sexta-feira, 28 de março de 2014

PALAVRAS DE UM POETA

 FERNANDO PAULOURO CRONISTA E POETA



A muitas destas crónicas do escritor e meu amigo Fernando Paulouro Neves agora reunidas no II volume de Crónicas do País Relativo – Portugal, Minha Questão, a muitas destas crónicas, dizia, caberia melhor a designação de poemas, que pela minha parte aqui lhes dou, sem qualquer rebuço ou constrangimento, fiado no ritmo e coloração duma escrita que, como os frutos, em setembro, se oferece, para fruição, ao paladar mais exigente. Poemas, sim, e, se quiserem, em prosa. Sem rima e sem medida, velha ou nova, que delas, como sabemos, a poesia não precisa, porque, sendo-o realmente, ela dispensa  outros ornamentos e outros adjectivos.
O livro foi agora lançado lá, no Fundão, como já o fora, semanas antes, em Castelo Branco. Os que dele falaram terão posto em relevo a fluência e os matizes duma escrita treinada, durante anos,  na consideração e relato dos factos – dos fastos -  de ordem social e política do país e da região, mas também na valoração dos acontecimentos de natureza literária a que a sua condição de jornalista e, sobretudo, de director do “Jornal do Fundão” semanalmente o obrigava. A sua condição de director, dissemos. Cargo de que há um ano, já o sabemos,  se despediu, por razões que, quase a abrir o volume, ele nos fornece e se prendem com a “fidelidade às palavras e às ideias”, com a “honradez”, com a “defesa da liberdade”, com a “independência face aos poderes”. Palavras que valem como profissão de fé e soarão aos ouvidos de muitos como razão de vida, como afirmação de dignidade ferida ou simplesmente ameaçada, como sinal de “amor em tempos de cólera” e breviário para a “salvação da alma”.
Variada e rica de conteúdo é a semântica destas “crónicas”, que, a par dos temas de sentido nacional e regional, convocam para as suas páginas o nome e a obra de algumas das  personalidades maiores da região, sejam elas originárias do mundo da política, da ciência, das artes ou da literatura. Maior espaço ocupam, entretanto, os acontecimentos do dia-a-dia citadino, especialmente os que afectam a dignidade dos cidadãos, os que molestam a sua integridade física e moral e, também, os que respeitam à vida das populações, isto é, aos habitantes duma região que, por ser do interior, se vê tantas vezes abandonada ou maltratada pelo poder central.
Fernando Paulouro Neves é um cronista atento aos males que afligem a sociedade portuguesa, em particular os duma região que é a sua e à denúncia de cujos  problemas dedicou a sua vida de homem e de jornalista. Vale a pena fazer a viagem e percorrer os caminhos desta rota, para, lá no fim, dar razão ao saudoso Manuel António Pina que, excelente jornalista e cronista que também era, em janeiro de 2012, ainda entre nós, no texto “Elogio da fidelidade”, que serve de prefácio a este livro, escreveu: “Fernando Paulouro é um dos poucos, muito poucos, da nossa geração que não traíram”. Este é, parece-me, o maior elogio que pode fazer-se a um homem que usa a escrita como ferramenta e tem na mira o bem-comum. Dele, Manuel António Pina, diz-nos  Fernando Paulouro, numa “Nota prévia” inserta a folhas 6-7, que muita falta nos fazem as suas crónicas. É verdade, mas o mesmo dizemos nós hoje quando, às quintas-feiras, folheamos o “Jornal do Fundão” e não encontramos, nas páginas 2 e 3, as habituais e incisivas crónicas semanais de Fernando Paulouro. Estas, as que agora nos são oferecidas no 2º volume de Crónicas do país relativo, permitem-nos, não apenas o reencontro com o passado recente, mas também a reconstituição de um mundo onde, por entre os escombros, a cultura resiste e a inteligência fulgura.


Albano Martins

 19. Dezº 2013

quinta-feira, 27 de março de 2014

O TEMPO DAS CEREJAS

Desenho de Lima de Freitas inserto na Antologia
Como uma velha música, trazida pelo vento das altas árvores que os pássaros incendeiam de cantos, regresso ao tempo das cerejas. Muitas vezes o olhar, que é vagabundo e livre, poisa no cromatismo que o calendário dos cerejais oferece, magnânimo, na Gardunha, matizando os dias de paisagens surpreendentes. Não faltam motivos para nos determos na diversidade desse tempo pintado pelos pomares e se formos sensíveis à beleza dos instantes logo haveremos de pensar nas quatro estações ou na sagração da primavera, se quisermos dar aos jardins das cerejeiras toda a sua glória. Um dia destes veio ao Fundão o embaixador do Japão, acompanhado de japoneses. Não é a primeira que vêm. Sentem-se bem aqui para quebrarem a nostalgia do Japão longínquo e da ausência das flores dos cerejais.
As cerejas tocam o coração da música e da poesia. Basta ouvir “Le Temps des Cerises”, uma das mais belas canções de todos os tempos, de Jean-Baptiste Clement, nos anos da Comuna de Paris, um poema de amor e esperança que Yves Montand e Nana Mouskuri celebrizaram. É um poema denso de história, mas de um lirismo absolutamente comovedor, que ainda enche de “sol o coração” da gente.
Quando falamos de cerejas temos que regressar à belíssima antologia Poemas de Amor de autores portugueses contemporâneos, que Gonçalo Salvado e Maria João Fernandes organizaram e publicaram em 2004, com o apoio da Câmara Municipal do Fundão.
Curiosamente, o texto de abertura, de Eduardo Lourenço, sempre com palavras luminosas, fala-nos do tempo das cerejas e dessa canção, do “tempo da esperança e da felicidade que, com candura e fervor populares, o primeiro povo de esquerda tirou do seu coração”. Eduardo Lourenço considera que “mais lírica do que revolucionária, a canção popular instalou na memória o fruto de Maio em vez da rosa de todas as estações”.
Voltei a ouvir os sons de Yves Montand, que na memória ressoam mais fundo do que os de Nana Mouskuri e parti deles para outros continentes da imaginação, para a âncora telúrica que me é próxima. Temos os olhos cheios dessas surpresas, a neve branca, como chamei um dia a essa espécie de mutação da realidade em que os pomares em flor explodem na luz anunciadora da Primavera. E logo depois a carnação vermelha do fruto, em árvores carregadinhas, rompendo a ramagem verde, que no Verão resiste e dá sombra, e no Outono, gradativamente, se dissolve em amarelos e castanhos, como que a disputar as pinturas naturais dos castanheiros.
Uma coisa assim tinha que tocar também o coração dos poetas e é essa dimensão que os poemas de amor de Cerejas (que inclui muitos inéditos) traz para o prazer da leitura, versos que são como as cerejas (como se diz das palavras) e que vale a pena ler intimamente ou em voz alta, ou se quisermos ir ao encontro de outros horizontes repeti-los olhando o imenso cerejal da Gardunha.
Talvez nada defina tão bem o tempo das cerejas, na promessa primaveril, do que o poema que Eugénio de Andrade fez A uma cerejeira em flor, tantas vezes repetido como anunciador do tempo novo

Acordar – ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira,
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira

Abrir os os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, o que quer que seja,
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

A fala poética de Mário Dionísio assinala

Cor de cereja pele macia
de cereja
correndo em verde seco baço
e grave
(...)

E Pedro Tamen imagina

Haver no fundo um templo ou uma casa
é ter consigo, amante, uma cereja aberta
onde é madeira ao centro e solução
do muco rosa e negro onde se abrasa
e torna leve e limpo, e mal desperta
se torna coração
(...)

Alexandre O´Neill fala de “tempo de cerejas agressivas” e José Gomes Ferreira, em tempos sombrios e cinzentos de ausência de liberdade, advertia numa canção que Fernando Lopes Graça musicou

(...)
Quem te pôs na orelha
essas cerejas, pastor?
São de cor vermelha,
vai pintá-las de outra cor.

Vai pintar os frutos
as amoras, os rosais...
vai pintar de luto
as papoilas dos trigais.

E José Carlos de Vasconcelos das "cerejas de António Paulouro:

As cerejas do meu amigo António Paulouro
chegam todos os anos no mês de Junho.
Vêm alegrar, mais ainda, a Lisboa em festa.


Albano Martins, que levou múltiplas vivências da Beira para a poesia (Pertenço a esta geografia, ao lume branco/da resina, ao gume/do arado. A minha casa/é esta: um leito/de estevas e uma rosa/de caruma abrindo/no tecto do orvalho”), não esquece “o tempo das cerejas e das malvas”.

   Nesta breve viagem à poesia, tendo por roteiro a Antologia de Gonçalo Salvado e Maria João Fernandes, a quem temos de estar gratos, nós que habitamos o solar da cerejeira, por este trabalho de grande qualidade (e um pouco esquecido), deixo como epílogo um poema de António Salvado, A cerejeira

Da flor aos frutos – a celebração:
a frágil floração anunciando
que na pureza se coloque o sangue
que no altar da terra é devoção

Surgiu como a beleza – nos confins
do tempo em que nasceu a primavera:
por isso nela nunca o branco finda
porque o vermelho nele se conserva.

Seus ramos de manhãs tão generosos
dobram-se ao peso da prosperidade,
e felizes nas dádivas dobradas
aguardam bocas ávidas donosas.

Renega a dor, a deusa da alegria!
mitiga sede o leite dos seus seios!
Senhora humilde vigilante dizem
Que protege a fartura das colheitas.


quarta-feira, 26 de março de 2014

PORTAS E OS RELÓGIOS


A persistência da memória, de Salvador Dali (1931)
Sugestão para a relojoaria de Paulo Portas: Talvez estes sejam melhores para medir a saída da Troika... Escorrem os dias em tempo do absurdo.

A POBREZA CRESCE OCULTA


Uma das coisas mais chocantes da sociedade portuguesa é a forma como se ilude a realidade ou se faz uma caricatura dela, grosseira e sem qualquer relação com a verdade. A quadrilha no poder, digamos assim para simplificar, pinta com frequência a realidade com os mantos diáfanos da fantasia, e o que fica, entre palavras e actos, é a aldrabice para consumo de propaganda. Assim se fazem as cousas, como dizia Mestre Gil, assim se enganam os tolos, os ingénuos e os idiotas úteis. Um amigo meu, dizia-me, por isso, que a verdade é um género em extinção...
Mas esse comportamento dos governantes converge numa outra situação, porventura ainda mais triste, que é a forma como estão a formatar um país fechado em horizontes de pobreza, estimulando a mão estendida para a sopa dos pobres e reproduzindo a caridadezinha envergonhada, como oportunidades de vida.
Passos Coelho e os seus ajudantes não se envergonharam de fazer o elogio de um ilusório "milagre económico" ou de apregoar que, agora sim, estamos melhor, enquanto outro pateta da maioria se saiu com a peregrina ideia de que "as pessoas estão pior, mas o país está melhor"... Que pantomineiros!
Dizem isso, como se habitassem outro país, para levar a sua água ao moinho, esquecendo-se do sofrimento que reproduzem no plano social. Qual é o grande emblema da sua política: pobreza, pobreza, pobreza!
Ainda agora deviam corar de vergonha (na hipótese absurda de ainda terem um pingo de vergonha!), face aos números do INE ou, até, da Comissão Europeia, sobre a realidade que se vive em Portugal.
"A taxa de pobreza em Portugal aumentou em 2012 para 18,7%, ou seja, afectava dois milhões de portugueses", segundo o INE.O estudo indicava que 25,5% dos residentes em Portugal viviam em privação material e 10,9% da população em "privação material severa". Outro dado refere que os menores de 18 anos, as famílias com filhos a seu cargo e os desempregados (1 milhão) são os mais afectados. Enquanto isto, sublinha o INE, o impacto das transferências sociais no risco de pobreza diminuiu.
A este contexto de desgraça -- que é o paraíso de Passos Coelho! -- acresce a radiografia da Comissão Europeia (apesar dos seus chefes virem propalando que Portugal está no bom caminho!), ao mostrar que "Portugal foi o país da Europa que mais cortou na despesa social, tendo reduzido o bolo em 3,7 mil milhões de euros, quase o valor pretendido para a redução permanente na despesa pública (4 mil milhões) para 2013 e 2014". Com estes senhores, que à semelhança do Mestre nunca se enganam e raramente têm dúvidas, Portugal é o recordista europeu na redução dos chamados benefícios sociais e das transferências sociais.
Paulatinamente, degrau a degrau, pedra a pedra, o governo, vem reconstruindo o país da pobreza. É o regresso aos pobres de pedir, "uma esmolinha pela alma de quem lá tem", à caridade envergonhada, à sopa dos pobres, à mão estendida como destino. É o que estes tipos estão a fazer todos os dias. A pobreza cresce oculta. Ou nem tanto!







terça-feira, 25 de março de 2014

O HERÓI RESGATADO DA SOMBRA



Há, no jogo das circunstâncias que a história determina, um espaço grande de fascínio, sobretudo quando os instantes cruciais fazem emergir da sombra do anonimato sujeitos que se agigantam face aos acontecimentos tornando-se improváveis heróis, mediante uma coragem desmedida. É certo que a sua comum condição não inscreve estes personagens na habitual narrativa da história e os seus gestos, as posições éticas assumidas contra a corrente do jogo, as mais das vezes, dissolvem-se no esquecimento, que a voragem do tempo é mestre a ocultar. 
Como nos tempos antiquíssimos, em que depois dos heroísmos das batalhas, dos despojos e das mortes, esses heróis, gente do povo, regressam a casa, à casa e à aldeia, e na solidão dos campos vão perdendo a memória dos dias gloriosos. E, no entanto, às vezes, é um gesto ou uma decisão tomada no momento de tensão, quando tudo parece ou pode ser perdido, que dá sentido à história e pode fazer mudar o seu curso.
Adelino Gomes, a quem a memória da história contemporânea deste país (pelo registo de acontecimentos, pela compreensão que a dinâmica da história se observa nas ruas, pela sabedoria de ouvir os outros e descobrir neles personagens singulares) deve contributos inestimáveis, foi agora resgatar do esquecimento um desses improváveis heróis, que com um gesto e uma atitude contribuiu para que o 25 de Abril fosse "o dia inteiro e limpo", como Sophia cantou nos seus versos.
É a história do cabo apontador José Alves Costa, que vem no livro Os Rapazes dos Tanques (texto de Adelino Gomes e fotos de Alfredo Cunha), que hoje é apresentado, em Lisboa. Este cabo, de nome José Alves Costa, nessa madrugada de Abril chegou ao Terreiro do Paço num blindado M47 para defender o regime. Face à coluna de Salgueiro Maia, outro anti-herói a quem devemos (e a muitos mais) a liberdade que ainda respiramos, o cabo apontador desobedeceu às ordens do brigadeiro Junqueira, que lhe mandara atirar sobre Salgueiro Maia e a sua coluna. No "Público", que hoje publica em pré-publicação este capítulo de Os Rapazes dos Tanques, vem em título a ordem do brigadeiro ao cabo: "Ou dá fogo ou meto-lhe um tiro na cabeça".
Ele desobedeceu. Ao contrário de muitos, que se escondem no alibi das ordens recebidas para justificarem crimes, o cabo apontador José Alves Costa, colocou-se do lado da humanidade. Quase 40 anos depois, o seu nome e o seu rosto sairam subitamente da sombra. O herói voltou, finalmente, a Lisboa.
Oiça também, sobre este tema, a crónica de Fernando Alves: 2014-03-25 Os Rapazes dos Tanques,


UMA PEQUENINA LUZ BRUXULEANTE...

Jorge de Sena
Quantos não morreram por uma palavra ou um gesto, por um verso ou um canto de rebeldia, por um grito ou uma ideia contra o cerco da infâmia? É um número infinito, que se reparte à escala global. e se reproduz, no fio temporal da história, sempre que a comum humanidade é espezinhada pela bota de ditadores demenciais ou simples aprendizes, que gostam de manusear a cartilha da infelicidade e da pobreza, técnicas agora muito em voga na versão dos escravos modernos, que são os trabalhadores desapossados de direitos. Há um imemorial caminho de resistência e de afirmação de dignidade, luzes que se abriram no meio do negrume e criaram um frémito de esperança na névoa de muitas solidões somadas.
Um homem que viveu no século XVI, um  grande poeta, John Donne, disse uma coisa que se tornou património universal: "A morte de qualquer homem diminui-me, porque faço parte integrante da humanidade; portanto, nunca pergunto por quem dobram os sinos: dobram por nós".
Nunca a poesia deixou de ser um canto primordial da humanidade para alimentar a esperança num mundo melhor, para ajudar a libertar o homem de sujeições e servidões. Porque ninguém como os poetas souberam perceber a condição humana e aquela ideia de que "o homem é o centro de todas as coisas". Jorge de Sena tem muitos poemas que traduzem esse compromisso, mas há um, escrito em 1959 (Fidelidade), em que fala de "uma pequenina luz bruxuleante e muda/Como a exactidão como a firmeza/como a justiça./ Apenas como elas,/Mas brilha./ Não na distância. Aqui/No meio de nós./ Brilha" (ouvir o poema completo dito por Pedro Lamares). 
Neruda dizia que os versos eram para repartir como o pão. Nos anos 60, lá para o fim, surgiu um grupo que andou a repartir o pão elementar da poesia. Chamava-se Aguaviva, e as suas canções, ainda hoje, como se estivessem dentro da substância do tempo, acordam em nós o sonho e a utopia. Os Aguaviva começavam sempre com um célebre poema de Rafael Alberti, Que cantan los poetas andaluces de ahora, que reclama esse compromisso da poesia como canto universal. Já por mais de uma vez, citei a afirmação de Jorge de Sena: "nunca a poesia salvou o mundo; mas nunca o mundo poderá ser salvo sem ela".
Por isso, decerto, os poetas são incómodos. Portugal, que dizem ser um país de poetas, desde Camões que os poderes os tentam matar à fome. Não faltam idiotas a dizer alarvemente que a poesia não dá empregos...
Então, como quem desfralda uma bandeira de insubmissão, oiçamos os poetas. Hoje e aqui, Jorge de Sena, com a sua "pequenina luz bruxuleante" e os Aguaviva, "que cantam los poetas andaluces de ahora", a um e a outros como tributo de gratidão a quem tanto nos fez (e faz) sonhar.






e

segunda-feira, 24 de março de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA



Na política, os jogos de palavras são, habitualmente, bons malabarismos para enganar os tolos. É uma demagogia à flor da pele, exercida candidamente, como se o sujeito que a pratica fosse o escuteirinho da boa acção diária. Assim o primeiro-ministro Passos Coelho. O primeiro-ministro disse hoje que "não há nada escondido" em matéria de défice público e objetivos do país para 2015, lembrando a importância de Portugal cumprir as metas como forma de reduzir a dívida. "É sabido que ainda precisamos de fazer descer o nosso défice público em 2015, nos termos que ficaram acordados com os nossos credores internacionais, para 2,5% do PIB. Não sabemos ainda com rigor, em termos de valor absoluto, o que é que isso vai significar. Mas haveremos de saber dentro de algum tempo, durante o mês de abril terá de ficar clarificado", declarou Pedro Passos Coelho,  
O governante diz que já se sabe que "entre medidas do lado da despesa e medidas do lado da receita" terá de se encontrar uma combinação "que seja o melhor possível" para reduzir o défice para 2,5% em 2015. "Não há nada escondido. Não pode haver nada mais público que isto". O governante declarou ainda que cumprir a meta do défice é essencial para o trajecto de redução da dívida de Portugal."Se não conseguirmos ter um excedente primário externo e outro maior no próximo ano, a nossa dívida aumenta em vez de diminuir", advogou.  No sábado, o semanário Expresso noticiou que os funcionários públicos poderão perder mais 5% do rendimento em 2015, com a entrada em vigor das novas tabelas salariais e de suplementos.
Vem aí pancada! 

SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA


Cerejeiras em flor, em Castelo Novo. Foto de Rui Pelejão Marques
Tchekov, que tanto gostava de cerejais, havia de deslumbrar-se com a mutação cromática em curso na Cova da Beira. A Primavera é aqui um fenómeno fantástico, uma matéria solar que transforma boa parte da paisagem da Gardunha e dos campos do vale, num doce mar, batido pela brisa da montanha, onde a espuma das ondas é a neve branca das flores das cerejeiras, que se mostram em todo o seu esplendor. Tenho uma pequena magnólia no meu quintal, e quando desabrocham as flores roxas, tão exuberantes nos ramos descarnados (penso que foi o poeta Jorge de Sousa Braga que fez este pequeno poema: "Magnólia: com a pressa de florir/esqueceu-se das folhas") penso que é o primeiro sinal do novo tempo.
Caminhar por aquela encosta da Gardunha, entre o Souto da Casa e Alcongosta, onde os pomares conquistaram duramente a terra aos pinheiros ou ao mato silvestre, abrir os olhos para o vale do Alcambar são instantes que nos fazem sonhar, pois a paisagem, tocada por este sol que parece espreguiçar-se pelos dias onde todas as transparências acontecem, é uma invenção fantástica. Todos os anos, vou ao encontro daquele poema de Eugénio de Andrade em que ele celebrou "uma cerejeira em flor", como se fosse o corpo do poema: "sentir o tempo fibra a fibra,/a tecer o coração de uma cereja".  Andar, respirar, escutar as sinfonias dos pássaros, que é sempre surpreendente, descobrir pequenos detalhes que no chão de bosque que pisamos nos saltam do caminho, é aventura de viver, uma certa felicidade ao nosso alcance que, por estar à nossa beira, às vezes não conseguimos ver. 
Andar no meio da luz, debaixo de um céu azul despido de nuvens, percorrer campos atapetados de verde e debruados de flores, é a minha sagração da Primavera. Mal nos descuidamos num olhar e já as árvores se estão a vestir de folhas, num canto renovador que não é outra coisa senão a renovação da vida. E sempre a luz, na sua nova fulgurância, que marca o ciclo do tempo. Viver, respirar. Foi isso que, de certo modo, Vergílio Ferreira também anotou, quando escreveu: "A luz, a luz. A Primavera enviou já a sua mensagem e só é preciso estar atento para a não perder. Não é a luz sumarenta do Outono ou a luz pesada do Verão. É uma luz nítida e ainda fria dos gelos do Inverno. Recorta as coisas pelo seu limite e elas emergem inteiras do seu ser. Essencialidade da vida, é a altura de lavarmos nela as mãos e o olhar. "Só é preciso estar atento. Disse ele.

domingo, 23 de março de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

O ministro Pires de Lime falou em "milagre económico", Paulo Portas acenou, eleitoralmente, com uma descida de impostos, Passos Coelho já diz que vai discutir o salário mínimo e que o pior já lá vai. Tudo para encobrir a verdade do prosseguimento da mesma política de cortes, de austeridade e de pobreza. No Congresso do PSD ele ameaçou: "Vem aí mais pancada!" A bonança pré-eleitoral, génese de muitas mentiras e promessas, todos os dias é desmentida. Agora, veio Marques Mendes assegurar, no seu comentário na SIC, que o Governo ainda vai fazer cortes de mais de 1,5 mil milhões de euros em 2015. O número revelado por Marques Mendes fará parte do Documento de Estratégia Orçamental, que será apresentado quinta-feira por Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças no Conselho de Ministros. "Os cortes em 2015 vão oscilar entre 1,5 e 1,7 mil milhões de euros. Provavelmente, 1,7 mil milhões de euros". Porrada no lombo do povo, eis a estratégia orçamental.