sexta-feira, 5 de setembro de 2014

COISAS DO MOEDAS

Quando sujeitos imaturos ou impreparados, com falhas graves de carácter ou outros aleijões morais, chegavam ao poder, a importância do mando subia-lhes à cabeça, embebedava-os de autoridade, de tal forma que eram habitualmente estigmatizados com o seguinte ferrete:
-- Àquele, o poder subiu-lhe à cabeça!
Outros gostavam de exibir essa monumentalidade, arrotando postas de pescada, exibindo o seu estatuto, como se tivessem sido ungidos pelos deuses. Então, esses mereciam uma sonora gargalhada:
-- Este tipo tem o rei na barriga!
São tipos que merecem desprezo e, se não fizessem as malandrices que fazem, até divertiam o pagode, que bem precisa de algum divertimento para desopilar das chatices quotidianas. A verdade é que não faltam situações que mostram o calibre de tipos que, embora pequenotes, se julgam super-homens da política. Esta semana a "Visão" trazia o seguinte comentário:

" Moedas ou Obama? Pouco antes de rumar a Bruxelas para ocupar o seu lugar de comissário europeu, o ex-secretário de Estado Carlos Moedas fez furor num conhecido restaurante do porto de Lisboa, uma casa outrora procurada pelos estivadores lisboetas, antes de serem "corridos" pela crescente frequência de VIP's (e pela subida de preços associada...). Com uma segurança aparatosa, com vistoria prévia ao local e esvaziamento das mesas em redor. Moedas parecia o presidente dos EUA. Bem, o local é também frequentado pelo superespião Silva Carvalho, que se notabilizou no caso Ongoing/PT/TVI. De filme!".

Cá está o traquino Moedas, que foi uma espécie de ordenança de Victor Gaspar nas políticas de desgraça, que gostava de ir além (muito além...) da Troika, a mostrar a sua face, e, sobretudo, a fazer o ridículo na exibição da sua importância, grávido de poder... Este Moedas (que nome tão bem escolhido!) já se julgava dono de Portugal, agora deverá pensar que também é dono da Europa! Que garotada...

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

LABORINHO LÚCIO


Coube-me, há meses,a sorte de apresentar o romance O Chamador, de Álvaro Laborinho Lúcio. Havia logo qualquer coisa de especial na circunstância do autor e do lugar da sessão cultural. O Fundão é um caso especial no percurso do dr. Laborinho Lúcio e, por isso, a minha fala naquele instante perdeu-se primeiro sobre os caminhos da memória e só depois mergulhou nas virtualidades ficcionais da narrativa.
No "retratíssimo"(Herberto Hélder) que então fiz, evoquei acontecimentos e destaquei a singularidade de um delegado do Ministério Público, chegado ao Fundão em finais dos anos 60, em tempo de dias tão sombrios e asfixiantes, ter percebido rapidamente a genética da terra, como se o seu ADN colectivo também lhe pertencesse. Olhei então para antigamente e para o dia em que o novo magistrado do Ministério Público chegou à terra, na geografia ocasional do seu percurso profissional. No universo do Tribunal da Comarca gravitava um homem, o sr. Rojão, que diziam na terra que não regulava bem da cabeça, ao mesmo tempo um pobre homem e um homem bom, que entrara na pele de espécie de mestre de cerimónias da instituição jurisdicional, ali passando a vida dando instruções e conselhos a quem chegava, cumprimentando este, aquele e o outro. Fazia parte da mobília e, como naqueles teatros em que a imaginação supera a realidade, ninguém se incomodava com isso. Pelo contrário, sorriam à boa paz das situações que o funcionário imaginário, como o doente de Moliére, criavam naquele quotidiano de regras e austeridade.
 O dr. Laborinhojá por mais de uma vez contou o episódio da sua chegada, Segunda-feira, dia de mercado na então vila, um formigueiro de gente por todo o lado. Quando se preparava para transpor a porta do edifício, o sr. Rojão saiu-lhe ao caminho e perguntou-lhe:
-- É o novo delegado, não é?
-- Como é que sabe? - inquiriu, surpreendido, Laborinho Lúcio.
-- É que os delegados são todos iguais! - respondeu o outro.
No seu posto de observador da navegação à volta do tribunal ele sublinhou apenas que era o novo delegado. Mas o Fundão depressa descobriu quem era o cidadão Álvaro Laborinho Lúcio. Estou a ver o novo magistrado a perceber a identidade da terra, na particularidade das suas vivências, nos seus detalhes humanos mais específicos, na matriz democrática do seu povo. Era qualquer coisa de novo ver o sr. Dr Delegado a encenar récitas de estudantes (uma das lembranças do romance), ensinando o a-bê-cê da arte dramática. Olho outra vez para o tempo, num flash-back apressado e vejo o sr. dr. Delegado envolvido em todas as actividades culturais, quando o “Jornal do Fundão", colocou o Fundão na mapa da cultura nacional. Eram, às vezes, acções claras de resistência, em louvor da liberdade, quando era proibido pensar em voz alta. O cidadão Laborinho Lúcio lá estava, na primeira fila. Vejo-o, também, sensível às actividades cívicas, num compromisso exemplar com a verdade dos factos e dos acontecimentos. Participava, com o mesmo empenho do coração, num jogo de futebol ou em actos culturais que sacudiam o burgo e inquietavam a ordem estabelecida, essa espécie de cemitério ao luar.
Hoje, penso que o Fundão teve muita sorte com a presença institucional e cidadã de Laborinho Lúcio e não é, por acaso, que ele manifesta um sentimento de pertença em relação à terra que o acolheu como seu e penso mesmo que esta, colectivamente, há muito o considera fundanense de parte inteira. De certo modo, ele já referiu essa condição em outros livros.
Mas O Chamador é um livro de ficção que o confirma como narrador e contador de histórias e de estórias, com uma original invenção verbal. O autor quis fazer do fio temporal que articula as personagens, uma declaração de amor ao teatro, que nele foi sempre uma grande paixão. São personagens à procura de um escritor. Em O Chamador é um encenador que as guia e lhes dá força romanesca, no conjunto de vidas individuais e de figuras resgatadas ao tempo que acabam por ter a dignidade de existência ficcional. É, também, um regresso a territórios da infância, ao mar, aos pescadores (Raul Brandão havia de gostar!), à gente comum que identifica a condição humana. Tudo numa escrita coloquial e de simplicidade que motiva o prazer da leitura. Vidas, pois, exercício de memória e de memórias, a matéria inquestionável de que se faz a boa literatura.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A MULHER DE CÉSAR JÁ NÃO COMOVE NINGUÉM!



Antigamente, dizia-se, como velha receita moralizante e morigeradora dos apetites devoristas da acção política, que os políticos deveriam ter a exigência ética colocada à mulher de César: não bastava parecer honesta, era preciso sê-lo. Onde isso já vai! O expediente, nos dias de hoje, parece uma coisa arcaica, que já não comove ninguém, muito menos os malandrins da política, que todos os dias reforçam e inovam as suas estratégias de corrupção e ladroeira. Os métodos são bem mais sofisticados e se hoje se recriminar alguém com o velho aforismo, o meliante, envolvido em vis negociatas, é capaz de afivelar a máscara da ingenuidade inquirindo, como um anjinho:
-- Quem é a mulher de César?
Ou, se tiver alvará de estupidez (o que muitas acontece com os sujeitos do poder) pensar que se trata da mulher do Júlio César, o guarda-redes que o Benfica contratou...
Tudo isto acontece, como recorrentemente se afirma e reafirma, dada a promiscuidade entre o poder financeiro e o poder político, onde chafurdam interesses espúrios, negócios de ocasião, informações privilegiadas fretes políticos que, depois, têm grossas compensações, prebendas de encher os bolsos com milhões, lugares de carteira gorda.
Ainda recentemente veio a lume uma notícia dessas, que eu transcrevo do "i": "O ex-secretário de Estado da Administração Interna saiu do governo em Janeiro alegando "motivos pessoais" e foi trabalhar pouco tempo depois para a sociedade de advogados que representou em tribunal a Everjets, empresa que impugnou e venceu um dos concursos públicos para fornecer meios aéreos ao Estado. O processo decorreu numa altura em que Filipe Lobo D'Ávila ainda era responsável pela pasta dos incêndios. Foi a Telles de Abreu e Associados, de que o ex-secretário de Estado é agora sócio, que defendeu a empresa de Famalicão num processo judicial movido contra o Ministério da Administração Interna (MAI), em que reclamava a alteração das regras do concurso. O Tribunal de Braga deu razão à Everjets, e decidiu que o MAI, através da Empresa de Meios Aéreos (EMA), modificasse as exigências de selecção. Pareceres jurídicos solicitados pelo governo recomendaram que se avançasse com um recurso e o conselho de administração da EMA chegou a deliberar nesse sentido. O MAI, porém, ignorou as recomendações e decidiu não recorrer da sentença que beneficiou a Everjets. A decisão implicou lançar um novo concurso sem as exigências iniciais. E, no fim, a empresa de Famalicão ganhou a adjudicação por ter apresentado a proposta mais baixa".
Isto tornou-se banal e a pouca-vergonha torna-se, assim, de consumo obrigatório na esfera do poder.
Nestes tempos de "vil tristeza", apareceram em cena sujeitos armados de uma respeitabilidade acima de qualquer suspeita, guardiões do rigor e da honestidade das contas, examinadores profundos da coisa económica. Acamparam em Portugal. E, ao fim destes três anos a que assistimos nós? Os examinadores da Troika (que aliás de se examinavam a si próprios e às suas políticas) deram sempre luz verde à política, garantindo que tudo estava bem e as contas irrepreensíveis. De facto, estava tudo bem, à excepção do escândalo e das burlas no grupo Espírito Santo e no seu Banco. Uma hecatombe!
Curiosamente, uma senhora emproada, Madame Lagarde, presidente do FMI, aparece, com alguma insistência, a falar da Europa e de Portugal, como os seus recadinhos de austeridade e de pobreza, aqui e ali com uma retórica de moralizante, com a ladainha das obrigações dos vassalos, como se dizia antigamente. É a mesma senhora envolvida num grandíssimo escândalo financeiro, em França quando era ministra de Sarkozy e granjeou a fama de grande especialista nas questões financeiras.
Ninguém sabe até onde irão os pecados inconfessávcis da senhora Lagarde, mas uma coisa sabemos já: a sua reacção foi "não me demito!"
Aqui está outra que não pratica a exigência do aforismo da mulher de César!