quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A POESIA, ÀS VEZES....


Nestes tempos cinzentos e rasteiros, em que os valores se arquivam nos sótãos do esquecimento, a poesia é, quase sempre, um bom motivo para nos reencontrarmos com a esperança. Olhamos para as coisas, paramos para ver os horizontes com outros olhos. Às vezes, basta um verso e fechamos os olhos para suspender a leitura.
Um dia destes, calhou-me voltar a Augusto Gil. Não falta quem o reduza à Balada da Neve, mas o poeta tem outros voos líricos e mesmo satíricos, cimo uma vez já aqui reproduzi. Caiu-me nas mãos uma bela edição do Luar de Janeiro, com desenhos admiráveis de Maria Keil, e logo a releitura fluiu, pois ali está plasmada toda a capacidade poética do autor, exímio na forma de poetar e na capacidade metafórica, qualidades que a sua poesia encerra.
Já para o fim do livro, encontrei um daqueles poemas que guardamos na memória por uns tempos e depois abandonamos até que um dia... o reencontramos, outra vez, em leitura ocasional. Lembro-me bem: o momento de deslumbramento era o primeiro verso que, dizem os poetas, é onde se inicia a contingência da criação poética. Esse verso é muito simples: boca talhada em milagrosas linhas....
Então no cinzentismo do tempo que nos vai cabendo em sorte, tão cheio de brutalidades e ofensas à dignidade humana, talvez seja bom sonhar como um dia fez Augusto Gil inventando Quando as andorinhas partiam...

Boca talhada em milagrosas linhas
A luz aumenta com o seu falar.

Esta manhã, um bando de andorinhas
Ia-se embora, atravessava o mar.

Chegou-lhes às alturas, pela aragem,
Um adeus suave que ela lhes dissera.

-- E suspenderam todas a viagem,
Julgando que voltara a Primavera.

Luz que eu colhi na releitura do Luar de Janeiro.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

"A CRISE NO BES E OS POBRES"


Enquanto o sr. João Carlos Espada, evocando "o saudoso Ronald Reagan", se inquietava com uma dicotomia teórica, "Combater a desigualdade ou a pobreza?", no mesmo jornal, "O Público", José António Pinto, que é assistente social, descia às questões terrenas da realidade social, com outro tipo de inquietações, bem mais prosaicas e próximas do nosso viver quotidiano.
De facto ele assinou um artigo, que considero notável pela profundidade da análise e pela clareza do pensamento, sobre uma questão que é muito identificadora da programação das desigualdades e da pobreza (duas faces da mesma moeda do governo) na sociedade portuguesa. O nosso assistente social coloca uma questão relevante: A crise do BES e os pobres. Na fugacidade do tempo em que a actualidade caminha e no excesso reprodutor de uma narrativa da informação, que se coloca ao serviço do poder dominante, comandado pela matriz financeira, deixando de lado a realidade social, com os seus traumas de margem e os seus dramas de uma pobreza avassaladora, é preciso questionar os critérios políticos que conduzem sempre à sobrevalorização dos interesses dos grandes conglomerados financeiros, explicitando uma solidariedade activa em relação aos desastres e aos escândalos, e à implacável destruição dos mais pobres, não havendo, para esses, um mínimo sentido solidário.
No fundo, é esse contexto que o artigo de José António Pinto releva ao interrogar: "Que interferência terá a actual crise do Banco Espírito Santo na vida das pessoas mais pobres que vivem em Portugal?" Ele responde e na resposta dá toda a expressão do drama social colectivo que atravessa a sociedade portuguesa:
"Esta catástrofe financeira, obscura, escondida, cheia de mentiras e truques, caracterizada por fraudes, favorecimento de credores, falsificação de contas, gestão danosa, entre outros expedientes, vai agravar ainda mais as miseráveis condições de vida dos meus utentes. As pessoas que vivem com insuficiência de recursos económicos e com grande dependência dos serviços sociais do Estado e das instituições particulares de solidariedade social não costumam ter conta no banco, não têm dinheiro para encher o frigorífico de alimentos, não têm dinheiro para comprar acções, não têm emprego. Não são accionistas, não são depositantes, não são clientes, não são funcionários do BES. São apenas beneficiários de Rendimento Social de Inserção, recebem 178 euros por mês. Se forem casados e tiverem três filhos, o valor do cheque pode chegar aos 350 euros." 
O autor do texto, com alguma ironia, estabelece depois uma relação com a tipologia diferenciadora das políticas do governo, em que desmistifica a demogagia com que as políticas de cortes sociais procuram confundir os cidadãos:
"Uma fortuna, uma pipa de massa, expressão recentemente utilizada por Durão Barroso. Para evitar que estas pessoas prejudiquem o Estado e desequilibrem as contas da nação, para evitar que os contribuintes através dos seus impostos não estejam a apoiar com esmolas quem não merece, quem não precisa, quem não quer trabalhar, quem não está em situação de emergência e aflição social, o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas fez uma lei de perseguição ideológica a estes pobres. A fraude existente na atribuição do rendimento mínimo é um escândalo, uma vergonha nacional, motivo de indignação por todos os que reclamam justiça e transparência na gestão de dinheiros públicos, segundo estes governantes perdem-se muitos euros que fazem falta a quem realmente está a precisar da ajuda do Estado. Sobre isto sempre defendi, como técnico do terreno, que é necessário combater todas as fraudes e irregularidades, no acompanhamento diário destas famílias sempre colaborei com os serviços de fiscalização da Segurança Social para evitar ilegalidades e desincentivar os utentes a adaptarem comportamentos desviantes de sobrevivência. Mesmo assim, a experiência profissional e alguns estudos académicos já publicados têm-me ajudado a perceber que, afinal, a fraude na atribuição do RSI é uma migalha insignificante, invisível, sem expressão no bolo que o Estado gasta no conjunto das prestações sociais. Também tenho percebido nesta ligação técnica às famílias que mais importante do que a fiscalização repressiva, estas pessoas desqualificadas, desmunidas dos principais recursos económicos, escolares, sociais e culturais, precisam é de oportunidades para saírem da medida. Precisam que a dÍvida à seja rapidamente renegociada e de emprego com direitos. Muitas recebem RSI e fazem biscates, porque só assim conseguem dar de comer aos seus filhos. Mesmo a trabalhar e com salário mínimo declarado, muitas famílias recebem RSI e não conseguem romper com o seu ciclo de pobreza. Para domesticar e humilhar estas famílias existe legislação, existe tutela, supervisão, fiscalização, vigilância, repressão. E castigo para quem mente, para quem engana o Estado, para quem se quer apropriar indevidamente do pouco dinheiro dos contribuintes que afinal é de todos. Sendo assim, tenho agora de perguntar o seguinte: por que razão este Governo é tão forte com os fracos e tão fraco com os fortes?Afinal quem mente, os pobres do RSI ou o governador do Banco de Portugal? Que mentiras provocam mais estragos ao país, as mentiras dos pobres ou as mentiras dos poderosos respeitáveis da alta finança? Afinal não existia no BES nenhuma almofada financeira para tapar os buracos do crédito malparado; afinal a crise no grupo sempre afectou o funcionamento do banco; foi necessário afastar da gestão do banco Ricardo Salgado; os testes de stress ao banco. A maioria dos desempregados em Portugal não tem acesso a qualquer apoio económico no período de desemprego. As escolas públicas continuam a funcionar com menos professores e técnicos para dar apoio a crianças com necessidades educativas especiais, os centros educativos não têm vagas para acolher mais jovens condenados, um grupo de organizações não governamentais, entre as quais a Amnistia Internacional e a Caritas Portuguesa, considera que não existe estratégia nem políticas sociais consistentes para combater a pobreza em Portugal. Em 2014, segundo dados do Instituto da Segurança Social, 20,8% dos beneficiários de RSI foram excluídos desta medida de apoio. Mais de 38 mil idosos perderam no mesmo ano o complemento solidário para idosos. Não há dinheiro para proteger as pessoas da pobreza e da exclusão social, mas há dinheiro para pagar as dívidas da família Espírito Santo. Há dinheiro para em 2014 gastar 511 milhões de euros nas rendas das parcerias público-privadas com derrapagem de 84 milhões de euros só nas parcerias rodoviárias".
Querem melhor retrato da fábrica de pobreza e desigualdades em que o governo tem transformado este país? Querem melhor imagem da desumanidade posta ao serviço das tais políticas ultra-liberais, de capitalismo selvagem que o Papa Francisco abomina e "o saudoso Ronald Reagan" (não é sr. Carlos Espada?) tanta amava. Uma espada sempre em riste sobre a cabeça dos pobres. Os novos condenados da Terra.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A ESTRELA!


Mais uma crónica de Artur Portela (é sempre às segundas-feiras, no "i"), a fazer lembrar as célebres "FUNDAS", com que Portela, às vezes, driblava a Censura. Na tradição da crónica no jornalismo português, Artur Portela figura entre os melhores. Enquanto dirigi o "Jornal do Fundão", até finais de 2012, Artur Portela este comigo, com "A Nova Funda", no combate de sempre: a desmistificação dos bonzos domésticos, a caricatura, a traço de fina ironia, do Portugal dos Pequeninos. O texto de hoje, de soberba ironia, é sobre Marinho e Pinto, a estrela ascendente na política portuguesa. Aqui a deixo, como um abraço forte ao Artur Portela, para o prazer da leitura aos frequentadores de "Notícias do Bloqueio":

HABEMUS MARINHUM!


Cada candidatura de António Marinho e Pinto é sempre a próxima. Quando votarmos nele para Presidente da República, já sabemos que ele vai para a Casa Branca. Se for para Papa, é a omnipresença de Deus que ele ambiciona. Nesse sentido, é antípoda de Jorge


Os bombeiros não se intimidam.
Seguem-no no firmamento.
De estrela em estrela.
Como ao Principezinho, de St. Exupéry.
Lançam escadas magirus.
Ele aí vai.
É António Marinho e Pinto, o ex-bastonário da Ordem dos Advogados.
Aquele que, enfiando-se pelas bocas dos canhões do circo Barnun, se dispara, Homem-Bala, sobre tudo que é candidatura.
Omnicandidato.
Ao Parlamento Europeu.
À Assembleia da República.
A primeiro-ministro.
A Presidente da República.
A presidente do Banco de Portugal.
A Banquo Bom.
A Banquo Mau.
A secretário-geral das Nações Unidas.
A presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos.
A presidente dos Estados Unidos.
A Papa.
António Marinho e Pinto frequenta a Gare des Grandes Destinées.
Onde se passeia.
Descendo o Cais 5, lado a lado com De Gaulle.
Subindo o Cais 7, lado a lado com Churchill.
Da última vez, não viu logo, em baixo, alguém correndo, miudamente, tropeçadamente, atrás dele, e a puxar-lhe pelas dobras das calças.
Era, de bagageiro, o dr. Luís Marques Mendes.
Justamente aquele que vai a todos os Conselhos de Ministros, na véspera dos Conselhos de Ministros.
De tal forma que o porta-voz do Conselho de Ministros, dr. Luís Marques Guedes, diz, melancolicamente, o mesmo, dois dias depois.
Perante o bocejo de uns poucos jornalistas, todos sintonizados para a SIC.
O bagageiro gritava, agarrado às dobras das calças de António Marinho e Pinto:
- É agora! É agora!
Apontava a montanha, que começava, logo ali, ao lado da Gare.
Pelo que António Marinho Pinto, não sem antes ter gritado a De Gaulle e a Churchill que fossem andando, que ele já os apanhava, subiu à montanha.
Para receber, de Jeová, as tábuas da Lei.
Mas imediatamente concluiu que era ridículo.
Que Jeová não era, sequer, advogado.
Sequer recepcionista de Júdice.
Pelo que, empurrando Jeová para um abismo, se candidatou a Deus!
Com o título, proposto pela doce Elina, de Supremo Bastonário do Universo.
No mínimo, com direito a fumo branco.
E ao anúncio, de janela alta, gritado pelo dr. Luís Marques Mendes, de Cardeal:
- Habemus Marinhum!
Para gáudio da Praça de S. Pedro.
O dr. Luís Marques Guedes gritava, atrás, que queria aparecer à varanda, pelo menos vestido de diácono.
Disseram-lhe que só depois do anúncio da SIC.
Do alto da montanha, De Gaulle e Churchill pareciam muito pequeninos.

domingo, 24 de agosto de 2014

A CHARADA


Marques Mendes diz, na sua missinha da SIC, que o Governo vai aumentar impostos.
Passos Coelho garante que o Governo não vai aumentar impostos.
Marcelo, no seu púlpito da TVI, diz  que só no orçamento do próximo ano.
Mas -- e nesta matéria dos impostos há sempre um mas...-- talvez enigma se aclare nas palavras do próprio Primeiro-Ministro, a insistências dos jornalistas. "Era muito fácil dizer: não há aumentos de impostos, mas não sei se é ou não possível. Não há nenhum Governo que goste de aumentar impostos e este em particular não gosta mesmo e se o fizermos é porque não há outra oportunidade".
Esperem-lhe pela pancada!