sábado, 23 de agosto de 2014

MATARAM O POVO!

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Sempre me impressionou a forma arrogante como a grande imprensa (grande é como quem diz...), jornais e televisões tratam o interior do país e a ideologia acéfala que preside às narrativas. Naquelas cabecinhas reproduz-se uma ideia falsificada do país, é um pouco como se o interior fosse um longo cemitério a céu aberto. É verdade que há muita gente viva, mas o retrato do povo que facultam é o seguinte: jaz morto e arrefece. Se no plano da informação a actualidade é comandada, quase sempre, por questões sensacionalistas (fenómenos estranhos ou notícias de faca e alguidar) em trabalhos de reportagem (salvo raras excepções) é o mesmo minimalismo que domina e o registo avança sempre por caricaturas que distorcem gravemente a realidade humana do território. Às vezes, lembro-me de Lucaks (sobre a literatura) reclamando que já não havia realidade, mas apenas caricatura grosseira dela. Uma excelente crónica de António Guerreiro, no Ypsilon, do "Público", punha ontem o dedo nesta ferida, desmontando o significado de O povo da televisão. É uma análise certeira dessa caricatura, dessa realidade programadamente deformada, que se reproduz alegremente, e de que é urgente tomar consciência. Que povo é esse que os canais de televisão portugueses nos servem abundantemente? António Guerreiro responde:

"O espírito popular desapareceu”, escreveu Pasolini num dos seus textos de crítica e resistência ao presente. Quarenta anos depois, esta proposição tornou-se um axioma, mas de onde se ausentou o sentido que tinha para Pasolini: o de uma catástrofe. Desapareceu o espírito popular, mas os vários canais portugueses de televisão insistem, quase sem excepção, em construir um povo que não existe, mas cujo simulacro — pensam eles, os “produtores de conteúdos” televisivos — é telegénico que se farta e tem aquela qualidade tão apreciada pelos construtores de mentiras: o “efeito de real”. Trata-se daqueles programas, reportagens e concursos frequentados por pessoas que são submetidas à deformação pelos próprios apresentadores, repórteres e para satisfazer os ditames televisivos do expressionismo grotesco. O povo construído pela televisão é degenerado, ridículo, monstruoso. E os seus criminosos construtores têm nomes publicamente conhecidos e sucesso alargado: são as Júlias, as Luísas, os Joões, os Manueis e os seus directores de programas, produtores, chefes, empresários, até ao topo da hierarquia. Há o “povo” que vem aos estúdios dos programas da televisão (quase sempre um “povo” suburbano que já conhece bem os códigos da televisão e sabe imitá-los); e há o povo que a televisão visita no seu habitatnatural, geralmente os recantos profundos do país onde se vai em busca de arquétipos. Um e outro são descaradas mentiras, falsas construções que deformam até à degradação. Qualquer que seja o sentido da palavra, tenha ela um sentido sociológico e político ou aponte na direcção utópica da criação artística para a qual há sempre “um povo que falta”, existe mais “povo” em qualquer filme de Pedro Costa (um povo que vem, isto é, como o nome de Ventura) do que em todos os programas de televisão. O povo da televisão — e esse é o segredo da sua telegenia — coincide quase sempre com os pobres, os deserdados, os excluídos, os que não têm acesso aos centros do poder. Mas a televisão não concede ao seu povo existência política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge enquadrado num contexto ou num motivo políticos. Quantas vezes não assistimos já às câmaras a fazerem um grande plano sobre as mãos encarquilhadas, ou qualquer outra parte do corpo, do indivíduo do “povo” que se queixa de uma qualquer decisão — ou da ausência dela — dos governantes? Nesse momento, a pessoa é espoliada do seu estatuto político e ganha uma espécie de qualidade étnica. Já alguém deu por a televisão fazer um grande plano das mãos de um ministro? Já alguém viu, na televisão, as mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a não ser como instrumentos de gesticulação expressivo-didáctica? O povo da televisão não é representado como sujeito minoritário do corpo de todos os cidadãos. É visto, antes, como espécie castiça de um parque natural que fica longe, muito longe, da Comporta. Deste modo, este povo que a televisão reconstrói e deforma à medida das suas exigências tem alguns pontos de coincidência com o povo do populismo. Mas há uma diferença fundamental: o populismo dirige-se à classe geralmente excluída da política e que, por isso, não tem privilégios de sujeito político constitutivo, reclamando que essa classe é o único poder legítimo, é uma parte do povo como categoria política, detentor da soberania, que deve funcionar como a totalidade da comunidade. A televisão, pelo contrário, quer tudo muito bem arrumado nos seus lugares e que não se quebre a harmonia estabelecida no parque natural do povo."

Que país se pode permitir tal coisa? O escritor italiano, Elio Vitorini, escreveu um romance que intitulou "Consideram-se mortos e morrem". Por cá, consideram-nos quase mortos. O que fazem esses tipos, manipuladores de imagens e realidades, é uma execução sumária da autenticidade e da verdade sobre o povo. Ou não?

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

BARBÁRIE

Há momentos em que, vendo o mundo à nossa volta tornar-se território de infâmia e ignomínia, quase temo pena de existir por assistirmos a tanta banalidade do mal, a tanta sede de sangue, a tanta desumanidade à solta. Abrem-se os jornais ou ouvem-se os telejornais e lá está essa pústula de comportamento, como se os séculos de civilização, as conquistas humanistas, o louvor do homem como a coisa mais maravilhosa do mundo (Antígona), fossem coisa nenhuma e a intolerância e os crimes mais hodiondos habitassem como fatalidade os nossos dias.
Ainda agora pudemos ver em directo um desses exercícios sumários de assassinato de um jornalista americano por um fanático que falava em nome do califado islâmico. Vejo as imagens: o jornalista, com uma túnica vermelha, mãos amarradas, atrás das costas, tem o verdugo à sua beira, toca-lhe vagamente no ombro, numa mão tem a faca a degolação. Ele fala, encapuçado, faz ameaças e avisa que outro jornalista irá também ser assassinado. Foi assim o cenário do brutal assassinato de James Foley.
Um momento de barbárie, que nos deixa o coração suspenso. O quotidiano está cheio de coisas demenciais. Crianças bombardeadas, cidades destruídas, o inferno como destino. Que raio de tempo, que raio de animais, que raio de religiões inquinadas de fanatismo e de sangue. Quantas vezes pensámos que esta tipologia de acontecimentos eram registos passados da História.
Foi por isso que, uma vez mais, recorri ao fabuloso poema de Jorge de Sena, "Carta a Meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya", escrito em 1959. O poeta comoveu-se com o quadro do pintor chamado Goya com uma perplexidade fundamental que um dos versos contém: "Não sei meus filhos que mundo será o vosso..." A mesma angústia que, afinal, podemos repetir hoje, quando vemos canas como a do assassinato de um jornalista chamado Fowley.
Talvez valha a pena deixar aqui um trecho do longo poema de Jorge de Sena para pensarmos um pouco como o mundo está cada vez mais sujo.

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.


(...)


Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

NUNCA MAIS ESQUECEREMOS....

A desqualificação da política dilata-se com a infâmia da mentira. Não faltam medíocres travestidos de políticos a recorrer a esse estratagema, mistificando a realidade, na ilusão de que
os portugueses são idiotas ou perderam a memória sobre as angústias dos dias vividos. O primeiro-ministro tornou-se um verdadeiro mestre nessa arte da aldrabice saloia, acenando com artifícios verbais, ilusionista da propaganda, como se a realidade concreta da vida pudesse ser coberta com esse manto de fantasia.
Bem sei que o país está a banhos e não é este o melhor tempo para enfadar leitores com estas matérias políticas de circunstância. Mas o primeiro-ministro foi ao Pontal fazer um exercício de propaganda que os velhos mestres das ditaduras não desdenhariam. O problema é quando Passos Coelho cai no reles ardil de colocar os jovens contra os idosos, como se estes, pelo facto de viverem, lhes tivessem a roubar fatias de vida.
Ora, toda a gente sabe o que tem sido feito contra reformados e pensionistas. E os roubos só não têm sido mais gravosos pela vigilância do Tribunal Constitucional, que tem corrigido o governo como quem castiga meliantes que mexem nos bolsos das pessoas. È preciso lata para um sujeito, depois do que tem feito, ter vindo dizer, segundo conta o "Expresso", que "os pensionistas não merecem que todos os anos se tente fazer os que os outros não consentem que se faça". Sem nunca mencionar o Tribunal Constitucional, afirma o jornal, Passos deixa críticas à "estranha forma de ver a equidade e a solidariedade" de "quem pensa que só há verdadeiras reformas se não mexermos nos direitos adquiridos, apenas naqueles que estão em formação. Quer dizer só os jovens e quem está a começar a sua vida é que podem perder direitos, os outros não podem".
Cá está a infâmia da mentira que põe a política de rastos. Ele também lá disse, no Pontal, que "o dinheiro dos contribuintes não servirá para pagar os desvarios dos bancos". Claro, claro, sabemos de ciência certa como pagaremos com língua de palmo as benevolentes injecções de milhões que agora foram aplicadas ao escândalo do BES!
No Pontal, só uma coisa Passos Coelho disse certeira, que não admite discussão: "Foram três anos (de governo) que nunca mais esqueceremos". Nunca mais...