sábado, 14 de junho de 2014

UM CRIME EM GESTAÇÃO...


Abro o "Diário de Notícias" - e que vejo eu? O sugestivo título, de arregalar o olho, do artigo do João Marcelino: UM CRIME EM GESTAÇÃO. Esfreguei os olhos de espanto. Ora aqui está um texto sobre o despedimento colectivo de jornalistas perpetrado pela Controleinveste. Puro engano. "O crime em gestação" era, afinal, sobre a União Europeia...
É sempre mais fácil e cómodo ver os crimes que se organizam e cometem longe da vista do que os que acontecem dentro de portas e bem perto do coraçã
, quando há coração, claro...

BANCOS E BANQUEIROS


Noticia hoje o "i": "O contabilista da Espírito Santo International (ESI), que abandonou o grupo este ano após ter sido descoberto um desvio de 1,3 mil milhões de euros no passivo desta holding diz que Ricardo Salgado “sabia que faltava dinheiro no passivo". A ESI é a holding que controla os negócios financeiros e não financeiros no Grupo Espírito Santo. De acordo com Francisco Machado da Cruz, Salgado sabe desde 2008 que as contas não reflectiam a verdade financeira. E que não era o único: José Castella, controller financeiro do GES, Manuel Fernando Moniz Galvão Espírito Santo Silva e José Manuel Pinheiro Espírito Santo Silva também tinham conhecimento de que uma parte do passivo da ESI não aparecia reflectido nas contas. A notícia é avançada hoje pelo semanário Expresso”.
Os portugueses têm pago caro a bandalheira do sector financeiro. O BPN e o BCP tornaram-se símbolo desse "polvo". Agora é a vez do BES e não se abe quando esta engrenagem vai parar. Brecht é que tinha razão quando deixou no ar esta sua perplexidade: "o que significa o roubo de um Banco, comparado com a fundação de um Banco?"

quinta-feira, 12 de junho de 2014

UM ACENO DE SAUDADE AO ANTÓNIO JORGE MARTINS

António Jorge Martins. Fotografia Jack Hanning
Amanhã, às 18 e 30, no Convento dos  Dominicanos (perto do Metro das Laranjeiras), amigos de António Jorge Martins reúnem-se numa sessão de homenagem e de memória à volta da figura do cidadão e jornalista, que recentemente faleceu em Estrasburgo, cidade que tomou como sua e onde exerceu a sua profissão. O seu percurso cívico e cultural foi sempre exemplar, num compromisso social por inteiro e na expressão da ideia (um pouco a António Sérgio) de que era preciso caminhar pelas grandes "avenidas do diálogo" para dar sustentabilidade à democracia. No fundo, partilhava aquela ideia de que nada do que era comum ao homem lhe era estranho. Essa cultura humanista, que tinha raízes ao mesmo tempo nos grandes clássicos e nos autores que projectaram sempre a modernidade no tempo, não era outra coisa senão a coerência que pôs sempre na sua acção, no seu ser e estar, nos desafios que impôs sempre à vida. Amanhã, às 18 e 30, no Convento dos  Dominicanos (perto do Metro das Laranjeiras), amigos de António Jorge Martins reúnem-se numa sessão de homenagem e de memória à volta da figura do cidadão e jornalista, que recentemente faleceu em Estrasburgo, cidade que tomou como sua e onde exerceu a sua profissão. O seu percurso cívico e cultural foi sempre exemplar, num compromisso social por inteiro e na expressão da ideia (um pouco a António Sérgio) de que era preciso caminhar pelas grandes "avenidas do diálogo" para dar sustentabilidade à democracia. No fundo, partilhava aquela ideia de que nada do que era comum ao homem lhe era estranho. Essa cultura humanista, que tinha raízes ao mesmo tempo nos grandes clássicos e nos autores que projectaram sempre a modernidade no tempo, não era outra coisa senão a coerência que pôs sempre na sua acção, no seu ser e estar, nos desafios que impôs sempre à vida. O António Jorge Martins tem muitos créditos de gratidão a receber da sociedade portuguesa. Tudo o que fez, com "empenho do coração", para utilizar um verso de Eugénio de Andrade, poeta que ele amava, fê-lo na perspectiva da transformação da realidade na edificação de um mundo mais justo e livre. Daí o seu papel no aggiornamento da Igreja, como professor do Seminário de Almada ou no lançamento do "Tempo e o Modo" e no grupo do António Alçada Baptista ou de Helena Vaz da Silva e do seu Centro Nacional de Cultura. Nunca, aliás, essa perspectiva o abandonou e eu dizia-lhe que, sendo a Igreja um monolito, ele, que lera os teólogos todos, tentava arrastar o seu imobilismo, e, às vezes, ouvindo-o, ficava-se com a ilusão que as utopias podiam aproximar-se dos dias.
Mitigamos as saudades dos amigos que partem refugiando-nos nas imagens que guardamos no coração, fragmentos de vida e de tempos felizes. Vejo-o nos seus regressos a Portugal e era sempre para ele um deslumbramento. Deslumbramento da luz e das cores, do mar e da serra da Gardunha ou da Estrela (mas era da Gardunha que ele estava próximo), do Outono na Beira, se era Outono, ou da Páscoa se a Primavera pintava a terra de flores e de renovação. Tudo isto convergia numa grande fidelidade à terra, espécie de deus desconhecido que ele venerava. Às vezes, vinha no Inverno e então o rosto abria-se num sorriso de felicidade:
-- Vim colher a azeitona!
Era assim. Homem da Europa, não descurava a sua condição de beirão e fundanense e o Castelejo foi sempre uma espécie de casa comum de onde verdadeiramente nunca saíra, que as raízes eram fundas e muito fortes.
Agora, enquanto escrevia esta memória apressada, era como se falasse com ele. As palavras aqui são um aceno de saudade e um beijo à querida amiga Marie José, sua mulher e companheira em Estrasburgo. Palavras como se fossem um cravo vermelho.

DRUMMOND: ENTRE O CÉU E TERRA, A BOLA



Esta crónica, publicada no "Jornal do Fundão" em 1982, é do grande Carlos Drummond de Andrade, que tanta atenção deu ao futebol como fenómeno universal e quotidiano, tão ligado à matriz social e cultural brasileiras, foi escrita antes da campanha fatídica da selecção do Brasil, no Mundial de Espanha, em 82. Agora, de novo está a bola, entre o céu e a terra, na Copa do Brasil, que hoje começa.  A bola está a rolar. Então, bola prá frente!

A esta altura dos acontecimentos, falar em Santo António, São João e São Pedro como os três santos de Junho talvez seja anacronismo. Não faltará quem conteste, afirmando que os verdadeiros três santos do mês se chamam São Eder, São Sócrates e São Toninho Cerezo. Já outros porão em dúvida a terceira devoção, preferindo soltar fogos em honra de São Paulo Isidoro, enquanto outros ainda reclamarão: «E São Zico, se esqueceram dele?» Um altar imprevisto vai sendo providenciado para São Oscar.
Não há unanimidade, como não a houve na convenção de PDS em Belo Horizonte, que também se pode comparar a uma reunião vaticana para fins de canonização. São Magalhães Pinto recebeu um modesto segundo lugar, cedendo o primeiro a São João Marcos, para surpresa geral, não muito geral, é certo, pois na Congregação dos Ritos, isto é, na cúpula pedessista mineira, essas coisas são preparadas com muita arte, e quem não percebe é quem está de fora. De resto, os santos proclamados pelos convencionais, a rigor, serão no máximo, beatos, pois a sagração definitiva só ocorrerá em Dezembro, e outros candidatos ao altar serão apresentados pelo PMDB, partido que conta com grande número de fiéis, dispostos a invadir o céu e instaurar uma nova corte de santos, bem-aventurados, e, se possível, anjos, arcanjos e virgens.
Não existindo dois céus paralelos, o espaço principal nas alturas há-de ser ocupado, na primeira fila, por São Tancredo ou Santo Eliseu. Os que manuseiam o Antigo Testamento ponderam que Eliseu não pode ser santificado, pois sua condição bíblica é a de profeta, e como tal anterior à era cristã. Mas seus devotos não acham graça na ideia de renderem culto a São Tancredo, que ameaça promover grandes mudanças num Paraíso ocupado há longos anos pela mesma seita religiosa, que naturalmente não deseja perder os seus cómodos.
Por aí se vê como os outrora prestigiosos santos convencionais do calendário baixaram de cotação. Se ouvimos o espocar de fogos, não é mais em homenagem a um deles, mas simples recurso de propaganda eleitoral. Muita gente ainda considera o foguete bem fabricado e lançado na ordem certa o melhor sucedâneo de ideias e projectos que o candidato não teve tempo ou gosto de formular. Os fogos de artifício, então, nem se fala. Valem por um bom programa de governo, com a vantagem de não enganarem ninguém: são mesmo de artifício. As fogueiras em que se assavam batatas logo comidas pela moçada já não se distinguem por este préstimo, devido ao preço desse produto alimentar. E a pesca de um lugar ao sol anda cada vez mais problemática, entre o subemprego e o desemprego reinantes. Quanto a casamentos promovidos por Santo António, é tão escassa a procura, que...
Mais do que a política, o futebol tomou conta do mês de Junho e promete entrar garbosamente em Julho, a menos que, com a provável vitória da selecção brasileira na Espanha, ele ocupe a atenção e a emoção dos brasileiros até o final de Dezembro, se não preferir fazê-lo durante os próximos quatro anos ou mesmo até à consumação do século: por que não? Se o fascínio desse desporto alcança indistintamente todas as idades e classes sociais, e se é difícil o congraçamento nacional em torno de um modelo de organização social e política do país (e tal modelo ainda não foi concebido satisfatoriamente), resta-nos encontrar o ponto de convergência na única realidade aceita unanimemente entre nós: a bola e suas espectaculares evoluções determinadas pelos nossos invencíveis atletas.
Os políticos tenham paciência, pois esta não é a vez deles. Alguns podem talvez destacar-se em peladas de fim de semana em Brasília, mas nenhum deles será capaz de cobrar um escanteio como Serginho (quando Serginho está inspirado para a cobrança). O Dr. Maluff presume-se jogador de qualquer posição, capaz até de, como goleiro, fazer golo ao devolver a bola, mas uma sólida marcação pode travar-lhe o ímpeto. Lula ensaia os primeiros chutos como artilheiro, Jânio deixou de ser confiável ao abandonar campo nos primeiros minutos do jogo, e os generais pré-candidatos parece que embolarão o meio-campo, no afã de ocuparem a mesma área, que não dá para todos.
No momento, o público pagante e exultante não está a fim de celebrar os santos de Junho nem de assistir às mágicas reformistas do governo, que perde longe para o Circo Thiany. O pessoal não está presente. Está em Sevilha, vibrando. Junho 82 é um mês diferente de outros Junhos. Nesta quadra, em face das circunstâncias, nos desinteressamos da salvação pelo eterno, através dos três santos bons de antigamente, e esquecemos a parolagem dos comícios e a figuração dos cartazes. Bola pra frente, os santos que nos desculpem, e os candidatos também.

Podíamos dizer com o poeta: Junho de 2014 é um mês diferente de outros Junhos. O pessoal já está vibrando!



quarta-feira, 11 de junho de 2014

PINGO AMARGO

Vale a pena ler esta informação que partilho do Blogue Câmara Cooperativa e que é bem significativa da hipocrisia que se pratica em virtuosas instituições. Valha-nos que há sempre alguém que diz não.
Câmara Corporativa: Pingo amargo

LEMBREI-ME DO AMÉRICO RODRIGUES...



A debilidade do programa cultural do !0 de Junho, na Guarda, faz-me perguntar outra vez: onde está Américo Rodrigues?
Dizem-me que ele está encerrado no Paço da Cultura, onde tem tempo de olhar para as grossas paredes do edifício - e pensar. Essa realidade, onde gravita ele e as suas circunstâncias, é boa mesa para os pensamentos, como poderia dizer Herberto Hélder. Pensar nas coisas próximas e remotas, da produção de acontecimentos marcantes da vida da Guarda, de uma programação que pôs a Guarda no mapa cultural do país.
Imagino o Américo Rodrigues na solidão da sua prateleira profissional, a vir à janela perscrutar o bulício urbano, olhar as pessoas que passam, o pulsar da urbe, e voltar à sua secretário, breve reduto de vida, lembrar rostos de artistas portugueses e estrangeiros que construíram noites de glória no teatro municipal. E a memória, então, caminha solta pelo território de acontecimentos antigos que ela própria arquivou, como essenciais de uma biografia, e lá estão os espectáculos criados à volta da realidade local, a recuperação de figuras, rostos comuns da artistas e fazedores retirados do esquecimento (lembram-se da Maria Barrraca?), os cadernos de poesia, o Aquilo, as crónicas sobre a cidade que eram muito mais do que crónicas sobre a cidade. Imagino o Américo Rodrigues a lembrar-se da relação arterial que criou com tantas freguesias, no sentido da cultura ser não só um momento de revitalização, mas também de auto-estima colectiva. Imagino o Américo Rodrigues a sonhar com outros horizontes, o estabelecimento de uma rede com Castilla e Leão. Imagino-o, também, na persistência da sua acção de homem da cultura batalhando, dias, meses e anos, buscando a criação de um público, que chegou a exceder o mero espaço da cidade e do distrito. Imagino o Américo Rodrigues no Teatro Municipal de Teatro sonhando a cultura dentro da cidade, numa visão global que integrava literatura, teatro, cinema, música, pintura.
Imagino-o, outra vez, dando passos no círculo do Paço da Cultura, afeiçoando com a mão o granito das paredes, espreitando outra vez a rua e a gente, pensando um pouca em busca do tempo perdido, não do seu tempo que ele sabe bem, à maneira de Ungarretti, como a escrita e o pensamento são maneiras de roubar horas à morte. Imagino-o a ter pena da sua cidade, às vezes, penso eu agora, deve sorrir da mediocridade vestida de poder e arrogância. Imagino-o a dizer em voz baixa um verso de António Ramos Rosa, que foi seu amigo e colaborador: "Estou vivo e escrevo sol!"
Pergunto que é feito de Américo Rodrigues, sabendo precisamente onde ele está, como, quando e porquê. Mas lembrei-me dele nestes dias em que o vazio de ideias e de cultura poisou, provincianamente, no 10 de Junho, na Guarda. Uma pena!

terça-feira, 10 de junho de 2014

O OUTRO DEZ DE JUNHO NA GUARDA


Dois momentos do 10 de Junho na Guarda, em 1977:
Jorge de Sena quando discursava e a manifestação popular que marcou as comemorações
Este 10 de Junho teve mais militares do que cultura e o programa, tão pouco à altura do nosso épico, transformou  o embaraço de saúde do Presidente da República no facto surpreendente da festa. As tropas, perfiladas, estiveram em risco de não desfilar e regressar a quartéis e lá se ia o espectáculo preparado para diversão do bom povo português. Programa pobre, pois, concentrado à volta de pendões e do hino nacional, que é sempre música de fundo nestas situações. Claro que houve os condecorados, mas isso faz parte do inventário de medalhas do 10 de Junho.
Houve outro 10 de Junho na Guarda. Foi em 1977, os protagonistas eram de outra qualidade - Ramalho Eanes na Presidência da República e Mário Soares primeiro-ministro - e desse ficou memória pela sua dimensão cultural, matéria em que os actuais dirigentes do país têm muito terreno baldio. É verdade que o país era ainda um "país de Abril" e a euforia popular, não disfarçava tristezas, como agora, mas exprimia autêntica alegria colectiva apontando ao coração do futuro, não como hoje em que a esperança parece banida do quotidiano dos portugueses.
Dias vividos com intensidade, esses de 1977, ainda para mais num universo de companheirismo excepcional com homens da cultura e do jornalismo. Eu estive lá, redigindo com o António Morão e o João Fonseca um suplemento especial para o "Jornal do Fundão"; o Baptista-Bastos fazia o mesmo para o "Diário Popular", então ainda bem vivo.
A memória fixou para sempre dois momentos excepcionais: os discursos de Vergílio Ferreira e de Jorge de Sena. Mas foram as palavras deste último que se projectam, ainda hoje, como facto cultural que é impossível esquecer. A querida Mécia de Sena teve consciência da importância do texto inserindo-o como Discurso da Guarda no livro Rever Portugal - Textos Políticos e Afins, nas Obras Completas de Jorge de Sena, que Jorge Fazenda Lourenço coordena (Edição Guimarães). Nesse discurso, Sena fez, através de uma viagem à biografia e à obra de Camões, uma retrato (um retrato verdadeiro, com rugas) de Portugal. Deixo um extracto do texto:

"Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha, e por isso disfarçam a sua insegurança adulta sob a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam, as liberdades dos outros, tão respeitáveis como as de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido ou D. Sebastião. (...)
Um país não é só a terra  com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado proporcionalmente, tanta gente como este".

É um bom exercício ler Jorge de Sena. E lê-lo, hoje, num paralelismo entre os dois 10 de Junho, produz uma sensação indizível de tristeza. Então pensava-se Portugal na sua articulação com a obra de Camões, na recuperação do seu espírito inovador e crítico, na sua dimensão de construtor maior da língua portuguesa (uma das seis línguas mais importantes do mundo, avisava Jorge de Sena), na expressão planetária das comunidades. Louvava-se a liberdade louvando o pensamento. E hoje? Para lá das fanfarras e da liturgia das medalhas, o que fica? Um enorme vazio. Agite-se um pendão... e toque-se um clarim!

O PAÍS PERICLITANTE

Presidente da República desmaia quando discursava às Forças Armadas, nas cerimónias do 10 de Junho da Guarda. Comentário de um amigo, que assistia pela televisão:
- O Cavaco está como o país: já não se aguenta nas canetas...

FIALHO E O ARROZ DE PERDIZES

Só um país de analfabetos pode colocar na densa "teia do silêncio" um autor como Fialho de Almeida. A literatura portuguesa é, aliás, um território amplo onde os cemitérios do esquecimento florescem. É um certo ritual da morte (que às vezes os autores sofreram em vida), e todos sabemos dos sucessivos assassinatos a que os escritores estão condenados. Às vezes, temporariamente - surge uma data qualquer e, então, parece mal não falar deles - e aí surgem alguns recuperadores de cadáveres para fingirem que a pátria - era lá capaz disso! - não esquece os seus grandes criadores. Não vou fazer o inventário dos autores sepultados em silêncios, porque é de Fialho de Almeida (ele também esquecido) que quero falar.
Eu gosto de Fialho de Almeida, da sua prosa visual e impressionista, da sua crítica acerada, das descrições épicas de acontecimentos ou de paisagens. Basta ler Os Gatos ou O País das Uvas, os seus Contos, para só citar alguns títulos, e percebemos logo que estamos em presença de um autor marcante do séc XIX, um século que nos deu também Eça, Ramalho, Camilo. É verdade que ele não poupava ninguém e, em À Esquina, publica uma "Autobiografia" onde tem curiosos registos que são ajustes de contas com os seus pares ou com as circunstâncias nefastas do seu tempo. "A muito poucos dos que aí estão hoje elevados, e que passaram por mim nas redacções dos jornais, nos átrios das escolas e nas mesas dos cafés, invejaria um momento a história ascensional, porque a gloríola  ganha sem trabalho, espatifa-se em bagatela como o dinheiro do jogo, sem de si propulsionar senão defeitos", escreveu ele,que também não poupava o público: "O público entre nós não diviniza senão fabricantes de grandes calhamaços (critério natural num país onde a leitura é toda de lombadas, e mesmo que eu fizesse naqueles pobres bocados, maravilhas, passaria sempre por um cronista aguado das futilidades mansas do meu tempo".
Gastrónomo, Fialho vangloriava-se, entre outras receitas, de cozinhar um arroz de perdiz, que era uma coisa do outro mundo, como vamos ver. José Quitério recupera esse episódio no livro Escritores à Mesa (Assírio & Alvim). Fialho afirma que o seu arroz "já por várias vezes mereceu as honras da Imprensa, e não me admiro, porque ele é obra íntegra e cientificamente criada para lisonja dos mais subtis requintes gustativos". Depois explica longamente a receita e a sua prática e reproduz o seguinte diálogo com um amigo em que o arroz de perdizes faz antecipar a Páscoa:

"-- E é então maravilhoso esse petisco?
-- Tão maravilhoso que uma vez antecipei com ele a Páscoa, de três dias.
-- Como assim?
-- Estava a prepará-lo na rua da Condeça, em Sexta de Paixão, e nisto, quatro argoladas na porta, de tremer. Vai a criada... era Nossa Senhora da Soledade, que saída na procissão do enterro, vira de repente erguer-se do esquife o Salvador do Mundo, gritando "parem! parem!" -- mal lhe chegaram às ventas os perfumes ressurrecionais do meu arroz.
-- Ressuscitou. E a respeito de subir ao céu?
-- Qual subiu ao céu! Jantou connosco. Sabe que sou médico.Pois muito à puridade lhe digo que foi também o único sucesso clínico da minha vida de doutor"

Vim hoje às páginas de Fialho de Almeida porque na crónica de ontem do Fernando Alves ele falava de Fialho e da Biblioteca de Vila de Frades que tem o seu nome. E aqui fica também Fialho de Almeida visto por Fernando Alves que, por instantes, o retirou do esquecimento e o trouxe ao nosso convívio.
2014-06-09 Amanhã em Vila de Frades



segunda-feira, 9 de junho de 2014

QUE DIRIA HOJE O PADRE ALBERTO?

Uma terra é a soma de muitos rostos e acontecimentos que o horizonte temporal inscreve como singulares no registo colectivo que é o a-bê-cê da história local. Na persistência das terras se fazerem a si próprias, a memória é certamente uma coisa essencial da vida das comunidades, pois na edificação memorial convergem pessoas, referências identitárias e realidades comuns aos seus habitantes, que amam a casa comum onde nasceram e não a despregam do coração porque o sentimento de pertença é sempre uma raiz funda. Lembrar pessoas e instituições é, pois, um contributo para que a imagem de uma terra não se perca no limbo do esquecimento.
O Fundão comemorou hoje o 267º aniversário da criação do concelho. E, como acontece na sessão solene das festividades, distinguiu cidadãos e instituições, por justo merecimento. Mas gostaria hoje, sobretudo, de evocar uma figura, sem desmerecimento das restantes. Refiro-me ao Padre Alberto Neto.
Alberto Neto, que repousa no cemitério do Souto da Casa, sua terra natal, foi uma figura nacional, com um papel absolutamente notável na transformação da Igreja portuguesa, sobretudo nos tempos difíceis da ditadura, a que estava enfeudada por compromissos da sua alta hierarquia. O Padre Alberto Neto era uma daquelas pessoas que, pela inteligência e capacidade de comunicação, não deixava ninguém indiferente. Na multifacetada acção do seu múnus, na realidade eclesial que transportava, o compromisso social assumiu sempre carácter determinante. Havia uma palavra que combinava bem com o seu ser e estar, a palavra liberdade, a ela se ligando um conceito projectivo de justiça social e de igualdade que colocava o Homem como a medida de todas as coisas. Era abertamente contra a injustiça que se instalara na sociedade portuguesa, e que nos anos 60 (até ao 25 de Abril) era particularmente gravosa, e lutava pela paz, em tempo de guerra colonial, ficando ligado a um acontecimento determinante na consciencialização cristã contra a guerra, o caso da Capela do Rato. Hoje, à distância do tempo, a figura de Alberto Neto emerge como síntese de várias dimensões culturais e cívicas, designadamente a sua ligação à pedagogia e à Educação, à sua maneira de transmitir conhecimentos integrando a cultura na complexidade do mundo e, particularmente, da sociedade portuguesa. Do seu labor nas comunidades locais, em actos de verdadeira libertação, fala a Medalha de Ouro que lhe atribuiu o Município de Sintra ou o nome de rua que Belas lhe atribuiu; da sua acção pedagógica em liceus e escolas, sublinhe-se, apenas, que as duas últimas escolas onde foi professor (Queluz e Rio de Mouro) o quiseram como seu patrono, lá figurando o seu nome, homenagem das comunidades escolares.
Tive a honra de colaborar no livro "Padre Alberto Testemunhos de uma voz incómoda (Capela do Rato (68-73). Cito uma frase de um texto que lá figura, prosa apressada de jornal, por altura da sua morte: "Alberto Neto era um homem de diálogo e dele fazia um meio concreto a partir do qual a fraternidade era possível. A tolerância e a paz. A liberdade e a vida. E como medida de todos esses valores o Homem"
Ponho-me a imaginar o que diria o Padre Alberto face ao Portugal de hoje, às desigualdades cavadas fundo no tecido social, à fatalidade do desemprego, à lâmina da pobreza, às vidas destruídas. Imagino que estaria na primeira linha da cidadania lutando contra a injustiça, com palavras e acções, despertando consciências para a realidade que é preciso transformar. Ouvi-lo-íamos, porventura, repetir o que um dia escreveu: "A esperança é sempre possível mesmo que tenha de ser inventada".
Aqui está a palavra chave: esperança. Porque, nestes tempos de Troika, não têm feito outra coisa senão assassiná-la. É preciso inventar diria eu, num aceno ao Padre Alberto, o dia claro. Reproduzindo a esperança no país sitiado, como dizia o poeta.

domingo, 8 de junho de 2014

UM CRIME CONTRA AS PESSOAS!


Um dos problemas mais nocivos à sociedade portuguesa tem sido a descontinuidade das políticas públicas. Por miopia política ou mera estupidez, os governantes são peritos em meter na gaveta práticas políticas reclamadas como boas e úteis ao país só porque elas têm o selo dos seus antecessores. O prejuízo que isto representa para o país nunca foi medido, mas era, seguramente, boa matéria de investigação saber quais as políticas interrompidas - porquê, como e quando. Estaríamos, decerto, face uma das raízes do atraso português, em tempo de democracia.
A que se deve esse atavismo mental? Poderá filiar-se nos malefícios da partidocracia, visível, sempre, no emblema clubista (aqui do partido ou dos partidos do governo), que se compraz na pura irracionalidade. Outra causa poderá ser o simples preconceito ideológico, que manda arrasar (ou parar) tudo o que outros fizeram só porque as ideais são alheias ao seu catecismo e às suas teologias, geralmente estribadas em fundamentalismos de pacotilha. Ainda serão sementes desse mal a total ausência de cultura democrática (muito em voga no trauliteirismo do actual executivo) ou o arcaísmo mental (razão tinha António Sérgio quando dizia que a mentalidade era questão central da sociedade portuguesa), abominando tudo o que cheire a políticas que visem reais transformações sociais.
Giravam as ideias à volta desta realidade porque na edição de hoje, do semanário "Expresso", um trabalho assinado pela jornalista Isabel Leiria vem, precisamente, ao encontro do "crime" da tal descontinuidade das políticas públicas. O título, a toda a página, é, aliás, sugestivo: "Númeroa de adultos a estudar cai a pique". Escreve a autora da investigação jornalística: "Só num ano lectivo, o número de adultos inscritos em ofertas do Ministério da Educação caiu para mais de metade e atingiu em 2012/2013 o valor mais baixo dos últimos cinco anos. Entre cursos de educação e formação de adultos, ensino recorrente e, na sua maioria, processos de reconhecimento, validação e certificação de competências, as estatísticas mais recentes mostram que o sistema chegou a contar, em 2008, com mais de 300 mil adultos que decidiram regressar à escola. Em 2012/2013 eram menos de 60 mil".
Toda a gente se lembra de como foi posto fim ao Programa das Novas Oportunidades só porque a sua autoria tinha um nome: José Sócrates. E este é apenas um exemplo de como a estupidez instalada no poder se pode transformar num "crime" contra as pessoas. No artigo do "Expresso" fazia-se uma elucidativo inventário: 500 000: "Cerca de 500.000 adultos conseguiram uma equivalência ao ensino básico ou secundário através do processo de reconhecimento, validação e certificação de competências, entre 2006 e 2011. Ao todo, inscreveram-se nos Centros Novas Oportunidades 1,3 milhões de adultos".
Isto quer dizer alguma coisa. Foi, de certo modo, uma revolução na auto-estima de centenas de milhares de portugueses. Há histórias verdadeiramente soberbas de afirmação pessoal e de cidadania ou de recuperação de dignidade perdida. Lembro-me bem de, numa aldeia perdida do pinhal uma senhora de idade, com muito mais de 70 anos, vestida de negro e com cabelos brancos de prata, que já aprendera a ler numa dessas experiências de educação de adultos, me ter dito, apontando para os olhos e para um papel cheio da sua caligrafia:
- Agora, vejo! As palavras são a luz dos meus olhos!"
Eu escrevi, então, uma prosa indignada sobre essas espantosas mulheres que mantinham intacta a esperança de aprender mais, na conquista tenaz de um direito que lhes havia sido postergado, e apenas pediam um professor. A escritora Matilde Rosa Araújo comoveu-se com o texto e enviou-me um dos seus livros para entregar a essa mulher que agora via mais longe e compreendia melhor as coisas e o mundo.
Mas pensando bem, acho que todo este mundo de humanidade é estranho e indiferente aos burocratas do Ministério da Educação, ao ministro cuja glória foi inventar o termo "eduquês", e ao chefe da matilha, Passos Coelho. Na verdade, eles estão-se nas tintas para o direito à dignidade dos portugueses.