sábado, 9 de agosto de 2014

O ABRAÇO QUE DEMOROU 36 ANOS


Eis a foto do reencontro, que colho da edição de hoje do "El Pais". Estela de Carlotto, presidente da associação Avós da Praça de Maio, abraça o seu neto Ignacio Urban, que buscou durante 36 anos, depois de sua mãe, uma jovem de 23 anos, ter sido sequestrada e assassinada  pela ditadura Argentina. Uma prova de ADN permitiu o encontro. Esta história faz-nos lembrar nos outros 400 desaparecidos. Foram, até agora, identificados 114 casos, mas alguns dizem respeito a situações em que as prisioneiras grávidas foram assassinadas pelos militares durante a gravidez. Muitos dos torcionários, torturadores demenciais, muitos dos responsáveis, Videla incluído, e outros generais, foram julgados e sofreram a prisão, mas a verdade é que na extensão dos crimes da ditadura Argentina nunca haverá castigo que pague a hediondez dos crimes. Esta história teve um final feliz e olhando o sorriso da avó e do neto, quase acreditamos que a esperança tem sempre razão. A determinação das Avós da Praça de Maio, a sua exigência de justiça, é um exemplo do que pode a vontade colectiva. E, por isso, este reencontro (e este movimento cívico) é muito importante para a reconstrução da memória histórica argentina.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

AS CRIANÇAS ROUBADAS PELA DITADURA

Emocionei-me, e confesso mesmo que uma lágrima furtiva lavrou o meu rosto, quando li os relatos da recuperação do neto de Estela de Carloto, presidente das Avós da Praça de Maio, que, há 36 anos, a ditadura do general Videla tinha roubado à família, num crime onde avulta a tortura e o assassínio dos pais, como acontecia sempre nestes casos. No vasto labirinto da ignomínia, que marca o sórdido período da ditadura Argentina (1976-1983), há um longo passivo de crimes contra a humanidade, cujo inventário, que nunca traduzirá os dramas humanos que as estatísticas comportam, ainda nos deixam, tantos anos depois, atónitos e desesperados pela demencial violência das histórias.
As Avós da Praça de Maio são um sublime exemplo de como é possível lutar pela memória, afirmando o primado da dignidade humana contra a bestialidade da violência e da morte. Então, as Avós da Praça de Maio, desde 1977, caminharam dias após dia, mês após mês, ano após ano, levantando o nome dos seus familiares, erguendo cartazes com rostos, exigindo saber o paradeiro dos seus netos, roubados às mães, durante a sua detenção. Essas mulheres, fragilizadas pela dor, deram não sei quantas voltas à Praça e tornaram-se um punhal apontado ao coração da ditadura. Nunca desistiram. Até agora, foram localizados 114 dos seus netos. Ainda faltam 400.
Muita água correu entretanto debaixo das pontes dos rios, Videla e muitos dos torcionários foram presos, julgados e condenados, mas sabemos que os crimes jamais serão saldados, onde estarão, perguntamos, os 30 mil desaparecidos, que a ditadura militar lançou sobre o mar ou sepultou em valas comuns?
Mas no tal labirinto da ignomínia, há notícias felizes. Trinta e seis anos depois, Estela Carloto (presidente das Avós da Praça de Maio), aos 83 anos, encontrou o seu neto, que se submeteu a provas de ADN para garantir a identificação. Buscou-o durante quase 40 anos. A história. Ela era professora  quando lhe mataram afilha Laura durante a ditadura. Laura e o seu companheiro pertenciam à organização guerrilheira Los Montaneros. Estela sabia que Laura estava grávida quando a detiveram e que tinha dado à luz um menino, antes de a assassinarem. Conta o "El Pais": "A ditadura levava dois anos de existência, quando, a 20 de Julho de 1978,nasceu Guido de Carlottono Hospital Militar de Buenos Aires. À mãe, apenas lhe deixaram estar cinco horas com o bebé.. Tinha 23 anos. Assassinaram-na dois meses depois".
Quantos crimes por desvendar.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

"MISSÃO CUMPRIDA..."

Ao mesmo tempo que Netanyahu proclamava "missão cumprida" e Israel retirava de Gaza, o "El Pais" publicava uma foto que traduzia todo o dramatismo dos 28 dias de guerra (chamemos as coisas pelo seu nome), em que morreram 1.14 palestinianos (1.312 civis), 64 soldados israelistas e foram destruídas infra-estruturas (como a hidro-eléctrica) essenciais à vida. De facto, a guerra situou-se na Faixa de Gaza, onde vivem 1,8 milhões de habitantes, dos quais mais de meio milhão de deslocados.
Mas estava eu a falar na fotografia do diário espanhol que, mais do que um detalhe da guerra, é talvez uma das melhores expressões de desumanidade e do absurdo deste nosso tempo em que o mal tanto se banalizou na forma de fazer por outros meios, isto é, pela guerra. A imagem, que reproduzo acima, tem a seguinte legenda: um homem leva à sua mulher o cadáver do seu filho de três anos, morto num ataque de Israel contra o campo de refugiados de Shati.
Um pedaço humano da "missão cumprida" de que se vangloriava o chefe do governo de Israel.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

CARLOS TROCOS

A crónica de hoje, no "i", de Artur Portela, é implacável retrato, a preto e branco, do governo, de Passos Coelho e do beneficiário Moedas. Com a ironia, que é marca distintiva dos textos de Portela, assim é esta crónica que analisa o bilhete de ida de Moedas para Bruxelas. Vale a pena ler. Sintomaticamente, o título é

CARLOS TROCOS
Após meses a reivindicar um acordo entre as maiores forças políticas, o PM escolheu, para comissário português em Bruxelas, o seu secretário de Estado adjunto. Já estão a caminho de Bruxelas, em mala diplomática, duas almofadas. De assento de cadeira
O primeiro-ministro reivindica desde há muito um entendimento interpartidário alargado sobre grandes questões que se colocam a este país.
Alegando que importa olhar, e decidir, para além da presente legislatura.
Fê-lo reiteradamente. Fê-lo após uma vitória eleitoral do maior partido da oposição. Fê-lo um pouco por todo o lado, em escolas, fábricas, sessões inaugurais. Explícita e implicitamente.
E eis que surge a necessidade da nomeação de um comissário português para Bruxelas.
Nessa perspectiva, o primeiro-ministro dialogou com o secretário-geral do maior partido da oposição sobre a matéria.
Cresceu, no país, a expectativa. Digamos que cresceu a esperança cultural e moral, aquela que os estadistas assumem e suscitam.
Esperar-se-ia que o primeiro-ministro aproveitasse esta oportunidade para ser consequente e demonstrar que vê longe. E grande.
Nomeando comissário alguém que exprimisse esse acordo, esse horizonte de mais de uma legislatura.
Que fez, que acabou por fazer, o primeiro-ministro?
Levantou-se da secretária.
Circulou-a.
Atravessou o gabinete, em quatro, cinco passos decididos.
Dirigiu-se a uma porta.
Porventura não a maior, não a mais alta, não a mais larga.
Baixou a mão para a pequena maçaneta.
E, rodando-a da esquerda para a direita, entreabriu a porta.
Silêncio.
E obscuridade.
Inclinou-se.
Enfiou a cabeça.
Girou-a, primeiro para a esquerda, depois para a direita.
O gabinete estava vazio.
Foi então que ouviu, atrás de si, uma voz:
- Estou aqui, sr. primeiro-ministro!
- Onde?
- Aqui! Aqui!...
Era ele.
O secretário de Estado-adjunto do primeiro-ministro.
Aquele vivaz membro do grupo português que negociou, não sem dificuldade, com uma troika que - e sabemo-lo agora, e por um jornalista confessor - começou por ser muito malcriada.
Estava sentado em frente da secretária do primeiro-ministro, havia, pelo menos, duas horas.
Sempre tapado pelas fotografias da Chanceler Merkel.
E o primeiro-ministro:
- A decisão está tomada, será você!
Neste momento, já estão, a caminho de Bruxelas, em mala diplomática, duas almofadas de assento de cadeira.
Corre que o Prof. Eduardo Catroga, esse terno panda gigante da política portuguesa, ao tomar conhecimento de quem foi o escolhido, teve um ataque. Ninguém percebeu se de choro se de riso.
Ele também não.

O FIM DO ESPÍRITO SANTO

Andaram a apregoar, o Governo e o Banco de Portugal, que o Banco Espírito Santo era uma instituição sólida, que todos poderiam dormir descansados, que não havia perigo de contaminações, que o Estado não poria lá um centavo, e tudo se resolveria na boa paz do Grupo, e afinal o colapso deu-se, e o mais poderoso Banco do universo bancário português caiu como um castelo de cartas. Para que o colapso não gerasse uma derrocada, o Estado não teve outro remédio senão intervir e injectar 4 400 milhões de Euros no BES, via Fundo de Recapitalização, e os outros Bancos a operar em Portugal entram com 500 milhões. E, como um passo de mágica, para fazer esquecer este pesadelo, o Banco Espírito Santo deixa de existir para dar lugar ao Novo Banco! Esta é, aliás, uma tendência muito portuguesa na política: rebaptizar. Até Marcelo utilizou esse expediente quando mudou a PIDE para DGS e a Comissão de Censura para Exame Prévio. Mas as malfeitorias continuavam, impunemente.
Depois do BPN e do BCP, o escândalo do BES é não só uma acusação à inoperância do Banco de Portugal, como dos examinadores da Troika e dos seus capatazes em Portugal, que eram uma espécie de deuses que tudo viam. Afinal, não viram nada e os rigores, pelos vistos, eram só para determinados sectores. O caso é ainda mais estranho e perverso porque surge depois da escandaleira do BPN... O Estado entrou com os 4.400 milhões e a dívida pública bem pode dilatar-se. As consequências, como sempre acontece, vão sobrar para os portugueses, que são sempre os pagadores da factura. Pessoa dizia que Jesus Cristo não percebia nada de Finanças, nem consta que tivesse biblioteca. O Espírito Santo, sim. Ricardo Salgado sabia muito bem o que andava a fazer e era uma espécie de santo intocável da ordem financeira, que agora está à porta do inferno, carregado de fraudes, burlas, falsificações. Estará?
Pedro Santos Guerreiro dizia, na edição do "Expresso": "O mal produzido pelo Espírito Santo à economia portuguesa e à sociedade é tão grave que a justiça deve investigar até a fortuna pessoal de Salgado, dos presentes de Angola às contas em Singapura".
Nunca Brecht teve tanta razão: o que significa o assalto a um banco, comparado com a fundação de um Banco?


domingo, 3 de agosto de 2014

O CRIME COMPENSA

Antigamente, para afastar de tentações maléficas os putativos malfeitores, havia uma retórica moralista que avisava os meliantes: "O crime não compensa!". Alguns, cediam ao aviso e iam dedicar-se a actividades menos perigosas. Outros, marimbavam-se para o discurso moral e envolviam-se na prática marginal daquelas actividades que dão que fazer a uma ou várias polícias. Mas neste universo muito especial há, sobretudo, os espertos que, iludindo a atenção dos carcereiros ou da justiça, fazem da impunidade um modo de vida, tratam da vidinha, envolvem-se em negócios e negociatas, às vezes de muitos milhões, servem-de do Estado como de um feudo pessoal, chegam mesmo à estranha categoria de "donos do país". É verdade que os escândalos estalam, com alguma frequência, como castanhas na boca, mas há sempre expedientes cozinhados por grandes advogados e vê-se a impunidade transformar-se em prescrições, o calabouço é para os outros, peixe miúdo apanhado pela crónica judiciária, gente fina é outra coisa... Aí temos os banqueiros, essa verdadeira nata criminal, para dar imagem particular do Portugal do vale tudo!
O crime, afinal, compensa, olá se compensa! Veja-se o caso de políticos, já não falo naqueles que são apanhados  na rede de patifarias do uso do poder em causa própria, que é coisa banal na sociedade portuguesa, mas daqueles que, pelas suas políticas, poderemos considerar meliantes, criminosos no sentido de lavrarem políticas que devastaram e devastam um país, as políticas "além da Troika", com os roubos que se conhecem nos salários e pensões ou reformas, na pobreza instalada como visita diária dos portugueses, no país transformado em território de "sopas de pobres" e da caridadezinha.
E o facto é que esses sujeitos até são premiados, na lotaria da política. Vítor Gaspar (já não se lembram dele?) que foi o deus da austeridade desmedida foi para director do FMI (ele foi um executor dedicado e fanático do Fundo Monetário Internacional) e o Carlos Moedas (nunca um nome se aplicou tão bem a um político...), que foi dedicado sacristão de Gaspar, vai para comissário europeu, escolha pessoal de Passos Coelho. Estamos entregues à bicharada.
Para todos eles, de uma forma ou outra, o crime, afinal, compensa!