sexta-feira, 16 de maio de 2014

A CHANTAGEM DO MEDO

Não bastava a conferência do BCE, em Lisboa, em pleno acto eleitoral --um acto de esperteza saloia de Draghi, Barroso e outros que tais -- para mostrar o grau de conivência  dos tipos que alegadamente governam a Europa com os seus serventuários menores, que acodem por membros do. Governo português, agora junta-se å acção mistificatória a teoria da pressão e a chantagem do medo.
Hoje, o "Diário de Notícias" abre o jogo com este título na primeira página: "Bruxelas ameaça com segundo resgate se falhar défice de 2,5%". Diz o jornal: "Europa "preocupada com sinais de enfraquecimento do compromisso do governo  com certas reformas. Fica o aviso: mercados punirão o país mal se apercebam  da realidade".
Vale a pena alguns sublinhados à notícia, a começar pelos dois parágrafos iniciais, que enquadram uma retórica muito própria de obscuros funcionários da Comissão, como aliás são os seus representantes na Troika. Atente-se na grosseira chantagem, em vésperas de eleições para o Parlamento Europeu, no agitar do papão do segundo resgate, na subtil ameaça a qualquer recurso à mudança, como se os portugueses fossem idiotas ou um "rebanho pelo medo perseguido", com dizia o Alexandre O'Neill de outros malfadados tempos: "Se o governo relaxar, por opção própria, o ritmo de ajustamento orçamental no período pós-Troika, e em particular no próximo ano, "estará a dar sinais errados aos mercados" e estes não tardarão em penalizar Portugal com taxas de juro mais elevadas, empurrando a República para um segundo programa de ajustamento". Esta posição de uma Europa que se assume, apenas, como executora da ditadura dos mercados, como se estivéssemos a uma unidimensionalidade política, é um reflexo da anquilose moral em que mergulhou. 
O responsável, ligado à Troika (quem era o sujeito?), ameaça que "num cenário desses, nem sequer seria possível activar um cautelas: a "saída limpa" seria manchada de forma indelével".
É por estas e por outras que estes sujeitinhos medíocres, que nos desgraçaram e querem continuar a desgraçar-nos, merecem uma resposta concludente, no dia 25 de Maio: rua com eles!

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A EXPEDIÇÃO À CHINA E O ENCONTRO COM MAO


A força da mitologia chinesa, a dimensão simbólica das suas lendas, alteraram o sono de sua excelência, em Pequim. Dormiu mal o Presidente, inquietou-se a Primeira Dama, os ansiolíticos disponíveis não fizeram o efeito pretendido. Os sobressaltos dos sonhos acordavam-no violentamente, faziam-no erguer-se na cama, como uma mola, os suores corriam-lhe pelo rosto.
--Então, querido, sossega! Aqui não há dragões... -- sussurrava a mulher, docemente, como se já tivesse interiorizado a paciência chinesa para falar com as crianças.
-- Sim, sim, filha, não há dragões, mas há serpentes de sete cabeças, e uma delas abocanhava-me todo, se eu não acordo, de repente, e dou uma guinada para o lado! -- disse o Presidente, já meio sentado na cama. -- E depois havia sempre espadas a degolarem imperadores e até o Mao se veio sentar, ao meu lado, numa conversa que eu não percebi lá muito bem...
-- E o que te disse ele? -- perguntou ela curiosa com o enredo da história.
-- Ora, que me estava muito grato por eu ter guiado tão bem aquele rapazito, que era seguidor fanático dele e apontava muito a Longa Marcha como exemplo, e considerava genial a maneira como eu fui implacável na Revolução... "Ele, o rapazito, embevecia-se com as tiranias da Revolução Cultural". Era a Mao a falar, explicou Cavaco.
-- Rapaz, mas qual rapaz?
-- Então, Maria, não sabes... o Durão Barroso! O Mao até me disse que ele era muito competente, não lhe escapava nada, nem os sofás da Faculdade... E confidenciou-me: "Eu sempre disse que ele  ia longe, iria ter um grande futuro. Agora quem poderia imaginar que viria a ser Presidente da Europa, ele, que tem os olhos em bico, como é que os europeus, sempre tão eurocentristas e, às vezes, xenófobos (veja o êxito da Le Pen!) foram numa dessas... São as condições objectivas, Cavaco, para ele ser Presidente da Europa é porque a Europa está uma porcaria e já não tem conserto!"
-- Óh, homem! não vês que isso era um sonho?
-- Mas era um sonho bom, Maria, um sonho muito bom: o Mao a falar comigo e a segredar-me: "Você, Cavaco, quando esteve no governo disse que era o grande timoneiro, não foi? Também leu o Livro Vermelho, seu maroto! E não disse, também, que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas? Ora, aí está: isso foi sempre um dos princípios basilares da minha política. Era o reino das certezas e quem tinha dúvidas estava tramado". Eu fiz que sim com a cabeça, embevecido com a teoria da certeza metódica... Estava tão feliz, andar com o Mao Zedong a passear pela Cidade proibida... parecia ter chegado ao Paraíso.
-- Olha só, para o que te havia de dar! -- exclamou a Primeira Dama, que queria dormir. -- Que maluquice!
E fazia menção de voltar ao sono, quando o Presidente ficou, subitamente, muito triste:
-- O pior, Maria, foi quando ele me disse que, se vinha cá para sacar mais dinheiro aos chineses, que tirasse o cavalinho da chuva... "Eu bem sei as manigâncias que fizeram na EDP (com aqueles poltrões do Mexia e do Catroga, esses capitalistas de merda, a ganharem rios de dinheiro), na REN, na Banca, nos Seguros. Ah!, Ah!, Ah!, Portugal é a nossa loja de conveniência... Esse Passos Coelho não passa dum criado da Merkel e vende o país a retalho, ele que aprenda com os nossos capitalistas... E, você, Cavaco, o que é que nos vem cá vender? Consenso?" Eu fiquei um bocado à rasca com a pergunta, já não me lembrava de mais privatizações a fazer, disse-lhe que tínhamos muito céu azul, mar e praias..." Sabes o que o sacana me respondeu, a gozar: "... e muitos, muitos desempregados!" E apontou-me ao longe, para o horizonte, com aquele gesto que ele fazia tão bem, estendendo o braço: "O sol nunca se põe no nosso império!" Eu quis ser simpático e disse-lhe: "O seu regime comunista está muito modernizado!" Ele exclamou: "Olha, comunista? Este tipo é um idiota chapado! Não vale a pena perder mais tempo com semelhante criatura!" E largou uma gargalhada com tal força, que foi aí que acordei, em pânico.
-- Deixa lá, filho, ele era um malandro dum comunista. Descansa um pouco que amanhã tens que impingir qualquer coisa aos chineses, olha talvez o Palácio de Belém, que nos últimos anos não tem servido para nada!
Ele anuiu, estava estafado de todo, parecia que Mao o tinha levado a percorrer a Muralha da China ou a dar umas braçadas valentes no Yangtzé. Mal entrou no sono e já estava, outra vez, a emergir oniricamente a força simbólica da China. Agora, eram velhas lutas, outra vez Mao a perguntar, em plena revolução cultural, quando lhe falaram na invasão de Macau: "mas em que hotel é que estão os portugueses?", e outra vez os dragões a cuspirem fogo. Acordou outra vez em sobressalto e, estendendo o braço para o lado, viu que a mulher se virava ligeiramente para ele. Foi quando deu um grito que acordou meio mundo:
-- Socorro, a serpente de uma cabeça!

terça-feira, 13 de maio de 2014

REQUISITOS PARA UM POLÍTICO

Manuel Vicent
Não faltam candidatos a ocuparem uma cadeira no Parlamento Europeu, em Estrasburgo. O debate sobre a Europa, tão ausente em Portugal, ganha agora umas migalhas de atenção e passa, em passo de corrida, pelas televisões. Vale a pena, por isso, dar força a esta reflexão colhida numa crónica de Manuel Vicent, no "El Pais": "Deve ficar claro que, antes de chegar à política, primeiro se requer uma integridade moral, depois uma liberdade intelectual, logo uma rebeldia social. Finalmente, poder-se-á alcançar ou não a independência, mas esta não se livrará da miséria se estiver assente no fanatismo".
Será pedir muito aferir os candidatos por estes valores?

DELÍRIOS DE IMAGINAÇÃO

Há sujeitos com desmedida imaginação, que inventam coisas mirabolantes, e são capazes de jurar que viram o diabo ao virar da esquina. A literatura está cheia de coisas fantásticas, sonhos de outras galáxias, delírios de imaginação que desafiam Deus na ousadia de criar universos.
Antigamente era sobretudo à ficção que estava reservada essas asas da criação. O problema é que hoje não faltam sujeitos que imaginam coisas do outro mundo, que mentem desvairadamente (uma mentira mil vezes repetida...) e tentam convencer os incautos cidadãos que tudo, afinal, é verdade e faz parte da comezinha realidade que faz parte da vida. Se tivermos atenção à retórica das cabeças governamentais, encontramos amiúde verdadeiros campeões na arte de mistificar a realidade, às vezes numa falsificação grosseira, outras mais subtil -- mas igualmente trapaceira.
Há, claro, os idiotas e ingénuos que se convencem que todas essas patranhas fazem parte inteira do chão que vivemos!
Um dia, li no Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, uma saborosa história que tem a ver com esses delírios de extravagante imaginação. A história, que Eco foi colher ao Dictionaire infernal, publicado em 1884, é a seguinte:
"O conde de St.Germain contava um dia que tinha conhecido Pôncio Pilatos em Jerusalém e descreveu minuciosamente a casa do governador, citando os pratos servidos à ceia. O cardeal de Rohan, julgando estar a ouvir fantasias, virou-se para o criado do conde, um velho de cabelos brancos e de ar honesto.
-- Meu amigo, custa-me acreditar no que diz vosso amo! -- disse ele. -- Que seja ventríloquo, muito bem, que faça ouro, de acordo; masque tenha dois mil anos e tenha visto Pôncio Pilatos, é de mais! Estáveis lá, também?
-- Oh, não! monsenhor... -- respondeu ingenuamente, o criado. -- Eu só estou ao serviço do senhor conde há quatrocentos anos!"

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O NOVO FASCISMO COM PÉZINHOS DE LÃ


Deveria merecer reflexão profunda o texto que António Guerreiro escreveu na última edição do "ipsilon", suplemento semanal do "Pú
blico", onde se tratam problemas da cultura e do pensamento. O título deveria, logo, merecer atenção especial: "O novo fascismo". Segundo o autor, recuperando a actualidade das reflexões de Pasolini, que morreu há quase 40 anos, "um novo fascismo" está-se disseminando na "nossa existência quotidiana".
Sem nos enredarmos nas questões teóricos e filosóficas, que fazem parte substancial do artigo, situemo-nos naquilo que é mais próximo, que tem a ver com o concreto da sociedade e com as vivências reais das pessoas. A prática que conduz à banalização do seu uso, radica, segundo António Guerreiro, na "sociedade de controle", hoje facilmente identificável, e que deu origem a um "fascismo empresarial". Cito: "Na relação das empresas com os seus "colaboradores" (este novo nome para os trabalhadores vale como um sintoma), o clima é friendly, o chefe não é um patrão, mas um líder, e a "cultura" empresarial que se constrói é sempre de colaboração e a-conflitual, orientada para uma "missão" e determinada por uma "visão". Por trás, sustentando esta "cultura", está o medo, não o grande medo inculcado pelo fascismo tradicional, mas os pequenos medos que o novo fascismo gere e multiplica. A experiência do medo é o factor primeiro deste novo fascismo e está hoge generalizado, em todos os ambientes de trabalho, até nas empresas mais liberais. O novo fascismo, organizando estrategicamente as pequenas inseguranças que alimentam medos (antes de mais, o medo de ser despedido) apresenta-se como um pacto para a segurança, para a gestão de uma paz angustiante, fazendo de todos nós -- e particularmente de todos os colegas de trabalho -- microfascistas."
A esta realidade, acrescenta o autor uma outra: a do "novo fascismo cultural", "a lógica da uniformização". E acrescenta: "Este novo fascismo cultural tem como instrumento principal o editorialismo que é o contrário do pensamento crítico. Este editorialismo generalizado está bem patente, no espaço público e opinativo que corrompe e intoxica a linguagem".
Sinais evidentes da crise da sociedade e da benevolência como se assiste à morte da democracia, com os sinos a dobrarem pela indiferença colectiva e pela nossa apatia cívica.