo à procura de tesouros do passado ou de preciosidades moldadas pelos saberes do povo, tem um valor inestimável. Seríamos mais pobres, muito mais pobres, sem essa percepção da História que tiveram homens como José Monteiro.
E para mostrar que assim é, deixo ao prazer da leitura a "Nótula Dialectal: O Casamento da Franguinha", que o dr. José Monteiro recolheu em Vale de Prazeres, julgo que nos anos 40, e inserta no volume Ao Redor do Fundão.

Dixe o galo prà galinha:
- Ibamos de casar a nossa felinha.
- O casamento temos nós já,
o padrinho daonde virá?

Salt'ò rato lá do beréquinho.
stava pronto pra ser o padrinho.
- Padrinho temos nós já,
a madrinha daonde virá?

Salta a cobra do mei' da vinha,
stava pronta pra ser a madrinha.
- Madrinha temos nós já,
o inxeval daonde virá?

Salta aranha do arenháli,
stava pronta a dar o inxeváli
- Inxeval temos nós já,
dançarinos daonde virá?

Saltem nas moscas qu'andem no ári,
stavem prontas para ir a dançari.
-Dançarinos temos nós já,
gaitêros daonde virá?

Salta o burro lá do palhêro,
stava pronto para ser o gaitêro.
- gaitêro temos nós já.

- Tatachim, vamos a dançari,
quá nossa felhinha vai-s' a casári!










sexta-feira, 14 de março de 2014

O CRIME DE TER IDEIAS


Salazar, o "manholas" de Santa Comba, durante décadas, para justificar a sua ditadura e a pobreza infligida aos portuguesas (ah, o equilíbrio das contas públicas!), dizia que o povo não estava preparado para democracia... e então ele decidia por todos.
Agora, de novo, a argumentária salazarenta surgiu, por parte do governo (e, sobretudo, de Passos), para zurzir o manifesto em que 70 personalidades, de vários quadrantes do pensamento, vieram sugerir a reestruturação da dívida. A iniciativa foi logo acoimada de anti-patriótica e inoportuna, pois tal matéria está no Index do governo.
Hoje, mais uma vez, Fernando Alves, fez crónica notável. Os seus "Sinais" continuam a marcar o jornalismo radiofónico que se faz por cá. Façam o favor de ouvir: 2014-03-14 Consenso e oportunidade

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

Como o outro que dizia que o futuro é muito tempo, assim se desembrulha a aldrabice dos "cortes temporários", com que o primeiro-ministro castigou os portugueses. Pelas explicações dadas por Coelho, quando forem levantados -- estaremos todos mortos! Vejam o que ele disse. Os cortes em salários e pensões que o anterior ministro das Finanças, Vítor Gaspar, anunciou como "temporários", vão durar muito tempo, deixou cair ontem Pedro Passos Coelho. O valor destes rendimentos terá, seguramente, de ficar "indexado" ao andamento da economia e ao cumprimento das regras orçamentais, que exigem excedentes orçamentais e redução persistente da dívida pública durante os próximos 20 anos. São cortes "para o futuro, não para todo o sempre", disse. Pois é, o futuro é muito tempo...

OS QUE SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OS OUTROS


Séculos e séculos de desigualdades e de tratamento diferenciado dos cidadãos (às vezes mais súbditos do que cidadãos) cristalizaram comportamentos negativos, que se tornaram socialmente nocivos na sociedade portuguesa. Não é verdade que todos os portugueses são iguais perante a lei. Há sempre uns que são mais iguais do que os outros. Essa percepção da realidade fortalece-se todos os dias quando a actualidade judiciária fornece exemplos das prescrições que acontecem a casos como o de Jardim Gonçalves, que foi presenteado com a prescrição da multa de um milhão de euros imposta pelo Banco de Portugal, ou viu outra diminuída para 500 mil euros, por outro tribunal. Em causa o escândalo do BCP, que custou caro aos contribuintes, e o mesmo poderá acontecer com Rendeiro ou até, sabe-se lá, com a quadrilha do BPN. Constituem uma casta poderosa, muitos criados na órbita do Cavaquismo, como a rede de Oliveira e Costa, onde figura até um ex-conselheiro do Estado, Dias Loureiro (onde é que ele pára?). Esses são sempre mais iguais do que os outros, com grandes gabinetes de advogados ao seu serviço para manipularem o tempo e o curso dos processos.
Este problema velho, de um sistema que favorece os poderosos, os homens das sórdidas traficâncias financeiras, com ou sem colarinho branco, já quase não espanta ninguém, até poderá haver piedosas criaturas que digam: afinal, eles são espertos! Há anos, sobre esses sujeitos que mamam e mamam bem -- são muito vorazes no mamar, graças a Deus! -- escrevi uma crónica, que penso ser interessante para os dias de hoje, e que aqui deixo como metáfora para mostrar como essas situações se perpetuam em Portugal.

É uma história de duas vacas e,como todas as narrativas de proveito e exemplo, contém aquela dose de ironia que a torna sugestiva e fecunda de sentidos. É capaz de abrir um sorriso largo porque não faltam, por todo o lado, rapazes bons e sacrificados que também têm não uma, mas muitas vacas, e todas elas sem mácula ou imputação de mau comportamento. Porque são suas e a titularidade das coisas tem muita força.
Então, a historinha. Era uma vez (convém sempre começar estas coisas assim, pois é expressão consagrada que nos transporta para fora do tempo), era uma vez, dizia, um homem que chegou à cidade com duas vacas, uma negra e outra branca. Eram dois exemplares magníficos, que o homem exibia com orgulho. Quando lhe elogiavam o peso, exactamente o mesmo de ambas as vacas, ele dizia:
-- É que a branca é extraordinária!
-- E a preta? -- interrogavam os circunstantes.
-- A preta também! -- respondia o homem.
Se a conversa girava para o leite que davam as vacas -- exactamente os mesmos litros cada uma -- ele formulava a mesma resposta:
-- É que a branca...
-- E a preta? -- voltavam a perguntar.
-- A preta também! -- respondia o homem
Cansados da distinção entre vacas de igual envergadura e rendimento, os amigos perguntaram-lhe:
-- Por que fazes tanta distinção, se as vacas são exactamente iguais?
-- É que a branca é minha! -- respondeu ele.
-- E a preta?
-- A preta também!
Na política, como no resto, encontramos à boa paz indivíduos que reduzem a realidade ao universo dos seus interesses, sobrepondo-os a tudo, e isso basta para serem felizes. O problema é que a vidinha é bem mais complicada do que o dualismo das vacas -- a branca e a negra -- e nem todos têm direito a ter à mão duas vaquinhas para mamar. Para mamar em vários carrinhos, como diz o povo.

Estes figurões, que são sempre mais iguais do que os outros, e que os tribunais benevolamente perdoam, são mamões de primeira categoria. Não há tetas que os satisfaçam. E lá vão, cantando e rindo... à custa do povo português!

quinta-feira, 13 de março de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

Curiosa a forma como na Assembleia da República foi hoje desmistificada a mentira de que a situação do país, na sequência do ajustamento, está a caminho de um mundo bestial, um "paraíso" à escala da benfeitora Troika. "Falam de crescimento da produção industrial e de exportações, de garantias-jovens, de acesso a jovens, de acesso à educação e formação, como quem fala de feijoada a quem passa fome", criticou João Oliveira, no final da interpelação ao executivo da maioria PSD/CDS-PP.
Para o parlamentar do PCP, "comprovou-se que a realidade é bem diferente daquilo que propagandeia o Governo" e "Portugal está hoje pior do que quando foi assinado o pacto pelas 'troikas'".
"Governo e maioria querem convencer-nos de que o país está melhor do que em 2011. E que todos devemos estar gratos pelo que fizeram nos últimos três anos, de que valeu a pena toda a destruição económica e social, todos os dramas individuais e coletivos", lastimou.
O deputado comunista afirmou que os membros do executivo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas "roubaram salários, pensões e direitos, dizendo que tudo era temporário e hoje é evidente que se preparam para manter o roubo perpetuamente".

CANTAR VERDI EM DEFESA DA CULTURA


Não há como as palavras e a música para darem força simbólica aos protestos cívicos, serem um vento de esperança no meio da noite. Há dias, numa praça de Madrid, mais de mil pessoas cantaram o Coro dos Escravos do Nabuco, de Giuseppe Verdi. Não é possível saber quantas vezes, em circunstâncias terríveis da vida da humanidade, em liquidações sumárias e assassinatos da liberdade, a música de Verdi acrescentou um horizonte de esperança e estimulou batalhas de libertação. Mas na jornada da Praça da Independência, diz o repórter do "El Pais", quando 1.200 pessoas elevaram a voz para cantar o Coro dos Escravos, um instante de emoção percorreu a multidão que enchia a Praça e lágrimas surgiram nos rostos inquietos.
A jornada de Madrid era em defesa da cultura. E aquele grito colectivo, dilatado pela música universal de Verdi, era uma afirmação de dignidade e de liberdade, que é aquilo que tanto em Espanha como em Portugal nos tem estado a ser roubado. Estes governos, capatazes de obscuros interesses financeiros, também sacam da pistola de cada vez que ouvem falar em cultura. Ao empobrecimento geral, soma-se a subalternização da cultura, como matéria dispensável à vida quotidiana. É um crime silencioso que vem acontecendo e que, a prazo, visa limitar as consciências e a capacidade crítica e de intervenção dos cidadãos. Visa liquidar a cidadania. 
Na reportagem do "El Pais", o jornalista Rafael Fráguas contava um episódio de proveito e exemplo. "Durante a guerra mundial propuseram a Winston Churchill cortar o apoio à cultura. O político inglês respondeu: "Então, para que lutamos?"
Verdi: o Coro dos Escravos contra a ignomínia do tempo que vivemos.



quarta-feira, 12 de março de 2014

PINÓQUIO E AS MENTIRAS DO DIA

Nicolau Santos, hoje no "Expresso on line":
"A ministra das Finanças disse esta manhã em Paris que a dívida portuguesa é sustentável e que a sua reestruturação não está na ordem do dia.
O primeiro-ministro disse esta manhã em Lisboa a mesma coisa, acrescentando que se tivermos 1,8% de excedente primário orçamental em termos médios, 1% de inflação e 1,5% a 2% de crescimento que poderemos pagar a dívida sem necessitarmos de mais tempo nem de melhoria de condições.
O Presidente da República escreveu no prefácio aos seus Roteiros que só com um excedente primário médio anual de 3% e um crescimento nominal de 4% conseguiremos cumprir os 60% da dívida e pagar 75% do empréstimo da troika em...2035.
Ora sabendo que Maria Luís Albuquerque se formou na Universidade Lusíada e tirou um mestrado no ISEG; que Pedro Passos Coelho foi seu aluno e também se formou na Universidade Lusíada; e que Cavaco Silva se formou no ISEG e tirou um doutoramento na Universidade de York, a pergunta é: em qual destas pessoas acredita mais em matéria de previsões económicas?"

O PASSO TROCADO DE PASSOS COELHO

Contava-se que um dia, na tropa, um sargento recriminou um recruta porque ele, por mais voltas que desse, não era capaz de acertar o passo. Ele teimava que o seu andamento é que estava certo e que todo o restante pelotão estava errado. Claro que face a essa incompetência, o sargento não teve outra alternativa senão tirá-lo da forma. O primeiro-ministro há muito tempo que anda com o passo trocado, liquidando a marcha do país, ou, por outra, atirando com ele para o abismo.
Ainda agora 70 personalidades, das mais relevantes da sociedade portuguesa, num arco plural que vai da esquerda à direita, assinaram um manifesto em que apontam o caminho da renegociação da dívida, diluindo-a no tempo, única forma de poder haver crescimento em Portugal. É uma necessidade óbvia, pois a dívida é insustentável. E se em S. Bento ou em Belém houvesse calculadoras, há muito tinham chegado a essa conclusão. 
Face à sugestão para renegociar a dívida, que disse Passos Coelho? Isto: "Se eu quisesse pôr em causa o financiamento do país e destas políticas públicas, subscreveria o manifesto e nessa medida tinha a certeza de estar a enviar a mensagem errada a todos aqueles que esperam que Portugal cumpra as suas obrigações. Frequentemente são os caminhos mais fáceis que nos levam a situações de maior insustentabilidade".
Cá vai ele, alegremente, com o passo trocado, louvando a finis patriae. O problema, aqui, é que não há um sargentão que o tire da forma e o mande dar uma volta ao bilhar grande, bem longe dos portugueses.

terça-feira, 11 de março de 2014

ÁGUAS DE MARÇO

Bastaram uns dias de sol para o coração da terra começar a bater mais depressa e na sua respiração telúrica fazer uma aceno à primavera. Aí está a começar a transmutação dos campos e a marcar o ciclo do tempo. Agora "verdes são os campos da cor de limão", não faltam os tapetes de malmequeres e o cromatismo das flores dos pessegueiros e macieiras e já de algumas cerejeiras a dizer que a paisagem é uma benção para os olhos. Quem avançar pelos campos encontra vários deslumbramentos, a começar pelas sinfonias da passarada, nos seus cantos solares de celebração primaveril. E os fios de água, que também cantam, ladeados de salgueiros em floração. 
Então, pensei nas "águas de março", essa espantosa canção de Nara Leão, que parece estar para além do tempo, sempre a emoção poética junto ao coração. Bem sei que, entre o Brasil e Portugal, os ciclos de tempo não se justapõem e as águas de março respondem, num lado e outro, a calendários diferentes.
Mas são águas de março. Deixemo-las correr assim, imemoriais, pela voz genial de Nara Leão. Oiçamo-la.

PAULO PORTAS DONO DE PORTUGAL!


Pintura de Pedro Porrtugal
Há um tempo longo na sociedade portuguesa altamente revelador de como a apropriação do Estado por grupos e redes clientelares que cavam no fundo o abismo das desigualdades e perpetuam a exploração, mantendo a pobreza como fronteira de todos os medos e de todas as angústias. Está mais do que estudada a forma como se perpetua o domínio do capital financeiro e como os rostos dos principais "donos de Portugal" se reproduz.
No domínio da política, cujos agentes, na maior parte dos casos, se tornaram fiéis servidores dos senhores do dinheiro, vícios antigos (lembram-se dos "devoristas" do séc. XIX?) ganharam novas e peritas fórmulas de actuação, embora o crime se mantivesse o mesmo: encarar o país como uma coutada para serviço próprio e para a instalação de poderosas redes de clientes. O Estado tornou-se, assim, uma espécie de quinta para comprar e pagar favores, como se o país, afinal, não fosse mais que uma quinta para usar, consoante a paga de fidelidades ou proveitos.
Um acontecimento da actualidade política veio mostrar como essa visão do país, essa matriz ideológica que articula a relação entre as públicas virtudes e os vícios privados, está enraizada no comportamento das mais altas figuras do Estado. O vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, ainda agora provou que é assim que se fazem as coisas.
Atente o leitor. No arranjo da coligação (PSD-CDS) para as eleições ao Parlamento Europeu, resolveu Portas sacudir o euro-deputado Diogo Feio, em favor da militante Birrento, de Setúbal, que será o nome centrista a seguir a Nuno Melo.
Ao contrário de Nuno Melo, que tem um jeito trauliteiro de dialogar e fazer política, Diogo Feio manteve sempre uma postura cordata, com uma acção no PE geralmente reconhecida como positiva. Mas Portas correu com ele para dar assento à Birrento.
Ora, certamente como vice-primeiro-ministro e não como chefe partidário (ou nas duas qualidades?) veio dizer que Diogo Feio iria ser compensado com um alto cargo no Estado, havendo logo quem falasse para ficar à frente da AICEP!
Faz-se isto, assim, com total falta de pudor. Paulo Portas julga-se, de facto, um dos donos de Portugal, senhor absoluto de uma República das Bananas...

segunda-feira, 10 de março de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

O Presidente da República, que me lembre, só no tempo de Sócrates fez um discurso arrasador contra a política dos pecs, dizendo mesmo que havia limites para os sacrifícios. Ora, o dilúvio das medidas recessivas, a espiral da pobreza, o desemprego que atinge mais de um milhão de portugueses, a saída da emigração para os mais jovens como único horizonte, vieram depois e estão aí para ficar e atormentar a vida e a morte dos portugueses. E sua excelência, moita carrasco. Zero! O silêncio é de oiro... Foi irmão siamês do governo.
Veio agora exercitar pensamento projectivo e apontar o relançamento da economia como uma das questões prioritárias do pós-Troika e dizer ser essencial corrigir as "injustiças acumuladas" na distribuição dos sacrifícios durante o período referente ao programa da ajustamento. Tarde e a más horas!

domingo, 9 de março de 2014

O MILAGRE SEGUNDO CAVACO


Será falta de memória? Será apenas oportunismo para preencher agenda política? Será falta de pudor? Não sei, exactamente, o que leva políticos como Cavaco Silva, agora com redobradas responsabilidades por ser Presidente da República, a esquecer a sua acção política como primeiro-ministro, durante dez anos. É certo que ele costuma falar com se não tivesse responsabilidades no cartório e até não fosse político. Pois bem,todos se lembram que foi durante o seu consulado, como chefe do governo, que sua excelência, cedendo aos ditames da PAC, procedeu à destruição da estrutura produtiva da agricultura portuguesa. Tempos em que se preconizou o abandono dos campos e ser agricultor era quase uma despromoção social. Sua excelência cavou isso, alegremente.
Agora, foi ao Algarve desafiar os jovens a tentarem uma "experiência na agricultura", como alternativa ao desemprego e à emigração! "Precisamos de convencer mais jovens que esta pode ser uma actividade rentável e que em lugar de irem para o estrangeiro para tentarem encontrar um emprego, podem, eventualmente, beneficiando dos apoios que agora serão reforçados, fazer uma experiência na agricultura", disse Cavaco.
Será que ele que conhece s realidade do interior português, bloqueado por falta de oportunidades, por sistemático abandono, por ausência de políticas, por desigualdades todos os dias cavadas mais fundo?
Mas aí está o milagre segundo Cavaco. Ei-lo a distribuir enxadas aos mais jovens da tribo e a dizer-lhes:
-- Tomais e cavai! Plantai batatas, meus filhos, e vosso será o reino dos céus!