sábado, 12 de julho de 2014

O SABICHÃO DAS DÚZIAS


Não faltam fábulas a mostrar como tipos que se julgam ungidos pelos deuses à categoria de sábios, não são outra coisa senão "sabichões das dúzias", que é como o povo costuma desmascarar impostores, ainda que eles se disfarcem com as mais sofistificadas máscaras de magos da economia. Praticam a magistratura do conselho com uma desfaçatez que faria corar o mais ousado aldrabão, desses que o cinema celebrizou como momentos cómicos da vida. Armam-se de uma ciência total, levam na pasta estudos e relatórios requentados sobre a realidade do país, e lá vão eles sacando do orçamento mundos e fundos, que estes meninos sabem-na toda. Têm uma lábia que nem o Malhadinhas de Mestre Aquilino lhes chegaria à palma, desfilam as suas receitas despudoradamente (os seus milagres económicos), capazes de ressuscitar mortos, que eles de certo modo são uma espécie de mercadores de desgraça iminente, que desenham nas suas conferências e nos seus estudos para aparecerem depois como putativos salvadores da pátria.
Um deles, de porte grandalhão, vermelhusco q.b. e gesticulante, já salvou tantas vezes o país que parece um pronto-de-socorro ou um 112, e, como geralmente o país não lhe faz a vontade - e não morre!, os que têm a desdita de o ouvir, dizem, no final das suas atribuladas confabulações, como os bombeiros desdenham das informações falsas: aquilo é tudo rebate falso! Assim é o senhor Professor Daniel Bessa (sim, esse mesmo, que foi ex-ministro da Economia de Guterres e é director geral da Cotec), que é capaz de fazer o pino para ver as suas estatísticas ao contrário ou produzir ironia fácil para fazer rir alarvemente o auditório para que está a representar.
Parece que era o moderador de uma dessas conferências em que os artistas, como génios anunciados, trazem todos no bolso a solução para o país. São os tais sábios... que, como o Professor Thournesol, das aventuras de TIn-Tin, têm um conflito permanente com a realidade económica, pois não a sabem ouvir, e, não sabendo ouvi-la, não a compreendem.
Diz o "Expresso" on line: "Daniel Bessa, ex-ministro da Economia e director geral da Cotec, comparou Vítor Constância (sem nunca citar o nome) de ser o mentor da política "terrorista" de José Sócrates, acusando o ex-governador do Banco de Portugal de ser o principal culpado do desastre financeiro de Portugal". E acrescenta o jornal: "Numa intervenção em que comentou uma conferência no Porto do atual governador do Banco de Portugal sobre os Desafios do Crescimento Económico, Bessa comparou Sócrates ao "egípcio que tomou os comandos do Boeing e  embateu nas terras gémeas". No avião, "estávamos nós todos, os 10 milhões de portugueses". Mas, se reconhece que Sócrates "poderia ter mudado a trajectória e evitado o desastre financeiro", a verdade é que o principal responsável da "nossa desgraça" é um banqueiro central "que funcionou como mentor, proclamando "endividai-vos até à morte". O professor nunca citou o nome de Constâncio, mas  tornou claro que se referia ao antecessor de Carlos Costa.
Já o Boeing estava em pleno voo quando Sócrates, seguindo um guião que "começara lá atrás com outro engenheiro" sentou-se ao comando, "acelerou quanto pôde e enfiou-se contra as torres gémeas", comentou Bessa. Mas, a responsabilidade maior "é do mentor, não do executante", comentou com acinte. Bessa explicou que, tal como se ensina nas escolas, Constâncio considerou que uma pequena economia aberta, integrada no espaço do euro, "não teria restrições financeiras" e se poderia endividar sempre sem prémio de risco".
Havia mesas e copos -- não há como aconchegar o estômago para suportar estas conferências! --, e a televisão captou, subrepticiamente, entre copos, os tais sorrisos boçais que são sempre garantes da alarvidade. Não me lembro de Bessa, no calor da crise financeira e das bolhas (de que, aliás, não falou, nem das canalhices dos banqueiros: poderia também ter falado do Boeing Espírito Santo...) ter feito recurso a estas metáforas das Torres Gémeas em que ele, deserto, herói da história, já agora, saltou do avião com para-quedas, em pleno voo! Aquilo não era outra coisa, afinal, que uma sessão de anedotas que fazia lembrar Ivone Silva (com Camilo de Oliveira) a dizer, ébria de todo:
-- "Este país é um colosso! Está tudo grosso. Está tudo grosso!"
Por acaso, diz o jornal, também o senhor Governador, quanto ao Espírito Santo, zero!. É o que se pode chamar um grande mistério de fé. O Professor Daniel Bessa, no seu percurso de sábio encartado por ele próprio, faz-me lembrar aquele poema do Alberto Pimenta em que, a propósito de direitos e favores, ele fala em "alma de traficante". É o que decorre das suas brincadeiras de "sabichão das dúzias"... Nem sempre o para-quedas se abre no instante da queda.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

CHAMEM O PAPA, DEPRESSA!


Chamem depressa o Papa para limpar a sórdida trampa em que mergulhou o sector financeiro - BPN, BCP, BANIF - e, agora, o BES. Aproveitem que Sua Santidade está com a mão na maça ou no maço para limpar as porcarias do Vaticano.
A uma notícia ontem publicada no "El Pais", sublinhei-a como de proveito e exemplo para a realidade portuguesa, sempre com tantas situações inimagináveis, pelo absurdo, que não cessam de nos deixar atónitos, quando, por desfastio ou à procura de alguma coisa que não seja "apagada e vil tristeza", ouvimos a triste narrativa da actualidade. Na persistência dos casos, tão comuns ao reino velho sem emenda, de que falava, há séculos, Ribeiro Sanches, a coisa parece até kafkiana, no sentido em que a teia da realidade faz de nós acusados sem libelo ou, pelo menos, suspeitos de uma conjuntura particular, que a impunidade dos outros nos endossa ilegitimamente. Nós
é que vivemos acima das possibilidades disseram por aí, numa mistificação grosseira, os vendilhões do poder, mas logo a tal realidade, que é fértil em surpresas destapou uma caixa ou um caixotão de Pandora, da qual saíram os mixordeiros das finanças, os banqueiros e as suas quadrilhas de ocasião, "senhores do mando e da opulência", como cantava o Zeca, para pôr o país de pantanas e obrigar os portugueses a pagarem crimes alheios. Estão aí os nomes das piedosas criaturas e a exposição das suas malfeitorias (BPN, BCP, BANIF...), crimes certamente à espera de habilidosas prescrições da Justiça, como já se desenharam algumas. Agora, uma outra sigla, com grande notoriedade, o BES, se pode acrescentar às restantes, embora as trapalhadas ainda estejam no segredo dos deuses, onde pontifica o senhor Carlos Costa, do Banco de Portugal.
O Padre António Vieira dizia que "o Espírito Santo sopra em todas as direcções". O Banco com o seu nome dá razão ao cata-vento da metáfora de Vieira. Por isso me mereceu tanta atenção a notícia, segundo a qual "o Papa põe ordem no Banco Vaticano e manda fechar 3.000 contas suspeitas" e varrer directorias.
Como diz o jornal, "os assuntos turvos, muito turvos, acompanharam o Banco desde que foi fundado em 1943 por Pio XII, mas foi na década de oitenta -- com a quebra do Banco Ambrosiano, controlado pela Mafia, o nunca aclarado enforcamento debaixo de uma ponte de Londres de Roberto Calvi, o chamado banqueiro de Deus, e o obscuro controle do poderoso cardeal Marcinkus -- quando a instituição consolidou uma deriva que explodiu na primavera de 2012 com a expulsão de Ettore Gotti Tedeschi, o banqueiro designado três anos antes por Benedicto XVI para homologar o IOR às normas internacionais de transparência. Não o conseguiu. Os poderes fortes da Curia -- com o então secretário de Estado, Tarcísio Bertone, à cabeça -- se desfizeram dele no meio da crise desencadeada pelo chamado caso Vtileaks, o roubo e difusão da correspondência privada de Joseph Ratzinger, que uns dias depois apresentou a sua renúncia".
Já se vê, pelo descrito, que os tipos do Banco do Vaticano não eram meninos de Coro e que, neste caso (e no Ambrosiano) não são só os desígnios da Fé que são insondáveis - os crimes financeiros também o foram... O Papa, diz a notícia, começou a limpeza. Havendo no caso português tantos virtuosos cavalheiros da Banca, alguns até da esfera da Opus Dei, não custava nada pedir ao Papa que, já agora, estendesse a sua higiénica e moralizadora acção aos gabirus portugueses. É certo que por cá nenhum banqueiro, ainda, se enforcou debaixo de uma ponte qualquer, mas é sempre preciso atender aos "brandos" costumes nacionais, e, se calhar, a Mafia portuguesa é de via reduzida...



A ESSÊNCIA DO FUTEBOL, SEGUNDO DI STÉFANO


A FIFA lembrou-se, finalmente, parece que a pedido do Real Madrid, de evocar Don Alfredo Di Stéfano, que morreu há dias, durante a Copa do Mundo. O atraso da decisão mostra bem o estado pantanoso (e de falta de memória) em que a instância suprema do futebol navega. Se fosse um sultão do Quatar...
Nos anos 60, o futebol estava a dar os primeiros passos como fenómeno sem fronteiras, a caminho de uma globalização, em que era verdadeiramente antecipador, e com uma dimensão de espectáculo que já era um traço identificador da genialidade da sua invenção. Nesse tempo, Di Stéfano era o rei, o jogador completo, uma flecha veloz que era capaz de fazer tudo dentro de campo, e, sobretudo, de marcar golos que era a sua grande magia.
De facto, poucos se tornaram uma lenda tão viva como ele. Há muito que tinha dependurado as chuteiras, mas nunca deixou de ser homem do futebol e figura maior de um clube como o Real Madrid, de que se tornou glória eterna. Houve quem dissesse que foi um Cristóvão Colombo, ao contrário, porque a sua navegação foi da Argentina para Madrid, mas trouxe, nos anos difícias do franquismo, toda a magia do futebol das américas, que fazia sonhar, trazendo alegria aos tempos sombrios e de chumbo que então se viviam.
O "El Pais" deu muitas páginas à evocação da memória de Alfredo Di Stéfano. E a "Marca" produziu aquela primeira página fantástica de Di Stéfano, caminhando, de costas, como se fosse embora, braço levantado, o nº 9, na solidão total da página branca. Era como uma metáfora que ali quisesse prolongar um pouco da eternidade do génio do futebol.
O "El Pais", num dos textos, chamou-lhe "o Chesterton da bola", descobrindo nele também um engenho muito particular na forma de fazer ironia para caracterizar a essência do futebol. Eis algumas citações de Don Alfredo Di Stéfano:
O Jogo: "A bola não se mexe por si só. Tudo o que fazemos com os pés, o temos que fazer antes com a cabeça".
O golo: "Meter golos é como fazer amor. Todo omundo sabe como se faz, mas ninguém o faz como eu.Os golos não se merecem, conseguem-se".
A equipa: "Nenhum jogador é tão bom como todos juntos".
Os marcadores: (a Uriarte, do Atlético): "Se mais marcar ao homem, segue-me e aprende".
O espírito defensivo: "Eu não defendia, insultava".
Sobre Puskas: "Puskas manejava a bola coma perna esquerda melhor que com a mão".
Da sua retirada: Suas filhas disseram-lhe quando jogava no Espanhol: "Papá, com quarenta anos, careca e calções curtos, não ficas bem".
O guarda-redes: "Não lhe peço que ataque as que vão dentro, basta-me que não meta as que vão fora".
O futebol: "A bola está feita de couro, o couro vem da vaca, a vaca come pasto, assim há que baixar a bola ao pasto".
Sobre o futebol: "Um 0-0 é como um domingo sem sol".
Alfredo Di Stéfano!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

DEUS MUDOU DE PAÍS


Ainda não se apagaram os ecos do desastre de ontem, no Mineirão, em que o Brasil enfardou 7 de Alemanha: 7-1! O drama nacional transbordou facilmente das bancadas para o país, à medida que o "escrete" de ouro se afundava como um barquinho, face à armada alemã, que já é tida por invencível.
Nestas situações, face ao miserabilismo e ao desnorte do Brasil, a conjuntura ficou propícia para as situações em que, como nas batalhas, o vencedor não tem piedade. E foram sete! A televisão, como lhe compete, ampliou o drama: lágrimas, desespero, a glória possível 90 minutos antes, caída por terra - jaz fria e arrefece! As coisas patéticas que aconteceram naquilo que "A Folha de S. Paulo" chamou de "VEXAME HISTÓRICO": os jogadores a chorarem e a pedirem perdão e Scolari, como prémio de consolação, a dizer que no sábado há jogo para o terceiro lugar...
A verdade é que a derrota do Brasil domina todas as conversas, está (e estará) na ordem do dia. E não faltam, já, patriotas que ainda há semanas crucificaram a selecção portuguesa, a lembrar:
- Com os alemães só perdemos por 4-0... Foi, afinal, um bom resultado!
O meu amigo, quando se sentou, no café, à hora da bica, veio também com essa conversa desculpabilizante, muito ao jeito português-
- Já vista a cabazada que o Brasil apanhou da Alemanha?
- Aquilo não foi uma cabezada, foi um dilúvio! - respondi-lhe eu. - Parece que não escapou ninguém...
O meu amigo buscou logo uma razão causal mais transcendente, e olhou para o céu:
- O problema é que Deus mudou de país. Afinal, também ele está ao serviçp da senhora Merkel, é o que é!

DONOS DE PORTUGAL


Bem podem dizer que o dinheiro não traz a felicidade, olha só a dor de cabeça que deve ser gerir 900 mil euros ao ano (só de reforma!), mas deve ajudar muito a não andar por aí a dar com a cabeça nas paredes. No país das pensões de miséria ou a caminho dela, no país dos dois milhões de pobres, no país dos salários no limiar da pobreza (veja-se o salário mínimo), no país dos suicídios de idosos e adolescentes porque o fim da linha é o único destino, estas notícias (que ajudam a perceber como Portugal é o país mais desigual da Europa), são ultrajantes e obscenas.
Ao lerem estes paraísos doirados de alguns, que passará pela cabeça dos milhões de portugueses que vivem os infernos quotidianos de não terem nada, ou possuírem apenas o pão que o diabo amassou?
Há nesta configuração da sociedade a glorificação de um sistema em que há cada vez menos pessoas que têm tudo e se transformaram, realmente, nos "donos do país", e cada vez mais que não têm nada. Vivemos um tempo em que a arte de roubar (roubar subsídios, roubar salários, roubar direitos, roubar reformados e pensionistas) é a grande especialização dos ocupantes do poder. À pauperização do povo corresponde a cedência ou o serviço a favor dos grandes tubarões da economia e das finanças, de que é exemplo este Salgado.
Isto faz-me lembrar, sempre, a história que Manuel Rivas um dia contou sobre tempos sombrios. Vivendo inquietações comuns, observador da realidade da crise, ele lembrou-se de um filme, "Os Companheiros", em que Mastroianni, um professor em fuga, se apeia numa estação de caminho de ferro e pergunta:
-Que país é este?
E alguém responde:
-Este é um país de merda!
Essa estação do professor em fuga poderia ser algures, por aqui, num país chamado Portugal.

terça-feira, 8 de julho de 2014

ACENAR COM VERSOS AO POETA QUE PARTIU


Não via o José Rogério Mineiro Carrola há algum tempo, às vezes o Zé Pires dava-me notícias dele, falávamos fragmentariamente, e à pressa, dos seus livros, e ficávamos com a ideia de que havia alguma coisa de irremediável (sabíamos ambos que estava doente) neste tempo de palavras em que o seu rosto emergia. Veio finalmente a informação de que o José Rogério Mineiro Carrola tinha morrido. Tinha 67 anos. Eu prefiro recuar no tempo e vê-lo, muito jovem, nos nossos vinte anos, quando ele dava os primeiros passos como poeta e escritor e descia do Tortosendo, a terra operária que tanto o havia de marcar, como lugar de resistência e de humanidade, para mostrar que o seu percurso criador era, já, um destino assumido. Lembro-me desse tempo e das coisas que ele foi publicando no "Jornal do Fundão", designadamente em suplementos literários.
Foi, penso eu, uma revelação juvenil, que o tempo apenas veio confirmar como poeta e escritor de densidade, que o seu pensamento era sempre forma de por em questão a própria literatura. Penso que foi Arnaldo Saraiva o primeiro a assinalar a originalidade do seu percurso criador incluindo-o numa antologia de escritores Beira Baixa.
Escreveu livros, muitos livros, foi professor, e tenho as minhas dúvidas que tenha sido devidamente valorado esse trabalho duro e solitário que é construir uma obra literária. Se foi a poesia que primeiro o afirmou, a sua biografia transformou-o num autor plurifacetado, em que a arte poética deu origem, depois, ao ensaio e ao romance -- tudo bem revelador da densidade interior que era o mundo literário de José Rogério Mineiro Carrola. Basta referenciar a sua bibliografia para percebermos isso: Quando a Memória Dói (1972), Inverno/ poesia (75), Poema para Camus (83), A Oração de Filipa (98), O Caminho de Tales (2002), Um Olhar no Joe's bar (2004), A Oração Completa de Filipa Moniz na Ilha de Porto Santo (2005), Representações na relação pedagógica (2005), A Beleza da Tua Alma Faz-me Tremer (2007).
Há anos, fui à Escola do Tortosendo apresentar um dos seus últimos livros. No seu processo criativo ele projectava a sua inquietação de vida. Fui lá encontrar, ainda, o velho José Rogério Carrola, com o seu olhar sagaz, a cintilante inteligência com que ele lavrava as palavras e olhava por dentro das coisas, com aquele seu despojamento que fazia lembrar os fazedores da sua terra, operários que faziam das mãos e do espírito um processo inseparável, e ele, Rogério Carrola a dizer-nos que o pensamento é a raiz de tudo e o conhecimento a grande aventura do homem. O Zé Rogério Carrola foi sempre um homem livre. E um escritor que não era capaz de enredar-se no facilitismo, mesmo quando a memória doesse, como mostraram os seus versos.. E essa foi a marca do seu estilo.
Quando lhe aceno um comovido adeus, que é o que acontece quando parte um amigo, envolvo esse adeus nos versos de um seu poema, que intitulou A Luz:


"Áspero é agora o voo da luz

marcando Outubro pela implosão da cor
que cai, devagar e fria, das grandes árvores.

O pensamento está quieto. Apoia-se
numa janela de desamor ainda não
totalmente fria,
que o calor das cortinas compõe,
com suas cores quentes,
um cantinho de mão junto ao bafo da boca.

O que mais se agita é a memória
que apaga e ilumina, em grito,
e ao sabor dos olhos,
o que estes contemplam
de fora para dentro e, de dentro,

para a nostalgia do infinito.

Enfraquece lentamente,
a luz, partindo-se,
aqui em pálidos azuis,
além em rubros amarelecidos
de febre natural.

Não é propriamente um pôr-do-sol férreo
mas o pensamento dorido
torna-o deserto não só na cor
como no silêncio.

Esta luz faz tombar as folhas muito devagar.
Parece não chegarem ao chão,
tão lentamente os olhos
as empurram para a quietude última
da emoção.

Que olhar é este que traz a alma de Outono
ao vidro da janela?

Que pensa esta solidão,
como se fosse uma casa,
cheia de nada por dentro

e aberta à vida inteira no rosto que dá
para o horizonte da luz?

Os dedos afagam o débil das cortinas
como se afagassem a retina da dor
ou a gota de sol que vem pousar
na última folha caída dos olhos.

A luz encosta as suas asas
na calma do vento

e paira, tão lentamente como o beijo eterno
que um grande amor deposita
no corpo desse desejo.

Fecham-se as casas. Todas as casas.
E o horizonte da realidade desaparece.

As sombras conquistam o chão e levantam
a noite.

Fria.

A cabeça retira-se das cortinas
e o olhar da luz
anuncia apenas a esperança

de um novo dia."


segunda-feira, 7 de julho de 2014

AS PALAVRAS MAIS PERIGOSAS!

Às vezes, está um sujeito navegando suavemente numa leitura descodificadora da realidade, e eis que surge, surpreendente, uma informação que nos deixa atónito, não pela mensagem em si, mas pela sua origem. Esta era de Reagan, que foi actor medíocre, mas um Presidente americano altamente eficaz na ordem interna capitalista, impondo paradigma ultra-liberal ao american Way of life, e, sobretudo, na ordem externa, trabalhando arduamente para a implosão da galáxia soviética. Então, contou o jornalista David Trueba, no "El Pais", que Reagan numa de defesa da liberdade pessoal, começava os seus discursos com ironia, avisando: "As 10 palavras mais perigosas que pode escutar um norte-americano são "Bons dias, Sou do Governo e estou aqui para ajudar!"
Não pude deixar de dar uma sonora gargalhada. Há por aqui muitos discípulos de um ultra-liberalismo que mascara a liberdade pessoal com as ofensas do capitalismo selvagem que até o Papa abomina, que aderiram fanaticamente ao catecismo conservador do reaganismo, mas não têm a capacidade de fazer a confissão do seu mestre.
Mas é verdade. Quando oiço Passos Coelho ou Portas, ou algum outro serventuário menor, dar "Os bons dias", e reafirmar "Sou do Governo e estou aqui para ajudar", fico de cabelos em pé, pois sei que estou a ouvir, de facto, palavras perigosas. Não sabia é que eram as mais perigosas. Mas quem o disse tinha saber de experiência feito!

domingo, 6 de julho de 2014

O PSD TEM UM NOVO BANCO


O Blogue "Câmara Corporativa" dá-nos uma interessante notícia. Num texto assinado por Miguel Abrantes, afirma-se: "O PSD tem um novo banco". Vale a pena ler, porque isto, como dizia o Eduardo Guerra Carneiro, anda mesmo tudo ligado. Ora, vejam os leitores as estranhas manigâncias deste universo financeiro:

"Desta vez, era mesmo para o levar a sério: "o Presidente da República está a acompanhar os acontecimentos no BES". Com efeito, pode-se anunciar que o governo de iniciativa presidencial já nomeou a nova administração do banco verde:
. O chairman é Paulo Mota Pinto, deputado e ex-vice-presidente do PSD no consulado de Ferreira Leite e membro da comissão política da candidatura de Cavaco Silva à presidência da República, que nunca exerceu quaisquer funções na banca;
O presidente executivo (CEO) é Vítor Bento, nomeado por Cavaco Silva para o Conselho de Estado para substituir Dias Loureiro, que, ainda há cerca de dois anos, confessava não dominar o negócio da banca ("A área onde estou é marginal à banca. É mais uma actividade de tecnologias de informação que trabalha para a banca do que bancária").
O administrador financeiro (CFO) é João Moreira Rato, vindo também do PSD (para além de registar no cadastro passagens pelo Lehman Brothers, pelo Goldman Sachs e pelo Morgan Stanley), que, no IGCP, vendia dívida pública ao BES e, agora, salta para outro lado do balcão.

Depois de uma maioria, um Governo e um Presidente, o PSD pode agora apregoar ter um (novo) banco, um presidente (da Associação Portuguesa de Bancos) e um governador."

Todos da mesma ninhada!

DA PEQUENA HISTÓRIA EM PENAMACOR


"Políticos" em Penamacor. Da exposição organizada por Joaquim Nabais
Penso que foi em Rosas de Atacama, do escritor chileno Luís Sepúlveda, que encontrei uma reflexão curiosa sobre a memória e como ela é comum à dignidade humana. Contava ele que, tendo estado num campo de concentração nazi (talvez Auschwitz, talvez outro) encontrara no museu do campo de extermínio restos de um pedaço de barro onde alguém gravara, à ponta de sílex, como faziam os nossos remotos antepassados, uma mensagem dramática. Dizia apenas; "eu estive aqui e ninguém vai contar a minha história". O anónimo cidadão era um, entre milhões, porventura assassinado, que nem o nome pode acrescentar ao seu grito.
Há, assim, uma história que mergulha na opacidade, que o esquecimento sepultou (ou vai sepultando) num silêncio de morte. E há outra, também, que pacientemente é assassinada pelo esquecimento diluindo-se no presente e sem lugar no futuro. Portugal é um país que não gosta muito dos confrontos com os seus fantasmas interiores e colectivos, preza pouco a memória e não a valoriza, nem a democratiza.
Reflecti, há dias, sobre estas questões, na Covilhã, onde fui participar na apresentação do livro A Revolta dos Soldados, do José António Pinho, o último livro de um conjunto onde figuram, também, os seguintes títulos: A Estátua - a Tortura Preferida pela PIDE, Caminhos de Liberdade e Histórias Proibidas. Companheiro de cumplicidades cívicas e de resistência pela liberdade, sublinho este trabalho do José António Pinho e o seu esforço de reconstituição de um tempo ominoso e que, quarenta anos depois do 25 de Abril, parece a muitos distraídos que nunca existiu.
Revolta dos Soldados, que o autor narra na primeira pessoa, é a história de um fragmento temporal da Companhia Disciplinar de Penamacor, nos anos 60, um reduto de repressão, que agrupava "corrécios" e "políticos", ao arrepio dos "brandos costumes", reduto de ignomínia perdido no interior fronteiriço da Beira. Penamacor, que já fora historicamente quartel avançado nas tarefas de conter o inimigo, quando a independência passava por esta fronteira natural (ao tempo que isso foi!), se podia vangloriar-se desses pergaminhos patrióticos, não podia, decerto, e não o fazia, glorificar-se pela existência da Companhia Disciplinar, que o fascismo lhe fizera cair em cima...
O Pinho conta, então, a Revolta dos Soldados. Não deixa aqui e ali de ficcionar, mas o chão da história é real, verdadeiros são os rostos e os nomes dos protagonistas, todos improváveis heróis de uma situação absurda. Passaram por lá nos anos 40 figuras relevantes, como Cunhal e Tengarrinha, e muitos outros, mas muitos anos depois, nos anos 60, já com a guerra colonial em curso, estiveram lá amigos, pessoas excepcionais, como foi o caso dos drs João Adelino Morais Cabral (adovogado), António Barbosa (médico, que prestou assinaláveis serviços a uma população com precários cuidados de saúde), o encenador Hélder Costa ou o Álvaro Morna, jornalista, que há anos faleceu, em Paris. Mais tarde, já a dobrar o início dos anos 70, foi lá parar, também, o Amadeu Lopes Sabino, hoje escritor e funcionário superior da Comissão Europeia.
Eram os"políticos" remetidos à categoria de Soldados rasos. Muitos deles, tomaram o caminho do exílio, desertaram.
O que é exaltante na narrativa de A Revolta dos Soldados é, de certo modo, a forma como tudo se organiza à volta de uma batalha mais geral que é a persistência da luta pelo que eu chamo, a partir do livro, a humanização das pequenas coisas, e o que esses instantes do quotidiano representam de exigência de dignidade num universo repressivo e concentracionário como era uma Companhia Disciplinar com aquela tipologia fascista. Pequenas coisas: poder ensinar os outros, ter sala de leitura, poder ter bar e televisão até às onze da noite... poder respirar!
Claro que o cabo Pinho mostra muito bem como tudo isso é a génese de um trabalho político, cujo êxito radica na articulação da acção com os "políticos".
A Revolta dos Soldados é, pois, uma narrativa em louvor da memória e da pequena história. E, neste caso, porque o livro foi escrito, ficamos a saber como, onde, quando e porquê tudo aconteceu. Foi bom recordar o tempo, os rostos e os nomes. Desta vez, alguém contou a história...