sábado, 5 de abril de 2014

UMA LÁGRIMA DE MÚSICA PARA EUGÉNIA LIMA



Uma lágrima de música para a notícia triste da morte de Eugénia Lima, que ontem faleceu, aos 88 anos, na sua residência, em Rio Maior. O registo biográfico antecipa, de certo modo, o seu futuro virtuosismo como acordeonista, ao assinalar: "Eugénia Lima, filha de uma afinador de acordeões, estreou-se aos quatro anos no Cinema-Teatro Vaz Preto, em Castelo Branco. O tempo se encarregou de afirmá-la como uma das notáveis acordeonistas portuguesas, com um sentido musical apuradíssimo que lhe permitiu criar inúmeros composições.
Eugénia Lima, que viveu (enquanto jovem) em Castelo Branco, cidade que amava, tinha uma raiz beirã mais abrangente e uma forte ligação funda ao concelho do Fundão, onde nasceu, naquilo que se convencionou chamar a "zona do pinhal". Essa ligação vinha-lhe por parte do pai e do avô, naturais de Bogas de Cima, e da mãe, que era do Maxial da Ladeira. Eugénia Lima transportou também essa realidade afectiva para a sua música e não terá sido por acaso que um dos seus maiores sucessos se chama "Fadinho de Silvares".
Pisou palcos nacionais e internacionais, abraçando o seu acordeão, de que fez uma fabulosa fábrica de sons, recebeu prémios e condecorações. Leio no "Público" que "tendo-lhe sido recusada a entrada no Conservatório Nacional de Lisboa, aos 13 anos, aos 55 anos recebeu o diploma do Curso Superior de Acordeão, na categoria de Professora, pelo Conservatório de Acordeão de Paris". Fundou nos anos 40 a Orquestra Típica Albicastrense.
Olhava-a sempre como uma camponesa exilada, era assim que a via no palco, talvez pelo que o seu velho acordeão, orgulho de uma vida, transmitia em música, que não era outra coisa senão a sonoridade de um coração que batia ligado à terra. Uma lágrima de música para Eugénia Lima.

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UMA VALENTE GARGALHADA


Uma boa gargalhada pode ser mais eficaz do que a crítica mais contundente, séria e construtiva, como alguns gostam. A maior parte das vezes, a crítica séria, veneradora e obrigada, não é outra coisa senão tédio e bocejo, que não fere uma aresta da realidade. Um governo que há muito caiu no ridículo, só pode ser levado a rir. É isso que se recolhe da crónica desta semana de Ricardo Araújo Pereira, na "Visão".
É uma ficção sobre uma reunião do Conselho de Ministros, cuja leitura aconselho vivamente. Uma gargalhada soberba sobre uma História Presente. A crónica são os diálogos do tal Conselho de Ministros. E começa assim:
Maria Luísa Albuquerque: Bom, de acordo com o manual de instruções que o professor Vítor Gaspar me deixou quando saiu do Governo, é preciso fazer mais cortes este ano.
Paulo Portas: Impossível. Não pactuarei mais com este saque. Estamos a ultrapassar fronteiras que me recuso a transpor. Demito-me irrevogavelmente.
Passos Coelho: Está bem. Até já. Então onde é que se há-de rapar? (...)
E por aí fora. Curioso é quando Passos Coelho diz: Como é que estamos em relação àquela minha ideia de moer funcionários públicos para almôndegas?
Responde Paula Teixeira da Cruz: Parece que é inconstitucional.
Leitor, leia o Ricardo Araújo Pereira - e dê uma valente gargalhada contra a vacuidade dos tipos que nos (des)governam.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O ZECA MERECE!


Amanhã, sábado, às 17 horas, abre no Casino Fundanense, uma exposição sobre a Discografia do Zeca. Além dos sons, que poderão ser ouvidos pelos visitantes, haverá valioso acervo documental, tudo facultado pela Associação José Afonso (AJA). Penso que é, pelo menos no Fundão, o início das comemorações dos 40 anos do 25 deAbril, uma bela forma de comemorar, aliás, promovida pela Câmara Municipal do Fundão. Há tempos, à conversa com o Francisco Fanhais, convergíamos numa realidade: a forma como a geração mais nova retomou criativamente o Zeca e a surpreendente força com que Zeca Afonso está presente na sociedade portuguesa. E dizíamos: Faz bem à malta ter o Zeca entre a gente!
Estar entre a gente. É o que vai acontecer até 5 de Maio, no Casino Fundanense. Uma oportunidade, também, para fazer coisas à volta do Zeca, que o mesmo é dizer à volta de Abril. Esta exposição vai, por outro lado, ter um lado simbólico muito importante: a constituição do núcleo da Beira da Associação José Afonso. Avisem a malta desta iniciativa. Tragam muitos, também! O Zeca merece. Abril também. As raízes  que prendem Zeca Afonso ao Fundão e à Beira são apenas razões acrescidas para prestarmos este tributo ao Zeca. Em louvor da criação.



"SAUDADES DE AGOSTINHO"



As folhas vadias de Agostinho da Silva







Nos seus Sinais da TSF, que são o meu café matinal da crónica, Fernando Alves evocava esta terça-feira Agostinho da Silva, na passagem do 20º aniversário da sua morte. Também eu tenho saudades de Agostinho, assim intitulou ele estes Sinais, que consubstanciam um nome e um rosto da cultura portuguesa, uma personalidade verdadeiramente singular, um sábio que desdenhava dos poderes e apenas gostava de, olhando as palavras e as coisas da realidade do mundo, produzir conhecimento.
O tempo, que gradua a dimensão dos homens, não sei se deu inteira expressão às obras deste português, que parecia saber tudo do que havia para saber, e, no entanto, era capaz de sorrir dos que afirmavam a sua condição de sábios ou se perdiam na exibição catedrática do conhecimento. Eu ouvi-o falar, com a mesma fulgurância, das tecedeiras de Janeiro de Cima e da expansão portuguesa, da civilização contida nas mãos de camponeses que afeiçoavam a terra para as culturas e do futuro que haveria de abraçar a língua portuguesa, como cimento de outros brasis e outras áfricas. Ia ao fundo das coisas. Um dia, no alto, da Serra da Estrela, olhando o caos instalado no cimo da montanha, disse: "enquanto o ponto mais alto de Portugal estiver nesta tristeza (ou terá dito vergonha?), não merecemos ter uma pátria".
A publicação das obras completas veio mostrar o que há muito estava esquecido: a fundura do seu ensaísmo e a modernidade do seu pensamento". Era isso que fazia dele uma figura desconcertante, no sentido em qua falar com ele era sempre uma enorme surpresa. Não fazia outra coisa senão pensar. E, quase no fim, fazia circular umas folhinhas A4, dactilografadas, que eram sempre matéria de proveito e exemplo. Guardo algumas dessas páginas, que chegavam pelo correio, matinalmente, como se tivessem o propósito de despertar a gente para o rumor do mundo.
Fernando Alves, nos seus Sinais, traçou-lhe um retrato magnífico. E, ouvindo-o, pensava para comigo que raio de país era este que exilava os melhores e os mais sábios dos seus filhos. Agostinho da Silva, matinalmente, pela voz e a inteligência de Fernando Alves: 2014-04-03 Saudades de Agostinho

quinta-feira, 3 de abril de 2014

AS MINAS DA IRA




Para o Daniel Reis, camarada e companheiro na aventura de "A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira", que escreveu um belíssimo poema em prosa a José dos Reis, seu pai, mineiro, um dos que morreram cedo na voragem da silicose.

Os mineiros da Panasqueira estão em greve durante dois dias. Dizem eles que "os mineiros têm salários muito baixos para quem produz riqueza tão elevada". Quando oiço estas palavras de um dirigente sindical, há um frémito de emoção, um olhar para a memória, evocando a saga de longa duração que foram as batalhas dos mineiros. E, então, lembramo-nos logo do universo concentracionário das Minas da Panasqueira, de antes do 25 de Abril, quando a silicose dizimava os mineiros ou os matava à fome, as aldeias de viúvas (de homens que morriam cedo), as estupendas mulheres de negro que empalideciam os povoados das vertentes do Zêzere, que se confundiam com a terra e choravam com ela. Sempre me emocionou a presença dessas mulheres, que os dias iam tornando mais frágeis, administrando a vida a partir do nada, fazendo verdadeiros milagres de sobrevivência para alimentar a prole geralmente numerosa. E depois, quando íamos à procura das suas estórias, enfrentavam a câmara do registo fotográfico com uma altivez e uma dignidade comoventes. Nunca pediam nada, uma ou outra vez deixavam cair um queixume (ah! a vida...), nunca lhes vi lágrimas a lavrarem o rosto, a sua atenção primordial, o seu olhar ia sempre direito aos meninos que tinham que criar e eram a razão da vida.
Hoje, já poucos se lembram disso, essa realidade dramática do século XX português que provocou desgraças e tristezas molhando de pranto tantas e tantas famílias dos mineiros, que desciam às entranhas da mina à procura de precário sustento. Esse drama da silicose está, em grande parte, sepultado no esquecimento, mas quem investigou o caso e o denunciou (o "Jornal do Fundão" tem nesse registo sistemático, às vezes ao arrepio da censura, um património inigualável), quem falou com as pessoas sabe que o crime tem milhares de rostos de mineiros, nomes de uma história que eu um dia classifiquei de trágico-terrestre. A mina, para mim, foi uma lenta aprendizagem na forma de observar e fazer jornalismo, e tornou-se uma daquelas matérias em que eu sempre tomei partido, num afecto que depois do 25 de Abril se articulou numa relação com os mineiros, de companheirismo e humanidade.
No conflito mais duro (se é possível medir a dureza das lutas laborais), nos anos 80 -- a década de setenta, com as mil esperanças do 25 de Abril já tinha dado a volta! -- que levou à ocupação do fundo da mina, lembro-me bem (podia lá esquecer uma coisa dessas!), acompanhei dirigentes sindicais convidado por eles, quando, quarenta e oito horas depois da ocupação da mina, descemos ao fundo das galerias para falar com um grupo de irredutíveis que, face ao impasse, se recusavam a subir à superfície.
Falo hoje nisso para lembrar o Zé Rodrigues e o Cow Boy, que já partiram, mas também o António Lopes e a sua rara capacidade de intervenção sindical. E muitos outros que levantavam os olhos do chão desafiando as circunstâncias e os poderes. Falar com esse mundo é falar com o coração aberto, perceber um lugar de fraternidade como não há outro. Ver as galerias e o trabalho épico dos mineiros, nos labirintos do subterrâneo da montanha, e voltar sempre, como memória, à geração mais velha, aos mineiros que nos anos quarenta, cinquenta e sessenta escavavam a fundura da terra, e eram revistados como trabalhadores de delito comum, e tantos, tantos, que morreram com os pulmões rebentados por aquilo que então se dizia ser "o mal da mina", pois silicose era nomenklatura de doença, que os médicos das juntas muitas vezes disfarçavam de tuberculose, num frete às companhias de seguros, que assim lavavam as mãos de indemnização por doença profissional. Quantos casos de mineiros que assim foram abandonados (eles e as famílias) à fome!
Não sei porquê, foi tudo isto que me correu, veloz, para a memória, quando li a notícia que os mineiros da Panasqueira estavam em greve porque "têm salários muito baixos para quem produz riqueza tão elevada". Aqui ligam-se os tempos: a mesma dignidade na recusa da servidão. A mesma dignidade na afirmação das Minas da Ira, como um dia chamei às da Panasqueira.





PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

Que credibilidade podem ter estes tipos? Depois que o secretário de Estado, Leite Martins,  veio, à revelia do governo, dizer numa conferência de imprensa que estava na calha um corte permanente nas pensões, e caiu o Carmo e a Trindade por ele ter posto a boca no trombone, quem levar a sério as recentes declarações do primeiro-ministro ao garantir, em Bruxelas, que "não haverá "cortes adicionais" em 2015 nas medidas para garantir o défice de 2,5%? Passos Coelho reiterou que na definição de medidas para 2015 "não está na intenção do governo proceder a cortes adicionais em salários e pensões".  Claro que ele já tinha prometido aos arregimentados do PSD que vinha aí "pancada". Quem é capaz de por as mãos no lume pela palavra do primeiro?






JEAN MOULIN TEM OS OLHOS TRISTES


De França, um amigo fala-me na catástrofe das últimas eleições municipais francesas, da hecatombe da esquerda, da derrota do cinzento Hollande, do triunfo da extrema direita xenófoba de Martine Le Pen, e faz a síntese da sua perplexidade com uma factualidade: a vitória da FLN em Béziers, a cidade natal de Jean Moulin. No meio da geografia eleitoral da desgraça, não me tinha apercebido dessa circunstância e quando o nome de Jean Moulin ecoou na memória fiquei a pensar em como a história imediata, a que estamos vivendo, nos reserva surpresas que, às vezes, parecem dores insuportáveis.
Béziers, importante cidade do Languedoc-Roussillon, tem dentro de si esse património maior que é ter sido o nó de terra onde Jean Moulin nasceu. A cidade tem esse título de honra, essa memória histórica essencial de ter sido o berço do herói da Resistência, na dimensão moral daqueles que são exemplarmente insubstituíveis. Então, lembremos Moulin na circunstância do seu combate e do seu amor à Liberdade. Representante do general De Gaulle no território francês, dirigente máximo da Resistência, ele sabia todos os segredos e conhecia todos os labirintos da Resistência e das suas acções, na França ocupada pelos nazis. Preso pela Gestapo, e sabendo eles quem tinham nas mãos, sofreu torturas inimagináveis, os algozes corporizaram nele toda a banalidade do mal, todos os processos irracionais da tortura, na tentativa de, obrigando-o a falar, o destruírem como figura moral que encarnava a insubmissão francesa. Torturaram-no até à morte. Não lhe arrancaram uma palavra.
Jean Moulin repousa no Panteão e o seu heroísmo tornou-se mito e muitas vezes se recorre ao seu nome e ao seu rosto para encontrar um símbolo. Talvez por sobre nenhum outro nome poderíamos sobrepor o célebre poema de Paul Eluard sobre a Liberdade, divulgado precisamente em 1943, o ano em que Moulin é morto às mãos da Gestapo...

Et par le pouvoir d'un mot
Je recomence ma vie
Je suis né pour te connaitre
Pour te nommer
Liberté

Jean Moulin, se conhecesse o resultado eleitoral de Béziers, a sua cidade, e se soubesse que a FLN de Martine Le Pen ocupa agora o poder, havia de deixar que algumas lágrimas lhe sulcassem o rosto, ele que não chorou quando a Gestapo lhe cravou de lâminas e feridas todo o corpo até à morte.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

A falta de vergonha da Troika e dos seus capatazes domésticos -- gente para todo o serviço! -- atinge tal grau de despudor que, às vezes, entra no domínio do absurdo e da irracionalidade. No outro dia, Passos Coelho veio falar, vagamente e sempre no condicional, no aumento do salário mínimo. Pires de Lima também já tinha vindo com  o blá-blá-blá  de que ele não gosta de salários baixos. Mas tudo isto é do domínio da hipocrisia, da aldrabice com rabo de fora, pois todos sabemos que as suas políticas vão sempre em sentido contrário.
Veja-se o que dizem os grandes mestres de Coelho (e de Gaspar, claro), da senhora Albuquerque e outros menores, como Moedas: "Portugal também é visto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como um "bom" exemplo ao nível dos baixos custos laborais". Acrescenta a notícia da publicação "Conselhos do FMI sobre assuntos do mercado de trabalho": "Neste caso o elogio foi para o salário mínimo português, que está 21% abaixo do nível grego e que durante muitos anos foi 50% inferior".
Adoradores das políticas do FMI e da Troika, descobrem-se assim que os capatazes Coelho & Similares (a mercearia no poder), não têm feito outra coisa do que aldrabar, aldrabar, aldrabar...


TRISTES SINAIS DOS TEMPOS

Ilustração de Zé Dalmeida
A política vai-se transformando numa forma de masoquismo insuportável. Os governantes dizem uma coisa e o seu contrário, são capazes de chorar lágrimas de crocodilo pela desgraça das suas políticas, e, ao mesmo tempo, esfregarem as mãos de contentes pelas patifarias que lançam sobre o tecido social. Como numa espécie de teatro do absurdo, vemos, ouvimos e lemos algumas sondagens (mau grado a manipulação que as ferem) e somos levados a reconhecer que há gente que, pelos vistos, gosta de levar com o sarrafo da pobreza do lombo ou encolhe os ombros como se uma fatalidade se tivesse abatido sobre o país.
Nestes anos lavrados de sofrimento, assassinaram a esperança, as pessoas já não acreditam e arrastam o seu cepticismo pelos dias sem horizontes que perfazem o calendário da nossa actualidade. Os portugueses anatematizam-se nas situações de desespero, recebem sucessivos golpes e as cicatrizes aí estão, na crosta social dos dias, como se um destino cruel tivesse batido à porta. Então, num quadro de eleições próximas, há quem questione uma velha perplexidade: será que os portugueses continuarão a votar nos autores da desgraça que se abateu sobre eles? Um dia destes, discorrendo sobre estas banalidades do dia-a-dia, alguém se interrogava se, no marketing eleitoral, face ao descrédito de tantos políticos, o apelo ao voto não passará, também ele, a revestir uma forte dose de masoquismo, traduzida em qualquer coisa como isto: "se me odeia, se acha que eu sou um crápula e um corrupto, vote em mim!"
Tristes sinais dos tempos!

terça-feira, 1 de abril de 2014

O Amanhã



Hoje, na procura de papéis perdidos, encontrei num caderno dois poemas do grande poeta mexicano José Emílio Pacheco. Falam de ontem e de amanhã, da memória, que guarda as cicatrizes dos confrontos que fomos tendo com o tempo, no devir dos acontecimentos que fazem a espuma dos dias.
O poeta morreu em finais de Janeiro, mas os seus versos continuam a falar connosco. Um dos poemas é muito breve, dois versos, apenas:

Já somos tudo aquilo
contra o que lutávamos aos vinte anos.

O segundo tem por título O Amanhã:

Aos vinte anos disseram-nos: "Devem
Sacrificar-se pelo Amanhã.

E sacrificámos a vida no altar
Do deus que nunca chega.

Gostaríamos de encontrar, afinal,
Os velhos mestres daquela época.

Deveriam dizer-nos se, de verdade,
Todo o horror de hoje era o Amanhã

COMO UM PÁSSARO VOA



 Fui ao Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, participar numa homenagem a José Manuel Castanheira. Era o Dia Mundial de Teatro, no espaço mágico que Benite sonhou e edificou numa aventura cultural sem paralelo no país, havia a apresentação de dois livros notáveis de José Manuel Castanheira, "CASTANHEIRA CENOGRAFIA" e "Desenhar Nuvens", e depois o belíssimo espectáculo "Tartufo", de Moliére, encenação de Rogério de Carvalho e cenografia de Castanheira. Uma grande festa do Teatro. 

Na apresentação de "Desenhar Nuvens", li o texto que segue e aqui publico como preito de gratidão ao José Manuel Castanheira por tudo o que já nos fez sonhar. Li algures, numa crónica, que Heine, o poeta, contara um dia que Deus, tendo trabalhado seis dias na criação do mundo, chegou ao sétimo dia cansado. Então, chamou Goethe -- e pediu-lhe:
-- Agora, cria tu as nuvens!
Não sei se Deus deu total liberdade ao poeta para riscar o céu -- que isto da criação tem as suas fronteiras --, mas a verdade é que as nuvens, mesmo em tempo mau, quando a neve do céu fica mais negra, oferecem-nos sempre boa matéria de espanto para os olhos. É tudo muito rápido: as imagens estão sempre em breve combustão, empurradas pelo vento. Penso, então, que o poeta não se confinou ao céu e desceu à terra para a invenção dos dias claros, paisagens soberbas que se agarram à memória ou para o elogio da criação, que é verdadeiramente onde o homem se faz a si próprio.
 O sol que muda as cores das cidades, os rios que as abraçam, os bosques verdes que nos ajudam a respirar, o mar e as suas brisas marítimas que estão sempre a desafiar-nos a içar velas imaginárias e partirmos em busca de horizontes infinitos; o real absoluto que os poetas perseguem, quando cavam fundo à procura de tesouros de palavras, que é, também, o trabalho paciente da literatura, ou a imaginação desmedida dos artistas plásticos, como José Manuel Castanheira, na riqueza dos seus originais universos de cor. Há esses instantes que nos fazem bater mais depressa o coração, os versos que nos deixam atónitos pela sua forma de dizerem humanidade, as palavras que nos beijam com se tivessem boca, como no poema de Alexandre O’Neill.
 O espaço e o tempo, nas suas singularidades, tudo ao alcance do olhar e da mão, como se nos impusessem o dever da aventura criadora, criando outras realidades, outros mundos, que é no dizer de Vargas Llosa, o grande desafio que o homem coloca aos deuses. O mundo está cheio de prodígios, mas desde Antígona que sabemos que nada há mais prodigioso do que o Homem, porque nele está contida toda a matéria dos sonhos. Apetece-me regressar à história de Heine e segredar-lhe, de mansinho, que foi bom Deus ter repousado e convocar um poeta para a metáfora da criação das nuvens.

Fui buscar pedaços de um texto escrito há mais de dez anos porque o José Manuel Castanheira se lembrou de Desenhar Nuvens para definir a sua aventura pessoal, que é muito mais do que a cenografia, e penso que esta coincidência do livro dele com a história do poeta alemão converge naquilo que é uma arte poética construída na caligrafia dos traços e das cores, na habitação dos espaços e das suas memórias, na criação de mundos que são muito mais do que o efémero dos espectáculos, mundos com rumores de gente viva, com aspirações de liberdade e de libertação, que tantas vezes se elevam do chão do palco, com as suas cores, para habitarem a densidade dos espaços cénicos em que José Manuel Castanheira dá força às palavras dos dramaturgos.
Este livro, como os livros de José Manuel Castanheira, tendo no seu coração uma escrita poética, como acontece sempre na sua narrativa criadora, tem uma qualidade que é comum à sua obra, e decerto torna inalcançável o propósito do meu caderno de encargos para o dia de hoje. Como apresentar Desenhar Nuvens, falar dele com palavras, quando o livro tem um respirar plástico muito próprio, que atinge expressão superior no fabuloso álbum Castanheira Cenografia?
Quando nos detemos nos textos de Castanheira, que são belíssimos, os olhos poisam logo na matéria plástica que acompanha os passos memorialísticos do autor. Então, a receita é parar em cada página, voltar atrás para perceber a articulação dos universos do cenógrafo e pintor com os seus territórios interiores, pois este livro, não sendo uma autobiografia, explica muito bem o autor enquanto jovem, e depois, nos passos de uma vida que fizeram dele um cenógrafo com obra reconhecida não só em Portugal, mas no mundo.
É muito curiosa esta viagem pela espuma dos dias que marcam o percurso de Castanheira, numa topografia onde se descobre uma geografia sentimental, de raízes fundas na multiplicidade dos territórios das suas navegações de homem do teatro e da cultura. Desenhar Nuvens é um canto em louvor da Cenografia, “uma profissão que em Portugal não existe”, lembra logo a abrir, com ironia, José Manuel Castanheira. “Ao fim de 40 anos de intensa actividade profissional verifico que abracei uma prtofissão que quase parece não existir”. Esta perplexidade explica-a o autor de forma clara e que não deixa de traduzir o nosso subdesenvolvimento em tudo quanto diz respeito às artes e à cultura, em geral. Diz ele: “uma profissão muito antiga, é certo, mas intermitente, escondida, secundarizada, maltratada”. Por isso, Desenhar Nuvens é um Manual de Sobrevivência de um Cenógrafo.
A viagem documenta como a cenografia (consideremo-la aqui como espelho do que acontece genericamente à cultura) é subalternizada, às vezes parecendo mal-amada, o que só demonstra a debilidade cultural do país. A verdade, porém, é que José Manuel Castanheira superou todas as contingências para afirmar uma obra que rompeu com lugares-comuns e convencionalismos, às vezes bem de raiz provinciana, produzindo uma obra que é o reflexo das suas inquietações culturais, bebidas numa aprendizagem cultural longa e multifacetada. Despreocupadamente, como quem conta uma história, ele fala-nos desse propósito da sua cenografia não ser outra coisa senão uma forma de ler (eu acrescento: e compreender) o mundo, olhando para a condição humana, que o teatro retrata, como questão primordial. Dito por palavras suas: “Dissecar minuciosamente a realidade para reaprender a usar a vida”.
Penso que o JMC olha a Biblioteca como um universo, porventura fascinado por Borges, e aí temos “os livros e o espaço da palavra” como um fascínio muito forte. Ao lê-lo, pensei em Henry Miller, quando ele nos diz, em Os Livros da Minha Vida que os autores, tantos autores clássicos, “estão vivos e falam comigo”. É assim que eu vejo as cenografias do José Manuel Castanheira, a forma como ele lê os dramaturgos e os seus espaços interiores, a maneira como ele articula a relação dos autores com os tempos, a invenção dos espaços a que a pintura dá, sempre, uma dimensão fantástica.
Onde foi José Manuel Castanheira buscar esse surpreendente imaginário, esse cromatismo que nos faz entrar dentro da expressão dramática? Lendo Desenhar Nuvens percebe-se que a aventura começou cedo, porventura no convívio com o avô mágico e com os antigos teatrinhos de aldeia, na memória, que é a pele da alma, dos territórios da infância,  das festas populares com magia pirotécnica, desses olhares sobre as palavras e as coisas que se tornam imemoriais e nos acompanham pela vida fora. Desses reencontros, surge a escrita de Castanheira, de que aqui deixo um fragmento:

 “A casa da aldeia era enorme e estava cheia de fantasmas que, ano após ano, iam povoando o mar da imaginação. Casas com longos corredores e recantos escuros. Divisões fechadas à chave que nunca se abriam. Agora já não encontro essas casas, a não ser em livros, como aquele mundo fantástico interior das paredes de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, ou na inesgotável Macondo, de Gabriel Garcia Marquez”. 

Estas casas, lugares simbólicos por excelência, fazem ecoar versos de Herberto Hélder:

"Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder 
tão firme e silencioso 
como só houve no tempo mais antigo” 

Sendo artista de muito mundo, José Manuel Castanheira mostra no seu livro a raiz funda que o prende à Beira. Desde Castelo Branco, a sua cidade (o Liceu Nuno Álvares e a sua primeira cenografia) os lugares e as paisagens, os rostos das pessoas. Acompanhei muitas vezes Castanheira nessas geografias, a pequena aldeia de Escalos, Alpedrinha, “as terras porosas da sede”, como dizia Eugénio, a Gardunha, o Fundão, a Covilhã, as alturas da Serra da Estrela (lembro-me sempre duma épica subida ao Cântaro e da descida em rapel que o José Manuel fez, como se estivesse num filme do Spielberg!).
Desenhar Nuvens fala de tudo isso e de como, nos seus dias andados, semeando sonhos, através do teatro, José Manuel Castanheira fez do seu trabalho como cenógrafo um ofício de rigor e de paciência, como a poesia também é, recusando sempre a neutralidade (“as regras do teatro não permitem ao espectador ser neutro, ser “ausente”, diz ele) ou a facilidade de encarar o teatro como uma forma “para expor cenários”, a crítica à forma como hoje “a banalização das emoções é induzida”. A forma como ele olha para os edifícios do teatro (ele que quis fazer o inventário total dos espaços teatrais em Portugal), edifícios que ele reclama como corpos dinâmicos, a percepção dos mundos que eles contêm, a memória dos instrumentos cenográficos, antecipam, a maneira como ele privilegia a memória dos universos totais que o teatro implica.
“Gosto de ser surpreendido. E no teatro ainda mais. No campo poético, sobretudo”: eis um programa que a sua biografia de artista reflecte. Esta crónica de “uma profissão que em Portugal não existe”, conta histórias. Ao ler uma delas, identifiquei o lugar e o tempo e os personagens exteriores ao drama. Vou contá-la, pela simples razão, de ser de proveito e exemplo e mostrar como a subtil ironia habita a escrita de Castanheira: 

“Era noite de estreia na cidade. No cine‐teatro decadente e desconfortável (décadas à espera das obras de recuperação), colocámos uma pequena bancada sobre as primeiras filas da plateia, fazendo o público desaguar directamente no palco, criando uma melhor intimidade. Assim os espectadores acediam por duas escadas laterais no proscénio, subiam ao palco sobre o fosso de orquestra e instalavam‐se na bancada. A situação sem ser inédita era, contudo, pouco vulgar naquele teatro.Como é da praxe nas pequenas cidades, entre convidados, habitués e amigos, comparecem individualidades e políticos. Entre estes compareceu o presidente da região. Simpático, como é da praxe, subiu acompanhado do seu staff e ia despachando cumprimentos a todos, por onde passava.Já em cima do palco, vendo os actores, logo ali, em pose estática na penumbra (era essa a marcação para a entrada do público) dispara: “Oh, os actores estão aqui. Para adiantar tempo vamos já cumprimentá-los”.

Eis que, perante uma bancada repleta de gente aguardando o início do espectáculo, o senhor presidente e comitiva entraram no cenário (e involuntariamente entraram no espectáculo...), avançaram pela cena dentro, com todo o público a assistir, e cumprimentaram todos os actores que aí se encontravam, sentando‐se depois, tranquilamente..” Estamos, também, face a um livro de afectos, que fala com sobriedade do universo familiar, que evoca amigos -- Dinis Machado, José Saramago, Chico Buarque, Ricardo Salvat, para só citar alguns -- que regista acontecimentos -- a ligação a Mérida, a Madrid, a lembrança de O Voo da Cegonha, mecanismo cenográfico que ele ofereceu a Castelo Branco, a sua cidade, e continua apodrecendo num armazém, a Paris (a exposição das cenografias de Castanheira do Centro Pompidou) ao Brasil, que singulariza cenografias (também apetece destacar S. Juan, de Max Aub, que vi em Madrid e nunca mais esqueci), o Rei Lear, ou Tchekov, que em Castanheira é figura tutelar.
Mário Dionísio (A Paleta e o Mundo), citando Monet afirma que este tinha “a convicção de que se devia pintar como o pássaro canta”, certamente “com a espontaneidade, a frescura, a ingenuidade, o feliz desprendimento dos pássaros que esvoaçam, pousam e trinam, de ramo em ramo”.
De facto, Castanheira confessa no seu livro que “foram o palco, a luz, a plateia, as palavras, a atmosfera que me fizeram voar”. É isso: fazer cenografia e pintar como uma pássaro voa e canta. Regressando ao princípio e à história de Heine, também ele, José Manuel Castanheira, não desdenharia ser chamado por Deus para pintar as nuvens, como um pássaro que risca o céu -- e todos os dias recomeça a voar, com a pura alegria da criação.

Cenografia de "S. Juan", de Max Aub, estreado em Madrid

segunda-feira, 31 de março de 2014

ESTE ABRIL, OUVIR O ZECA NO FUNDÃO



Ouvir o Zeca é que pode ser a grande aventura! Porque já se percebeu que a sua música é sempre uma mensagem renovadora, um persistente coro da primavera, um hino a uma revolução ("Grândola Vila Morena"), um canto absoluto de liberdade.  Quem tem a sorte de ouvir os seus poemas e as suas canções sabe que viver esses instantes, às vezes breves e passageiros, é como ir ao encontro das cidades futuras, como Gabriel Celaya dizia que estas coisas deviam ser. Quem ouve a sua voz, uma voz que parece intacta como são as melodias que representam a espessura do tempo, que se iudentificam com o querer e o ser do povo, que são a reserva primordial de esperança que nos faz olhar com outros olhos para os dias sombrios, que nos faz descobrir ainda uns pedaços de alegria, no meio do negrume, como acontecia antes do 25 de Abril e hoje volta a acontecer.
O Zeca consubstancia tudo isso. Olhemos, por momentos, o seu rosto e uma emoção forte toca o coração da gente porque as suas canções continuam a acompanhar-nos, como pertença nossa, colectiva. A sua obra é transversal ao país, transversal às gerações, às de ontem e de hoje, e seguramente às de amanhã, precisamente porque o seu canto fugiu a todas as fronteiras e limitações, a todas as convenções, e, sabendo interpretar ao mesmo tempo aspirações colectivas (hinos à liberdade) e músicas e cantares que vêm do fundo dos tempos, soube dar-lhes um sentido poético que eleva a sua obra aos altos domínios da criação.
O Zeca tem raízes fundanenses,  -- que título de honra para uma terra! -- e os seus antecedentes, avós e tios repartem-se por esta topografia beirã, que vai do Tortosendo e da Covilhã a Belmonte.
Então, este Abril, este ano que assinala os 40 anos do 25 de Abril, que melhor forma de evocar a revolução e a Liberdade recuperada do que ouvir e recordar a obra discográfica de José Afonso. "Desta Canção Que Apeteço" é o título da exposição que é inaugurada dia 5 de Abril, às 17 horas, no casino Fundanense. Recordar os discos, um a um, e poder ouvi-los, eis a aventura que é proposta aos visitantes. E, na oportunidade, simbolicamente, será constituída o Núcleo da Beira da Associação José Afonso (AJA). Um tributo ao Zeca. Aos imensos amigos da Beira do Zeca, apenas uma lembrança: traga um amigo também. Até sábado!

ABSOLVIÇÃO?


É sempre curioso descobrir as nuances retóricas do primeiro-ministro, entre as palavras proferidas cá dentro e lá fora. Aqui e agora, tem uma postura geralmente arrogante, tipo op governo "c' est moi", senhor de um pensamento sem dúvidas, pois errados estão sempre os outros, como ainda recentemente se viu com o célebre manifesto da reestruturação da dívida. Lá fora, é mais brando e tem dúvidas, até mostra um certo ar penitencial.
O que disse, Passos Coelho, em Moçambique? Admitiu não saber se a história o absolverá das opções que tomou como governante e assumiu que "a maioria dos portugueses", incluindo ele próprio, "não gostou das medidas difíceis do seu governo".  Pelos vistos, também ele não gosta das medidas que toma, o que quer dizer que é mais malandro do que os portugueses julgavam. São lágrimas de crocodilo sobre a prática de malfeitorias contra o povo, que é a sua grande especialidade, e que são mensuráveis na pobreza, no desemprego e na pesada canga de impostos (que é a sua grande arte de governar).
Só por ingenuidade ou estupidez pode ter dúvidas sobre a absolvição da história... Condenado já está, sem apelo nem agravo!





domingo, 30 de março de 2014

UMA ESPERANÇA NA NOITE


Adicionar legendaAnne Hidalgo
Hermano Sanches-Ruivo
 No meio do descalabro da esquerda nas eleições municipais franceses, uma esperança se acendeu na noite com a vitória em Paris de Anne Hidalgo, que vai ser a primeira mulher presidente da Câmara de Paris. É verdade que a sua eleição não apaga o retrocesso político que significa a vitória da direita e da extrema-direita à escala da França, que nos deve levar a perguntar o que a esquerda fez da esperança, que pecados e omissões cometeu para tamanha penalização. Mas hoje, quero afastar essas nuvens negras e falar do triunfo da candidata socialista à Câmara de Paris, que derrotou claramente a candidata conservadora, Nathalie-Morizet.
Anne Hidalgo, que nasceu na província de Cádis, no sul de Espanha (o poeta Rafael Alberti havia de ficar contente com a vitória da sua conterrânea), veio para França muito jovem, com os pais, vivendo a condição de emigrante. Também nesse aspecto a sua vitória  tem um significado importante, num contexto em que o discurso xenófobo do partido de Martine Le Pen, um dos vencedores, vai semeando o ideário populista da intolerância contra os estrangeiros, que germina facilmente no meio da crise e da desastrada política de Hollande, que é, de facto, o grande derrotado desta pugna eleitoral.
Nesta pequena nota, quero traduzir também o meu júbilo num abraço a Hermano Sanches-Ruivo, um luso descendente, que já tinha grandes responsabilidades no executivo anterior, que geria Paris, e que na equipa de Anne Hidalgo vê reforçada a sua presença no governo de Paris. Este jovem, de raízes beirãs (o pai é natural de Alcains), conheci-o há muitos anos e na capital francesa pude observar o seu papel no desenvolvimento de um associativismo de novo tipo, na Cape Magelin, articulando duma forma muito inteligente a capacidade e o espírito de inovação da geração de luso-descendentes na sociedade francesa.
Depois, como autarca, vi bem o entusiasmo como ele abraçou todos os projectos de cooperação com Portugal (designadamente com o Fundão) e a sua disponibilidade estimulante para a realização de um Grande Colóquio sobre Emigração a realizar no Fundão, em que estamos a trabalhar, que se pretende seja o prosseguimento do "espírito de Hendaia", isto é, de memória e actualidade, sobretudo na reivindicação de uma Europa inclusiva e não xenófoba.
É  por tudo isso que a vitória de Hidalgo é uma esperança na noite. E, na alegria da sua vitória, cabe, também, aquele abraço ao Hermano Sanches-Ruivo