sábado, 19 de abril de 2014

SAUDADES DE GABO




Henry Miller, no livro em que falou dos livros da sua vida, conta que às vezes ia à estante e buscava os livros que amava. Pegava neles para a aventura da releitura,  que é sempre descoberta, e dizia que os livros estavam vivos e falavam com ele. Lembrei-me imediatamente disso quando ontem ouvi a notícia da morte de Gabriel Garcia Marquez, o Gabo, que tanto nos fez sonhar, povoando o imaginário universal das fabulosas invenções da sua literatura fantástica. Fui logo buscar os Cem Amos de Solidão para ler aquela saga de quatro gerações (quantas vezes o fiz já?) e regressar a Macondo e às personagens tão fortes, como o coronel José Aureliano Buendia, o cigano Melquíades, as mulheres como Úrsula ou Remédios, que parecem ter-se tornado materialmente humanas para nos acompanharem pela vida fora. Com emoção percorri aquelas páginas que retratam um tempo em que "o mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome" (e logo me lembrei do poema de Sophia: ia e vinha/e por cada coisa perguntava/ que nome tinha), e mais uma vez os olhos me caíram sobre a abertura de Cem Anos de Solidão, que é uma grande sinfonia literária tornada património da humanidade.
Leio para mim, como eu próprio estivesse a percorrer aqueles caminhos surpreendentes de Macondo, ficando de olhos fechados, a sonhar, à medida que a leitura avançava:

"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos andrajosos montava a sua tenda perto da aldeia e, num grande alvoroço de apitos e timbales, davam a conhecer as novas invenções. Primeiro levaram o íman. Um cigano corpulento, de barba ferina e mãos de pardal-dos-telhados, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração daquilo que ele próprio denominava de oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa a arrastar dois lingotes metálicos, e toda a gente ficou espantada ao ver como as caldeiras, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam dos seus lugares, e as madeiras rangiam pelo desespero dos pregos e dos parafusos que tentavam despregar-se, e até os objectos perdidos há muito tempo apareciam por onde mais se procurara e arrastavam-se em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. "As coisas têm vida própria", apregoava o cigano com um sotaque áspero, "é tudo uma questão de lhes acordar a alma." José Arcádio Buendía, cuja imaginação desaforada andava sempre à frente do engenho da Natureza e ainda mais além do milagre da magia, pensou que era possível servir-se daquele invento inútil para desentanhar o ouro da terra. Melquíades, que era um homem honrado, preveniu-o: "Para isso não serve". (...)

O romance começa assim e é um nunca mais acabar de surpresas. Descrições soberbas dos personagens, narrativas épicas de paisagens e de acontecimentos, o fluir da saga é uma descoberta de um mundo, Macondo, de que temos pena quando tudo acaba sepultado em Cem Anos de Solidão. Mas quem leu, não esquece a narrativa do fuzilamento do coronel Buendía, anunciada nas primeiras linhas e que culmina lá para o meio do romance.

"Ao amanhecer, depois de um conselho de guerra sumário, Arcadio foi fuzilado contra a parede do cemitério. Nas últimas duas horas de vida não conseguiu perceber por que lhe desaparecera o medo que o atormentara desde a infância. Impassível, sem se preocupar sequer em demonstrar a sua recente coragem, ouviu os infindáveis artigos da acusação. Pensava em Úrsula, que a essa hora devia estar debaixo do castanheiro a tomar o pequeno-almoço com José Arcadio Buendía. Pensava na filha de oito meses que ainda não tinha nome, e no que ia nascer em Agosto. Pensava em Santa Sofia de la Piedad, a quem deixara na noite de véspera a salgar um veado para o almoço de sábado e teve saudade do seu cabelo a cair-lhe em cascatas sobre os ombros e das suas pestanas que pareciam postiças. Pensava na sua gente sem sentimentalismos, num severo ajuste de contas com a vida, começando a compreender quanto gostava realmente das pessoas a quem mais tinha odiado. 
(...)Na escola esboroada onde sentiu pela primeira vez a segurança do poder, a poucos metros do quarto onde conheceu a incerteza do amor, Arcadio achou ridículo o formalismo da morte. Na verdade, não se importava com a morte, mas sim com a vida e por isso a sensação que teve quando pronunciaram a sentença não foi uma sensação de medo, mas sim de nostalgia.Não falou enquanto não lhe perguntaram qual era a sua vontade.
-- Digam à minha mulher -- respondeu com voz bem timbrada -- que ponha à menina o nome de Úrsula. -- Fez uma pausa e confirmou: -- Úrsula,como a avó. E digam-lhe também que se o que vai nascer for varão, que lhe chame José Arcadio, mas não pelo tio e sim pelo avô.
Antes de o levarem ao paredão, o padre Nicanor tentou assisti-lo. "Não tenho nada de que me arrepender", disse e pôs-se às ordens do pelotão depois de tomar uma chávena de café simples. O chefe do pelotão, especialista em execuções sumárias, tinha um nome que era muito mais do que uma coincidência: capitão Roque Carnicero. A caminho do cemitério, sob a chuva miúda ev persistente, Arcadio viu despertar no horizonte uma quarta-feira radiosa. A nostalgia desvanecia-se com a bruma e deixava no seu lugar uma imensa curiosidade. Só quando lhe ordenaram que se voltasse de costas para o muro é que Arcadio viu Rebeca de cabelo molhado e um vestido de flores cor-de-rosa, a abrir a casa de par em par. Fez um esforço para que não o reconhecesse. De facto, Rebeca olhou por acaso para o muro e ficou paralisada de espanto, mal podendo reagir  para fazer um aceno de adeus a Arcadio. Este respondeu-lhe  da mesma maneira. Nesse instante , apontaram-lhe as bocas fumadas das espingardas e ouviu letra a letra as encíclicas cantadas de Melquíades e sentiu os passos perdidos de Santa Sofia de la Piedad, virgem, na sala de aulas e teve no nariz a mesma dureza de gelo que lhe chamaram a atenção nas fossas nasais  do cadáver de Remedios. "Ah, carago!", chegou a pensar, "esqueci-me de dizer que se nascesse mulher lhe chamassem Remedios." Então, como numa pontada pungente, voltou a sentir todo o terror que o atormentou toda a vida. O capitão deu a ordem de fogo. Arcadio mal teve tempo de endireitar o peito e levantar a cabeça, sem compreender donde fluía o líquido ardente que lhe queimava as pernas.
-- Cabrões! -- gritou. --  Viva o Partido Liberal!"

Páginas imemoriais de Cem Anos de Solidão,  que se tornou no livro mais lido de literatura espanhola, depois do Quixote. Gabo falando doe"Infortúnios de Um Escritor de Livros" escreveu, em 1966 uma curiosa radiografia do exercício da escrita.

"Escrever livros é uma profissão suicida. Nenhuma outra exige tanto tempo, tanto trabalho, tanta dedicação comparativamente aos benefícios imediatos. Não acredito que, ao chegarem ao fim de um livro, muitos leitores se questionem sobre quantas horas de angústia e calamidades domésticas custaram aquelas duzentas páginas ao autor ou quanto recebeu pelo seu trabalho (...)."

E, pouco depois de terminar Cem Anos de Solidão:

"Depois de tantos anos a trabalhar como um animal, sinto-me completamente exausto e sem perspectivas claras, excepto relativamente à única coisa de que gosto mas que não me dá de comer: o romance."

No livro Gabriel Garcia Marquez Uma Vida, o biógrafo Gerald Martin conta um episódio crucial do destino do célebre romance (Gabo conta o acontecimento na autobiografia Viver para Contá-la): "No princípio de Agosto, Garcia Marquez acompanhou Mercedes aos correios para enviar o manuscrito concluído para Buenos Aires.Pareciam dois sobreviventes de uma catástrofe. O embrulho continha 490 páginas dactilografadas. O funcionário que estava ao balcão disse: "Oitenta e dois pesos". Garcia Marquez observou Mercedes a procurar o dinheiro na carteira. Tinham apenas 50 e só puderam enviar cerca de metade do livro. Garcia Marquez pediu que estava do outro lado do balcão para tirar folhas como se fossem fatias de toucinho fumado até os 50 pesos serem suficientes. Voltaram para casa, empenharam o aquecedor, o secador de cabelo e o liquificador, regressaram aos correios e enviaram a segunda parte. Ao saírem dos correios, Mercedes parou e voltou-se para o marido: "Ei, Gabo, agora só nos faltava que o livro não prestasse".

Assim nascia um romance universal. Depois vieram muitos outros, como O Outono do Patriarca  Ninguém Escreve ao Coronel ou O General no Seu Labirinto, para citar apenas alguns. Isto, de par com obras-primas de reportagem na outra área do seu coração: o jornalismo. Agora, volto às páginas de Cem Anos de Solidão, regresso a um universo conhecido, e é como se, de repente, aquele realismo fantástico falasse comigo e Macondo, por milagre, se tornasse uma coisa próxima, quase familiar, com as vivências de Melquíades, do coronel Aureliano Buendia, de Úrsula e Remedios, e de todos os outros personagens, e da paisagem envolvente, e do registo poético feito de humanidade. O romance está vivo e fala comigo. Tenho saudades de Gabo.




quinta-feira, 17 de abril de 2014

IN MEMORIAM DE UM AMIGO QUE PARTIU


Catedral de Estrasburgo
Quando morre um amigo, todas as palavras, por melhor que sejam, nos parecem inúteis. Foi hoje a enterrar, em Estrasburgo, o António Jorge Martins e a distância apenas torna mais doloroso o acontecimento. O António Jorge Martins era uma figura singular e possuía aquelas virtudes -- o carácter, a coerência, a fidelidade aos valores do Homem, a história de vida -- que tornam uma pessoa credora de admiração colectiva. Este fundanense (era natural da Enxabarda, Castelejo) que um dia demandou Estrasburgo para se tornar jornalista respeitadíssimo na capital da Alsácia, tem uma biografia com traços marcantes na cultura e na cidadania. Nuno Teotónio Pereira relembra-o como alguém com decisiva importância no aggiornamento da Igreja portuguesa, no Seminário de Almada, onde foi professor ou nos combates contra a ditadura, designadamente no boletim que circulava clandestinamente, O Direito à Informação. Ele queria, como o comum dos portugueses, que Portugal fosse um país livre e habitável. O Francisco Fanhais, então seu aluno em Almada, contou-me que foi o António Jorge que lhe deu a conhecer os primeiros discos do Zeca Afonso. "Entregou-me uns discos dizendo: "Deves gostar!"
Em 2012, na SPA, Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) foi-lhe prestada homenagem justíssima, amigos de vários quadrantes do pensamento, reuniram-se à volta do seu nome para evocar o Homem e o cidadão. Então, eu escrevi um texto (que, aliás, incluí em "Crónica do País Relativo" - II Vol.) e de que aqui vou deixar um extracto:
"Na roda dos dias de que se faz a vida, há pessoas que, de certo modo, são sempre companheiras de jornada e olhamos sempre o seu rosto ou lembramos as suas palavras como se estivessem ao nosso lado, independentemente das contingências da vida as levarem para longe da linha de proximidade onde os afectos e as alegrias se vivem mais intensamente como sorrisos de amizade e coração ao alto.
Outras vezes, a doença torna a ausência uma ferida, mas ainda assim, essas pessoas singulares estão sempre presentes. O António Jorge Martins, que está lá em Estrasburgo, cidade bela que tomou como sua comum, agora cada vez mais separado do mundo, que ele tanto amou, é uma dessas pessoas de presença comum aos dias. Apesar das palavras se gastarem muitas vezes pelo uso, quando digo António Jorge Martins estou a falar num homem notável, jornalista que se afirmou na imprensa de Estrasburgo, respeitadíssimo, de grande sensibilidade cultural e social, o que lhe fazia ver o mundo sempre de forma comprometida, o António Jorge Martins tem no plano cívico, ou da cidadania, como agora se diz, um percurso exemplar.
Nos sombrios anos 60, ele pensava em voz alta e o seu nome está ligado à aventura de O Tempo e o Modo, onde colaborou logo no início, quando as barreiras a romper eram poderosas e difíceis. Nesse tempo, ele foi uma figura central na batalha pelo aggiornamento da igreja católica, afirmando que, também aí, a vida é inseparável da liberdade e do empenhamento social por uma sociedade mais justa. (...)
O António Jorge era menos homem de dogmas e mais homem de diálogo. Acabou por romper com a nomenclatura que regia o status quo e foi para Estrasburgo, mas a sua cultura, as leituras antecipadas de Hans Kung e outros pensadores, e a articulação desse pensamento na descodificação da leitura do mundo, deu-lhe sempre particular autoridade para o ouvirmos nessas matérias como maitre a penser. Eu olhava para ele e dizia-lhe que ele seria sempre um teólogo. E era-o de uma forma moderna, na naturalidade como era capaz de explicar as coisas. Caminhei algumas vezes com ele pelas velhas ruas de Estrasburgo, à volta da Catedral, ensinou-me as particularidades da sua topografia íntima, subimos ao reduto da ignomínia, o campo de concentração nazi de Struthof, olhei para a Alsácia com olhos de ver. Depois havia os seus regressos à Beira, ao nó da terra mater, para colher a azeitona, se fosse inverno, ou simplesmente para estar e viver a região, se fosse verão, porventura como se estivesse na Santa Luzia.
O António Jorge escreveu muitos textos no "Jornal do Fundão" e a sua reflexão, quer fosse sobre Porrtugal ou sobre a Europa, era sempre actualizada e actualizante. O ano passado, a queria Marie José, sua mulher, telefonou-me dando-me notícias. A doença que separa as pessoas gradualmente da realidade, dava passos no cerco inexorável. Mas registei o que então me disse: "O António já não lê os textos todos, olha os títulos, e quando lhe dou o "Jornal do Fundão" ele sorri."
Agora, tudo acabou. E já tenho uma imensa saudade do António, meu amigo, meu camarada de jornalismo e de cultura, meu companheiro de jornada e de utopia. Ficou em Estrasburgo - a sua cidade. À Marie José, um beijo ev uma rosa vermelha, que era uma flor de que o António Jorge gostava.

ALDRABÕES COMPULSIVOS


A doidice da mistificação pré-eleitoral é um penoso espectáculo de dois aldrabões: Passos Coelho e Paulo Portas. Vejam-se as declarações de Portas, o ladino e irrevogável vice-primeiro ministro, sempre muito esperto nas conspirações de bastidores, a quem a aproximação das eleições europeias actua nele como naqueles filmes cómicos do início do cinema, em que se colocavam pregos afiados, nas cadeiras, e, ao sentarem-se, picados no rabo, os actores davam saltos e uivavam, perante o riso dos espectadores.
Às vezes, Paulo Portas salta tão alto na aldrabice, que parece ter sido impulsionado por uma mola ou por um dos tais pregos que picam. Mas aqui, no seu papel, não há uivos, somente sorrisos beatíficos a anunciar a aldrabice eleitoral para confusão dos idiotas, que gostam de bater palmas à sua própria desgraça. Voltou a falar agora que o governo vai baixar o IRS ainda durante esta legislatura. Vem o outro comparsa, Passos Coelho -- o mágico que transforma o provisório em definitivo, massacrando pensionistas e reformados e mentindo, assim, alarvemente, ao Tribunal Constitucional, e diz logo que redução de impostos, nem pensar!
São aldrabões da mesma ninhada, que se julgam muito inteligentes a enganar os portugueses... Será que ainda há quem acredite no irrevogável do "sisma grisalho" e no Passos aldrabão, que mente com a desfaçatez dum mariola sem carácter, que vai com a mesma alegria aos bolsos dos portugueses e quer suprimir lentamente, pela fome e pela pobreza, os idosos, que vêem a sua vida transformada num inferno de onde não sairão mais?
Ainda haverá quem acredite naquelas baboseiras que eles vomitam para os microfones ou para o domesticado Gomes Ferreira, que ali está a fazer o papel de atento, venerador e obrigado?
Se sim, como dizia o Almada, antes quero ser espanhol!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

VOA, PALAVRA!

Foto A23 EDIÇÕES
Talvez nada defina melhor  a força das palavras, como síntese de uma vida, do que a metáfora borgeana quando ele descobriu, nesse paciente labirinto de linhas, escritas ao longo do tempo, o seu próprio rosto. As palavras, em qualquer jogo da criação, do jornalismo à literatura, têm essa virtualidade de se tornarem espelho dos seus autores, onde se reflectem sempre o homem e as suas circunstâncias, seguramente o rosto imaginado por Borges, que não é outra coisa senão a convergência de muitos caminhos e de desafios, de combates e de causas, de angústias e esperanças., de pessoas e da sua micro-história.
Nessa contingência de olhar a particularidade do homem, como a medida de todas as coisas, e o detalhe da realidade, na perspectiva mais vasta da sua condição humana, se joga a capacidade de uma leitura que deve, tanto quanto possível, escapar ao pitoresco meramente local, com as suas servidões e cedências, com a sua mitologia de via reduzida e quase doméstica. O jornalismo é, ou devia ser, um horizonte vasto de serviço público, jamais a expressão dos paroquiais unanimismos ou a perversa promiscuidade com os espúrios interesses financeiros, esses, que cavalgam hoje o poder político, que se tornou seu refém e serventuário, fazendo todos os dias chorar um pouco mais Montesquieu, pela grosseira e abusiva subversão dos poderes, que definiam matricialmente a democracia.
Há muitos anos, Camus, percebendo muito bem que era preciso evitar a anquilose democrática da sociedade, advertia que o jornalismo (e, logo, o jornal) devia ser um "esforço quotidiano de reflexão e de escrúpulo". Há. pois, neste universo de palavras, uma linha de fronteira moral e uma exigência de cidadania em que nunca os vícios privados se devem sobrepor às públicas virtudes, que essas, sim, devem ser a génese determinante da informação.
Eugénio de Andrade disse que as palavras são como um cristal, às vezes um punhal. Por isso, quem as escreve, escreve-se também a si, no seu próprio registo histórico. Olho para o chão do tempo, como se estivesse a fazer um retrato, e penso nessas palavras suspensas no fio temporal e efémero da sua existência, e o que elas foram como pão essencial, na tarefa de pensar uma região à escala do país, às vezes levantando a voz para erguer o pensamento em indignações sobre direitos espezinhados, acreditando, porventura ingenuamente, que faziam corpo com o futuro, sonhado como felicidade possível.
Às vezes, as palavras vestiram dramas que, sendo unipessoais, tinham a dimensão do mundo; outras, levantaram-se porque a injustiça era colectiva, tinha morte dentro, e laminaram o gelo da indiferença. Muitas vezes, deram-se conta da volatilidade dos valores, da indignidade tornada teologia, da cartilha da pobreza, da chantagem do medo agitada como catecismo, do "tempo de desprezo", para utilizar outro conceito do jornalista e escritor Albert Camus.
Nesse registo, que pode parecer  uma pequena história do dia-a-dia, o jornalismo pode ser o grande critério para selecionar a realidade, e, assim, registar verdadeiramente  a vida. É nesse sentido que elas, as palavras, podem formar, no final, as linhas reveladoras de um rosto. Ou de uma vida.

Só mais uma nota. "Há palavras que nos beijam como se tivessem boca", escreveu Alexandre O'Neill, num belíssimo poema. Abril, Liberdade são duas dessas palavras, possuidoras de tal força que, sem elas, seremos sempre presas fáceis de qualquer determinismo histórico, baseado na servidão do homem ou em escravaturas, mais ou menos climatizadas, ordenadas por sujeitos cinzentos que se arrogam a condição de ditadores benevolentes.
Liberdade e Abril contêm, dentro de si, aqueles continentes de esperança num país novo de que falavam premonitoriamente as trovas de Manuel Alegre, na Praça da Canção, ou os versos de Ruy Belo, quando, abominando o país "sem olhos e sem boca", imaginava o Portugal futuro --  "um país aonde o puro pássaro é possível".
Hoje, olhando para a realidade das coisas e evocando o 25 de Abril, perguntamo-nos: que fizémos da esperança?
Tantos dias passados, tantas utopias sonhadas e desfeitas, assistimos agora impotentes à impunidade da arrogância, aos insultos aos que fizeram Abril, às conquistas sociais derrubadas, aos direitos espezinhados, a governantes sem escrúpulos, que praticam alegremente a arte de roubar trabalhadores e os mais velhos, como se desejassem o seu extermínio,. E voltamos a perguntar, atónitos, como antes do 25 de Abril: que raio de país é este?
A liberdade de expressão ainda existe, a palavra ainda circula, dizem, mas os poderes todos os dias brandem ao alto o açaime ou a mordaça do medo, como se vivessemos já na "Democracia Cala o Bico", magnífica expressão de Artur Portela.
Repito, para terminar, o que tenho andado a dizer. Todos nós, que fizémos caminho no jornalismo e na escrita, que vivemos o tempo da Censura e o tempo da Liberdade, olhamos hoje, com perplexidade, para a imposição de um conceito residual de democracia, para a concentração dos meios de comunicação social, com os seus ditâmes contra a cultura (que não é boa para o "negócio"), abominando o jornalismo cívico e de causas, que é o verdadeiro sentido público da profissão, instalando no interior da Redacções o medo de existir.
Tudo é precário e se esfuma, como a areia por entre os dedos, porque a informação, em larga medida, é uma matéria perversa e está hoje dominada por analfabetos ou aqueles "coniventes sem cadastro", de que falava Sophia.
Então, que a palavra não se prostitua, que resista e  seja vertical e livre. Voa, palavra! - como um dia disse João Guimarães Rosa. Em liberdade.

*Texto lido em Lisboa na Apresentação do meu livro "Crónica do País Relativo- vol II"

domingo, 13 de abril de 2014

POR UM PAÍS...


Dói esta hipocrisia dos agentes políticos , esta amnésia deformante da História, causa náuseas esta caricatura de democracia que já olha para o 25 de Abril como circunstância menor da sua própria realização. Embarcaram, tanto quanto possível, no comboio da mudança, muitos sempre à espera que a nostalgia dos velhos tempos operasse um dia o milagre do regresso ao passado. Com o andar dos tempos, caíram máscaras. E o resultado está aí, nítido,transparente. Fingem ignorar a realidade, inventam desculpas para desfigurar a memória como se o país não precisasse de liberdade para respirar o futuro. Olham para os dias passados como se o processo da história portuguesa deste século fosse linear e branco, como se não houvesse antes nem depois, e tudo se dissolvesse, opressão e oprimidos, nos brandos costumes nacionais. Já não causa remorsos a liturgia de querer explicar o passado nas prisões, das mortes, da privação das liberdades mais elementares, do fascismo à portuguesa (é preciso que se volte a dizer), como inevitabilidade que um qualquer determinismo histórico (espécie de mal menor) justificasse. Face à indiferença congénita, que parece doença temporalmente longa da sociedade portuguesa, e, também, ao oportunismo e cinismo de uma certa classe política, que não tem a coerência entre as suas virtudes essenciais, perderam uns a vergonha (e outros a face) e ouvimos hoje, como nunca, tentativas de recuperação do salazarismobranqueamento de criminosas actuações, hossanas cantados numa missa espúria em louvor da ditadura e da opressão. Não pertence ao domínio das causalidades que isso aconteça a poucas semanas das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, tão pouco que, simultaneamente, se ergam vozes a tratar os "capitães de Abril", aqueles que permitiram que a pátria voltasse a ter voz e palavra - isto é: que deram ao povo português uma hipótese de felicidade - como gente colocada à margem, autores do crime de terem restituído a liberdade a um país que a ditadura, no concerto das nações,desclassificara política e moralmente.
Que país foi este que premiou pides e censores e cometeu a vileza de ter desprezado uma figura como Salgueiro Maia? E que país é este que é capaz de tratar tão indignamente, de forma tão boçal e iníqua os capitães de Abril, recusando-lhes a reparação de uma justiça que há muito deveria ter sido feita? Vejo estes moralistas arvorados pelo frete, estes comentadores incapazes de disfarçarem o sumário ajuste de contas contra Abril que já se anuncia na Primavera, e apetece regressar à poesia de Sophia que de forma tão bela celebrou a manhã libertadora como "o dia inteiro e limpo". Ou noutros versos: "Por um país de pedra e vento duro/Por um país de luz perfeita e clara"