sábado, 22 de março de 2014

RICOS E POBRES


Frequento o Blogue Sine Die, que é um blogue de magistrados, onde, para lá de um pensamento meramente corporativo sobre a Justiça, se exercita um pensamento autónomo sobre a sociedade portuguesa. Gosto particularmente de ler (e aconselho-os aos leitores) os textos de Artur Costa e Eduardo Maia Costa. Não resisto a transcrever, aqui, a nota curta de EMC, intitulada "Os ricos é que estão a pagar a crise... Ora, leiam: 

Os ricos é que estão a pagar a crise...

"Quem o diz é o PM. Os ricos pagaram mais do dobro dos pobres, isto é, dos de "menos posses", porque pobres não há em Portugal. Não se compreendem as queixas de trabalhadores, reformados, funcionários, classes médias, desempregados, etc. Porquê tanto protesto se são privilegiados nos sacrifícios? Razão para vir para a rua têm os ricos, e manifestamente só por distração (têm muito dinheiro para contar), falta de treino ou "know-how" (nunca participaram nem sabem como se organiza uma manifestação) ou educação (manifestar-se é uma coisa imprópria de gente elegante) é que ainda não vimos banqueiros, grandes empresários e outros grandes sacrificados tentar subir as escadas da AR empurrando os polícias..."

ADMIRÁVEL CONVERSA


O que verdadeiramente define a cultura é quando o estilo atinge tal grau de naturalidade que as palavras se tornam apropriáveis pelos que as ouvem e passam a ser parte inteira da construção do conhecimento. Foi isso que aconteceu, em larga medida, no conteúdo e na forma como o Prof. João Lobo Antunes veio à Covilhã apresentar o livro do Reitor da UBI, Prof. António Fidalgo, Ética Mínima - Pequeno Guia para Tempos Difíceis.
Uma sessão destas -- falo de experiência feita -- poderia estar fadada para resultar num encontro académico, de retórica hermética como é, às vezes, a dos concílios dos deuses em que muitos intelectuais gostam de mergulhar a alma. Ora, o que aconteceu foi precisamente o contrário. O Prof. João Lobo Antunes despojou-se dessa circunstância para uma fala coloquial, uma admirável conversa em que, fazendo a rigorosa leitura de Etica Mínima, entrecortava os conceitos subjacentes à obra de António Fidalgo, com o seu percurso de vida (dele, JLA), desde a sua passagem pelos EUA, na longa aprendizagem do seu ofício, até à afirmação de uma carreira singularíssima na história da medicina portuguesa contemporânea, síntese de muitos êxitos. E nessa viagem não esquecia ele a dimensão humana, ilustrada por muitas histórias que não eram outra coisa senão o desafio provocado pela leitura de Ética Mínima. Tudo isso feito sempre com uma erudição amável, que é aquela que gosta de ser repartida como o pão.
O neurocirurgião, com obra vastíssima no domínio científico, confessou que gostaria de escrever um livro Ensaio Sobre o Ensaio, como Sílvio Lima, comentando logo a seguir a definição de Ortega e Gasset: "ensaio é ciência sem prova científica". 
Eu penso, de facto, que o Prof. João Lobo Antunes é um grande ensaísta, que empresta sempre aos temas literários em que mergulha, horizontes novos, pistas estimulantes para se perceberem os autores e as suas obras. Vou só citar o ensaio que produziu sobre Steiner ou o prefácio riquíssimo que fez para De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires.
Quer isto dizer que essa sua faceta radica numa vastíssima visão cultural, que lhe permite olhar para a realidade e para os outros com aquele sentido que o poeta Carlos Queiroz um dia recomendou: "olhar só para as coisas/ é inútil e vão/ porque por dentro das coisas/ é que as coisas estão". Foi essa perspectiva que, penso eu, ele recolheu de Ética Mínima, porque sendo "um guia para Tempos Difíceis", João Lobo Antunes sobrepunha aos princípios enunciados por António Fidalgo, a espessura dos tempos nos fenómenos comportamentais identificadores das sociedades.
"Um livro em que o povo é o autor mais citado", afirmou com certa ironia sobre a obra de um filósofo. "Um livro conservador nos princípios e nas regras, mas um livro benevolente com a natureza. Benevolência sobre as nossas fraquezas". E, com a ironia, que pratica com inteligência, comentou: "Em cada página, uma absolvição!"
"Um livro austero", considerou, sublinhando que o que caracteriza "as dificuldades de hoje" são "as incertezas sobre o futuro". Mas disse que a grande virtualidade do tempo que vivemos é "sabermos que somos todos diferentes" e que "a humildade" deve ser a nossa "companheira diária".
Aludindo ao título, António Fidalgo dizia-me a sorrir: Ética Mínima sed dura!
O livro desafia a uma leitura rápida. A escrita é simples e atractiva. Ou não fosse o povo o autor mais citado...

sexta-feira, 21 de março de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


O ministro Luís Marques Guedes saiu-se com esta, num daqueles briefings depois do Conselho de Ministros que mais parece programa "Vamos Contar Mentiras": "A única questão que pode ter relevo aqui é se alguma dessas entidades é credora. Se não forem credores internacionais, a opinião internacional para uma matéria como esta não parece que seja de muito relevo para o nosso país. Se forem credores, com certeza que seria importante". 
O ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares respondia assim ao facto do Manifesto dos 70, que apela à reestruturação da dívida pública, ter recebido o apoio de mais 70 personalidades estrangeiras, na maioria economistas de renome internacional. São economistas, muitos com cargos de relevo em instituições internacionais como o FMI, editores de revistas científicas de economia e autores de livros e ensaios de referência na área.
Cumprindo o grau zero da política, Marques Guedes acha que só os credores internacionais têm voto na matéria, como se Portugal fosse uma democracia residual. O problema é que ele está equivocado: o que é bom para os credores, é péssimo para Portugal!

quinta-feira, 20 de março de 2014

OS SINAIS EM CASTELO NOVO

A Casa da Câmara
A Lagariça
Os Sinais de Fernando Alves, poisaram hoje em Castelo Novo, como se ele tivesse subido à aldeia histórica da Gardunha, e, como quem ouve um sino na montanha, nos despertasse para a antecipação da Primavera que dali já se vislumbra, com o espectáculo das árvores e a explosão cromática das flores, mas ao mesmo tempo nos sacudisse a inquietação comum para mais um "crime" do poder central: a caducidade do programa das aldeias históricas. 
Na sua crónica matinal da TSF, Fernando Alves que empresta sempre à sua prosa uma dimensão poética, na transmutação da paisagem fala da poética de Eugénio de Andrade (só um reparo: o poeta é natural de Póvoa de Atalaia) quando ele entra na espessura do tempo ("sentir o tempo fibra a fibra") para "tecer o coração de uma cereja". Fernando Alves faz uma bela descrição do património histórico de Castelo Novo e denuncia o poder centralista que decreta a caducidade destas jóias edificadas no território, que são imemoriais, como se a história também tivesse prescrito. Castelo Novo, a mesma terra que fascinou José Saramago na "Viagem a Portugal" e que logo prendeu ao coração para todo o sempre. Na "Viagem do Elefante" lá está esse fascínio sobre o lugar e as pessoas, o deslumbramento sobre a paisagem. Ainda bem que Fernando Alves poisou, agora, o seu olhar matinal em Castelo Novo. A crónica: 2014-03-20 Caducidades

CAVACO E AS QUERELAS ESTÉREIS

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Até na comunicação mais elementar e de circunstância, como a que hoje fez o Presidente da República sobre as próximas eleições para o Parlamento Europeu, cada vez se distingue menos qualquer diferença entre Cavaco Silva e Passos Coelho. Uma simbiose tão perfeita que já não é possível distinguir qual é a voz do dono ou quem é o dono de quem. A principal confluência de propostos ideológicos está, porventura, contida no próprio conceito de democracia, que ambos abominam ou gostariam de ver musculada e fingida. Uma democraciazinha pequenina, que não levante ondas nem controvérsias, isso é que era bom! 
Na declaração lida, em Belém, em que o Presidente marcou as eleições para o dia 25 de Maio (mais um pouco... e era no 28 de Maio!), Cavaco Silva aproveitou para deixar um recado claro aos partidos: é preciso uma campanha “serena” que não coloque em causa futuros acordos entre maioria e PS. E disse mais: “A crispação partidária poderá prejudicar entendimentos que se poderão revelar indispensáveis no futuro”, afirmou o PR, numa alusão aos acordos entre os partidos da maioria, PSD e CDS, e PS para uma estratégia pós-troika. Cavaco Silva apelou aos partidos para que conduzam a campanha às eleições Europeias de forma “esclarecedora, serena e elevada”, recusando “querelas artificiais e controvérsias estéreis”, uma vez que a campanha eleitoral decorrerá num “momento de complexidade nacional”. Em vez de se focarem em “acusações e ataques”, os partidos devem concentrar-se no “debate de ideias”, uma vez que os portugueses têm “o direito de ser esclarecidos” sobre as questões europeias que são “demasiado sérias”. 
Lembro-me das últimas eleições para a Assembleia Nacional, em 1973, em que havia temas que não podiam ser debatidos nos comícios. Um deles, era a guerra colonial, a questão mais importante do país... De cada vez que um orador aludia à guerra colonial, logo se levantava um graduado da Polícia, que increpava o orador a calar-se. Era a confissão oficial que o acto eleitoral era uma mera farsa, uma mentira colossal. Aqui está um método que cabe inteirinho no formato proposto por Cavaco para as próximas eleições: uma censurazinha "às querelas artificiais e controvérsias estéreis" para que o acto decorra "com elevação" e... a bem da Nação!

terça-feira, 18 de março de 2014

MEDEIROS FERREIRA: O ELOGIO DO PENSADOR



Num país que no imediato se pensa mal a si próprio, ou faz pouco por se pensar bem -- Eduardo Lourenço bem tem procurado que os portugueses pensem acima das suas possibilidades! -- José Medeiros Ferreira é uma excepção rara, pela qualidade do seu pensamento e da sua intervenção cívica. A sua biografia é a síntese desse compromisso: pensar o país e procurar modificá-lo, zurzindo sempre os seus traumas de longa duração, do trauliteirismo político e da intolerância, à rede clientelar onde germina a corrupção, do país cadaveroso da estupidez ao analfabetismo boçal, das inquisições aos safanões a tempo da repressão, esses venenos que inquinaram e inquinam a história de Portugal.
Desde os anos 60, tinha ele então vinte anos, que o seu nome começou a impor-se cumprindo esse desígnio de desafiar a ditadura, logo na crise académica, sempre com uma persistência que o levaria à prisão e depois ao exílio. José Medeiros Ferreira. E, de facto, aquilo que o tempo nos revela, agora que ele partiu, é que ele, numa postura de anti-herói, nunca deixou de construir um pensamento, sempre projectivo em relação à realidade, de análise funda da sociedade portuguesa e das suas contradições, de um Portugal dos Pequeninos, cuja galeria não poucas vezes mostrava como as elites portuguesas andavam de costas voltadas para o futuro, ausentes da realidade (outra vez Eduardo Lourenço), embasbacadas com um provincianismo cogénito. Medeiros Ferreira teve sempre o olhar voltado para horizontes mais largos: para o mundo, que ele tentava compreender na complexidade das suas mutações.
No momento em que vamos à procura de palavras, na tentativa de definir um homem, de Medeiros Ferreira poderíamos dizer que, lembrando a sua acção política, os seus livros sobre a História Contemporânea Portuguesa, matéria em que era reputado especialista, os seus ensaios e as suas entrevistas, estamos diante do elogio do pensamento.
A sua análise nunca se confundia com a demagogia ou a propaganda. Basta ler as suas posições sobre Portugal e o estado a que isto chegou, sobre os epígonos do governo, ou sobre a Europa para percebermos a contingência negativa dos poderes, a debilidade dos líderes que se armam em senhores do mundo ou da comarca portuguesa.
Ele, que no regresso da democracia a Portugal, foi o mais jovem ministro dos Negócios Estrangeiros (tinha 38 anos) disse, numa dessas entrevistas que às vezes parecem ter o sabor de despedida, que Portugal não o soube aproveitar. Esse é outro trauma bem português.
Agora que ele nos deixou, vou ter saudades da sua ironia fina, habitualmente suporte de um poder de argumentação implacável, com que ele chamava os nomes aos bois, sempre olhando mais além, no tempo que foi o seu.  





PALAVRAS PARA O POETA ANTÓNIO SALVADO


Na contingência de um tempo em que o homem lentamente se vai tornando a medida de coisa nenhuma, nestes dias em que a desumanidade, essa banalidade do mal que julgávamos ingenuamente ser um mero arcaísmo do passado, voltou para nos atormentar a vida, é na poesia que ainda podemos reencontrar o intacto refúgio do futuro, a primordial esperança que nos ajuda a olhar em frente.
Nestes tempos, pois, que parecem ser, outra vez, os que Sophia gritou em versos (“Tempo de solidão e de incerteza/Tempo de medo e tempo de traição/Tempo de injustiça e de vileza/Tempo de negação”), ou os que Torga denunciou em Dies Irae ( “Apetece cantar, mas ninguém canta./ Apetece chorar, mas ninguém chora./Um fantasma levanta/A mão do medo sobre a nossa hora”), celebrar a obra e a poesia de António Salvado é um puro reencontro com o dia claro, um aceno à alegria dos instantes, a reafirmação de um tempo em que a humanidade triunfa sobre todos os desígnios do mal.
A poesia de António Salvado é um universo em que se configura esse compromisso de felicidade, através do belo e do amor, essa visão de uma natureza em que a plenitude elemental da realidade telúrica, que é o mundo que abarca o seu olhar, é um incessante louvor de vida, que se sobrepõe sempre às nuvens negras dos dias, e tudo isso na síntese maior que o amor ocupa na sua arte poética.

segunda-feira, 17 de março de 2014

OS MISTIFICADOES

Desenho do "Magazine Littéraire
Vêm aí eleições (primeiro as europeias, depois as legislativas) e basta a proximidade desses calendários, para a retórica política mudar de qualidade e de registo. Introduz-se, sub-liminarmente ou nem tanto, na cabeça dos portugueses que as coisas vão começar a mudar. Portas veio logo prometer abaixamento de impostos; e Passos Coelho que era preciso atenuar sacrifícios na administração pública, tão carregada de sofrimento. É verdade que todos são peritos na bifacialidade, pois são capazes de dizer, com a maior das naturalidades, o discurso do porreirismo nacional e o seu contrário.
Quem não se lembra do chorrilho de mentiras na última campanha eleitoral para as legislativas, em que o actual primeiro-ministro prometeu paraísos ao virar da esquina, e, logo a seguir, foi alegremente além da Troika, metendo a canga no lombo dos portugueses, vangloriando-se que essa era verdadeiramente a sua política. Agora, ao cheiro dos votos, há-de encontrar um registo português suave.
Toda esta prática, que configura esmerada propaganda, tem legião de acólitos em comentadores de horário nobre ou em jornalistas, que também nesta área há boas experiências de transumância para a área do poder, sempre que os dias se abrem a contexto eleitoral.
Uns e outros, fazem um trabalho persistente de transformar a realidade com a imaginação, mistificando-a, ou fazendo dela mera caricatura. Ficcionam a realidade fazendo da retórica política uma imaginosa construção de palavras sem nexo com o concreto da vida. E mentem, mentem, mentem, com uma falta de pudor que torna a verdade uma coisa em extinção.
Já uma vez, a propósito deste tema, que é recorrente na sociedade portuguesa, recordei uma história que Umberto Eco foi colher a Collin de Plancy ("Dictionnaire Infernal", Paris, 1844) e que ele transcreveu em "O Pêndulo de Foucault". É assim: "Contando um dia que tinha conhecido Pôncio Pilatos em Jerusalém, descreveu minuciosamente a casa do governador, e citava os pratos servidos à ceia. O cardeal de Rohan, julgando estar a ouvir fantasias, virou-se para o criado do conde Saint- Germain, um velho de cabelos brancos e de ar honesto:
-- Meu amigo! -- disse-lhe ele. -- Custa-me acreditar no que diz o vosso amo. Que seja ventríloquo, muito bem, que faça ouro, de acordo; mas que tenha dois mil anos e tenha visto Pôncio Pilatos, é de mais. Estáveis lá também?
-- Oh não, monsenhor! -- respondeu ingenuamente o criado. --Só estou ao serviço do senhor conde há quatrocentos anos!"
Quando oiço os tipos do governo e alguns comentadores com lugar cativo na galeria dos interesses, lembro-me sempre do delírio de imaginação do conde de Saint- Germain e do seu fiel servidor... É que a imaginação pode não ter limites. É o que hoje muitos fazem, não em delírio, como os personagens da história, mas por pura conveniência! 

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

Em Outubro, a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz disse e repetiu, voltou a dizer e a repetir, que "a impunidade tinha acabado em Portugal". Ora, os últimos acontecimentos verificados com a prescrição a Jardim Gonçalves da multa de um milhão de euros, imposta pelo Banco de Portugal, mostra precisamente o contrário. A impunidade está vivíssima -- e recomenda-se! E já aí estão os galifões do BPN, mais o Rendeiro, a exigir também prescrições para os seus desmandos. Em Outubro, a ministra dizia, angelicamente: "Quando o cidadão perceber que a impunidade -- e eu volto a dizer -- acabou mesmo, porque a história das prescrições acabou. Andar de recurso em recurso e de aclaração em aclaração, acabou. (...) Penso que aí o cidadão se sentirá muito mais confortável". 
Quem está muito mais confortável é o senhor Jardim Gonçalves!