quinta-feira, 10 de abril de 2014

"É PRECISO MATAR ESTA TRISTEZA"



Vale a pena ler a última crónica de Baptista-Bastos, publicada ontem no "DN" e que aborda uma questão que Portugal traz, há séculos, consigo mesmo. "Essa triste tristeza", título da crónica, é um fenómeno de longa duração na história portuguesa, parece ter-se colado à alma de um povo como condição que emerge do viver colectivo.Há, decerto, muitas explicações para esta idiossincrasia, e BB fornece algumas que descem ao chão da pátria. Diz ele: "Mas a nossa tristeza possui raízes sociais, políticas e religiosas facilmente entendíveis. O cantochão, o hissope, a labareda inculcaram-nos o terror e o medo, pecadores infames e sem remissão. Em quase mil anos de história, e atendendo a todos os conceitos de liberdade conhecidos, temos quase sufocados com a falta dela e as imposições das classes dominantes. Não há que fugir a isto. Os grandes poetas não se calaram, apesar de tudo. De Camões a Sá de Miranda, passando por Bocage e, mais próximo, O'Neill, Armindo Rodrigues e José Gomes Ferreira, todos eles e muitos mais nunca foram cúmplices do silêncio, porque enjeitavam a vassalagem. "Não hei-de morrer sem saber a cor da liberdade". Eis o grito de Jorge de Sena. "A tristeza é o vinho da vingança", cantou Carlos de Oliveira. E Manuel Alegre publicou, agora, País de Abril, uma selecção de poemas belíssimos que talvez devesse ser lida nas escolas".
Num país com séculos de fogueiras de intolerância, com o anátema de uma pobreza que era imposta como um destino que tinha remissão em paraísos póstumos, num país com séculos de analfabetismo, em que se amputava a própria capacidade de desejo e de imaginário, num país com séculos de fome e de servidão, num país mais de súbditos do que de cidadãos, num país de ditadores e de paizinhos tiranos, na política, que outra alma poderia carregar o povo senão a "triste tristeza"?
"Essa triste tristeza", de que fala Baptista-Bastos, atenuada com as esperanças que Abril abriu, está aí, de novo, incrustada ao quotidiano dos portugueses. Estamos mais tristes. E, de facto, como diz o poema de Manuel Alegre "é preciso matar esta tristeza". Julgo que vale a pena, juntar a esta reflexão breve o poema inteiro de Manuel Alegre, ele que tão bem cantou, premonitoriamente, o País de Abril.

É preciso saber porque se é triste
é preciso dizer esta tristeza
que nós calamos tantas vezes mas existe
tão inútil em nós tão portuguesa.

É preciso dizê-la é preciso despi-la
é preciso matá-la perguntando
porquê esta tristeza como e quando
e porquê tão submissa tão tranquila.

Esta tristeza que nos prende em sua teia
esta tristeza aranha esta negra tristeza
que não nos mata nem nos incendeia

antes em nós semeia esta vileza
e envenena ao nascer qualquer ideia.
É preciso matar esta tristeza.

(Manuel Alegre estará no próximo dia 15, na Covilhã, participando no ciclo "Escritores em Abril. Às 21.30, na salão nobre da Câmara Municipal da Covilhã)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A FAVOR DA LUZ QUE ILUMINA O FUTURO


No salão nobre da Câmara Municipal da Covilhã, à volta do meu livro "Crónica do País Relativo - Portugal, Minha Questão" (II Vol.), iniciou-se o ciclo "Escritores em Abril". Falaram do livro e do autor, decerto com palavras excessivas, o presidente da Câmara, Vítor Pereira, a Prof. Antonieta Garcia e o Prof. António Fidalgo, reitor da UBI. O dr. Adelino Pereira leu um crónica, que eu escrevera em 1993. Fiquei
grato, do coração, a todos. E, na circunstância, li o seguinte texto:

Que maior título de honra me poderia ser dado do que  estar aqui e agora, abrindo um ciclo que, falando de “Escritores em Abril”, primordialmente quer trazer à fala a questão essencial da liberdade e de como ela se revela, em toda a sua glória, no poder da palavra e no seu exercício, como forma de respirar a pátria e de assumir as suas angústias e esperanças, os momentos exaltantes que corporizam as aspirações de felicidade colectiva, ou o drama das submissões de opressão em que o homem, como hoje, parece ser a medida de coisa nenhuma.
Um grande poeta de que fui amigo -- e tão ligado estive à sua arte poética que fui buscar um verso para título do meu livro --, Alexandre O’Neill, tem um belíssimo poema que eu releio muitas vezes, que diz: “há palavras que nos beijam como se tivessem boca”. Abril, Liberdade são, para mim, duas dessas palavras, possuidoras de tal força que, sem elas, seremos sempre fáceis presas de qualquer determinismo histórico, baseado na servidão do homem ou em escravaturas, mais ou menos climatizadas, ordenadas por sujeitos que se arrogam a condição de ditadores benevolentes.
Liberdade e Abril contêm, dentro de si, aqueles continentes de esperança num país novo de que falavam as trovas de Manuel Alegre, na Praça da Canção, ou os versos do poeta Ruy Belo, quando, abominando o “ país sem olhos e sem boca”, imaginava o Portugal futuro, “um país aonde o puro pássaro é possível”.

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

O secretário de Estado da Administração Pública, José Leite Martins, foi interpelado pela oposição sobre o que disse num encontro com jornalistas, onde afirmara que a contribuição de solidariedade cortes nas pensões iriam ser definitivos.Agora, meteu a viola no saco e disse que acompanha a posição do governo, que é a do primeiro-ministro."Roma locurta, causa finita" Foi assim em latim que José Leite Martins rematou a sua curta resposta a uma deputada socialista, Catarina Marcelino, que quis saber se o que tinha dito o secretário de Estado da Administração Pública aos jornalistas, num encontro no Ministério das Finanças, era verdade: que a contribuição extraordinária de solidariedade (CES) passaria a definitiva. A Roma que falou e fechou a questão foi Passos Coelho, explicou-se Leite Martins, ouvido na Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública (COFAP), no Parlamento. "O primeiro-ministro relevou publicamente a opção do Governo na matéria. E eu sou membro do Governo alinhado com a posição, naturalmente, que o senhor primeiro-ministro define. E eu estou completamente alinhado com essa posição", começou por dizer de forma algo embrulhada. Para concluir pouco depois: "Sigo muito os romanos: Roma locuta [est], causa finita [est], Roma falou, a questão está decidida." Chama-se a isto aldrabice com o rabo de fora. Chama-se a isto falta de coluna vertebral...

terça-feira, 8 de abril de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA


Na duplicidade da propaganda pré-eleitoral até o primeiro-ministro já fala no aumento do salário mínimo e na contenção de cortes nas pensões e salários da Função Pública. Tudo blá-blá-blá a que a demagogia eleitoral obriga. Os paraísos apregoados por Passos Coelho e Paulo Portas só podem ser póstumos, pois as políticas impostas ao quotidiano dos portugueses só anunciam infernos, sem escapatória possível. Aí estão eles, todos os dias, por mais que os disfarces da retórica oficial tente disfarçar a coisa. Olhem a notícia de hoje, do "Expresso" on line: "Nova contribuição extraordinária de solidariedade, que contempla cortes para quem aufere pensões superiores a 1000 euros começa a ser aplicada esta semana para os pensionistas da Segurança Social. A partir da próxima semana, é a vez dos pensionistas da CGA sentirem o efeito do imposto". És velho? -- pensa Passos Coelho. Toma lá, que já almoçaste! É a infâmia levada ao extremo...




"O PATRIOTISMO CALA O BICO"


"O Patriotismo Cala o Bico", a última crónica publicada no "i", é Artur Portela no seu melhor. Quem se recorda dos textos de "A Funda", que começou e fez furor no "Jornal do Fundão", muito antes do 25 de Abril, lembra-se como a sua prosa abanava o conformismo da sociedade portuguesa e inquietava políticos e homens do governo, que viviam no pânico da Censura não ser suficientemente eficaz ou inteligente para perceber o alcance político de "A Funda". A Censura cortava e mutilava os textos, mas, mesmo com cortes, a poderosa ironia e capacidade crítica de Portela motivava sempre o prazer da leitura. Às vezes o cronista ia ao século XIX e corporizava em Abranhos as contradições do século XX português, com os seus tiques provincianos, os seus caceteirismos ultramontamos, a sua propensão para o reino da estupidez.
No outro dia, numa mensagem telegráfica, Artur Portela dizia-me que estava a pensar na reedição de crónicas de "A Funda", dada a sua actualidade. Um sintoma do retrocesso civilizacional do país...
Então, é preciso ler Portela e a sua demolidora crítica. Aqui o temos:

"Não será preferível proibir a palavra reestruturação? E, já agora, proibir todas as outras palavras ditas por quem diz a palavra reestruturação. E, já agora, aqueles que as dizem

Há palavras que não.
Há palavras que nunca.
Há palavras que jamais.
Há palavras que em tempo algum.
Por elas próprias.
Digam o que disserem as palavras que estão antes e digam o que disserem as palavras que estão depois.
Digam o que disserem as palavras que estão na linha de cima e digam o que disserem as palavras que estão na linha de baixo.
Queiram verdadeiramente essas palavras dizer o que verdadeiramente quiserem.
Dêem essas palavras a palavra de honra que quiserem dar, dizendo que não é isso o que querem dizer.
Há palavras que queimam a boca de quem as disser.
E ferem os tímpanos de quem as ouvir.
Há palavras que envenenam o poço das palavras.
A palavra reestruturação.
Não será preferível proibir, de uma vez por todas, a palavra reestruturação?
E, já agora, todas as outras palavras ditas por quem diz a palavra reestruturação?
E, já agora, proibir aqueles que, cá dentro ou lá fora, dizem essa palavra e todas as outras que, além dessa, vierem a dizer?
Quando se proíbe uma palavra, mesmo sob o mero pretexto de que ela é inoportuna, está-se a fazer uma, duas, três coisas.
A proibir essa palavra.
A proibir todas as palavras.
A proibir.
É a indiscussão.
Já estivemos mais longe.
Nunca tínhamos estado tão perto.
Portugal.
A propósito: dizer Portugal será oportuno?
Dizer Portugais será oportuno?
E ouvir dizer? Ouvir dizer Portugal será oportuno?
Será oportuno ouvir dizer que há Portugais?
Portugal é uma palavra que se possa, dialéctica, democrática, diversamente dizer?
Portugal paga-se caro. Leiloa-se barato, mas paga-se caro.
O patriotismo cala o bico."

segunda-feira, 7 de abril de 2014

PINÓQUIO E A MENTIRA DO DIA

Já sabíamos que para o governo e a sua maioria, a verdade é um espécie em extinção. Mas mentir descaradamente, face ao cheiro de eleições próximas, entrar no delírio da propaganda, usar as artimanhas da aldrabice sem critério, tornou-se uma banalidade que envergonha ou devia envergonhar. Não estamos face a adoráveis mentirosos, mas a boçais aldrabões, até na desfaçatez com que praticam a técnica parecem de quinta categoria. Veja-se esta do eurodeputado do CDS, Nuno Melo, que já era mestre de arrogância e, agora, quer ser também de mentirolas: "Que Portugal está melhor que em 2011 é um dado objectivo, inquestionável e indesmentível".
Nuno Melo ao "i"

PAÍS DE ABRIL


Acaba de sair Pais de Abril, de Manuel Alegre, uma antologia em que, de certo modo, a poesia é premonitória do 25 de Abril e antecipa o tempo novo de um Portugal aberto para a liberdade e para o sonho. É espantoso, de facto, como Manuel Alegre interiorizou poeticamente Abril: eis o limiar da festa colectiva, da revolução futura que admitiria como possíveis todas as esperanças, todas as felicidades, todos os sorrisos e todas as fraternidades. Numa breve nota explicativa, assinala-se que "nesta antologia há poemas que falam de Abril antes de Abril e de Maio antes de Maio, em Praça da Canção, editada em 1964, e em O Canto e as Armas, de 1967". E acrescenta-se: "Não deixa de ser intrigante que, tantos anos antes, o autor tenha escrito sobre o País de Abril, Maio e os cravos vermelhos. Como se explica? Mistérios da poesia".
Só quem viveu aqueles tempos sombrios da ditadura mais longa da Europa, só quem percebeu a densidade do medo que era, talvez, a principal arma do salazarismo, pode entender a importância da poesia como arma de resistência e de como a poesia de Manuel Alegre desempenhou esse papel ("Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal" (O Canto e as Armas).
A Praça da Canção, editada em 1964, pela Vértice, apesar de proibidíssima, rompeu todas as barreiras e os versos voavam e iluminavam a noite. Às vezes murmurados, outras cantados, um verso e um poema pareciam salvar-nos da apagada e vil tristeza em que se vegetava e transformavam-se em primordial alimento de esperança. Ainda o livro não tinha visto a luz do dia, mas dias antes de se exilar, Manuel Alegre gravou numa República de Coimbra, com a sua voz poderosa, acompanhada pela música de António Portugal, os poemas de a Praça da Canção. Eu tive a sorte de ter uma cópia dessa gravação, que ouvíamos então embevecidos pela noite dentro. Depois, quando veio o livro (1964), os poemas circulavam porque havia a certeza de que se tratava de uma poesia verdadeiramente revolucionária, no sentido em que acordava consciências. Sabíamos os poemas de cor. E agora, em Abril, quando percorro esta antologia, parece que o coração volta a bater, tantos anos depois, um bocadinho mais depressa, como se cada verso fosse instante de emoção que o vento que passa, brisa de esperança, voltava a agitar como bandeira.
E lá está, a páginas tantas, o belíssimo poema A Rapariga do País de Abril, que aqui deixo aos meus Leitores:

Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esseTejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa do País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti eu me perdi eu me encontrei
por ti que eras ausente e tão presente
por ti cheguei ao longe aqui tão perto..
E achei achando-te o País de Abril

Manuel Alegre estará na Covilhã no dia 18 de Abril, participando na iniciativa que a Câmara está a organizar, "Escritores em Abril"