sábado, 28 de junho de 2014

LÁGRIMAS DE MACHO

A pouco tempo de começar o Brasil-Chile, na Copa do Mundo, fui buscar à "Folha de S. Paulo", esta excelentíssima crónica de Xico Sá, a propósito de uma questão que tem andado nas bocas do mundo: há jogadores de futebol que não cantam o hino (já aqui falámos disso, criticando a xenofobia da FN sobre alguns dos futebolistas franceses) e outros, vejam lá, não choram. E o que está para além do choro? Então, porque hojé é sábado, como dizia o Vinicius, que também gostava da bola, leiam esta crónica s.f.f.

O segredo das lágrimas de macho

POR XICO SÁ
25/06/14  03:26
boysdont
(Ou Ninguém desaba apenas pelo hino a capela.)
Homem que é homem não chora. Ouvimos essa ladainha desde que nos esbarramos com o azulzão do desamparo que é soltar do útero para a vida.
Homem que é homem chora sim, embora sempre chore atrasado e invente uma desculpa, como o futebol, por exemplo, para chorar pitangas mofadas.
Um jogador brasileiro no momento do hino, por exemplo, está derramando lágrimas que deveriam ter irrigado a várzea, o bairro, os seus primeiros passos, a sua vida fora dos campos.
Os homens, com ou sem bola, lacrimejam…
Pausa para ouvir o vinilzão de “Boys Don’t Cry”, aí acima. Pedagogia pré-emo do solene e genial conjunto musical “The Cure”.
Homem que é homem chora deslocado do real motivo das lágrimas. Ou você acredita que aquele choro todo é por causa do “ouviram do Ipiranga”?
Sinto muito em dizer, homem que é homem sempre foi obrigado a congelar suas lágrimas. E assim rolam as pedras de gelo dos seus futuros uiscões.
Nascemos já ouvindo essa miserável e pobre sentença.
Meninos não.
Pense na responsa. Pense no erro como um monstro.
O choro contido, preso nas algemas arbitrárias do soluço –ou seria preso no maldito alçapão do superego de infalível atleta?
Pense na nuvem em tecla “rew” recolhendo a chuva que se anunciava um drama bíblico. A nuvem que se arrepende de molhar o mundo.
Agora repare comigo no choro sincero dos boleiros da Copa. Hoje vi até um uruguaio derramando lágrimas que fariam do rio da Prata um dilúvio dos Sem-Noé.
Só creio no homem que experimenta, nem que seja por 15 segundos, o desamparo. Aquele choro  de morte.
O certo, amigo que chora com dificuldade, é que nunca vi tanto homem chorar junto como nesta Copa das Copas.
Que bonito é.
O hino a capela, o palo seco da canção patriota…
Até o mais burro dos mendigos de Viena, terra do Freud, sabe que o marmanjo não está chorando somente por causa do lábaro que ostentas estrelado. Ouviram do Ipiranga ou do Cais de Estelita que o choro, mesmo o choro do macho mais empedernido, é um Capibaribe que se junta ao Beberibe para formar um oceano Atlântico.
Os homens carecem apenas de uma desculpa cívica, de uma festa em família ou um porre maluco para liberar o choro preso por motivos bem mais nobres.
Quando Neymar desaba, quando Marcelo idem, quando até os nossos aparentemente viris zagueiros irrigam o gramado do Itaquerão e do Castelão com as suas lágrimas, algo mais forte terá rompido as paredes de todos açudes, todas as barragens apocaplíticas, todas as Tapacurás e seus boatos de inundação do Recife.
Como se rompesse um Orós em cada olho, como se aqueles meninos descobrissem o choro que vem do berço e irrompe neles de novo, aí incluindo o mal-estar da obrigação da vitória, os erros com mães/mulheres, as cobranças, a agonia de simplesmente existir e estar inteiro apesar de tudo.
Viver da forma mais besta e masculina é represar o choro.
Sábado eles irrigarão de novo, com lágrimas aparentemente patrióticas, o gramado do Mineirão. Por trás dos choros patrióticos ninguém jamais saberá os reais motivos, e isso é lindo, os homens choram pelas não-cachoeiras do passado.
Digo tudo isso e repito alguma coisa que disse em uma velha crônica:
Eis mais uma, entre as tantas, vantagens das fêmeas sobre os marmanjos: a coragem, o destemor, a arte de chorar em público.
Se o choro vem, as mulheres não congelam as lágrimas, como os moços, esses moços, pobres moços…
Não guardam as lágrimas para depois, como nós, que sempre adiamos as cachoeiras interiores, não levam as lágrimas para derramar escondidos na alcova.
Pior ainda é o homem que não chora nunca. Além de fazer mal ao coração, esse tipo não merece muita confiança.
As mulheres não, falo da maioria das fêmeas, desabam em qualquer canto e hora. Se estão mal de amor, choram na firma, no escritório mesmo, na fábrica, choram no trânsito, choram no metrô, simplesmente desabam.
Como invejo as lágrimas sinceras das moças.
Quantas vezes a gente não se preserva, por fraqueza, enquanto as lágrimas, em queda d´água, batem forte no peito machista e viram apenas pedras do gelo do uísque.
Como invejo as mulheres que misturam sim o trabalho com o drama furioso da existência.
Desconfio da frieza profissional, das icebergs de tailleur, que imitam os piores homens e guardam tudo para molhar o travesseiro solitário numa noite de inverno.
Ora, as mulheres podem ser infinitamente poderosas, administrarem plataformas de petróleo nos mares e chorarem um atlântico diante de uma indelicadeza da vida.
Lindas e comoventes as mulheres que choram em público, nas ruas, nos cafés, nos bares, nos restaurantes, no táxi. São antes de tudo umas fortes. Tristes dos que estranham ou ficam envergonhados com o mais verdadeiro dos choros.
Triste dos que acham que não levam a sério, que tratam como sintomas da TPM e chiliques do gênero, que fracasso. Ora, até mesmo os choros de varejo, não importam as causas, são comoventes. Chorar engrandece.
Fazer amor depois de lágrimas, então, é sentir o sal da existência, romanticamente, sem medo de ser ridículo ou cafona.
Acabei de testemunhar uma dessas lindas e corajosas moças, chorava no metrô da avenida Paulista.
Por que chorava aquela moça?
A moça não escondia os soluços do choro. Terá discutido a relação, a velha D.R., à boca da estação Paraíso? Veste roupa de trabalho sério, e chora.
Daqui a pouco estará sentada na sua cadeira de secretária, exímia, bilíngüe, a serviço da grana “que ergue e destrói coisas belas”.
Teria levado um pé-na-bunda, um fora? Teria visto o casamento pelo binóculo do titio Nelson Rodrigues? Perdoa-me por me traíres?
A moça que chorava sabia que o amor - repito o que já disse mil vezes no blog - é como o metrô na avenida Paulista: começa no Paraíso e termina na Consolação.
Pior sempre será o homem. De tanto esconder o jogo, jamais saberá o real motivo do choro. Nem Neymar nem ninguém chora apenas pelo hino.

ALTARES


Abro, a páginas tantas, o livro de Nuno Júdice, A Matéria do Poema, e leio Obituário:

"Um pinochet de lápis-lazúli,
um estaline de âmbar,
um franco de sevilhana,
um hitler de bola de berlim,
um mussolini de esparguete, 
um sortido ceausescu,
e um salazar de santa comba;

são os santos deste altar
onde já ninguém quer rezar".

O problema, meu Poeta, é que não faltam sujeitos, às claras ou às ocultas, muito piedosos e virtuosos, a inclinar-se ao altar para as suas rezas políticas de ocasião...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

CRIMES DE AO PÉ DA PORTA

Como é que um país pode andar tanto para trás, rasurando os valores do homem nos altares dos cifrões ou da mera fragilização do tecido social? Como é que um país pode desistir do desafio da sua transformação social, em busca daquela justiça elementar que dá sentido à vida? Como é que um país, como se fosse um "rebanho vegetal e só", afundado na apatia cívica e no desinteresse, tolhido por mil fatalidades vindas de antigamente, não levanta a voz para denunciar estes crimes de ao pé da porta? Talvez esta prosa indignada não sirva para coisa nenhuma e apenas fique como desabafo atirado ao vento das circunstâncias que move a engrenagem do desastre em curso. Então, interroguemos: ninguém põe uma areiazinha na engrenagem? Ninguém chama os bois pelos nomes? Ninguém dá um murro na mesa? Ou ninguém pergunta, simplesmente: quem são os responsáveis desta comédia humana que não é outra coisa senão uma tragédia?
Dizem-me que vai a chegar ao fim o serviço de apoio domiciliário do Hospital do Fundão. Dito assim, parece apenas mais um serviço que fecha no país dos serviços fechados. Mas a extensão do caso é bem diferente. Este Serviço Domiciliário, com dezoito anos de trabalho insubstituível, dezoito anos de apoio social e humano, absolutamente notável, ajudou milhares de pessoas, deu alento à vida, transformou dias à beira do fim em pequenas janelas de esperança. Um dia, outro dia, semanas, meses, anos, muitos anos, palmilhando o concelho, contactando com um universo de pessoas envelhecidas e doentes, às vezes isoladas, dilatando esperança de vida, sobretudo naquela fase em que viver mais dias dentro da casa onde se cumpriu a vida é não pouca vitória.
O Serviço Domiciliário tinha outra virtualidade. Nascido em articulação com a antiga Unidade da Dor (sim, essa mesmo, que foi pioneira no país, criada e animada pelo dr. António Lourenço Marques), depois transformada em Unidade de Seviços Paliativos, formou uma equipa técnica de altíssima qualidade, em que a sensibilidade humana era sempre grande receita.
Dizem-me que vai acabar. Como é possível acabar, se o país está hoje mais velho e doente, a solidão é um gueto que cerca as pessoas, os doentes idosos estão cada vez mais frágeis e indefesos. São estas situações que marcam o retrocesso civilizacional em que estamos metidos. Eles fecham os Serviços. Não custa nada, é só dar a volta à chave. E apagar a luz, como quem dá um pontapé na vida de muitos. Malandros!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

LEMBREI-ME DO TUCO


Uma das coisas mais fascinantes que tem o cinema, como fábrica de sonhos, é tornar-nos comuns a muitas das suas personagens. Pequenos e grandes dramas, registos heróicos e épicos, às vezes a pequena dimensão de quotidianos que o cinema tornou universais, ficam a fazer parte de nós, porque olhamos o desfiar das imagens e gostamos de o fazer como se lá estivéssemos também. Nessa confluência de olhares que o cinema origina, ficamos presos, muitas vezes, à sua forma retórica de contar as histórias, e, então, essas figuras que interpretaram personagens, actores fabulosos, génios da sétima arte, ou às vezes nem tanto, e parece-nos que ficam a cruzar-se connosco pelo tempo fora. Revemos o filme, e lá estão eles, Ora, vivam!
Também acontece isso com actores secundários, que nunca ganharam óscares e tiveram sempre uma notoriedade quase de margem. Mas vivemos com eles aventuras espantosas. Uma das categorias em que isso mais acontecia era nos Westerns, que vinham dos confins da infância e se prolongaram depois pelo tempo, modernizando-se, mas com o mesmo sabor, como aconteceu com a sua reinvenção por Sérgio Leone.
Hoje, ao ler o jornal, vi que tinha morrido um desses actores, Eli Wallach (1915-2014), que os filmes Os Sete Magníficos e O Bom, o Mau e O Vilão celebrizaram. Participou em outros filmes (Os Inadaptados, por exemplo), mas do que me lembro é o do Calvera, o bandido mexicano de Os Sete Magníficos, de John Sturges, e, sobretudo, do Tuco, que Sergio Leone recreou, ao lado de Clint Eastwood e Lee Van Cleef.
Um dia destes, vou voltar a vê-lo no seu papel de mau, como quem acena a um bom malandro que nos fez ficar pregado à magia do cinema numa dessas histórias bem contadas. O cinema tem destas coisas...

HINOS E FUTEBOL


Benzema é que marca os golos!
Leio, no "El Pais", um interessante artigo sobre o Mundial 2014 - "Os hinos também jogam". Mas o que verdadeiramente fixou a minha atenção foi a denúncia que a Frente Nacional francesa, dos Le Pen e C&a,  tinha acusado os jogadores de origem africana de não saberem A Marselhesa. Diz o jornal: "A ultradireitista Frente Nacional acusa os jogadores da selecção de origem magrebina e africana de não saberem o hino. E alguns dos mais destacados, como Karim Benzema, se negam mesmo a cantá-lo".
O desporto, às vezes, prega partidas a estes energúmenos da política, com as suas ideologias de exclusão racista. Lembremo-nos sempre da vingança servida fria por Jessy Owens, o atleta negro americano que, face ao desespero de Hitler, ganhou a medalha de ouro, nos Jogos Olímpicos de Berlim!
Agora, os Le Pen, queriam um bocadinho mais de hino... Olhando para eles e para a sua Frente, onde xafurda o ódio a tudo o que é diferente, penso que talvez fosse bom os jogadores magrebinos e africanos de França responderem-lhe que coxos ideológicos daquele calibre não têm pernas nem cabeça para perceberem a magia da bola...

OS VELHOS TAMBÉM SE ABATEM!



Às vezes, um verso contém toda a emoção do mundo e impõe um silêncio absoluto de pura exigência de meditação. Essa experiência acontece-nos frequentemente quando lemos aquela arte poética que toca a essencialidade das coisas ou vivemos emoções estéticas tão fundas, porventura aqueles instantes em que Goethe dizia que o tempo devia parar. Um desses versos, que me emocionou, colhi-o na poesia de Jorge Luís Borges e diz: "Por Francis Haslam, que pediu perdão aos seus filhos/ Por morrer tão devagar". É uma metáfora terrível que hoje traduz o universo absurdo que a sociedade impõe aos mais velhos, quando a vida produtiva chega ao fim ou os donos dos países os tornam gradualmente descartáveis.
No mercadorismo social, no deve-haver do poder ultra-liberal, como acontece de forma miserável em Portugal, não há lugar para os idosos - ou, se há, são na maior parte dos casos armazéns antecipadores da morte -, os idosos são um segmento geracional que os detentores do mando, não poucas vezes, acusam (pelo crime de se ter prolongado a esperança de vida) de responsável por desequilíbrios orçamentais.
Lembrei-me do verso de Borges porque a questão dos idosos em Portugal (reformados e pensionistas), gente que viveu e vive, ainda, em muitos casos, uma precariedade humana aviltante, depois de duras vidas de trabalho  e de desigualdades sem fim, e faz lembrar aquela caricatura (excessiva, como todas as caricaturas), tão feita de desumanidade: consideram-nos mortos - e gostavam de os ver morrer mais depressa.
Foi também o texto magnífico de José Tolentino Mendonça, no "Expresso", intitulado "A Velhice Ofendida", que me fez voltar à pulsão da escrita em tema tão inquietante e tão presente no quotidiano. O poeta começa lembrar que "nos primeiros quatro meses deste ano foram registados em Portugal 294 suicídios" e que "ocorrem no nosso país mais suicídios do que mortes em acidentes de estrada". E acrescenta: "Mas houve um dado que se cravou completamente na minha cabeça e não me abandona:quem mais é tentado pelo suicídio são os velhos, acima dos 75 anos de idade, com menos defesas perante a solidão, a pobreza ou o sofrimento". José Tolentino Mendonça cita um curioso texto do filósofo Norberto Bobbio, onde o autor, com sarcástica ironia, escreve que "quem elogia a velhice nunca a teve diante dos olhos", para relatar depois a seguinte experiência de Bobbio: "O tempo urge. Eu deveria acelerar os movimentos para chegar a tempo e, em vez disso, vejo-me obrigado, dia após dia, a mover-me cada vez mais devagar. Emprego mais tempo e disponho de menos tempo. Pergunto a mim mesmo, preocupado: será que vou conseguir? Sinto-me compelido pela necessidade... E contudo sou obrigado a marcar o passo, embaraçado nos movimentos, desmemoriado, e portanto obrigado a deter-me para anotar tudo de que preciso  em folhas que, no momento oportuno, não encontrarei".
Esta é uma imagem fugaz do drama interior de muitos idosos. Mas depois, nas andanças do dia-a-dia o braço longo do drama estende-se à solidão do abandono, às agressões físicas de que os idosos são vítimas, dentro das quatro paredes de um eufemismo chamado lar, às vidas de miséria que são a linha final de muitos. Os velhos. Como diz José Tolentino Mendonça "ser velho no Portugal contemporâneo não é uma coisa bonita de ser ver".

terça-feira, 24 de junho de 2014

UM ESTADO DE CRIMINOSOS RICOS

No meio do ruído dos futebóis e das querelas partidárias, na mansidão provocada pelo unidimensional comentário televisivo e pelo cinzentismo generalista que marcam as ideias veiculadas na imprensa, o artigo que José Pacheco Pereira publicou, no último sábado, no "Público", soa a um alarme contra a paz podre que hoje se vive na sociedade portuguesa. Num texto intitulado "Só com os criminosos pobres é que não se pode comer à mesa", o historiador explica como "algum moralismo salomónico que tem como objectivo legitimar a penalização punitiva de milhões para desculpar as dezenas", mostrando a realidade dicotómica e profundamente desigual, que marca o funcionamento das instituições face ao comum dos mortais e aos detentores de grandes grupos financeiros.
O texto de Pacheco Pereira vai à raiz dos problemas, não esquece "a completa promiscuidade com o poder político" sublinhando, até, a tipologia da movimentação destes senhores em relação ao poder político dominante: "Os Espírito Santo frequentavam os gabinetes de Sócrates, elogiaram-no até ao dia em que o derrubaram, quando os seus interesses estavam em causa pela ameaça de bancarrota. O dinheiro fluiu nos contratos swap, usados e abusados pela governação socialista, e as PPP contaram com considerável entusiasmo da banca nacional e internacional". Mas Pacheco Pereira não vê apenas a árvore - vê a floresta. E explica que "o actual governo mereceu também da banca todos os elogios e retribuiu em espécie, impedindo que qualquer legislação que deminuisse os lucros da banca passasse no Parlamento ou ficando como penhor de bancos que em condições normais iriam à falência, mesmo numa altura que já era difícil alegar crise sistémica". Toca, aliás, o historiador, num caso sintomático, de bradar aos céus, que é o da "transumância de lugares com a banca tanto mais reforçada quanto a sua relação como os "mercados" passava pela intermediação financeira quer em Portugal, quer fora, e a desertificação das chefias da função pública, atiradas para a rua pela demagogia do diminuir os "lugares de chefia", entregou áreas importantes do Estado a consultoras financeiras e à advocacia de negócios". E sobram no texto os exemplos dessas acções nefastas que são vírus letal no coração do Estado.
Mas o que ´ºe mais significativo no artigo de Pacheco Pereira é o retrato da completa impunidade com que actua o sector bancário, em Portugal. Vejam os leitores o que diz o historiador. A transcrição é um pouco longa, mas vale a pena ler:

"E é crime sem castigo, ou com leve castigo, porque não se percebe como banqueiros envolvidos em evasão fiscal e manipulação de contas (para usar o politicamente correcto, porque se não fosse assim seriam falsificações de contas, contabilidades paralelas, "esquecimentos" de declarar ao fisco milhões de euros,uso quotidiano de off-shores para esconder operações financeiras, etc...etc.) não são imediatamente impedidos de exercerem actividades na banca, acto que depende dos reguladores, mesmo antes da justiça se pronunciar sobre os eventuais crimes cometidos, se é que vai alguma vez pronunciar-se.
A completa desresponsabilização sobre a crise dos últimos anos, desencadeada pelo sistema financeiro, mas de que, no fim, este veio a beneficiar, marca moralmente como uma doença a sociedade da crise em que vivemos. O que choca as pessoas comuns e é uma fonte enorme de descrença da democracia e de sentimento de injustiça propício a todos os populismos, é que ninguém imagina que um ministro,primeiro-ministro ou Presidente se fosse sentar à mesa com alguém que tivesse desviado uns poucos milhares dos seus impostos ou tivesse um restaurante, uma barbearia, ou uma oficina de automóveis em modo de"economia paralela", enquanto todos viram nos últimos anos, em plena crise, conviver agradecidos e obrigados com estes homens que aparecem agora nos jornais como se tendo "esquecido" de declarar milhões de euros ao fisco ou estando à frente de instituições bancárias que emprestaram a amigos e familiares muitos milhões de que não se sabe o rasto, e tinham contabilidades paralelas.
É por tudo isto que não aceito a culpabilização sistemática dos mais pobres e mais fracos e da classe média, por terem vivido "acima das suas posses", mesmo quando não o fizeram. E mesmo quando havia uma casa a mais, um carro a mais, um ecrã plano a mais, um sofá a mais, um vestido ou um fato a mais, recuso-me a colocar estes "excessos" no mesmo plano moral dos "outros". Algum moralismo salomónico, que coloca no mesmo plano a corrupção dos poderosos e dos de cima com os pequenos vícios dos de baixo e do meio, tem como objectivo legitimar sempre a penalização punitiva de milhões para desculpar as dezenas. É por isto que esta crise corrompe a sociedade e vai deixar muitas marcas, mesmo quando ninguém se lembre de Portas e de Passos".

Um belo retrato da "choldra", como diria Eça, outra vez, se por cá andasse nestes tempos sombrios...

segunda-feira, 23 de junho de 2014

ALCACER KIBIR EM MANAUS...


Vai por aí um patriótico choro e sobressalto pelo naufrágio da selecção de futebol em Manaus, e, agora não falta gente a reclamar um milagre já para quinta-feira. No Alcacer Kibir de Manaus, não ficaram despojos, nem corpos, nem lanças, nem guitarras, ficou apenas o resultado de uma aventura perdida e mal preparada, que é sempre fatal em qualquer "guerra" ou competição, sobretudo no futebol. E, neste caso, o espectáculo de Manaus fez-me lembrar, com as devidas distâncias, claro, a parábola do Barranco de Cegos, de Alves Redol: um povo desgraçado a ser conduzido para o abismo por um cego.
A parábola aqui podia ser no plural e eu, depois de ver o Portugal-EUA, já desdramatizei. É que cegos não faltam na condução dos negócios nacionais (e o futebol também é um deles, aliás, muito ligado à política). Então, que esperávamos nós da selecção? Um comportamento épico? Uma salvação da pátria? Uma vitamina colectiva de esperança?
Talvez esperássemos, todos, um pouco de auto-estima colectiva para furar à "apagada e vil tristeza" que nos caiu em cima e nos esmaga. Talvez. Mas se quisermos ser racionais havemos de dizer que esta selecção não foi outra coisa senão o retrato do país. Um país destroçado. Um país coxo, guiado por incompetentes (também cegos), como os tipos que nos governam, que espalham impunemente a sua mediocridade pela coisa pública.
Estas coisas reflectem-se sempre nas actividades afluentes, transmite-se num mimetismo fatal a uma selecção nacional, por muita bandeira e muito hino que se agitem. Um país sem alma produz um futebol sem alma! Ninguém acredita. A começar pelos jogadores. Um país preso por arames, como anda o nosso preso à Troika (ainda que finja que não), tem altas probabilidades de produzir uma equipa também presa por arames, onde predominam coxos e lesionados. Não viram como foi em Manaus?
A certa altura, ainda pensei que o Paulo Bento mandasse entrar o José Luís Arnaut para a extrema direita, ele que anda sempre a cheirar as fraldas à selecção... E, já agora, alguém responde a esta pergunta tão simples e elementar: desta vez haverá nomes de responsáveis por este desastre? Cheria-me que não.

domingo, 22 de junho de 2014

SAUDADES DO MIGUEL GASPAR

Chegou a notícia triste que não gostaria de ler: a morte de Miguel Gaspar. Sabíamos, um pouco, da sua doença irreparável, mas aos 54 anos, meus amigos, não nos comove a velha frase de que "morrem cedo, os que os deuses amam" porque, na contingência do prematuro tempo que lhe calhou de vida, a metáfora soa a desculpa que não cala esta espécie de fatalidade e de injustiça que nos toca. Era um bom camarada, o Miguel Gaspar, director-adjunto do "Público". Lia-o com gosto, desde o tempo em que fazia as excelentes críticas de televisão (no DN, por exemplo), que contextualizava sempre com uma dimensão cultural enriquecedora para percebermos as linhas com que se cosia a indústria da cultura.
Esse vector cultural era, aliás, uma prática constante da sua forma de fazer jornalismo. Participei com ele em debates ou fóruns de jornalistas, e, fossem quais fossem as divergências que se levantassem no frémito da discussão, lembro sempre a sua postura de tolerância e amizade dizendo que as ideias, afinal,
fizeram-se para ser discutidas.
Saudades do Miguel Gaspar. Muitas.

"NÃO FIQUEMOS CALADOS!"


Numa tarde de sábado, com intermitências de chuva, no belo parque do Convento de Sto António, no Fundão, num acto colectivo de cidadania de parte inteira, aquela franja geracional que agora é catalogada como idosa, e depois nos segmentos de reformados e pensionistas, sentou-se à mesa fraterna da APRe!, uma mesa que, como diria o poeta, é boa para o pensamento, para a poesia, a música e a indignação cívica, que é aquilo que mais se deve praticar em Portugal.
Foi um convívio fraterno, povoado com a música tradicional do coro da Academia Sénior do Fundão, dirigido pelo incansável Bé Freire, a poesia do grupo de Castelo Branco Branco,com as palavras necessárias do Manuel Costa Alves, a Silvina e o Zé Ribeiro - verdadeiros militantes da cultura -, a capacidade do Fernando Correia Maurício não só para organizar o evento, mas, sobretudo, para explicá-lo na sua abrangência social, e, claro, a presença do rosto desta associação cívica, que é Maria do Rosário Gama.
Este nome tornou-se, em Portugal, uma bandeira do inconformismo, um estímulo ao direito à fala e ao protesto, uma afirmação a favor da justiça - e contra o roubo organizado, que é essa (não devemos ter medo de dizê-lo) a verdadeira acção organizada deste governo. O que isto significa no país da apatia, no território do "deixa-andar", na nação do esquecimento e do silêncio, na pátria da impunidade mais abjecta, é um momento da consciência pública a agitar as águas paradas de um reino podre e sem emenda.
Olho para esta professora, das mais prestigiadas da sociedade portuguesa, para o seu ar sereno, para o rigor das suas palavras, e vejo-a na tarefa de desassossegar as consciências moles e ausentes, de voltar a convocar esta enorme faixa social que tem visto os seus bolsos assaltados à mão governamental e a repetir, sempre: "Não fiquemos calados!"
No fundo é o que ela está a fazer agora, na sua fala cordata mas firme, porque sabe do que fala, andou, como todos os que ali estão reunidos, uma vida inteira a trabalhar e a descontar para depois, numa ignomínia total, os contratos serem rasgados, os direitos espezinhados, os quotidianos destruídos e infernizados, como se o Estado, além de não ser pessoa de bem, se tornar fora da lei. Costa Alves lera, antes, o poema de Mário-Henrique Leiria, que conta a história de uma nêspera muito bonita, muito quietinha, que estava na árvore a dormir - veio uma velha e comeu-a! Comentário de Maria do Rosário: "Não fiquemos quitinhos, não nos deixemos comer!"
"Não fiquemos calados, juntemos as nossas vozes!", é outra vez o aviso à navegação de Maria do Rosário, no fundo dando substância mais concreta aos poemas de Torga, Mário-Henrique Leiria, Ana Hatherly, Manuel da Fonseca e Álvaro de Campos. A indignação, como a esperança, também pode reproduzir-se. Numa situação caótica e mentirosa, muito idêntica à que hoje vivemos, lembremo-nos das palavras de Junqueiro: "O pior é a ira dos mansos!"