quinta-feira, 31 de julho de 2014

O PAÍS DA RASPADINHA

Num quiosque, onde habitualmente, compro os jornais, a corrida à "raspadinha" é o recurso do momento. Num olhar rápido, encontramos lá fregueses habituais, os mais velhos da tribo, claro, alguns com as mãos tremelicantes estendidas ao boletim e aquelas mulheres com rostos de longa paciência que parecem já não esperar grande coisa, "dê-me lá mais uma a ver se sai alguma coisa", mas também gente mais jovem que ali vai à procura do milagre de mais alguns euros para engrossar a magra economia. A sorte, como acontece nos jogos de azar, é quase sempre madrasta e o gesto que mais se vê é rasgar o papel que vai direitinho para o lixo. "Outra vez, nada!"
Há quem raspe e descubra um prémio e então, as mais das vezes, o diálogo é o seguinte:
-- Quer receber o dinheiro?
-- Não, dê-me mais uma...
Lá se vai o prémio...
E lá continuam a raspar.
-- É o euro milhões dos pobres! -- disse alguém, que logo acrescentou não ser praticante. -- Gosto mais dos jackpots, isso, sim, é que é porreiro... Entra-se logo na roda dos milionários.
O jogo até parece democrático: foi, de facto, inventado para o segmento da população mais popular. Na diversidade das lotarias, é mais uma que sai sem andar à roda. A crise, dizem, é a grande motivadora. O jogo multiplica a esperança.
Indiferentes aos jogos dos milhões, eles continuam a raspar, a raspar, a raspar... na esperança de que um dia, pelo menos, a sorte lhes baterá à porta com mil euros.
No sector dos jornais, alguém lê uma das capas: "Família Espírito Santo abandona o clube dos mais ricos!".
-- Oh! coitados! Tudo lhes acontece...
Agora, no quadro de honra, estão o Amorim, o Santos e o Belmiro. O leitor desdobra o jornal e comenta em voz alta:
-- Os Espírito Santo não devem desanimar. Sempre podem jogar na Raspadinha! Ou ir à sopa dos pobres da Santa Casa...

quarta-feira, 30 de julho de 2014

SE ISTO NÃO É UM CRIME...

Um dos fenómenos mais complexos e dramáticos do nosso tempo é, sem favor, a forma como se banalizou a irrracionalidade da violência, que instalou o absurdo dentro dos dias, uma espécie de doença letal que não é outra coisa senão a configuração de um retrocesso civilizacional, como se os valores da dignidade humana tivessem sido retirados do mercado ou suspensos para sempre.
Camus teve a percepção dessas perversidades antecipando, no plano filosófico e da ficção, essa inquinação da humanidade projectada sobre a política e visível, bem visível, no absurdo da violência, da sistematização da morte e da intolerância em que os totalitarismos e seus sequazes se fizeram campeões. As ignomínias de onde emergia a inquietação ou o desassossego do "homem revoltado".
Enquanto escrevo estas notas, a televisão diz que Israel fez, no absurdo da morte que instalou na Faixa de Gaza (que é uma espécie de campo de concentração a céu aberto onde vivem milhões de pessoas), uma trégua de quatro horas. Eu não sei de lugar, como em Gaza, onde o homem se tornou a medida de coisa nenhuma. É que, no plano dos tais valores da dignidade, cresce a natureza de bombardeamentos sobre alvos civis, escolas (hoje foi uma escola da ONU), hospitais, infra-estruturas (energia eléctrica, água, instalações sanitárias), como se o propósito não fosse mais do que reduzir Gaza à idade da pedra.
A propósito, o escritor iaraelita Etgar Keret escreveu no "El Pais" um artigo em que afirma que "o exército de Israel pode ganhar batalhas, mas a paz e a tranquilidade só se conseguirão com pactos políticos". Keret retrata o ambiente de intolerância contra aqueles que, em Israel, defendem a paz, o domínio da extrema-direita, e não deixa de lembrar que "é horrível cometer um erro que custa tantas vidas" e "pior ainda cometê-lo uma e outra vez". Keret denuncia, também, um ambiente de fanatismo e opressão: "Muitas pessoas tentaram convencer-me de que não escrevesse este artigo. "Tens um filho pequeno", disse-me um amigo o outro dia. "Às vezes, vale mais ser esperto do que ter razão". Nunca tive razão, e tão pouco devo ser demasiado esperto, mas estou disposto a lutar pelo meu direito a exprimir as minhas opiniões com a mesma ferocidade que as Forças  de Defesa de Israel lutam em Gaza. Não é um combate pela minha opinião pessoal que pode estar equivocada ou ser patética. É por este lugar em que vivo e que eu amo".
Foi precisamente pelo texto de Etgar Keret que me lembrei de Camus. Keret também é um homem revoltado.Primo Levi, num trabalho notável sobre o seu percurso de prisioneiro de um campo de extermínio, escreveu um livro que é uma funda interrogação sobre a desumanidade e a forma como o homem é privado de dignidade humana. A sua interrogação "Se Isto é um Homem", ainda dói e ficou como exemplar testemunho sobre o destino da condição humana.
No contexto de situações em que morrem crianças, mulheres, velhos, em que se bombardeiam escolas e hospitais também eu me lembro de Primo Levi para dizer: "Se isto não é um crime..."
De facto, não podemos fingir que os carrascos, os criminosos de guerra e os crimes contra a humanidade apenas existem do outro lado. Olhemos os minutos a passar. A trégua de quatro horas deve estar a expirar. A Europa e a comunidade internacional continuam a dormir. Os bombardeamentos seguem dentro de momentos.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

MÚSICA NAS ASAS DO VENTO E DO SOL

Há qualquer coisa de fantástico na forma como a arte (e esta de que vamos falar é divina!) nos faz sonhar com um tempo que transcenda a efemeridade dos dias para se tornar pertença nossa como instantes de vivências únicas e de afectuosa camaradagem que gostaríamos de prolongar mais e mais. Essa sensação respirou-se no II Festival de Música Antiga, que decorreu o último fim-de-semana e que se afirma, já, como um acontecimento cultural que, fortalecendo as ainda jovens raízes, se transformo (penso eu) numa realidade de fronteiras mais vastas, assim a sua divulgação ultrapasse a dimensão local. Foi um tempo em que o "milagre" da música aconteceu, iniciado com arte dramática, "Farsas per Musica", de Goldoni, pelo Teatro das Beiras. Quem teve a sorte de seguir o programa, desde o concerto para oboé barroco e cravo, que foi excepcional, à música na rua (música dos Cancioneiros do Palácio de Elvas e de Uppsala, o contacto com velhos sons que saíam da charamela, da corneta ou da sacabucha e pairavam sobre a monumentalidade de Castelo Novo, a música do século XVIII, "tutti barroco", de estimulante alegria, no cenário belíssimo dos jardins da Quinta do Ouriço, quando o sol de fim de tarde se despedia da montanha e deixava aquela luz de que os deuses devem gostar. Mas nesse dia ainda estava guardada uma surpresa: o concerto encenado, na igreja matriz de Castelo Novo, com obras alusivas aos Quatro Elementos dos séculos XVII e XVIII. O sortilégio da música a entrar pela noite,
O Festival de Música Antiga teve a preocupação de articular a música portuguesa com as influências europeias e também nesse propósito vincou um propósito de alargar os horizontes culturais da iniciativa, o que lhe confere também uma dimensão pedagógica que é importante salientar.
Momentos altos viveram-se domingo, primeiro na igreja matriz de Alpedrinha, outro cenário notável pela beleza e acervo iconográfico (só a imagem do Ecce Homo merece visita), num concerto que teve elemento central "o orgão ibérico, exemplar do final do séc. XVIII", que foi "construído por Joaquim António Peres Fontanes, um dos mais importantes organeiros portugueses da época, que construiu, entre outros, três dos seis orgãos da Basílica de Mafra". Além de canto gregoriano, foram interpretadas obras de Carlos Seixas, Diogo Dias de Melgás, João de Sousa Carvalho e João Rodrigues Esteves.
Sinal de como o Festival entrou no coração do público foi o ambiente de apoteose e vibração que rodeou o último concerto, "Tourdion - Um duelo musical", onde o virtuosismo dos músicos  motivou extensos aplausos.
Não citei o numeroso grupo de intérpretes que, ao longo do fim-de-semana, enriqueceram o convívio com a "nossa companheira música", como diria Fernando Lopes Graça. Mas cito, de justiça, o construtor deste Festival, Pedro Rafael Costa, pela forma como montou e programou este II Festival de Música de Castelo Nova.
Há um poema de Eugénio de Andrade que fala da "poesia nas asas do vento e do sol". Desta fez, foi a música que voou nas "assas do vento e do sol" e iluminou o tempo. Por momentos, suspensos dela, tudo parecia claro e feliz.

domingo, 27 de julho de 2014

UM HERÓI DISCRETO DAS MINAS



Há memórias de pequenos e grandes momentos, de acontecimentos que a história arquiva como maiores, mas a vida, como dizia o poema e a canção do Sérgio Godinho, é feita de pequenos nadas. E, no entanto, o quotidiano regista instantes sublimes de coerência e de luta, às vezes de resistência, de gente comum que se torna singular precisamente pela sua determinação em favor dos outros, pela consciência colectiva em relação aos acontecimentos.
As Minas da Panasqueira constituem um território de memórias, fértil, muito fértil, em que a exemplaridade de comportamentos, individual e colectivamente, assume uma história muito rica. Gente, rostos, que fizeram do grande complexo mineiro uma bastião de lutas sindicais. Eu vivi muito, como jornalista, essa saga, como antes gravara na memória o peso da silicose que fez de muitas terras do Zêzere, aldeias de viúvas. Leio hoje, no "Público", uma entrevista feita ao Prémio Nobel da Literatura, Mário Vargas Llosa, e recolho do grande escritor peruano a seguinte frase: "Os heróis discretos são a grande reserva moral de um país". Leio e penso que muitos, muitíssimos, desses heróis podem ser encontrados, por exemplo, nos conflitos laborais e nas greves que, nos anos 80, fizeram da Panasqueira as Minas da Ira e um caso exemplar de resistência contra a prepotência da multinacional estrangeira.
Falo destas geografias particulares, que se situam à margem das grandes coisas, porque me disseram, há dias, que tinha morrido o Diniz Moreno, enfermeiro no complexo das Minas e que integrou, com exemplar dignidade, a comissão intersindical das Minas da Panasqueira que desenvolveu essas grandes batalhas das "terras do sem fim". Vindo da Beira Alta, aqui fez a sua vida profissional. Nos meandros dessas lutas falei muito com ele e tornei-me seu amigo. Apreciava nele a serenidade com que lia os acontecimentos, às vezes povoados de radicalidade, mas o carácter moldou nele uma firmeza e uma coerência que todos os seus camaradas respeitavam. Disse-me muitas vezes que a Mina lhe ensinara que a solidariedade e a fraternidade eram coisas demasiado sérias, que as circunstâncias -- mesmo pessoais -- não podiam pôr em causa. Aquela comissão intersindical, de que o Moreno fez parte, é um quadro de honra feito de rostos e de nomes. Com ele falei das questões de saúde dentro da mina, do ónus socialmente pesado que era a memória da silicose, das viagens trágico-terrestres ao interior da mina. E agora, que o Diniz Moreno partiu, julgo foi desses heróis discretos de que falava Vargas Llosa. Não sei há quantos anos não o via, mas olho para antigamente, para esses dias que abalaram o couto mineiro, e é como se a conversa com ele nunca tivesse terminado. Aquele abraço de saudade, amigo!