sexta-feira, 9 de maio de 2014

O QUE DAVA JEITO ERA UMA DITADURAZINHA, OLÀ SE ERA!



O primeiro-ministro e o seu governo há muito elegeram o Tribunal Constitucional como uma espécie de "besta negra", que só existe para complicar a vida do executivo que, como todos sabem de experiência feita, só existe para bem do povo e para distribuir felicidade com a sua arte de governar. O Tribunal Constitucional tornou-se, assim, um alvo privilegiado de desculpas, uma almofada fofa para justificar impostos, um recurso fácil (e idiota) para endossar responsabilidades pelos seus falhanços. Bem sabemos todos que, da parte de um governo e de um Presidente da República -- o tal que está sempre por detrás do arbusto -- que juraram defender a Constituição da República e a arvoram depois como principal inimiga da governação, atacando miseravelmente o Tribunal superior que zela por ela, isso reflecte não só uma profunda falta de ética como uma prática política que não se fundamenta nos valores que consubstanciam a República.
O Primeiro-Ministro tem sempre a espada de Dâmocles pronta para brandir sobre as cabeças da oposição, e, com ela, fazer a chantagem do medo sobre os portugueses, actividade em que Passos Coelho é um grande especialista. Hoje, na Assembleia da República, desembainhou-a contra o Tribunal Constitucional, como se estivesse a contar a fábula do papão às crianças... Isto, sem tirar nem pôr: se o Tribunal Constitucional chumbar cortes nas despesas que estão em análise, impostos voltam a subir. "Não posso garantir, se medidas importantes que permitem poupanças forem chumbadas pelo TC, não seja necessário voltar a subir impostos para cumprir a necessidade de redução do défice", concretizou Passos Coelho.
Como se sabe, o Tribunal Constitucional deve decidir em breve se deixa passar o corte de salários dos funcionários públicos, corte das pensões de sobrevivência, bem como nos subsídios de desemprego e de doença, tudo medidas do OE 2014. A seguir, os juízes terão de se pronunciar sobre a Contribuição Especial de Solidariedade imposta aos pensionistas no Orçamento Retificativo.
Tudo isto é suficientemente revelador que o governo não sabe governar em conformidade com as leis da República. O que lhe dava jeito -- um grande jeito -- era mesmo uma ditadurazinha... para meter nos eixos os senhores juízes do Constitucional!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

ÍTACA, DE KAVAFIS



No Blogue Felizes Juntos, reencontrei o fabuloso poema

ÍTACA

de Konstantinos Petrus Kavafis [1863-1933]

 (tradução de Jorge de Sena)

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestregónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestregónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

NOTÍCIAS DO MUNDO CÃO



De uma notícia do "Público":
"Uma mulher debilitada, com cancro, teve alta do Hospital Joaquim Urbano, no Porto, mesmo sem ter uma casa para onde ir. Passou uma tarde nas escadas de uma igreja, onde não viu o céu, até a Segurança Social lhe arranjar um quarto. O inferno em que vive está agora escondido numa pensão. Foi longa a espera de Rosa. Doente de cancro, com graves problemas de mobilidade, esta mulher de 46 anos teve nesta segunda-feira alta do Hospital Joaquim Urbano, onde lhe trataram mais uma infecção respiratória e a deixaram sair, mesmo sabendo que, naquele dia, ela não tinha uma casa para onde ir. Metida sozinha num táxi, foi parar, desamparada, às escadas da igreja do Carvalhido, na rua onde o marido arruma carros. Aguentou-se ali, deitada, umas cinco horas, até ser transportada pela polícia para um quarto numa pensão de Cedofeita, arranjado pela mesma Segurança Social que lhes cortara o rendimento social de inserção, deixando-os sem capacidade de pagar uma renda. Felizmente está sol, reparava Paulo Natividade. É o amigo. O amigo que Armindo tem tido desde que a droga, o desemprego e a espiral descendente, contra a qual vai lutando, fizeram dele o arrumador de carros “oficial” da Rua da Prelada. E o amigo que não calou a indignação pela forma como naquela segunda-feira o Hospital Joaquim Urbano deu alta a uma mulher que não tinha, sabiam disso, para onde ir. Armindo tinha-os avisado de manhã. “Fiquei sem casa. Aguentem-na aí até eu resolver o problema”, pediu ao telefone a um médico, à frente de Paulo. Às 14h, quando lá chegou, já ela não estava. Saíra num táxi. Pago, por “pena dela”, pelo director de Serviço de Pneumologia, explicou ao PÚBLICO o assessor de imprensa do Centro Hospitalar do Porto".
Assim vai o Portugal que corta o rendimento de inserção social e ataca as políticas sociais. Assim vai o Portugal que faz tábua rasa dos direitos sociais. Assim vai o Portugal de Passos Coelho, de Paulo Portas (que dá tantas pancadinhas no peito e faz genuflexões frente aos altares). Assim vai o Portugal da troika.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

EMPOBRECER, EMPOBRECER, EMPOBRECER...



Todos os dias, o "paraíso" prometido por Passos Coelho e seu governo, cai como um castelo de cartas. É sempre assim: a falsificação da realidade não resiste à evidência das coisas. Ouviram, decerto, o auto-elogio do governo em relação à obra feita, o blá-blá-blá da saída "limpa", as avaliações em alta para a economia portuguesa, que passaria a dar lições aos parceiros europeus. E os tipos da troika, claro, blá-blá-blá -- estas políticas são bestiais. Agora, surgiu a visão da OCDE, que é um balde de água fria nas cabeçorras dos ministros. Passos ficou encharcadinho de todo, Portas teve que tirar o lencinho do bolso do casaco para limpar os suores frios, Pires de Lima foi ali desopilar o fígado e nunca mais voltou.
Mas o que veio dizer a OCDE para tamanha indisposição?
Apenas, isto: "OCDE adianta que a economia portuguesa vai continuar a divergir dos parceiros da zona euro e dívida vai chegar a 132% do PIB no final do próximo ano. Os portugueses continuarão a ficar mais pobres face aos seus pares europeus". As previsões para Portugal da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico são, de facto, muito menos optimistas que as da troika ou do Governo. "Fica a saber-se que os primeiros anos do pós-troika ficarão marcados pelo problema estrutural que tem marcado o país: os portugueses continuarão a ficar mais pobres face aos seus pares europeus, apesar de pagarem impostos mais elevados e ganharem salários mais baixos".
É este o destino que aqueles senhores da troika e do governo, que sorriem contentes para as televisões, traçaram: empobrecer, empobrecer, empobrecer... Deixem-nos andar à solta e vão ver como Portugal voltar´ºa a ser o país do pé descalço e da mãozinha estendida à caridade!

terça-feira, 6 de maio de 2014

ATESTADOS DE ESTÚPIDOS E MENTIROSOS


Quem diria que, na última edição do "Expresso" (caderno de Economia) seriam passados, com tanta veemência, atestados de burrice e de mentiroso ao governo? Já nem falo do texto de ironia de Nicolau Santos, "Demos graças ao DEO", uma espécie de Salvé-Rainha:
"Demos graças ao DEO, que nos anuncia o fim do martírio da austeridade! Demos graças ao DEO, que alivia as duras penas a que têm sido sujeitos os pensionistas e funcionários públicos, à custa de carregar em novas penas sobre os trabalhadores por conta de outrem e os consumidores! Demos graças ao DEO, que acaba com a Contribuição Extraordinária de Solidariedade e a rebatiza com o nome de Contribuição de Sustentabilidade, o que prova que os cortes eram mesmo transitórios. Demos graças ao DEO, que sempre nos foi dito que não traria aumentos de impostos -- traz, mas são tão pequeninos que nem contam: apenas 0,25 pontos no IVA, que passa para 23,25%, o sétimo mais elevado da Europa (finalmente um ranking em que estamos entre os 10 melhores  do Velho Continente!), e 0,2 pontos no aumento da contribuição dos trabalhadores  para a Taxa Social Única..."
Passa-se a outra página e vem a crónica de João Vieira Pereira, "A Estupidez saiu à rua num dia assim...", a dizer:
"Ficámos, para quem ainda tinha dúvidas, a saber que este Governo é um zero na tarefa de cortar despesas e mestre em fazer crescer impostos. Em todas as ocasiões em que se pediam cortes estruturais e não pontuais da despesa, a solução encontrada foi a de aumentar as receitas. (...)  A nossa economia não tem um problema de receitas, mas sim de custos. E de dívida. E um problema enorme de sustentabilidade. Sustentável em Portugal só há uma coisa, a estupidez. E a maior de todas é a forma como comprometemos o futuro."
Mas o colunista vai mais longe: "(...) Não há nada de justo no aumento de impostos que foi apresentado esta semana. Não há justiça quando se ataca sem limites o consumo e o rendimento para manter uma despesa  completamente insuportável. A certeza de Passos Coelho de que estas medidas vão ser benéficas para a economia a médio prazo só não faz rir porque é triste que um primeiro-ministro assim pense.
(...)Vamos envelhecendo com a certeza de que isto ainda vai correr muito mal. Principalmente para os mais novos. Espoliados todos os dias para suportar quem tudo come. Eles. Os vampiros."
Andamos mais uma páginas, e é a vez de Luís Marques, cujo título é elucidativo: "A Mentira Tem Saída Limpa?":
"Primeiro foi o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. Depois a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque. Ambos afirmaram, em momentos diferentes nos últimos 15 dias, que o Governo não ia mexer nos impostos. Paulo Portas e Pires de Lima, respectivamente vice-primeiro-ministro e ministro da Economia, foram mais longe Admitiram que em 2015 o imposto sobre rendimentos poderia baixar. Quarta-feira o Governo fez exactamente o contrário: aumentou o IVA, outros impostos sobre o consumo e a taxa social única. 
Não há como dourar a pílula: o Governo mentiu".
No fundo, é isto que pensam os portugueses. Mas tem um sabor especial quando os atestados de estúpidos e mentirosos são passados pelo "Expresso".

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A DANÇA DOS IMPOSTORES


Como deuses no Olimpo, Passos Coelho e os seus ministros encenaram o espectáculo da "saída limpa" do Programa de Assistência que materializou as malfeitorias que a Comissão Europeia e o FMI impuseram ao povo português. Chamar-lhe "saída limpa" é sempre um eufemismo que não disfarça um enorme cinismo político. Então, os autores desta desgraça que se salda em mais de um milhão de desempregados, mais de dois milhões a viverem no limiar da pobreza, ou abaixo dele, na desvalorização do trabalho convergindo em brutal redução de salários, nos roubos aos reformados e pensionistas, na emigração de jovens (geração de recursos qualificados), são capazes de sorrir e compor a imagem de uma galeria de gente virtuosa, que patrioticamente arrasa, pela desgraça, o quotidiano dos portugueses (salvo aquela franja cujos interesses se alimentam precisamente da desgraça colectiva).
Esta euforia governamental da "saída limpa" faz parte da encenação eleitoral, em que os donos da Troika também têm a sua participação disfarçados como aqueles actores secundários que nos filmes negros voltam sempre ao lugar do crime. O que espanta, como tenho dito, é o panejamento da mentira em que envolvem a retórica política. O ministro da Economia, o tal que até gostava de salários altos, veio, de peito cheio, como é sua pose, dizer que  "a economia portuguesa não vai deixar de surpreender os analistas, superando todos os trimestres as previsões que se tinham feito”.
Diz ele quando toda a gente sabe, e a Comissão Europeia veio recordar, recentemente, que a meta do défice foi cumprida graças a uma receita fiscal "robusta". A canga dos impostos foi a receita dos sábios do governo, que já definiram continuar com a receita em 2015!
Às vezes, tudo isto parece uma brincadeira de mau gosto -- brincadeira que os portugueses estão apagar caro. Hoje, na sua crónica do "i", Artur Portela fazia o seguinte retrato do governo:
"A fábula da saída limpa e a parábola do bater de pé à troika são expressões paródicas do desespero do governo.
Uma na ferradura.
Outra na impostura."