sábado, 26 de julho de 2014

PORTUGAL A ANDAR PARA TRÁS


JOSÉ VILHENA
Enquanto Cavaco e Passos, o sr. Dupont & o sr. Dupont, apregoam por aí que vamos no bom caminho, o desastre civilizacional que as políticas do governo, sempre aplaudidas pelo Presidente da República, configura no plano social é bem visível no último relatório para as questões humanas (onde se mede, na prática, o impacto real dos direitos humanos nas sociedades) que a ONU acaba de publicar. E, o que ele mostra, é Portugal a andar para trás. Trancrevo do Blogue "Câmara Corporativa" o seguinte comentário: "Não somos a Irlanda, não somos a Esºanha, nem mesmo a Grécia":
"Relatório do Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas: Este índice é calculado com base em três dimensões do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente. Para isso, são tidos em conta factores como a esperança média de vida, os anos de escolaridade de cada cidadão e o Produto Interno Bruto (PIB) Portugal ocupava em 2009 o 34.º lugar. Agora, está na 41.ª posição, sendo um dos países da Europa em pior situação. A passagem da Troika não explica tudo, uma vez que a Irlanda está em 11.º, a Espanha em 27.º e a Grécia em 29.º.
É caso para dizer: estes tipos, que todos os dias andam por aí a dar lições de patriotismo, que enchem a boca com a palavra pátria, não têm feito outra coisa senão desgraçar este país e transformar num inferno o quotidiano dos portugueses. Lê-se o relatório da ONU, e apenas lhes podemos dizer: podem limpar as mãos à parede! Mas é melhor não o fazerem pois a parede ficaria demasiado conspurcada...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O PAÍS NUMA GUITARRA

Passam hoje 10 anos que morreu Carlos Paredes. Às vezes, ainda se ouvem aqui e ali acordes que ele arrancou da sua guitarra, mas penso que a rádio e a televisão públicas poderiam fazer alguma coisa mais para evitar que o esquecimento envolvesse o nome de um dos vultos maiores da cultura portuguesa. Sem favor, se pode dizer isso de alguém que reinventou a guitarra portuguesa e lhe deu um estatuto de criação absolutamente singular. Há muito que Carlos Paredes se tornou um clássico, no sentido em que a sua obra criadora, os seus "movimentos perpétuos", se tornaram intemporais. Hoje, voltei a lembrar-me dele. Fui à procura do que, há dez anos, escrevi como um adeus sentido, ao grande Paredes e volto a deixá-lo aqui como uma pedra lançada contra o esquecimento que parece estar a envolvê-lo:

O PAÍS NUMA GUITARRA
Não há como a poesia e a música para nos salvarem da tristeza. São âncoras de felicidade, instantes em que percebemos como a arte é a libertação de tudo aquilo que diminui o homem. Às vezes, basta um verso para sabermos que esse fio de tempo feito de palavras (ou de sons) se prolonga na eternidade. Carlos Paredes faz parte dessa galeria de génios que são parte do tempo porque na sua obra está contida a intemporalidade, que é sempre a consagração maior do acto criador.Não sei quantas vezes a sua música se elevou por cima das coisas do quotidiano e se fez alimento de esperança, sorriso aberto ao gume da tristeza, alegria que enche o coração. Não sei quantas vezes a sua música iluminou os instantes porque dela se vê o mar e a terra, a água que corre, as árvores e os pássaros, as ruas e a gente, um país nas suas múltiplas diversidades. Não esqueço que o Carlos Paredes, apesar de figura eminente da cultura portuguesa, passou boa parte da vida preenchendo fichas burocráticas no cinzentismo do hospital. E penso quantas obras não ficaram por criar nesse tempo desbaratado na burocracia obscura da administração hospitalar. (...)
Vou à memória buscar buscar momentos do Carlos Paredes no Fundão (festejando o "Jornal do Fundão") e na Covilhã, no então GICC (agora Teatro das Beiras). Vejo um homem, debruçado sobre a sua guitarra, confundindo-se com ela no mistério dos sons. Um breve fio de luz ilumina-o no palco. Paredes e a sua guitarra, como se estivesse a abraçar uma terra, um país:o seu país.Asua respiração, como se fosse a marcação dos sons que se elevam da guitarra, duas mãos prodigiosas, um rosto fechado na própria música. No denso silêncio do público, o espanto. Um país inteiro numa guitarra. Um país com gente. Húmus. Povo. Com dramas e alegrias. Com bailes. E verdes anos. A cultura transformada em festa. E depois, no final, lá estava o Carlos Paredes, comum da gente, a falar da sua música e da sua guitarra, e, com a cívica verticalidade de grande cidadão, a dizer que sem liberdade a felicidade não existe. E aproprio-me das palavras de Urbano: "O sonho permanente de Carlos Paredes foi a felicidade dos homens. Nos sons da sua guitarra mágica ouve-se bater cadenciadamente, por vezes quase chorar, quase sorrir ou esvair-se em luz o sangue do povo que ele tanto amou e pelo qual se bateu e sofreu  o horror do cárcere e da tortura".
Carlos Paredes!






quarta-feira, 23 de julho de 2014

UMA ROSA PARA A PIANISTA!



Parabéns, Maria João Pires! Digo eu aqui, em palavras apressadas, nos 70 anos da pianista. E digo-o como se lhe estivesse a fazer um afectuoso aceno de gratidão, na ilusão de que o tempo não cortou um diálogo, para lhe dizer que nunca lhe pagaremos os momentos inolvidáveis de pura criação que nos ofereceu em Belgais, onde a utopia e o sonho nunca poderiam caber na mesquinhez do Portugal dos pequeninos. Estou a dizer isto e a lembrar esses instantes de Belgais, a Maria João Pires e a sua música, decerto os tais momentos tão excepcionais e singulares que fizeram Goethe dizer que deviam suspender o tempo. Grande privilégio ter vivido esses momentos, ter sido amigo da Maria João e ter podido perceber a sua grandeza, e, ao mesmo tempo, o seu despojamento, na forma como encarava o quotidiano, pequenas e grandes coisas, mas sobretudo os "pequenos pormenores de Deus", de que falava Steiner, indispensáveis à alegria da felicidade. É verdade que Maria João Pires transportava essa sabedoria para a música.
Dizem que Portugal não a percebeu, como sempre acontece, ou quase, quando o sonho de transformar a realidade, como sucedia no microcosmos de Belgais, era desmedido. Outros países -- o Brasil e, agora, também a Bélgica --, abrem os braços ao seu talento e à sua inteligência, à sua forma de ler o mundo para poder transformá-lo, à sua escala, à escala da sua arte.
Há oito anos, escrevi um texto, incluído no Vol. I, de Crónica do País Relativo, que, à distância do tempo, parece retratar essa biografia de inquietação de Maria João Pires, quando tudo parecia possível. "Uma rosa para a pianista!", escrevi então. A mesma rosa que hoje lhe volto a oferecer, com um beijo de gratidão, querida Maria João Pires:

"A pianista é uma mulher franzina, mas de grande força interior. Mal toca no piano e os primeiros sons preenchem o silêncio, agiganta-se, como se libertasse o deus que habita a sua arte criadora. Agora quase se ouve o respirar, que às vezes parece suspenso, tão denso é, de quem assiste à magia desses instantes únicos e definitivos.  É como se do piano se elevassem os seus amigos Mozart ou Chopin, Beethoven ou Debussy ou Schubert, e subitamente ficassem presos à gente para todo o sempre. As mãos, prodígio da aventura da criação, caminham pelo teclado fazendo caminho à obra.
A pianista tem os olhos fechados no fascínio que parece ser a sagração da totalidade do tempo. Vou à procura de lembranças avulsas que gravaram na memória essas vivências tão singulares que ainda hoje parecem carregar aquele sentido de divino que a verdadeira arte contém. Ouvimo-la celebrar Mozart e se ele está no céu, onde poeticamente o colocou Manuel Bandeira, deve estar felicíssimo pela arte da pianista.
A pianista anda pelo mundo semeando música e poesia. Onde quer que esteja, em Madrid  ou em Berlim, em Tóquio ou em Paris, em Londres ou em Viena, em Belgais ou em Lisboa, pinta com a sua música os dias de alegria, com a força e a determinação de uma ave que voa e risca o céu por cima de todos os mares e fronteiras.
A pianista neste seu percurso planetário confunde-se com o som de uma "humanidade nova a inventar" e nessa invenção é capaz de tocar o coração da Terra e de toda a gente.
A pianista é o sonho de um tempo novo, a esperança de crianças sem olhos espantados de tristeza ou de dor. Ouvimo-la tocar e navegamos pelos continentes do sonho e na solidão da sua música percebemos que o mundo não pode ser senão assim: livre como o vento, intenso como o sol, feliz como as flores do campo.
A pianista sorri e um rosto de bondade se abre à convergência de um tempo sem insídias e sem guerras. Ela vai de cidade em cidade, com as oferendas do seu saber, iluminando os dias (transforma a música em luz).
A pianista enche de aplausos as grandes metrópoles culturais que se revêem na sua capacidade de intérprete e de criadora de uma linguagem musical geneticamente sua. Há luz e flores,à sua volta, e emoção funda perpassa pelos corações que a sua música ligou numa imensa sinfonia de alegria.
A pianista, de cada vez que abraça o piano, de cada vez que fecha os olhos na combustão da sua arte, de cada vez que cava fundo na alma o acto criador, dá-se plenamente numa dádiva que só os grandes artista são capazes de ousar. A música é, então, esse caminho infinito que não tem princípio nem fim, que lavra o tempo como a brisa marítima ou o vento agitam a imensidão do mar ou o chão dos bosques onde o sol mal entra sobre os altos ramos.
A pianista cumpre esse peregrinar, essa aventura exaltante, como um destino. A sorrir.
A pianista sorri sempre com a alegria de quem vê a vida como âncora de felicidade que cada um, à sua medida, tem a responsabilidade de edificar.
A pianista está cansada. O seu coração, que é do tamanho do mundo, sempre sensível à matéria de inquietação, sempre cheio de música para dar, precisa agora, por uns dias, de não bater tão depressa, de se recolher à suavidade de um breve repouso.
A pianista refaz o seu calendário, recompõe a sua geografia, mede o seu tempo dentro do tempo. Deixemos descansar a pianista, digo para mim, baixinho. Imagino Mozart, com as interpretações de Maria João Pires na cabeça, feliz e grato pelo génio da pianista, e penso que se ele aqui estivesse havia de colher uma rosa vermelha para oferecer com um beijo a quem tanta beleza e alegria já nos ofereceu".


terça-feira, 22 de julho de 2014

ANTÓNIO CLUNY E O VETO


É um lugar comum que qualquer cidadão formula, com maior ou menor veemência, mesmo que não tenha pendências a correr seus termos no tribunal da comarca, que a Justiça está em crise. Não há quem não tenha formulado a crítica, que se ouve muitas vezes repetida por comentadores de serviço nas televisões. Dizer mal da Justiça tornou-se coisa banal que, ao que parece, já não incomoda ninguém.
O problema está em quando os seus próprios artífices -- e os mais qualificados --, os que regem disciplinarmente a hierarquia e tomam as medidas saneadoras para que a Justiça se mantenha acima de qualquer suspeita a contribuir para as suspeições que circulam a dizer: a Justiça está doente (por muito que a senhora ministra da dita proclame aos quatro ventos que está tudo bem!).
Então, uma estranha decisão do Conselho Superior do Ministério Público, transformou num caso obscuro o que deveria ter sido questão pacífica. Que fizeram os senhores conselheiros? Apenas isto:votaram contra, por três votos contra, dois a favor e oito abstenções (aí, valentes!) a indicação do nome do Procurador António Cluny para o Eurojust, depois de aprovado pela Assembleia da República e de outros procedimentos legais em tais circunstâncias. Por três votos, o nome do Procurador António Cluny foi chumbado.
O que parece um fait-divers em tempo de banhos, não o é, e não deixa de ser estranho que o caso não tenha espicaçado alguma indignação, sendo António Cluny, um magistrado prestigiado, cuja folha de serviços porventura pede meças às de muitos conselheiros. Que coisas sinistras terá Cluny na sua biografia para merecer tal castigo? Cá por mim, ele será suspeito de escrever em jornais e não ter medo, há muitos anos, de emitir opiniões sobre as pequenas e grandes questões da sociedade portuguesa. E isso é um crime abominável, como o é a intervenção cívica de que ele nunca abdicou.
Ontem, no "Diário de Notícias", em pé de página, Pedro Pais de Vasconcelos, professor catedrático e presidente do Conselho Científico da Faculdade de Direito de Lisboa, punha o dedo na ferida e dizia mesmo que "o bloqueio ensaiado pelo Conselho Superior do Ministério Público à designação de Cluny para o Eurojust enfraquece o combate ao crime organizado na Europa, e prejudica-o principalmente em Portugal". E questiona: "Esta anómala actuação ilegal do Conselho Superior do Ministério Público é uma afronta aberta e pública à legalidade democrática e dá-me o direito, como cidadão, como jurista, , como advogado, como professor de direito, de exigir -- sim, exigir, não apenas pedir -- ao Conselho Superior do Ministério Público que revele publicamente qual a fundamentação do seu veto ilegal, da justificação para aquilo que fez".
Não tenho dúvidas que suas excelência se dêem à maçada de explicar o que quer que seja.

O GRÃO DE AREIA NO CONFLITO ISRAEL-PALESTINA


Quem leu As Benevolentes, de Jonathan Littel, um longo romance de quase 900 páginas (editado em Portugal pela Dom Quixote), percebe melhor como a natureza humana resvala para situações de desumanidade, longas e profundas como as descidas aos infernos, elevando a irracionalidade ao infinito, numa lógica de morte em que o fim da noite parece não ter remédio. Na reflexão ficcional de Jonathan Littel, a história de um ex-oficial nazi, que viveu a guerra por dentro, o começo da "solução final" no leste, a organização dos campos de extermínio, executor da máquina de morte, testemunha da derrocada do III Reich e da loucura de Hitler e da sua super-estrutura militar. O denso romance, cuja arquitectura radica numa investigação histórica de grande envergadura, que pressupõe não só o conhecimento dos arquivos, mas também dos territórios, com descrições fabulosas de paisagens, mesmo quando elas não são outra coisa senão os panos de fundo de violentos banhos de sangue, de genocídios e valas comuns, do holocausto nas suas várias e terríveis encenações. Essa saga de sofrimento impõe duas coisas essenciais: respeito e exigência ética em relação aos outros, coisa que, infelizmente, se esquece com a maior das facilidades!
Uma interrogação persiste na forma como o narrador (ele, que era uma pessoa comum!) conta a sua longa história de crimes: o grão de areia que torna as pessoas comuns capazes da pior barbárie. A questão que nos conduz sempre à banalidade do mal e às inquietações de Anna Harendt, e às perplexidades de comportamentos individuais e colectivos marcados pelo absurdo do carácter demencial da violência ou das tais guerras que continuam a ser apenas expressão do velho conceito da política por outros meios. É esse mundo de morte tão extenso e definitivo, indizível, de crime por excelência contra a Humanidade, que uma palavra apenas sobre todas as outras -- Auschwitz! -- se tornou credora de todas as lágrimas que o mundo fosse capaz de chorar.
Por que me lembrei das Benevolentes e das tais areias absurdas que transformam homens em carrascos? Só para dizer que assistimos com uma complacência estranha -- como se a humanidade ali não existisse! -- a outra guerra desigual, com contornos de outros crimes que ferem a humana condição, a guerra que opõe Israel à Palestina.
Ao longo dos anos, vemos, ouvimos e lemos, e não podemos ignorar aquelas imagens de cidades ou lugares de Gaza bombardeadas, aquelas imagens de crianças mortas, de mães, pietás de carne e osso, numa dor desmedida, que já não comove ninguém, pois tudo se tornou tão habitual na deriva ultraconservadora dos senhores da guerra. Não houve um tipo qualquer do governo de Israel que considerou um dia aquele universo humano dos palestinianos como sub-gente? Não tenho a visão maniqueiísta da dicotomia dos bons e dos maus, nessas divisões artificiosas que muitas vezes não são outra coisa senão a mistificação de poder agir ao arrepio das leis internacionais e da própria ONU. Bem sabemos que tudo isso só é possível com a conivência dos EUA e da própria Europa, sempre tão operativos em julgamentos de crimes contra a Humanidade, mas sempre em latitudes que não contemplam o Médio Oriente...
O embaixador Francisco Seixas da Costa publicou um dia destes no seu Blogue (Duas ou Três Coisas) uma análise notável sobre o conflito. Ele, que conhece bem os labirintos da diplomacia (e já esteve em Gaza), coloca questões sobre as quais valerá a pena meditar. Transcrevo algumas delas, que fazem parte das inquietações comuns de todos aqueles que são capazes de olhar para a realidade sem fanatismos maniqueístas. Leiam, por favor:

 "Não faço a menor ideia de como vai acabar, se é que algum dia vai acabar, o triste conflito israelo-palestiniano. Uma coisa tenho por certo: as humilhações e os padecimentos, somados à pobreza e à raiva que vêm com eles, são o irreversível caldo de cultura em que foram criadas várias gerações de palestinianos. Nunca uma paz sustentável de construiu sobre a persistência do ódio e Israel sabe bem que, com esta sua postura, afasta, dia após dia, as hipóteses de uma paz negociada, numa guerra que nunca vai poder ganhar em absoluto. Pelo contrário, com a sua política de permanente desprestígio da Autoridade Palestiniana e desprezo notório pelas vidas dos seus vizinhos, Israel dá adubo ao terreno onde prosperarão sempre o Hamas e outros grupos radicais.
O governo de Telavive recorre, ano após ano, às ações militares que só geram novos e eternos inimigos nas populações civis árabes, fartas de ver nascer, como cogumelos, sucessivos colonatos judaicos - sob a cínica complacência internacional - que afastam, a cada hora, a sua esperança de retornar à terra que as resoluções da ONU lhes atribuiu, mas que ninguém obriga Israel a cumprir. Perante o mundo, desde os "taken for granted" EUA até à pusilanimidade europeia, os palestinianos parece só terem o dever à sua ritual humilhação.
Israel, na assunção eterna do direito histórico à "terra prometida", potenciado pelo usufruto da memória da barbárie nazi e, mais recentemente, da onda anti-muçulmana depois do 11 de setembro, tem sempre mão livre para tudo quanto entenda fazer, não se lhe aplicando a condenação que atitudes idênticas provocariam, se acaso tivessem sido outros Estados a praticá-las. Por muito que alguns atos palestinianos sejam condenáveis, o saldo da violência israelita é incomensuravelmente maior, é uma insuportável bofetada no Direito Internacional, assumida com arrogância e com uma cegueira histórica que um dia acabará por se voltar, em definitivo, contra o Estado judeu.
Termino com uma pergunta: por que razão Israel não aceita que as Nações Unidas coloquem observadores internacionais com a responsabilidade de vigiarem as linhas de separação entre o seu território e as áreas atribuídas às autoridades palestinianas, que, por exemplo, facilmente poderiam denunciar os ataques feitos destes últimos para o seu território? É na resposta nunca abertamente dada a esta questão que reside a chave da verdadeira atitude de Israel perante todo este problema".

O grão de areia que materializa a barbárie persiste com a força da total impunidade.

domingo, 20 de julho de 2014

LEMBRANÇA DE TORGA


É bom reler Miguel Torga, percorrer o país guiado pelo lavrar da sua escrita, aprender, como ele faz sempre com mestria, a fixar os olhos na descrição do detalhe de uma paisagem, para abarcar depois horizontes infinitos. Ler os volumes do Diário é uma lenta aprendizagem. Anoto esta entrada do vol. IX do Diário, a partir de Foz Coa: "O homem tem a largueza dos horizontes que lhe cabem nos olhos. Nos verdadeiros e nos da imaginação". Hoje, lembrei-me de Torga porque estava rodeado de paisagem deslumbrante, dominada pela Serra da Estrela, que tanto fascinou o poeta, um sol de tarde a doirar os campos, a passada fértil nas suas sinfonias de Verão. Lembrei-me dele, sobretudo, porque a questão da pátria, do país, era nele condicionante de tudo o resto. E imagino o seu desespero, a a sua angústia, se visse como o chão de Portugal tem sido pisado e os portugueses trucidados pelas políticas de terra queimada.
Torga sempre desconfiou do  poder e dos poderes. E fui ver um texto (Diário XII) de 1977, que não precisa de comentários para actualização aos tempos de agora. Diz Torga: "A sedução do poder! O deleite com que saboreiam muitos dos que ainda há pouco juravam abominá-lo! Sei que poucos escapam ao seu fascínio, e de que disfarces é capaz. No próprio acto criador se acoita. Mas referia-me ao poder concretamente exercido, a nível do mando. O comportamento desses estadistas de pronto a vestir! O que eles dizem e o que eles fazem! Parecem metidos numa outra pele. Novos penteados, novas gravatas, novos gestos, nova gravidade. São agora mais pernéficos, mais solenes. Adquiriram, sobretudo, uma versatilidade mental e moral inesperada. Como os oráculos, tudo o que lhes sai da boca tem dois sentidos.Falam sempre a cobrir a retirada.  Às vezes, apetece pôr-lhes um espelho diante dos olhos. Mas talvez fosse inútil. Cegos de felicidade, como poderiam compreender que são uns pobres bonifrates, ao mesmo tempo de boa fé e de má consciência?"
O que não escreveria hoje Miguel Torga se assistisse à comédia do poder e à sua lógica tentacular, de polvo, alimentado pelo pântano financeiro, com as suas promiscuidades e as suas corrupções?