sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A CRISE E O FUTURO


O Prof. João Caraça publica hoje, no "Público" um notabilíssimo texto, que intitulou "Crítica da razão impura". Num tempo em que o pensamento único lavra caminho para impor a ideia da inevitabilidade do capitalismo e se olha a crise como uma fatalidade inescapável, o Prof. João Caraça enquadra historicamente a crise e projecta-a no futuro, ainda que, como dizia o outro, o futuro seja muito tempo. "Creio que o capitalismo como sistema histórico encontrou o seu fim (o que não quer dizer que desapareça de hoje para amanhã) e que Francis Fukuyama se enganou redondamente ao não qualificar o seu "fim da história" como "o fium da história moderna", escreve João Caraça. "A acumulação (pretensamente) infinita de capital financeiro intangível já não engana nem seduz ninguém --  é apenas mais um eldorado estafado cujos destroços atravancam o caminho do futuro. Futuro esse que aos olhos de hoje parece tão incerto e complexo como o "Destino" que assombrava as mentes dos nossos antepassados de Quinhentos".
O físico e professor universitário considera que "a crise revela apenas a transição; a complexidade traduz a magnitude da transformação" pois "esta "crise" é civilizacional" e "o período à nossa frente é de luta sem quartel". O Prof.João Caraça articula uma questão com a actualidade portuguesa, que anda na ordem do dia: "No meio disto tudo, quem eram os Espírito Santo? Ninguém, tal como o romeiro da célebre peça de Almeida Garrett. Uns desenraizados, vivendo (estes sim) acima das suas possibilidades, apenas porque nos anos 80 a CIA e um ex-embaixador americano entenderam que o governo português devia trazer uns cacos das antigas elites financeiras da paróquia para legitimar a reprivatização da banca. Sem controlo de qualidade. Claro que ia dar asneira. Uma má educação sai sempre cara".
O Prof. interroga-se sobre "o que poderemos então antever". E responde: "O século XVII viu o aparecimento da ciência moderna -- e todo um mundo novo começou a fazer sentido. Assim esperemos  que aconteça, no decurso mais ou menos longínquo deste século. Só podemos aspirar a que a bifurcação por onde estamos a enveredar seja a de uma nova ciência e a de uma educação que nos voltem a encantar com o que descobrirmos no universo da vida".

ESCÓCIA: A ESCOLHA CRUCIAL



No próximo dia 18, joga-se a independência da Escócia. Lá, como em outros territórios -- lembramo-nos logo da Catalunha --, há raízes históricas fortes que sustentam o desejo colectivo de independência. Neste caso, não é só o mapa tradicional do Reino Unido (e da Europa) que mudará; os acontecimentos da Escócia incendiarão outras vontades independentistas, que reclamarão o voto para decidir o seu destino.
O jornalista Sena Santos (em O Mundo por Francisco Sena Santos) fez uma admirável crónica em que perspectiva os efeitos imediatos da independência escocesa, que vale a pena ouvir. Ora, escutem:A ESCOLHA CRUCIAL DOS ESCOCESES.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

CHICOTADA PSICOLÓGICA

Paulo Bento já não é seleccionador nacional. A chicotada psicológica acaba de ocorrer numa tentativa de fazer renascer a esperança no  mundo da bola, o que acontece sempre que um treinador é despedido por indecente e má figura. É a vida, como dizia o outro.
Não deixo de pensar como seria salutar que, em outros sectores da vida nacional, se operassem chicotadas psicológicas. Por exemplo no governo, onde o líder Passos e o seu "balneário" também poderiam ser despedidos por indecentíssima figura. Mas para isso era preciso que o presidente da nação seguisse o exemplo do seu congénere da federação. Mas ele invoca sempre a desculpa de estar mal informado sobre as jogadas... Mas lá que um "chicotada psicológica" dessas  abria um horizonte de esperança aos portugueses, lá isso abria...

O TACHO


Há coisa de um ano, Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário da Tvi, aconselhava com veemência, na sua forma subtil de dar a táctica (ou a estratégia), ao clube dele, o PSD: "Passos e Portas façam desaparecer Hélder Rosalino!". Marcelo criticou então com impiedosa ironia (ah! aquele sorriso malandro...), "o inefável secretário de Estado da Administração Pública chamado Hélder Rosalino" por ter comentado "as reformas dos juízes do Tribunal Constitucional". E, pouco depois, de facto, o cinzento Hélder Rosalino desapareceu da circulação.
Mas já reapareceu. Tomou hoje posse como administrador do Banco de Portugal! Passos Coelho não esquece os amigos, e, mais uma vez,premiou a mediocridade de um secretário de Estado, venerador e obrigado.
A super-estrutura que é o Banco de Portugal ameaça tornar-se, assim, numa espécie de albergue espanhol, onde se juntam alegremente desempregados do governo, como já acontecera com Vítor Gaspar.
Em que é que tudo isto é relevante, perguntará o leitor, lembrando-se decerto de que os governos sempre foram lugares de transumância para tachos chorudos. Dizia-se, até, já no tempo da ditadura, que ir para o governo não era para ter uma pasta, mas para vir a ter uma posta. O que é relevante nesta forma de fazer política, em tempo de democracia, é que os mandantes continuam a gerir a coisa pública como um feudo pessoal, distribuindo prebendas à sua clientela, mesmo que isso ponha em causa a credibilidade das instituições.
Isto não é, nem mais nem menos, do que mais uma facada no lombo da doente democracia portuguesa.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

E OS SUCATEIROS DAS FINANÇAS?

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Parece que o país ficou atónito com os 129 anos de prisão aplicados aos arguidos do "Face Oculta". Deixando de lado muitas peripécias que a Justiça-espectáculo ofereceu, há que reconhecer a singularidade de, entre os condenados, figurarem um ex-ministro e alto responsável de instituições financeiras e um ex-presidente da REN. O inedetismo das sanções tem a ver, também, diga-se, com a habitual complacência da Justiça face aos poderosos, ao poder financeiro, a muitas ligações perigosas entre a política e os negócios, à superfície, ou mesmo debaixo de água, em submarinos.
Andam por aí muitos, envolvidos em esquemas diabólicos no espectro financeiro, como o BPN (de matriz cavaquista) ou o BCP, a fabricar habilidosas prescrições, e ainda hão-de ir todos -- espera-se que não -- gozar os rendimentos em paraísos fiscais ou turísticos ou a tomar chá em Cabo Verde ou no Brasil!
Espera-se, pois, que a severidade aplicada aos sucateiros do "Face Oculta", não fique por aqui e se aplique, também, aos sucateiros das Finanças, alguns mixordeiros da política, e que todas as manigâncias desses banqueiros do diabo não se dissolvam como o mistério do Espírito Santo. Esperemos...

terça-feira, 9 de setembro de 2014

DOENTES DO PAÍS


Com a derrota face à Albânia (será que Durão Barroso, lembrado dos velhos tempos, gostou?), está instalado o drama nacional. "A Bola" titulava, ontem: "Portugal está mesmo doente e a culpa não é do médico..." Não poderia estar mais de acordo com o diagnóstico, mas a doença não é do futebol, mas do país. Aquele espectáculo dos jogadores arrastarem a sua miséria pelo campo, sem estratégia e sem comando, era a metáfora perfeita do Portugal actual: abúlico, sem vontade cívica, guiado por um primeiro-ministro teimoso e indiferente à desgraça colectiva.
De facto, o país está doente e nós todos doentes do país. Não há selecção que nos salve...

domingo, 7 de setembro de 2014

O ÚLTIMO MOICANO


O artigo que, ontem, Pacheco Pereira publicou no "Público" é menos um acto de futurologia política do que uma análise ponderada ao contexto pré-eleitoral que vai marcar um tempo onde avultarão múltiplas contradições ideológicas, e, sobretudo, a marcação do terreno futuro pelos partidos da coligação. O texto antecipa, também, um retrato de Passos Coelho nas circunstâncias políticas que moldarão a sua política. Vale a pena ler, por exemplo, ler este trecho: "

"Este “ano” vai ser particularmente estranho, bizarro, confuso, caótico. Pode utilizar-se um só factor explicativo – é um ano pré-eleitoral, logo o eleitoralismo é o principal factor explicativo do que acontece, dissolvendo todos os outros. Ele não os faz desaparecer, mas dilui-os num ácido muito especial, a demanda pelos votos. Mas há outros factores que perturbam esta explicação única. Há a situação da coligação, com dois partidos que precisam um do outro desesperadamente e que se detestam. Começa em Portas e Passos Coelho – e as personalidades contam muito em política – e termina na lógica dos aparelhos a precisar de contabilizar todos os lugares disponíveis nas listas de 2015, com a forte retracção previsível. Continua naquilo que Passos Coelho e Portas consideram deixar como “obra” na hipótese, mais que provável, de que não continuem a governar. Ambos estão a olhar para a sua “imagem”, ou seja, para o seu futuro imediato e a prazo. E também o que “vêem” é diferente e isso afecta a dose de eleitoralismo e a dose de “ajustamento”. Passos Coelho terá a tentação de ser o último moicano europeu da política Merkel, persistindo sem olhar a efeitos nas mesmas medidas de austeridade, aumento de impostos, ataque ao Estado, com os mesmos alvos de sempre, para criar uma Singapura europeia. Ele escolheu essa identidade e para outras não presta, outros são melhores.
Passos Coelho colocou-se inteiramente ao lado dos credores internacionais e da política que, via Troika, formularam para Portugal. Tem sido recompensado por isso, tem recebido alguma complacência pelo esforço, com o fechar de olhos ao cumprimento imperfeito de todos os mais importantes objectivos do memorando, porque é como era Gaspar e é Maria Luís. Ele não quer perder essa glória de Cavaleiro do Ajustamento, até porque não tem outra e isso faz com que nele a pressão eleitoralista seja contraditória. Ele é pragmático e conhece a “casa”, tem que a aceitar, mas quando pensa na sua “obra” olha mais uma vez para os de sempre, para a perseguição aos “piegas”, o que provoca a fúria de Portas, que percebe que isso não tem futuro.
O CDS e o PSD recusarão tal politica pura e dura e vão obrigá-lo a ceder, como já aconteceu com os aumentos de impostos. E ele cederá às segundas, quartas e sextas e resistirá às terças, quintas e sábados. A grande tentação que os une a todos, PSD e CDS, porque é fácil, é empurrar para 2016 todos os problemas estruturais que são incapazes de resolver e todos os novos que criaram irresponsavelmente. Quem vier depois que se amanhe e eles acham que não são eles. É este tipo de pulsões diversas que se manifestarão, darão origem a medidas contraditórias, sem nexo, de arranques e recuos, que caracterizarão este ano. Quem for para a análise com uma única grelha, seja a do eleitoralismo, seja a da persistência no “ajustamento” por razões ideológicas, vai-se enganar. Por isso, este vai ser um ano excelente para o incidental e péssimo para qualquer consistência, bom para o comentário da semana onde não sobrarão “factos”, nem “notícias”, mas péssimo para qualquer esclarecimento público que privilegie a racionalidade. O caos é o caos e não há maneira ordenada de o descrever. E como a comunicação conta muito, será no modo como tratará o que está a acontecer, que muito se joga. Aliás, praticamente todos os agentes políticos voltar-se-ão ainda mais, se é que isso é possível, para tentar impor a sua “narrativa” aos media, o que no contexto do infotainment/em dominante é cada vez mais fácil".

Mas Pacheco Pereira coloca uma questão que muitos gostariam de ver esclarecida. Diz ele: "Imagino como seria bom (...) que alguém perguntasse a Passos Coelho, na vinda da sua reunião da NATO, se vai haver um reforço do orçamento da defesa para ser credível a retórica sobre a Ucrânia? Ou que alguém fizesse uma peça num telejornal mostrando como os critérios estatísticos do desemprego são mais fiáveis quando o desemprego sobe do que quando desce. Ou que investigasse o que são os estágios de formação que retiram milhares de nomes das listas do desemprego e que instruções dá o Governo ao Instituto do Emprego e Formação Profissional, uma das áreas mais controladas partidariamente no Executivo. E porquê? Ou que perguntasse a Passos Coelho depois do discurso do Pontal, em que disse “eu não tenho nenhum problema com os aposentados (…) mas o país tem!”, qual é o problema que o “país” tem com os aposentados? E por aí adiante. Mas isso não acontecerá: haverá caos, setas para cima e para baixo, cinismo, aceitação da linguagem da “inevitabilidade”. Quem manda, agradece."
Cinismo, diz ele. Parece que já ninguém tem saudades do futuro.