quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O GOVERNO DOS CHUMBOS!

O Tribunal Constitucional chumbou os cortes de pensões e permite cortes salariais só até 2015. Na espiral de roubos aos pensionistas, que tem sido a imagem de marca do governo de Passos Coelho, esta é mais uma pesada derrota de um executivo que faz tábua rasa de quaisquer valores de de sensibilidade social, que abomina a humanização, que tem feito dos idosos um sector a abater. As medidas impostas aos pensionistas, ao longo desta legislatura, são uma espécie de tiro ao alvo -- o que o governo gostaria mesmo era de abatê-los (em morte suave - lume brando - ou mais lenta) ao efectivo. A "sensibilidade social" do governo de Passos Coelho tem sido só para o universo financeiro, onde se revela óptimo salvador de bancos falidos por via de grossas tramóias. O "Expresso" lembrava hoje os sucessivos cortes do Tribunal Constitucional: o Governo de Pedro Passos Coelho já enfrentou nove chumbos chumbos do Tribunal Constitucional.
Tanto chumbo já devia ter conduzido ao seu afastamento do Poder. Antigamente, bastava um estudante universitário chumbar três vezes - para ser obrigado a abandonar a universidade. No caso do governo, tem alvará para todos os chumbos, como tem infinito alvará para a estupidez...
Só num país em que o povo tem uma tradição pesadíssima de canga, como o nosso, tem sido possível os ocupantes do poder prosseguirem impunemente a devastação do país, iluminados, claro, pelo Espírito Santo.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

OS NOVOS HERODES

Vem dos confins do tempo a história da Matança dos Inocentes e, nela, um rei, Herodes, ficou para sempre com o lacre da ignomínia. O rei, com a aura de um poder absoluto, senhor de um exército poderoso, ficaria na história, simbolicamente, na galeria dos facínoras. Não falta imaginário à volta dessa categoria de criminosos de alto gabarito, cuja declinação do nome é suficiente para nos arrepiar. Alguns mataram milhões, celebrizaram-se pelas torturas e pelas valas comuns, ou pelas câmaras de gaz, que a arte da destruição do homem é diversa e intemporal. Curiosamente, porque a simbologia anda à roda da matança de crianças, o nome de Herodes é, por si mesmo, exemplo de execração pública. O que é espantoso é que essa carga simbólica, essa condenação ética e cívica, parece não emendar os homens, como agora se viu na guerra de Israel à Palestina, em que houve outra matança dos inocentes. Esta, não era pelo fio da espada nas gargantas das crianças, era mais operativa e massiva -- os bombardeamentos. Um crime que parecem ter esquecido os que, agora, nas mesas redondas das negociações acham natural o que o não é, mesmo numa guerra..
Quebrou este silêncio cúmplice, um comentário de Eduardo Maia Costa, no Blogue "Sine Die", que é escrito por magistrados qualificados. Escreve sobre os novos Herodes. Um pequeno comentário que é síntese perfeita do que se passou em Gaza: "400 crianças abatidas em Gaza supera largamente o anterior máximo do rei Herodes, que se terá ficado por escassíssimas dezenas... Não há palavras que possam traduzir o desastre para o povo martirizado de Gaza, nem para transmitir a indignação que a chacina suscita..."
Maia Costa tem razão: não há palavras.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

OBVIAMENTE, DEMITAM-SE!


As burlas do BES têm no comportamento do governador do Banco de Portugal e do Governo, uma outra burla. E esta, por questões éticas de responsabilidade ligada aos respectivos poderes, é imperdoável. Todos eles, se calhar acreditando mesmo no Espírito Santo, mentiram, deram garantias falsas sobre a solidez do Banco moribundo, sossegaram os contribuintes. Calma, que desta vez não serão esbulhados! Ingénuos, alguns acreditaram no Espírito Santo; outros, feridos nas falsas promessas, desconfiaram e ficaram de pé atrás. Passou algum tempo e logo se viu que as promessas do Governador e do Governo eram uma vigarice parecida com a do vigésimo premiado... O Estado entrou com os milhões, louvado seja o Espírito Santo.
Sobre esta questão, Artur Portela publicou hoje, no "i", uma crónica em que reclama a demissão de um e dos outros. Lembrando sempre o autor de "A Funda" e das suas pedradas certeiras, dou algumas vezes este meu espaço às suas crónicas. Razão fundamental: é que, no domesticado jornalismo português, elas respiram liberdade. E isso é quanto basta. Leiam o Artur Portela:

Sr. governador do Banco de Portugal e srs. ministros, obviamente, demitam-se!

O governador do Banco de Portugal garantiu a solidez do BES. O governo repetiu, em eco. Depois, foi o que se está a ver. Nem competência do regulador nem, de facto, o cumprimento da promessa do governo de que nós, contribuintes, não seríamos afectados, mais uma vez
Vamos imediatamente ao essencial.
O governador do Banco de Portugal garantiu, reiteradamente, sempre com o seu sorriso grisalho, que o BES estava sólido.
Não estava.
Nem está.
Há, para este comportamento do governador do Banco de Portugal, duas hipóteses explicativas.
A primeira é a de que o Banco e o seu governador ou são, ou foram em momentos precisos, incompetentes.
A segunda é a de que o Banco de Portugal e o seu governador foram insistentemente ludibriados.
Veja-se o governador brandir o labirinto do seu calendário.
As duas hipóteses são, assim, afinal, uma.
O Banco de Portugal e o seu presidente não podem ser ludibriados a este ponto. E tão reiteradamente.
Vejamos agora a responsabilidade que, em tudo isto, cabe ao governo.
O Sr.. primeiro-ministro e vários ministros, designadamente a Sr.ª ministra de Estado e das Finanças, declararam que as perdas do BES nunca se abateriam sobre os contribuintes.
Ora a solução encontrada, classificada de engenhosa, de imaginativa, a lembrar, com lobo e maçã envenenada, um conto negro dos Irmãos Grimm, é isso.
Responsabilidade financeira do Estado.
Logo, dos contribuintes.
Utilização de verbas adiantadas a Portugal, relativamente aos quais o País tem de pagar pesados juros.
Responsabilidade financeira do Estado.
Logo, dos contribuintes.
Nada, portanto, está seguro.
Definitivamente não, os contribuintes.
Perante tudo isto, o governador do Banco de Portugal e quantos constituem o governo, só podem comportar-se como pessoas de bem e de honra.
Ou seja, só podem assumir, perante os Portugueses, de forma clara, transparente e completa, as suas responsabilidades no caso.
E tirar as devidas consequências.
Dir-se-á que defender a demissão do governo e do governador do Banco de Portugal é uma violência populista e demagógica. Que temos de ser responsáveis. E pragmáticos. Temos de sopesar as vantagens e os prejuízos. Desde logo, em termos de estabilidade financeira. Ora é óbvio que as demissões do governo e do governador do Banco de Portugal teriam consequências algures entre o drama e a tragédia.
A pergunta a fazer é se não estaremos já entre a tragédia e o drama.
A resposta é: já estamos.
Outra pergunta a colocar é se essa assunção de responsabilidades não será a única coisa suficientemente reparadora e forte a fazer.
Já numa dinâmica de eleições antecipadas.
Ouça-se o que o presidente indigitado da Comissão Europeia disse numa conferência de imprensa, lado a lado com o primeiro-ministro grego, comparando a Grécia com Portugal. E declarando, perante a Europa, perante os mercados, que a Grécia não é frágil. Que Portugal, sim, é frágil.
Veja-se a imagem de Portugal financeiro e político que os media com expressão internacional transmitem e fazem circular.
O Estado português, com isto, e após isto, ainda tem o mínimo indispensável de dimensão ética?
De credibilidade?
A verdade é que a ética e a honra, se feridas, se fracturadas e expostas, exigem, digamos, pragmatismo moral.
Imediatismo moral.
O governo, obviamente, nunca se demitirá.
O governador também não.
Com efeito, parecem não perceber que - não assumindo as suas responsabilidades perante os Portugueses - estão, mesmo que julguem que não, demitidos.