sábado, 19 de julho de 2014

A CEGONHA DE PASSOS COELHO


Uma das coisas mais sórdidas da política é o exercício da hipocrisia como técnica de mistificar a realidade. Esta semana assistimos a um desses exemplos sobre uma matéria que, por ter a ver com a vida e o futuro (a natalidade), tem uma carga de exemplaridade e exigência ética em que a hipocrisia, por mais habilidosa que seja, é sempre espúria. Essa faceta torna mais expostas, como espécie de feridas exteriores, as peregrinas ideias instrumentais de mera propaganda política, que se destinam a enganar os tolos ou os sujeitos, de emblema na lapela, que gostam de ser idiotas úteis.
Numa daquelas tiradas de congresso partidário, destinadas a mostrar ao país que, no meio dos infernos pouco climatizados das políticas além da Troika, há lugar para ser bom e exprimir bons sentimentos, o presidente do PSD proclamou que iria nomear uma comissão para estudar o problema da natalidade, questão séria na sociedade portuguesa, onde o défice demográfico é o que se sabe. É certo que, em Portugal, se dizia que quando se desejava adiar um problema -- e a adiar problemas ninguém nos bate! -- nomeava-se. com pompa e circunstância, uma comissão. Esta, do PSD, presidida por Joaquim Azevedo, apresentou o resultado do seu encargo, apresentando 29 medidas para as cegonhas trazerem os bebés para Portugal.
Mas há, nesta parte gaga, uma dose infinita de cinismo e hipocrisia. É que, quem encomendou o estudo, Passos Coelho, foi precisamente o primeiro-ministro que, com as políticas além-Troika, destroçou famílias, dilatou o desemprego, mandou emigrar os mais jovens (vão fazer filhos para o estrangeiro), cortou direitos sociais e fechou horizontes de futuro...
Este número é uma habilidade saloia. O "Expresso" de hoje, titulava: "Alguém vai ter um filho por pagar menos água?" E, no mesmo semanário, Fernando Madrinha tratava, a propósito desta iniciativa, do carácter dúplice de Passos Coelho, escrevendo um comentário intitulado "Bebés na campanha", de que transcrevo seguinte trecho: "Um relatório com propostas de apoio à natalidade, pedido pelo líder do PSD, teve resposta pronta do primeiro-ministro no próprio acto de apresentação. Enquanto o líder do PSD elogiava o trabalho da comissão, o primeiro-ministro explicava que não se pode comprometer com ele, pois não sabe se haverá dinheiro para aplicar as medidas em causa. O facto de os dois discursos terem sido feitos pelo mesmo orador, Passos Coelho, é uma coincidência pícara e enfraquece uma iniciativa que devia merecer tratamento mais sério e consistente".
Pacheco Pereira, a propósito doutras situações da actualidade portuguesa, dizia hoje no "Público" que, "por regra, entre o moralismo hipócrita, tão comum no mundo católico apostólico romano, e o cinismo, eu acho que o cinismo faz menos estragos em democracia". Por mim, não tenho tanta certeza. A avaliar pela técnica da utilização da hipocrisia e do cinismo na política, por Passos Coelho, acho que a democracia fica exposta a feridas letais. Nestes três anos, a democracia tem morrido um bocado, todos os dias.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

JOÃO UBALDO RIBEIRO


Morreu hoje, na sua casa do Rio de Janeiro, João Ubaldo Ribeiro. O seu coração deixou de bater, de madrugada, quando o quotidiano (que ele tanto amava como matéria-prima da crónica) começava a despontar e a luz empurrava mais um dia para o corre-corre da vida. João Ubaldo, grande jornalista e escritor, morreu aos 73 anos, e é essa realidade triste que nos deixa atónitos pois sabemos que não vemos ter mais a sua ironia surpreendente que ele distribuía como um dom dado pelos deuses, pelas crónicas, narrativas, romances e novelas, que formam o conjunto da sua obra originalíssima, que tanto enriqueceu a Língua portuguesa. Dizer isso é, quase, dizer tudo. Porque só os grandes criadores atingem a dimensão que lhes confere uma parte na construção da língua. E, por isso, o Prémio Camões, que lhe foi atribuído em 2008, fica bem na sua biografia de palavras e de livros.
O "Público" recordava hoje (edição online) uma entrevista sua de 2011 em que o autor de Sargento Getúlio, desmontava o mistério da escrita. "Encaro, geralmente, com imenso tédio o papo de um homem de letras", disse João Ubaldo Ribeiro. "Não tenho nenhum interesse literário. Eu li por circunstâncias da vida. Fui criado numa casa cheia de livros, tive um pai muito rigoroso em relação à minha formação e, ao mesmo tempo, muito liberal no meu contacto com esses livros. Eram milhares e milhares de livros. Um casarão cheio de livros. Então eu li. Li muito mas hoje não sou um velho de letras preocupado como vão as coisas do mundo literário brasileiro, quem são os novos autores que surgiram. Não sou realmente um bom papo de letras".
Este despojamento confere com a sua forma de ser e estar. Desde o seu primeiro romance, Setembro não faz sentido (1968), a sua obra granjeou prestígio e um êxito que depressa ultrapassou fronteiras brasileiras. Basta citar Sargento Getúlio, Viva o Povo Brasileiro, A Casa dos Budas Ditosos, para termos uma ideia da importância ficcional de João Ubaldo Ribeiro.
Nelson de Matos, que foi seu editor em Portugal, lembrava hoje a sua amizade com José Cardoso Pires, e que João Ubaldo era "exímio manejador da língua portuguesa", e José Carlos de Vasconcelos, amigo grande do escritor brasileiro, lembrou que era "o melhor contador de histórias" que conhecera.
De João Ubaldo vão permanecer o fascínio das suas palavras, a arquitectura da sua casa romanesca, a tal ironia que este baiano, neto de um português de Fafe, cultivava como um dom, e que tanto prazer suscitava na leitura dos seus livros.
O Globo, jornal onde era cronista, divulgou hoje a crónica de João Ubaldo Ribeiro já tinha escrito para a edição do dia 22. É uma bela crónica em que o o notável jornalista aparece por inteiro. Ora leiam s.f.f.:

"O CORRETO USO DO PAPEL HIGIÉNICO"

"O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente.
Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê. Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores.
Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.
Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas.
O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.
Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente.
Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles. Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social.
Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se."



terça-feira, 15 de julho de 2014

QUE RAIO DE PAÍS É ESTE?

Quando o país que temos, não o temos, como dizia um verso de Sophia, banaliza-se o remorso colectivo e o desespero que emerge do quotidiano converge numa inquietação que uma interrogação funda condensa como síntese de todas as perplexidades: que raio de país é este?
Na fatalidade que nos caiu em cima, urdida pelo governo "além da Troika", talvez já nem valorizemos, na exacta medida, os infernos que povoam a vida dos portugueses. Sabemos que por esse país os dramas se reproduzem, que a "sopa dos pobres" já não é um eufemismo, que os suicídios dilatam as estatísticas, que o desespero cresce à flor das ruas, por todo o lado. Que raio de país é este?
Todo esse universo, de infernos à beira dos dias, batem agora à porta dos hospitais, que se transformam em último recurso para matar a fome. O hospital, alívio para a doença, é, também, provisório alívio para a falta do pão de cada dia. Isto tem sido sensível na área da pediatria, mas agora parece que alastrou a outras especialidades. Veja o leitor, este título de hoje do "Público": "Hospitais atendem cada vez mais casos de grávidas com fome"- E a notícia desenvolvia o seguinte: "Há mulheres e bebés que são internados por uns dias  nos hospitais só pra garantir que são alimentados. Há grávidas que chegam aos serviços de urgência dos hospitais com fome. No Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, há mulheres que chegaram a ficar internadas "um ou dois dias apenas porque tinham que se alimentar. segundo adiantou o director do serviço de ginecologia e obstetrícia daquele hospitlal". E noutro ponto a responsável do serviços sociais, adiantou que "tal como se verificava entre os idosos, começam a ser também mais expressivos os casos de bebés cuja alta é protelada porque as respectivas famílias não têm condições para os receber".
Que raio de país é este?

NADINE GORDIMER


Morreu a escritora "anti-apartheid", Nadine Gordimer, que fez confundir a sua obra com as aspirações mais fundas de liberdade e igualdade, numa África do Sul onde imperava a segregação racial dos negros e a condição humana, co expressão elementar de dignidade, não fazia parte da realidade. Foi contra essa sujeição, que encobria uma espécie de escravatura, que Nadine Gordimer levantou a voz para mostrar que a escrita era qualquer coisa de inseparável da luta pela liberdade. São esses universos, em que o homem é a a medida de tudo, que os seus livros traduzem, em narrativas cuja dimensão dramática se alimenta da densidade interior das suas personagens.
Vejo o mundo friccional de Nadine Gordimer como um ponto de encontro de inquietação comum, partilhada com os leitores, a partir da pungente realidade do "apartheide", que marcou, durante décadas, a África do Sul, até à mudança protagonizada por Nelson Mandela. A escritora, tratando dessa realidade particular, de que ela era, afinal, testemunha, desde a infância, conferiu-lhe no plano criador dignidade estética universal, de que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1991, é exemplo.
Deixou uma obra vastíssima, aliou a narrativa à crónica e ao ensaio político, tinha uma apurada arquitectura do romance e da novela, dizem que foi marcada pela grande literatura de Joyce, Camus, Proust ou Tolstoi. Uma das suas facetas foi, também, o combate contra a censura, que considerava um ignomínia contra o acto criador.

domingo, 13 de julho de 2014

A BIRRA DO MORTO



O escritor e dramaturgo Vicente Sanches, natural de Castelo Branco, onde foi professor de filosofia no Liceu Nun' Álvares (vive actualmente em Mação), escreveu um texto dramático, com a fina ironia e um notável sentido sarcástico, que são marca distintiva do seu teatro e da sua produção literária, que intitulou A Birra do Morto. Mário Viegas fez uma memorável encenação dessa peça, que ele próprio interpretou, penso com Carmen Dolores, um momento alto de teatro. ra a história de um homem que se recusava a morrer, numa birra obstinada e definitiva, que os panejamentos solenes do velório (tudo do melhor!) não convenciam, nem diluíam a birra.
Lembrei-me desse espectáculo ao ler no "El Pais" uma história de Lisboa, uma saga que, há 18 anos, um homem de 79, Florindo Beja, é "um morto que recusa sê-lo".
A realidade todos os dias mostra que, nas arestas do quotidiano, surgem histórias de vida (ou de morte) que suplantam quantas vezes a ficção. Esta é, seguramente, uma delas, dando crédito a Florindo Beja que, há 18 anos, desdobra junto à Procuradoria Geral da República, a sua vida contada num enorme cartaz, emoldurado por recortes e fotografias que são a sua clara certidão de verdade. como diria Mestre Gil.
Então, Florindo, que está vivíssimo, exibe a certidão de óbito, que aparentemente, só aparentemente, o abate ao regimento dos vivos. Ele conta que dois irmãos, um notário outro juiz, se aliaram para dá-lo como completamente morto, a 17 de Novembro de 1964, para apoderar-se dos seus bens, qualquer coisa como 8,3 milhões de contos. Ele e a mulher (300 euros de reforma, cada), todos os dias comparecem no lugar da denúncia, num ritual que já leva mais de 6.675 dias. Nesta batalha, já foi parar 30 vezes à cadeia e visitou hospitais para avaliar o seu estado mental.
Mas a luta continua. Até ao fim, diz ele. "Não me renderei!"
Esta birra do morto é um espectáculo sem intervalo. E todos os dias recomeça, com os mesmo cenário e os mesmos actores. O morto Florindo Beja não desiste.