sábado, 5 de julho de 2014

UM GOLINHO E PONTO FINAL...


E a Argentina lá vai, lá vai, disfarçando a crise, a caminho das meias-finais. Mas o jogo com a Bélgica, tão sensação neste Mundial, foi uma grande seca, que é o que se pode dizer quando os dois guarda-redes são quase espectadores. Jogo chato e jogo sem invenção. Desta vez, Messi não produziu nenhum milagre... Um golinho e ponto final.

A MÚSICA COMO SINAL DE FUTURO


Já não são precários os destinos da música no Fundão, como um dia escreveu Ramalho Ortigão numa das suas saborosas "Farpas". Agora, a música é por cá uma arte consistente e está dentro do coração da cidade. Escrevo  isto no dia em que terminou o 15.º Concurso Internacional Cidade do Fundão que é, no fundo, a expressão dessa realidade.
Todos os anos, por esta altura, o Fundão ganha naturalmente vivências diferentes e a cidade parece ter uma respiração musical que já faz parte da sua identidade. Nem sequer, como poderia supor-se, coexiste uma fauna diferente, a gente singular que às vezes povoa estes acontecimentos, pelo contrário é como se o Concurso Internacional fosse apenas um grande momento cultural e nessa verdade tudo ficasse dito. De facto, acrescenta-se ao quotidiano do Fundão, um universo musical vastíssimo. Vêm intérpretes de muitos países, os membros do júri são figuras de relevo do meio musical, as audições e os concertos traduzem a qualidade do certame. E, está sempre, como figura tutelar, o pianista Jorge Moyano, cujo concerto é sempre momento alto.
Mas este Concurso, sendo Internacional e de uma cidade do interior português, mostra bem uma outra realidade. A sua âncora é a Academia de Música e Dança, uma escola que é a obreira do "milagre". As suas áreas de formação e a qualidade da sua acção representam, afinal, uma das transformações mais significativas operadas no Portugal de Abril. O acesso à educação musical e à sua especialização foi um passo civilizacional num país onde a música era uma curiosidade suplementar ou uma oportunidade para predestinados. Este processo de democratização tem, dentro de si, um país novo. É isso que eu vejo nas dezenas e centenas de jovens que hoje cruzam a cidade (e as cidades) com os seus instrumentos às costas em busca da companheira música.
O Concurso Internacional de Piano Cidade do Fundão é apenas um sinal desse futuro em que a música é parte inteira.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

CONSELHO DE ESTADO: COMUNICADO



A reunião do Conselho de Estado, que demorou cerca de seis horas, debateu "a situação económica, social e política" e, no final, produziu o seguinte comunicado:
"blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-bá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-blá-
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A bem da Nação".

quinta-feira, 3 de julho de 2014

AINDA SOPHIA


Foi um magnífico retrato o que José Manuel dos Santos fez, ontem, de Sophia, na cerimónia da sua ida para o Panteão. Na viagem pela biografia dos seus versos, ele projectou sobre Sophia a glorificação da poesia, como canto universal imanente à justiça e à comum humanidade, que é sempre a verdadeira grandeza do Poeta. No rosto de Sophia, no chão comum dos seus versos, na fidelidade à raiz de uma pátria que era preciso ter, assume dimensão a ideia definitiva de que os seus poemas habitam a substância do tempo. Para sempre.
E, por isso, é bom regressarmos à sua reflexão (antiquíssima) de justiça, porque a dignidade, em Sophia, era qualquer coisa de primordial e inexpropriável. Deixo, então, para meditação, "Fragmento de "Os Gracos":

"Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham

Tecem uma grande rede de estrategemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para sacrificar como um toiro na arena"

CAPONE TAMBÉM ERA UM GAJO PORREIRO!


O debate do estado da Nação constituiu a liturgia do costume: o governo na soberba de ter encontrado o caminho para o paraíso e a oposição a cumprir calendário na crítica sem alma à maioria. Para quem assiste, e sabe o estado a que isto chegou, chega a ser um espectáculo deplorável, com Passos a sorrir das críticas, e os portugueses a sofrerem tratos de polé por via das políticas que, desde há três anos, lhes caíram em cima.
Não há quem dê um murro na mesa como deve ser, não há quem trate os bois pelo nome, não há quem denuncie esta associação de malfeitores. Como diria o Fialho de Almeida, é tudo a meio pau e a meia lágrima...
É verdade que as notas mais dissonantes pertenceram a Jerónimo de Sousa e a António Filipe que, com veemência, levaram ao debate o caso do BES como novo velho fenómeno do estado pantanoso do sector bancário, a somar ao BPN, ao BCP, ao BANIF, e ao cortejo de escândalos financeiros que o povo paga com língua de palmo. Estranhos debates estes, do estado da Nação, em que o governo fica calado, por mais graves que sejam as questões!
Por que é que o governo não responde? O silêncio é de oiro. É que a promiscuidade entre o poder político e o poder financeiro se tornou numa questão sem moral nenhuma. Transacionam de um para o outro lado, fazem as suas transumâncias, jogam nos dois tabuleiros ao mesmo tempo, com o à vontade de total impunidade. Ainda recentemente houve, precisamente, mais um transumante, da área da maioria, o senhor Paulo Mota Pinto, precisamente para a chefia do BES...
Como é que o governo há-de falar no escândalo do BES?
Na história recente do escândalo do BPN, com as impressões digitais tão evidentes do universo cavaquista (os amiguinhos...) - será que são julgados ou prescrevem? - e de outros escândalos bancários afins, assistimos a esses protagonistas que chegam a lugares de mando como prémios de velhacarias e pulhices, fingem-se pessoas de bem, escondidos atrás de máscaras de cargos políticos, que são a sua conveniência.
Andam nisso há muitos anos e arvoram-se detentores de um poder que lhes garante impunidade. Às vezes, extravasam na narrativa da informação registos dessa crónica judiciária feita de negociatas concretizadas ou frustradas, e de esquemas de apropriação que o sistema molemente deixa passar na malha da justiça. Senhores de um estatuto social que lhes garante a ilusão de respeitabilidade, ufanam-se de ter dinheiro, às vezes do Estado, outras das suas manigâncias, para dizerem que têm "o mundo a seus pés". Os tribunais, é verdade, são um cemitério de muitos desses casos. Eles andam por aí e safam-se sempre, ou quase sempre. Tudo boa gente. Capone também era um gajo porreiro!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

SOPHIA

Sophia vai hoje para o Panteão Nacional, juntar-se a outras glórias nacionais. Na biografia dos seus versos, na cintilização do chão da língua que lavrou, no espanto da luz que a sua poesia inscreveu no tempo, Sophia, muito mais que a qualquer Panteão, que é sempre um cemitério glorificado por panejamentos mais políticos e mórbidos que literários, pertence àquele reino de absoluto em que a poesia se transforma,  como um dia desejou Kavafis, e que era, também, a sua própria essência intemporal, como outro poeta, Hoderlin, deixou expresso no coração da sua poesia. Sophia edificou esse mundo em que "a perfeição, a eternidade, a plenitude", como disse num poema sobreAlexandre, deu nome às coisas e à substância do tempo - ou do tempo longo que a sua obra poética incorpora, num canto universal em que este país, com o seu sol e os seus muros, com a sua cal branca e as suas pedras, com o seu mar e o seu vento, é sempre o verdadeiro ponto de partida.
Sophia! Quantas vezes, no meio da noite, um verso apenas era quando bastava para tudo ficar certo e a luz parecia ser a transparência das coisas, por mais tristes que fossem os dias manipulados pelo "velho abutre" que no poema Sophia disse que "a podridão lhe agrada e seus discursos/Têm o dom  de tornar as almas mais pequenas".
O que Sophia merece é que leiam os seus poemas. E na beleza e na invenção dos seus versos encontremos a perenidade do tempo. Como no poema Pátria, que nos faz sempre bater mais depressa o coração, de cada vez que as sílabas do poema se materializam no raro prazer da leitura.

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

-- Pedra   rio   vento   casa
Pranto   dia   canto   alento
Espaço   raiz   e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo

Por um país de luz perfeita e clara, disse Sophia.





terça-feira, 1 de julho de 2014

O MAL DE CAVACO


O Blogue "Câmara Corporativa" interrogava-se, há momentos, sobre o "mal de Cavaco". Citando "O Diabo", surgia a interrogação que anda,por aí, nas bocas do mundo: "Que tem, afinal, o Presidente?". Dadas as situações inusitadas vividas por Cavaco Silva, e o efeito "vagal" sofrido no Dez de Junho, na Guarda, não se pode dizer que não seja esta uma matéria de interesse público.
Leia-se, pois, a matéria de a "Câmara Corporativa". Basta clicar, s.f..f.
Câmara Corporativa

NOTÍCIAS DO DESGOVERNO


Ouvimos esses patetas de serviço, que são os tipos do governo, cantar loas às suas boas políticas de equilíbrio orçamental, ouvimos Passos Coelho ou a ministra Albuquerque prometer que agora é que sim, vem aí o crescimento económico, olhamos o vice Portas sorrir como se o país fosse a terra do leite e do mel, e logo as mentirolas, as aldrabices de circunstância, a propaganda de trazer por casa, se desfaz como a espuma das ondas.
Ainda agora, acabo de ler uma informação de Maria do Rosário Gama, da APRe!, sobre a qual vale a pena reflectir pois reflecte e denuncia a mistificação em curso do governo, o grau zero da mentira. Passo a citar: "A dívida pública aumentou e chegou a 132,9% do PIB. Ultrapassou em 2,7% o objectivo previsto no DEO para o final de 2014 e em 4% o valor em período homólogo do ano passado! Isto é divulgado no mesmo dia em que é conhecido o Relatório da execução financeira do IGF da Segurança Social através do qual ficámos a saber que o governo poupou 9 milhões de euros com o corte no Complemento Solidário para Idosos, 7 milhões no corte do Rendimento Social de Inserção, 12 milhões no corte no abono de família, para não falar já dos cortes de salários e pensões! Para onde vai o nosso dinheiro? Que gestão é esta? Que desgoverno é este?"
É a história da infâmia à escala portuguesa...

segunda-feira, 30 de junho de 2014

NO PAÍS DA IGNOMÍNIA


O "Expresso" trazia nesta edição, com chamada à primeira página, uma notícia que devia por-nos os cabelos em pé ou, então, deixar-nos naquela situação que o poeta retratou para indignidades avulsas, quando dizia não poder estar sentado e calmo, com o que acontecia à sua volta. O semanário dizia: "Portugal é plataforma no tráfico de crianças". E acrescentava que "nos últimos quatro anos, 95 menores foram vítimas de tráfico. Redes usaram os aeroportos nacionais como porta de entrada na Europa para o negócio com crianças compradas ou raptadas no estrangeiro e destinadas a países terceiros. Também há pais portugueses envolvidos. Destino das vítimas foi a adopção e a prostituição".
Este universo em que se fere com abundância os direitos da criança é alguma coisa que emerge frequentemente da narrativa informativa, numa banalização que não é outra coisa senão o reflexo de uma sociedade onde o peso das desigualdades dilui direitos de protecção e de humanidade, agora mais gravosamente de vido à crise. Neste contexto, não é apenas as violências, expressas ou omissas, que se exercem contra as crianças, é também as situações-limite em que muitas vezes, por omissão ou falta de prevenção, elas são arrastadas para situações irremediáveis. Quem não se lembra da Joana do Algarve ou de situações similares em que crianças acabaram noutras espécies de morte como a prostituição ou a escravatura?
Títulos de desgraça e de vergonha, no plano dos direitos humanos e das desigualdades, Portugal tem agora mais um: placa giratória no tráfico de crianças. Nunca esqueci uma crónica em que Abelaira dizia, há muitos anos, que as crianças em Portugal ainda eram flores do mal. E agora?

domingo, 29 de junho de 2014

BIOGRAFIA DE DRUMMOND


Leio no "Estadão" (Blogs Babel), uma novidade sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade que não resisto a partilhar com os leitores. Porque Drummond é um dos maiores poetas de Língua Portuguesa e porque tenho a ele uma ligação afectiva e de fascínio que perdura nas suas leituras. Durante cerca de uma década (praticamente até à morte) foi cronista exclusivo do "Jornal do Fundão", em Portugal. Eu já contei a emoção que era abrir o grosso envelope que recebia do "Jornal do Brasil" para escolher uma das três crónicas que ele enviava!
Agora, a notícia que "Drummond ganha biografia nos 30 anos da sua morte", é um acontecimento que diz muito à cultura portuguesa. Eis a notícia do "Estadão":

"A notícia é boa, mas o leitor terá de esperar um pouco: o jornalista Humberto Werneck está começando as pesquisas para o livro que escreverá sobre Carlos Drummond de Andrade (na foto, aos 2 anos). A obra foi encomendada pela Companhia das Letras, que prevê o lançamento para 2017. “Drummond é meu poeta. Ele fala por mim as coisas que não dou conta de falar. Quero juntar os cacos e ver que xícara dá”, diz Werneck, que é cronista do Caderno 2 e autor de perfil de Chico Buarque, da biografia de Jaime Ovalle e de O Desatino da Rapaziada – Jornalistas e Escritores em Minas Gerais (1920-1970), do qual o poeta é um dos personagens. Nos seus planos está uma visita ao genro de Drummond, Manuel Graña Etcheverry, que, aos 98, vive no interior da Argentina."


VALENTIN CABERO, MEU AMIGO!


Na Universidade de Cabo Verde
Uma das coisas fantásticas da vida é o conhecimento de pessoas excepcionais. Os dias cimentam essas relações como uma lavra funda em que se dilata o pensamento, e depois, à medida que o caminho se faz andando, olhamos para rostos onde se cristalizou a amizade, como qualquer coisa que veio dar sentido à vida. No convívio com essas pessoas excepcionais é um vasto mundo de aprendizagem e de cultura que se partilha, um fenómeno sintomático que nos leva sempre em busca de surpreendentes descobertas. Eu costumo dizer que a experiência mais imediata dessa realidade é ouvir Eduardo Lourenço.
Estava a reflectir sobre esses continentes do pensamento em que tocamos, por via de uma geografia sentimental e de afectos, porque fui à Guarda dar um abraço a Valentin Cabero Diegues, que é uma dessas personalidades singulares de que vinha falando. Este Professor da Universidade de Salamanca jubilou-se - mas não se aposentou, longe disso! - e os amigos, de Espanha e Portugal, vieram trazer-lhe a um lugar do coração - o Centro de Estudos Ibéricos: ideia luminosa de Eduardo Lourenço -, o testemunho da sua gratidão e da sua homenagem precisamente por tudo quanto ele nos deu, na forma como nos ensinou a ler os mundos e as paisagens, os lugares e as pessoas, as culturas próximas e remotas, na Ibéria ou na América Latina e no Brasil.
Sempre assinalei no Valentin Cabero uma disponibilidade absoluta para descer da cátedra e vir ao chão terreno das coisas debater as questões da sociedade e partilhar a sua sabedoria com os outros. E, nessa faceta, assume sempre a condição de cidadão do mundo. Este geógrafo, que faz do território uma grande paixão, que elege a geografia como um fenómeno sentimental e de afectos e combina o local e o global numa articulação de densidade humana e cultural, convoca-nos com a maior das facilidades à descoberta das particularidades e dos detalhes para podermos ver, ao mesmo tempo, a àrvore e a floresta.
A sua obra, ampla e diversa, mergulha muito na investigação sobre a realidade portuguesa, que ele conhece a palmo, sobretudo os territórios transfronteiriços, e Portugal deve-lhe, nessa medida inestimáveis serviços. Jorge Gaspar disse que ele era muito mais um homem de fronteiras do que de fronteira, e nessa síntese quis dizer quanto Valentin Cabero superava atavismos e contingências geográficas para se afirmar homem de liberdade e de horizontes espirituais.
Sei que é assim através de um convívio exaltante, sobretudo em iniciativas do Centro de Estudos Ibéricos. Um dia, fui ao seu encontro à Universidade de Salamanca e dei com ele, "nas catacumbas", como ele dizia, uma cave cheia de metros quadrados repletos de livros, revistas, papéis, investigações, mapas (muitos mapas!), o espólio de uma vida, ou de parte dela. Subimos depois ao seu Gabinete, um espaço amplo e lindíssimo, e eu tinha a impressão, à medida que a fala se desenvolvia, que estávamos num mapa-mundo, em longas viagens, para regressarmos sempre, suavemente, ao lugar inicial da Ibéria ("uma Ibéria inteligente e culta"), à "jangada de pedra" onde viaja a realidade transfronteiriça, que é nossa casa comum.
Talvez por isso, Valentin não gosta de ficar refém da fala e vejo-lhe muito o propósito de procurar olhar o território numa perspectiva interdisciplinar e intercultural valorizando a paisagem numa amplitude diacrónica, onde, aliás, a literatura joga sempre uma papel muito importante. Se olha para Portugal, logo traz à emergência da explicação das coisas, Orlando Ribeiro, Torga, Saramago, para só citar alguns.
Estou a ver o Valentin Cabero, agora em Cabo Verde. Íamos lá na concretização de um projecto com a Universidade de Cabo Verde, que dera origem a um livro. Era um grupo de geógrafos da Universidade de Coimbra a que eu me juntara - o Rui Jacinto, o Lúcio Cunha e o António Cunha - e o Valentin, claro, que era o líder. Lá está ele, a marcar o rigor do tempo, como um cronómetro permanente, para não desperdiçarmos um minuto na demanda das ilhas, que o trabalho de campo era geografia ampla. Havia muitas circunstâncias de lugares para parar - e ver! Saía-se no frenesi das fotografias. O Valentin, calmamente, escolhia um lugar de observação sem mácula. Retirava da mochila, o seu caderno largo e desenhava, desenhava. Traço seguro, eu espreitava por de trás dele. Desenhos belíssimos e via no caderno outros, já trabalhados a cores, vivíssimas aguarelas (tenho a ambição de um dia lhe sacar uma!).
- São as minhas fotografias! -dizia-me ele, e depois começava a explicar o mundo que se oferecia à nossa frente.
Há pouco mais de dois anos, fiz-lhe uma longa entrevista, em Salamanca. A "jangada de pedra" já defrontava o mar proceloso da crise. Falámos de tudo, de Portugal e da Europa, do futuro, da madre ibérica como mãe protectora, matriz comum construída a partir da própria ideia de mosaico de diversidades, como queria Saramago. Disse-me, como se quisesse formular um desejo íntimo: é preciso um novo iberismo para o séc. XXI.
Vale, Valentin!