sábado, 24 de maio de 2014

QUANDO O POVO É CABRÃO!


Uma história para reflexão eleitoral


ILUSTRÇÕES DE ZÉ DALMEIDA
No dia em que o Estaca vestiu a bata para fazer a barba ao presidente da Câmara houve quem pensasse que nessa tarde a navalha iria dançar-lhe na mão para se cravar no pescoço anafado do cliente, como quem mata um porco. Mas ele conteve-se e, à última hora, não libertou o concelho da inércia e do tédio que, há longos anos,lhe roíam o progresso. Acabou por fazer-lhe apenas uns arranhões enquanto ele, bem colado à cadeira, via a cara de poucos amigos do barbeiro reflectida no espelho, e se limitava por isso a gemer baixinho não fosse o outro entusiasmar-se. A conversa, apesar de breve, deu para perceber que o descontentamento larvar da população exigia mudanças drásticas.
O homem saiu de lá vermelho que nem um tomate e nesse dia foi direitinho ao partido avisar:
- Não contem comigo para as próximas eleições!
Não faltaram remoques. Uns, que ele já sacara a reforma e agora abandonava o barco, governadinho e com os bolsos cheios pelos empreiteiros, que sabiam untar os projectos com umas notas valentes; outros,respiraram de alívio: diziam, à boca pequena, que o gajo era campino que já não era capaz de juntar gado para as eleições que estavam a bater à porta.
Ele teve uma explicação mais simples. Passou a mão pelo terreno da cara sinuosamente lavrado pelo barbeiro, deixou-a pousar suavemente no pescoço e desculpou-se:
- Eu não tenho andado bem, ainda trago aqui uma impressão levada do diabo...
A comissão política olhou-o com olhos de radiografia e abanou a cabeça com ar de cangalheiro:
- De facto!Está com um aspecto... de meter medo ao susto!

O pior é que as eleições estavam à porta e lá vinha o tempo em que apareciam uns sujeitos da cidade, mascarados de camponeses, botas largas e chapéu, numa etnografia  muito rigorosa, que pediam uma videira para vindimar ou uma vaquinha para ordenhar, num mimetismo bucólico comevedor, ou varriam as feiras distribuindo beijinhos e abraços, quando não papavam a missinha de domingo, de língua estendida para a hóstia.
Lisboa soube do caso e não gostou.
- O gajo vai-se embora assim, sem mais nem menos... Com os votos não se brinca!
De cá, tentaram sossegá-los:
- É questão de doença, não há nada a fazer.
Mas quando se tratava de votos, Lisboa tinha uma gula insaciável. E voltou à carga:
- Queremos um candidato ganhador! Não apareçam aqui com outro choninhas...
Eles partiram à descoberta. Como tontos à roda da lista telefónica, percorreram os nomes de uns e de outros, com comentários de circunstância pouco abonatórios e uns risinhos sacanas que dispensavam legenda.
- Esse não que está completamente queimado!
- Passa à frente que esse já se governou... é preciso dar lugar aos novos!
Apontou-se uma saída moderna, indicando uma militante que sempre ajudava a preencher quotas, proposta que foi imediatamente rejeitada.
-Olha, essa! É vaca que já foi corrida...
O impasse só se ultrapassou altas horas.
- Este  - e apontava com força a lista telefónica, não fosse o dedo derrapar nas letras miudiunhas - é que é o candidato ideal. Não há melhor!
- Mas quem é - perguntaram os outros ao presidente. - Quem é ele?
O outro continuou a fazer suspense.
- É o melhor. É presidente da Irmandade, manda nos clubes da terra, é dono de empresas que empregam a maior parte dos indígenas, chamar-lhe cacique é pouco.
Descobriram logo de quem se tratava.
- Sim, senhor! É uma bela jogada...
A oposição, quando soube, deitou as mãos à cabeça.
- Ai que estamos desgraçados! Aquilo é um satélite, anda tudo à roda dele!
À socapa, remordiam velhas querelas e gozavam do comprimento desigual das pernas do candidato, que o obrigavam a coxear.
- Ora, o Sobe-e-Desce... Se subir também há-de cair...

Não faltaram comunicados a lembrar que a sua experiência política vinha do tempo da outra senhora, quando não se podia dar um traque que ele não fosse logo meter no cu da união nacional. Um dos papéis que apareceu nas caixas do correio e nos cafés contava a sua actuação nas comemorações dos 40 anos da Revolução Nacional. Lá vinha, tim-tim-por-tim-tim, a história. Um despacho do governo mandava inaugurar uma obra em cada localidade para assinalar a data. Na terra dele, é que não havia nada para cortar a fita.
Andava tudo muito chateado por não se ter planeado uma inauguraçãozinha, a tempo e horas.
- É uma vergonha para terra. Vamos fazer uma linda figura de pelintras. O que dirão em Lisboa, meu Deus!
Até que o Sobe-e-Desce se lembrou de mandar caiar os muros do cemitério e construir um jazigo à pressa. No dia aprazado, lá vieram as autoridades para a festa. Houve foguetes e discursos sobre a excelência e o que ela significava para o progresso da pátria. Um deles, chegou mesmo a dizer que aquilo era a prova de como o governo queria o bem estar para todos.
No final, deram-se vivas a este e àquele e mais ao outro. Mas quanto à gente da terra, népia, nem um vivazinho. Foi quando o Sobe-e-Desce se encheu de brios e a sua voz ecoou, patrioticamente, noi cemitário:
- Vivam os mortos da nossa terra!
"Ninguém se levantou das sepulturas para aplaudir...", informavam os comunicados da oposição.

No despique eleitoral atropelaram-se palavras, cavou-se fundo na demagogia, apresentou-se o receituário dos milagres. As coisas corriam bem.
Na véspera das eleições, o deputado veio inquirir o Sobe-e-Desce, avaliar as expectativas, fazer a sondagem que permitisse a antevisão do resultado nas urnas. Foi multiplicando as perguntas à procura de um quadro tranquilizador, de uma vitória arrasadora.
- O povo nunca andou tão satisfeito! - informou o Sobe-e-Desce, entusiasmado. - Tenho-os a todos na mão!
E abria e fechava a palma da mão, num gesto antecipador de vitória esmagadora.
- Vêm todos comer aqui! - e abria a mão, outra vez, mesmo à frente dos olhos do outro.
O deputado abriu a boca num sorriso rasgado.
- Nem sabe como gostei de o ouvir dizer isso, vou daqui muito animado. No domingo, vamos ter uma vitória de arromba... Pode mandar preparar a caravana!
Abraçaram-se com militância redobrada. O deputado esfregou as mãos de contente, a pensar já na boa gestão dos votos e na escolha tão acertada deste campino que, afinal, tanto gado conseguia juntar. Ia já telefonar para Lisboa a dar a boa nova. E já transpunha a porta da rua, quando o Sobe-e-Desce o chamou, em sobressalto.
- Oh, senhor doutor! Oh. senhor doutor!
Apreensivo com o chamamento, onde se vislumbrava uma pontinha de angústia, o deputado parou e voltou atrás.
- Então? - inquiriu, com má cara. - O que é que aconteceu?
- É que me esqueci de lhe uma coisa muito importante, senhor doutor...
O outro ficou todo ouvidos.
- É que sabe,nisto de eleições, o povo, às vezes, é cabrão!

(In Os Fantasmas Não Fazem a Barba, 2003)


quinta-feira, 22 de maio de 2014

OS SINOS DOBRAM POR NÓS

 
Johnne Donne, no século XVI, dizia a morte de um homem, onde quer que aconteça, diminui-me, pois eu sou parte da humanidade. E Jorge de Sena traduziu um verso seu: Não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por nós. Vivemos, outra vez, tempos sombrios. O que é comum à humanidade é desvalorizado e os direitos prostituem-se no mercado e nos mercados, que hoje mandam nos países, põem e dispõem dos governos, fazem do homem coisa nenhuma.
A actualidade política chafurda nesse pântano. E já não se envergonham alguns dos actores, no palco das suas campanhas, em proclamarem a indignidade como prática.
Hoje, Fernando Alves, eu volto muitas vezes às suas crónicas, falou disso nos Sinais, dando expressão a sinais preocupantes de irracionalidade e intolerância.

2014-05-22 Vida Diminuta

QUEM PODE ESQUECER?

A campanha eleitoral está a transformar-se num simpósio de ciências médicas, com um inventário implacável de doenças fatais, que mordem a sociedade portuguesa. Depois do vírus socialista detectado por Paulo Rangel e das vacinas receitadas para a sua superação pelo curandeiro do PSD/PP, veio agora Passos Coelho falar em amnésia. Pelo meio, o candidato da extrema direita francesa, Le Pen, também veio aconselhar uma cura definitiva para o vírus da emigração: o Ezbolá! Com este remédio, a coisa da emigração resolvia-se em duas penadas, em dois ou três meses. Todos eles, partilhando este symposium de remádios, este tipo de soluções, este cardápio de doenças revelam-se como aqueles animais selvagens prontos a cravarem as garras nos doentes, neste caso os eleitores.
Se nos detivermos na receita conselheiral de Passos Coelho, havemos de lhe tirar o chapéu pela sinceridade que ela contém.  O presidente do PSD e primeiro-ministro, Coelho, defendeu que os portugueses não podem deixar-se "tomar pela amnésia" e criticou quem promete "refeições grátis" e procura "vender uma ilusão" sobre a Europa. "É muito importante nesta campanha não nos deixarmos tomar pela amnésia. A amnésia é o caminho mais directo para voltar à irresponsabilidade".  Ora, aqui está! Não nos deixemos vencer pela amnésia. Nem por ilusões, que também afastam as pessoas da realidade. Bom conselho. O problema é que "não há só gaivotas em terra, quando um homem se põe a pensar"... Quem pode esquecer as malfeitorias de um governo em que Coelho foi o chefe do gangue? Quem pode esquecer o milhão e meio de desempregados? Quem pode esquecer os dois milhões de pobres? Quem pode esquecer o convite à emigração dos mais jovens e mais qualificados? Quem pode esquecer o roubo dos salários? Quem pode esquecer as sacanices feitas aos reformados e pensionistas, essa espécie de "ezbolá"caseiro (tantos roubos, caramba!)? Quem pode esquecer o assassinato da esperança que paulatinamente foi instalado na sociedade portuguesa?
Quem pode deixar-se tomar pela amnésia?

quarta-feira, 21 de maio de 2014

OS VIRUS E AS VACINAS NA POLÍTICA


Afinal, a campanha eleitoral, tão anémica no seu debate europeu, tão frágil nas soluções, tão soturna e sem gás nas suas caravanas, desfez agora o mistério. O país está doente e precisa de uma campanha de vacinação eleitoral. Quem o afirmou foi o candidato Paulo Rangel que, subitamente, passou de cavaleiro andante (numa triste figura, diga-se) contra os moinhos de vento socialistas, que erigiu à condição de monstros, a virgem ofendida, expoente máximo da vitimização. Se não me pedem desculpa, vou-me a eles! Segurem-me para não dar cabo do Seguro!
É muito curiosa a reacção às palavras de Manuel Alegre que, num comício respondeu à letra à comparação do PS, feita pelo cabeça de lista do PSD e CDS, a um “vírus despesista”, o "vírus" socialista, que necessitava ser combatido com a “vacina” que era o voto na coligação. Classificando a expressão como uma “ofensa à democracia”, Alegre criticou a “falta de memória histórica” do social-democrata por recorrer àquela expressão em particular. “Há umas dezenas de anos, na Europa houve um partido que disse que os judeus eram um vírus que era preciso exterminar. O PS não é um vírus, é um grande partido da democracia e da tolerância”, reagiu Rangel às declarações do histórico socialista, acusando-o de o associar ao partido nazi. Rangel mostrou-se indignado, repudiou as declarações e exigiu um pedido de desculpas.
Não sei se Rangel pediu alguma vacina (ou, pelo menos, um Alkaselzer) contra o discurso de Alegre ou se o vírus socialista já foi contido pela campanha de vacinação eleitoral, mas que isto de vacinas tem que se lhe diga, lá isso tem.
Nos tempos eufóricos a seguir ao 25 de Abril, as forças conservadoras mais à direita, com raiz no catolicismo ultramontano, que viria desembocar no cónego Melo, para combaterem a dinâmica do Partido Comunista puseram a correr que os comunistas matavam os velhos com uma injecção atrás da orelha!, que era uma versão mais soft daquela teoria de que os comunistas comiam as criancinhas ao pequeno-almoço. A coisa era muito propalada nas zonas rurais.
Um dia, numa consulta de oftalmologia nos HUC's, em Coimbra, o médico, o Prof. José Rui Faria da Abreu, debruçou-se sobre o paciente, um velho de muitos anos, para lhe observar os olhos. O Prof. Faria de Abreu era um homem alto, e, quando se debruçou, a bata abriu-se ligeiramente, e do casaco sobressaiu discretamente um autocolante do PC.
O velho viu o emblema, a foice e o martelo, e foi quando murmurou, em pânico:
-- Óh, sr, doutor, por favor, não me dê a injecção atrás da orelha!
Também agora, se calhar, é preciso darmos uma gargalhada às vacinas do Rangel. Já que, pelos vistos, ainda não foi descoberta uma vacina contra a estupidez.

USEM A INDIGNAÇÃO! - DISSE ELE


Na esperteza vibrante da campanha eleitoral, Paulo Portas agitou, com o seu olho vivo e o gesto ladino, as águas paradas de Aveiro, invectivando o povo no seu jeito proclamatório: "Usem o direito à indignação!"
Acho muito bem que os eleitores exerçam, com grande veemência cívica, o voto indignado contra:
- a irrevogável demissão de Portas
- o cisma grisalho de Portas
- a ultrapassagem da linha vermelha, que Portas impôs a si próprio, dos cortes nas pensões de reformados e pensionistas
- as promessas falhadas de Portas
- as aldrabadas do Portas
- as negociatas dos submarinos do Portas
- contra o Portas
PUM!

terça-feira, 20 de maio de 2014

NÃO ESQUEÇAS, NUNCA!



A crise da democracia, o descrédito da política, cavalgada pelos interesses financeiros, a anquilose europeia, a morte dos valores e dos direitos do homem geram uma crescente apatia cívica e uma indiferença social, que os barómetros da abstenção registam, a cada passo. Vaticina~se que as eleições para o Parlamento Europeu terão um grau de abstenção altamente perigoso.
A política não está atraente, a mediocridade parece crescer na razão directa da fulanização e da ausência ou debilidade do debate sobre a Europa, ela própria envolvida numa teia de compromissos de retrocesso civilizacional que atirou para o lixo os projectos da Europa dos Cidadãos e da Europa das Regiões. Mera serventuária dos interesses do capitalismo ultra-liberal, com bons capatazes para esses desígnios, como Durão Barroso, Merkel ou o figurante secundário Passos Coelho, a Europa tornou-se uma desilusão, que os cidadãos olham de longe ou já não olham. Neste contexto, é preciso lembrar, sempre, a importância do voto como decisão política e acto de consciência cívica e de cidadania.
Esta manhã, os Sinais do Fernando Alves, na TSF, reflectiam sobre essa questão relacionando-a com a memória, que é preciso preservar, para evitar os crimes da História se repitam. Parece um bom momento de reflexão sobre a Europa. Ora, oiçam: 2014-05-20 neverforgettovote.com

A TRIBO DO FUTEBOL



O futebol é um jogo admirável. E, na sua dimensão planetária, antecipou a própria globalização. A tribo do futebol, como chamou Desmond Morris à sua popularização, tornou-se nómada, na medida em que anda pelo mundo. Um jogo com esses ingredientes fez-se, naturalmente, um grande negócio à escala internacional, um fenómeno de capitalismo desmedido, um espaço onde os milhões são coisas banais.
Na sua fenomenologia, ei-lo como acontecimento transcendente, mobilizador da paixão de milhões de pessoas, raiz e seiva de uma mitologia do espectáculo  em que os seus actores subiram à condição de ícones mundiais. Olhando para os estádios, cheios de claques com os seus estandartes e os seus cartazes, sentimos o cheiro de fanatismos modernos, que as convenções tornaram toleráveis, e, às vezes, os grandes jogos parecem guerras modernas, e não falta ao condimento do espectáculo narrativas de guerras com mortes, a expressão de um holiganismo de cariz fascista, pela violência e irracionalidade, como se o palco voltasse a ser uma espécie de circo onde os rituais fizessem soltar, outra vez, metáforas de feras.
Nessa medida, o futebol foi, também, no nosso tempo, instrumento privilegiado de ditaduras (todos se lembram do Portugal de Salazar ou dos militares argentinos, que tanto aplaudiam o jogo dos seus ídolos na tribuna como erigiam a tortura e a morte como programa político, ou os generais do Brasil, com os seus esquadrões da morte ou...ou...ou...), cujas multidões eram fáceis reféns de uma paciente fábrica de alienação.
O futebol será tudo isso, tem todos esses condimentos excessivos, mas é um jogo fantástico que ninguém gosta de perder, apesar dos seus nacionalismos exacerbados e a força tentacular do seu "negócio", que faz do amor à camisola uma arcaísmo sem sentido. O futebol é, como jogo, uma grande invenção! É, sim senhor!
Sorrio para o cartum de Zé Dalmeida que nos lembra o outro lado do jogo e os seus malefícios imediatos. Mas o futebol, meus caros, vai começar. E quando o árbitro der o apito inicial, na Copa do Brasi, é certo e seguro que me juntarei a muitos muitos milhões, com os olhos colados à televisão, a desfrutar o espectáculo global em toda a sua glória, sempre à espera de gritar: gooooolo!

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O EMBLEMA ESCONDIDO DOS COMENTADORES

Zé Dalmeida no álbum Histórias de Portugal - Luzes e Lusitos
Esta semana Marcelo Rebelo de Sousa afirmava, com alguma ironia, que o PSD era o campeão dos ex-líderes comentadores políticos nas televisões. Campeoníssimo! À excepção de Manuela Ferreira Leite, que se distancia claramente do poder da maioria e tem criticado severamente as políticas de Passos & Portas (agora na versão do Senhor Feliz e do Senhor Contente para a "saída limpa"...), os outros (o próprio Marcelo, Marques Mendes e Santana Lopes) actuam de emblema vagamente escondido, quase sempre com uma retórica conselheiral para dentro do partido, como se fossem uma espécie de treinadores de bancada que, do seu púlpito na televisão, dessem semanalmente a táctica e definissem a estratégia para o imediato, quase sempre na esperança vã de Passos & Portas não cometerem mais disparates.
Marcelo, na TVI, face àquilo que ele considerou o previsível desaire eleitoral nas eleições de domingo, fez uma espécie de toque a reunir, à unidade, e quase garantiu que nem será preciso Cristo descer à Terra para ir dar uma forcinha aos correlegionários, porque o coração bate -- e isto é como a família, como ele deixou escapar em jeito de desculpa.
Já o irrequieto Marques Mendes, que na SIC transpira informações governamentais e do Conselho de Estado, despiu este domingo o traje de comentador e foi a Barcelos aconselhar mansidão cívica aos correligionários, numa pregação de brandos costumes eleitorais. Desenvolveu uma interessante teoria sobre a indignação que, pelos vistos, também lavra, nas hostes da maioria. "Indignem-se, desabafem nas redes sociais, mas não deixem de votar neles", invectivou p ex-lider do PSD e comentador. O antigo presidente do PSD reconheceu que os portugueses têm muita razão de queixa do governo, mas considera que nesta fase não se pode beneficiar o infractor, isto
é, o PS. Sugere, por isso, que as pessoas critiquem o governo noutros palcos que não nas urnas. "Quando estiverem com os deputados, com os dirigentes partidários, com os ministros, nas redes sociais, desabafem (uns tabefes e uns ovos podres no focinho não fariam mal nenhum poderia ter acrescentado), mas não deixem de votar na Aliança Portugal".
É um inovador conceito de política (politólogos de todo o mundo, vinde ouvir o sábio Marques Mendes!), que manda descarregar a indignação política de forma personalizada em deputados, dirigentes e ministros, mas, quanto ao voto, cuidado, juntem-se ao rebanho! É como se dissesse: os tipos são uns malandros, são do piorio, uns desclassificados, mas, por favor, deixem-nos estar onde estão! O voto, para sua excelência, não serve para mudar -- serve para deixar andar a fazer malfeitorias esses sujeitos pouco aconselháveis!


54 GARGANTAS


Da visita oficial à China, do Presidente Cavaco Silva, já muito se escreveu. Mas foi quando sua excelência ditou para a História o  seu pensamento sobre o poder e o povo ou sobre as concubinas dos Imperadores, que a coisa ficou como alto momento da política. O caso mereceu a crónica de Artur Portela, hoje publicada no "i", intitulada "54 gargantas", e que a seguir oferecemos aos leitores: 


"Perguntado, à saída da Cidade Proibida, em Pequim, sobre que “lição” tirara da visita, o PR terá porventura respondido que o povo, isolado do que não é poder, não é designadamente boa coisa.

O Presidente da República, perguntado por um jornalista português sobre qual a lição que tirara da sua visita à Cidade Proibida em Pequim, terá eventualmente respondido ou uma ou várias das seguintes coisas:
a) Que o poder, isolado, do povo não é boa coisa;
b) Que, isolado do poder, o povo não é boa coisa;
c) Que o povo, isolado do poder, nomeadamente o poder do Imperador, não é, parecendo embora que talvez seja, e em casos muito específicos que seja, boa coisa;
d) Que o povo, isolado do que não é poder, não é, designadamente, boa coisa;
e) Que, em todas estas hipóteses, haveria uma agravante;
f) Gravíssima se o Imperador estivesse permanentemente fechado com 55 mulheres;
g) Menos grave, mas ainda assim gravíssima, se o Imperador estivesse permanentemente fechado com 54 mulheres;
h) Menos grave, ligeiramente menos grave, mas gravíssima, ainda assim gravíssima, se o Imperador estivesse permanentemente fechado com 53 mulheres;
i) Muito pouco, mas muitíssimo pouco menos grave, mas sempre no domínio da extrema gravidade, se o Imperador estivesse permanentemente fechado com 52 mulheres;
j) E assim sucessivamente até nenhuma mulher;
k) Permanentemente;
l) Que apenas uma mulher, mesmo não permanentemente, não é, para o imperador, boa coisa;
m) Isolada que esteja, do poder, essa mulher;
n) Isolada que esteja essa mulher, do Imperador;
o) Isolada do povo que esteja essa boa coisa que é uma mulher;
p) Sendo embora melhor que não esteja, essa boa coisa que é uma mulher, isolada, e sobretudo do povo;
q) Mas não de 55 Imperadores, essa não necessariamente boa coisa!
r) Sobretudo se todos os Imperadores estiverem permanentemente fechados, um em cada cela."

domingo, 18 de maio de 2014

O CINEMA E A MARGEM




O mundo imaginário do cinema tem na reelaboração da memória, que é a ficção, um dos pontos mais deslumbrantes. Os espectáculos da atribuição dos Óscares, como os Festivais emblemáticos, como o de Cannes, são reencontros com esse cinema imaginário protagonizado pelo universo de estrelas que se tornaram companheiros de jornada que nos habituámos a ver em mil histórias que passaram pelos ecrãs, em salas mergulhadas na penumbra, ou agoira, também, no espaços domésticos onde as televisões pontificam.
O Francisco Sena Santos faz, nesta crónica, um retrato do Festival de Cannes e daquilo que, dentro do cinema ou à margem dele, se tornou acontecimento e notícia. Oiçam s.f.f.
SEXO, INTRIGAS e DSK (OU DEPARDIEU, OU FERRARA)

CAVACO E O PODER


Medicult
Terminou a viagem oficial de Cavaco Silva à China (Vasco Pulido Valente, hoje, no "Público": Não se percebe o que o dr. Cavaco e a mulher do dr. Cavaco, com uma comitiva de empresários (de quê?) e uns tantos ministros, foram fazer à China. É muito compreensível que a China apeteça a quem gosta de viajar: há a "cidade proibida" para ver e uma espetada de baratas para comer...") e dizem que, para além de vultuosos acordos financeiros e económicos (que terão vendido por lá? A Torre de Belém? Os Jerónimos? A Batalha?), dentro de três a cinco anos, os portugueses vão passar a falar mandarim, segundo informou Crato, o ministros dos sorrisos e da voz doce, que é a melhor táctica para produzir sacanices de alto gabarito.
Nestas visitas, há sempre frases que ficam para a história, qualquer que ela seja. Não sei se por estar em terras de Mao, o Presidente Cavaco Silva, decerto tocado pela brisa colectiva, foi lá dizer, num tirada filosófica pura, que "o poder serve o povo". O poder político existia, assim, com essa benemérita finalidade: tornar o povo feliz através da acção benevolente de políticos com espírito de missão, como Cavaco, Passos Coelho ou Portas, por exemplo.
Quem tem assistido ao seu magistério político, dele, cavaco, não pode deixar-se de interrogar-se, com alguma perplexidade, por este exercício de hipocrisia em terras do Oriente. Povo? Qual povo?
É que, no caso de Cavaco, sustentáculo e abono de vida do governo de Passos & Portas, o poder tem sido exercido contra o povo, a quem oprime e rouba. Por isso, ao falar de servir o povo, ainda para mais na China, Cavaco só podia estar a gozar com o pagode...