sábado, 20 de setembro de 2014

FISCALIDADE VERDE

Conversa de café, à hora da bica:
-- Já sabes que vem aí a fiscalidade verde?
-- Então, mas eles não andam a prometer aliviar a canga de alguns impostos?
-- Sim, mas estes são verdes...
-- Boa, deve ser para lixar os gajos do Sporting!

GILDA E OS CRISTAIS DE SAL


Por uma destas manhãs de Setembro, ainda cheias de sol e céu azul, fui repetir a visita ao Museu do Sal, na Figueira da Foz, em Armazéns de Lavos, na Salina Municipal do Corredor da Cobra. Gosto de passar por lá: é uma memória viva de uma actividade que já foi dominante na região e hoje ainda agrupa meia centena de produtores.Estes projectos, que se revêem muito na memória e na história local, só se realizam plenamente quando respiram um dinamismo próprio, inspirado pelo entusiasmo dos que lá trabalham, com paixão e amor.
O Museu é municipal (núcleo do Museu Municipal Santos Rocha), vive decerto sem a abastança de outros, mas cumpre uma função pedagógica em louvor da memória e da história do sal, que já foi um elemento vital da economia da região. O que há de fascinante neste Museu é que, para além do espaço museológico tadicional, onde se faz através de imagens e de palavras a narrativa da produção do sal, há o outro museu, cá fora, a céu aberto, que é um repositório do ciclo do sal no tempo da sua própria produção.
O sol estava forte e o sal, disposto em pequenos montes, era como uma multiplicidade de cristais que brilhavam. No grupo que trabalhava as salinas, sobressaía uma jovem, que comandava os outros e sorria à faina. Era um universo de trabalho muito especial, um duro ofício de paciência, no meio de uma calmaria reconfortante na sua relação com a Natureza, que tem, ainda por cima, sinfonia de pássaros e plácidos flamingos numa lagoa, ao lado.
Uma paisagem assim convida à conversa. Gilda, assim se chama a jovem que vive o Museu com paixão, explica tudo com uma grande fluência. As qualidades do sal da Figueira, o processo de produção e até um pequeno arbusto que debrua as salinas, a salicórnia, que é excelente para a gastronomia. Gilda licenciou-se em arquitectura em Coimbra, fez uma tese sobre a Morraceira, a sua ilha, onde tem uma salina que produz o excelente sal Sal com Amor q.b. (que se vende, como outros produtos na loja do Museu), mas já não tem esperança de vir a fazer arquitectura. Faz também agricultura biológica. Interrogo-me por que trabalha ali. Ela esclarece: "Prefiro ganhar aqui o ordenado mínimo do que ganhar isso num gabinete. Sou mais feliz, aqui!" Falta uma monografia. E ela, com um sorriso: "Quem se abalança?" Eu queria dizer-lhe que poderia ser ela. Mas logo me desengana: tem outras vidas. E, depois, penso eu em voz alta, no país analfabeto quem apoia ou dá bolsas para isso?
Gilda é uma imagem de Portugal, penso eu, quando me despeço. A senhora arquitecta já está outra vez com os pés na salina ("o que gosto mesmo é de andar aqui com os pés descalços!"). Apesar de tudo, sorri. Prometo voltar em Março e Abril colher salicórnia (chamam-lhe também espargos do mar). "Nessa altura é que ela está tenrinha!"

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

OS PASSA-CULPAS



A sociedade portuguesa, tão massacrada pela incapacidade política, assiste atónita aos efeitos devastadores dessa incompetência em áreas tão importantes como a Justiça e a Educação. Face ao descalabro e ao clamor social provocados pelos ministros Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz, sempre tão arrogantes na sua sapiência, criou-se, agora, uma nova estratégia política para fazer face aos problemas: pedir desculpa. Como no tempo em que os garotos na Primária se envolviam em zaragatas ou extravasavam dos limites impostos ao comportamento, e o Professor os obrigava a pedir desculpas perante a turma, assim agora os ministros, como se a coisa pública fosse uma brincadeira de crianças, safam-se do imbróglio e da acção incompetente com ar beato e um pedido de desculpas. Nesse tempo, todavia, quando a borrasca era grande e a asneira não podia ser escondida, o mestre escola levava os autores pelas orelhas ou colocava-lhes, até, umas orelhas de burro para a execração ser completa e eficaz.
Era isso que os ministros mereciam: orelhas de jumento, com desculpa para os animais que eles não têm culpa da burrice governamental. Mas não. Eles limpam as mãos à parede da incompetência e ficam felizes para prosseguirem as suas políticas deletérias conta o povo. Exibem um ar de arrependimento, penitenciam-se e dizem que vão investigar, pois há sempre um legítimo inferior para arcar com as culpas do cartório. Ora, eles são os responsáveis primeiros -- os responsáveis políticos que caucionaram o desastre.
Paula Teixeira da Cruz, depois dos tribunais não poderem funcionar, diz que não foi o caos! O caos, para ela, seria certamente que os edifícios fossem dinamitados ou dois ou três boeings se despenhassem contra os Palácios da Justiça de Lisboa e arrredores...
O ministro da Educação, sempre com aquele olhar de carneiro mal morto e a vozinha de sacaninha manso, diz que tudo vai entrar na normalidade, isto é, na organização dssorganizada que é o seu ministério.
No meio do anedotário político, está Passos Coelho que assobia para o lado, enquanto procura os justificativos da sua fiscalidade falhada!
Que país!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O VELHO

Drummond: mestre da Crónica
Não me canso de reler as crónicas de Carlos Drummond de Andrade que, há mais de 30 anos, tinha a rara felicidade de escolher para publicar no "Jornal do Fundão". Guardo-as comigo e, de vez em quando, vou ao seu encontro, como se quisesse reconfortar-me a  mim próprio, para sair, por momentos, do círculo cinzento que o país nos oferece como desgraçado horizonte único. Então, no prazer da leitura, num tempo em que tanto se fala por cá nos idosos como segmento a abater, descubro O Velho, escrita em 1982, e aí fico suspenso de uma narrativa de tanta humanidade, como só um poeta com a sensibilidade de Drummond poderia ter escrito. Leiam O Velho. É uma bofetada em todos estes tipos do governo e da política besta que apenas vêem os mais velhos como gente descartável e sem futuro. Leiam e pensem.


O Velho
Carlos Drummond de Andrade

Vocês não acreditam, mas também este cronista costuma ir ao Banco, e não é só para pagar contas de luz, gás, telefone. Vai conversar com o gerente -- um gerente simpático, desses que não coçam a orelha quando a gente propõe uma segunda reforma de título. Mas quem sou eu para pleitear tamanha mercê? Procuro o gerente para conversar sobre amenidades, e ele me ouve com paciência e atenção. Até me conta coisas de seu filho, o Escritor. O Escritor tem três anos e escreve literalmente em todas as paredes da casa. Fareja livros com gravuras e sem gravuras e aprende coisas que eu, possivelmente, ignoro. A curiosidade intelectual do Escritor é insaciável. Assim fazemos do Banco, sem prejuízo dos interesses bancários (pois o gerente é uma fera para trabalhar no meio das maiores apoquentações) um lugar de grato repouso.
Ontem o gerente estava tão assoberbado de clientes, papéis, telefonemas, recados, que não tive coragem de me aproximar. Fiquei à espera na poltrona, ao lado de dois rapazes que também esperavam. Esperavam e conversavam sobre política, inflação, Copa do Mundo. Eu ouvindo por força da proximidade, sem interesse. A certa altura, um perguntou:
— E como vai o Velho?
— Meu Velho? — respondeu o outro. Aquele vai sempre bem. Melhor do que eu, você e todo o mundo.
— Qual a última dele?
— Não tem última. Todas são novas e contínuas. Aos sessent'anos (sessenta e lá vai fumaça), nada, corre, entra em pelada, monta, joga volei e só não rema porque não encontra companheiros com a mesma fibra, para disputar regata. Enquanto isso fuma e bebe.
— E...no resto?
— No resto ele ainda é de goleada. Parece mentira, mas as mulheres adoram o Velho, e ele capricha para dar conta do serviço.
— Quantas vezes ele já casou?
— Perdi a conta. Quatro ou cinco, se não me engano. Ou seis. O extraordinário é que nenhuma das ex se queixa dele, todas que conheço continuaram suas amigas e, de um modo ou de outro, dão a entender que o desempenho dele era cem por cento. Sabe de uma coisa?
— Sei. Você tem inveja dele.
Tenho. Pra que vou mentir? Meu primeiro casamento não deu certo, o segundo menos ainda. Então desisti, agora sou free-lancer. Mas com o Velho é diferente. Todos os casamentos funcionaram.
— Então, por que acabaram?
— O Velho tem uma teoria que casamento não pode esfriar e virar rotina. Antes que isto aconteça, ele passa uma conversa manhosa na gatona (é especialista em gatonas) e o último episódio da novelinha é vívido sem choro nem briga. Um sábio.
— Um mestre.
— É como eu costumo chamá-lo. Ele responde que não tirou diploma e que todo mundo, se for habilidoso, tira de letra. Tem dias que chego a me preocupar: «Mestre, olha essas coronárias!» Ele ri, não dá confiança de responder. «Mestre, não tem medo de negar fogo?» Aí então nem se dá ao trabalho de me olhar; faz que não ouviu. O Nuno, meu irmão mais velho (irmão de pai e mãe, do primeiro casamento) fica besta de ver tanta resistência e diz que o Velho não existe, que nosso pai é a Energia Cósmica em pessoa.
— E teus outros irmãos?
— Os outros? Deixe ver... Somos quatorze irmãos, espalhados no mundo. Todos adoram o Velho, aliás o Nuno também. Falei quatorze, mas só Deus sabe quantos haverá por aí, desconhecidos da gente. Nem o Velho sabe.
— Algum de vocês puxou a ele na vitalidade?
— Uns fazem força, não creio que consigam. Esse negócio não comporta imitação. Ou bem que o cara nasceu com alegria de viver e gozar a vida, ou nasceu sem isso, e não tem vitamina que ajude. Claro que sempre há margem para performances individuais brilhantes, e o normal é a gente ser bem sucedida — até certo ponto, o ponto X. Mas o Velho excede a marcação. Nunca vi ninguém tão identificado com o Mundo e a mulher, as coisas agradáveis da vida. Sem contar vantagem — isso é importante. Não se vangloria de nada. Vive plenamente.
— Quer dizer que ele dá nó até em pingo d'água?
— Não faz outra coisa. Bem, vou indo. Nosso amigo gerente ainda não se desenvencilhou daquele cara, e eu prefiro voltar depois.
— Espera mais um pouco.
— Não posso. Tenho de ir a um batizado.
— Essa, não!
O Velho está me esperando. Me escolheu para padrinho do seu rebento mais novo. Tenho um irmãozinho de dois meses, não te contei ainda? Ciao.



domingo, 14 de setembro de 2014

LEMBRAR AQUILINO

Aquilino por Abel Manta
Leio o artigo de António Valdemar, no "Público" de ontem, sobre Mestre Aquilino ("Aquilino, o regresso há cem anos") -- uma magnífica evocação do grande escritor -- e não posso deixar de pensar que o silêncio que tem pairado sobre a sua obra é bem um retrato do país menor em que Portugal se tornou. Valdemar faz, no seu texto, uma reconstituição dos passos e da vida dos exílios de Aquilino em Paris e da importância que esses dias tiveram na construção da sua obra ficcional, desde Jardim das Tormentas, o seu primeiro livro. É muito curiosa essa evocação topográfica de aquilino em Paris, os lugares e os ambientes vividos, o mundo cultural que o autor de O Malhadinhas frequentou na capital francesa, a aprendizagem de cultura e cidadania que recolheu, como experiência fundamental, dos três exílios franceses.
António Valdemar desenha, depois, o seu percurso em Portugal, após o regresso, e lembra aquilo que é o sinal da grandeza de Aquilino como grande criador e intelectual, desde os anos de professor no Liceu Camões, na Biblioteca Nacional ou na Seara Nova, por exemplo, onde fez parte do grupo fundador.  Lembra Valdemar: "Mas na sequência do Jardim das Tormentas, Aquilino vai escrever e publicar, durante meio século, 60 obras que marcaram a língua e a literatura portuguesas: 17 romances; dez volumes de novelas e contos, livros de crónicas, ensaios, biografias, traduções, contos para crianças e jovens".
No país do esquecimento, só os imbecis e analfabetos podem menorizar a obra de Aquilino Ribeiro, um construtor da Língua de primeira grandeza. Era bom que alguém lesse nas escolas secundárias umas páginas das obras de Aquilino para situar o prazer da leitura como elemento central da cultura. Quem poderá ficar indiferente ao Malhadinhas, à Casa Grande Romarigães (aquelas páginas iniciais do nascimento da floresta são qualquer coisa de sublime), à Aldeia, Terra, Bichos, cuja dimensão antropológica da memória é, por si só, um deslumbramento?
Por mim, não me canso de regressar aos seus livros. Como dizia Miller: eles estão vivos e falam comigo!