sábado, 4 de outubro de 2014

A VACUIDADE DE PEDRO MANUEL

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
O artigo que António Guerreiro publicou ontem no "Ypsilon", do "Público", é uma psicografia do Primeiro-Ministro Passos Coelho. Um retrato psicológico profundo. O texto intitula-se "O Pedro Manuel", sujeito de uma longa observação e a síntese é uma imagem vazia, "uma fanrasmagórica vacuidade". Vamos então saber a história psicológica deste Pedro Manuel que, por acaso, é Primeiro-Ministro de Portugal:

"Observemos o nosso primeiro-ministro, para além da contingência do cargo que ocupa e das manigâncias ocultas do seu passado; observemos como ele se revelou desde o primeiro momento, para além dos gestos e dos discursos oficiais e protocolares; observemo-lo como figura ou tipo e chamemos-lhe Pedro Manuel, como se fosse uma personagem literária — um Bloom de Joyce, um Mr. Teste de Valéry, um Franz Biberkopf de Döblin, um Marcovaldo de Calvino", começa por escrever António Guerreiro. "O nosso Pedro Manuel tem traços de todos eles, mas não coincide inteiramente com nenhum. Tem escassas potencialidades romanescas, mas consegue oferecer matéria suficiente para um diagnóstico epocal, na medida em que é o triste produto do tempo do homem-massa e o engendramento catastrófico do fim de todos os encantamentos políticos, ideológicos e sociais".
"É o homem liso, da platitude inerente às formações de uma sociedade homogénea", diz o autor. "Se tem alguma aura, é a aura pornográfica da massa contemporânea. É o homem alienado? Não, é o homem da condição estatística, da indiferença, da impessoalidade. A sua presença é tão espectral que não é possível ver nele senão a presença de uma ausência. E até a sua voz de barítono, mas sem grão, e o tom de recitação com que debita são desprovidos de corpo e de mistério. Enquanto figura ou tipo, isto é, naquilo que tem de comum a tantos outros à sua volta e lhe absorve qualquer pretensão de singularidade, o Pedro Manuel é a encarnação do “último homem” de Nietzsche, sobre o qual se abateu a pobreza inerente a um niilismo completo. É, digamos assim, um homem pós-histórico, que vive como se estivesse desde sempre morto. Pedro Manuel é o nome de um homem anónimo que surgiu não há muito tempo à superfície do planeta, um homem sem substância (o que não é exactamente o mesmo que o “homem sem qualidades”, de Musil, que era ao mesmo tempo um conjunto de qualidades sem homem). É um representante perfeito da pequena burguesia planetária que herdou o mundo e da qual um eminente filósofo disse que ela era a forma sob a qual a humanidade vai ao encontro da sua destruição".
O retrato amplia-se na parte final: "Esta pequena burguesia, na realidade, não é uma classe, é apenas uma massa. Enquanto governante ao mais alto nível, é legítimo pedir-lhe contas sobre o seu passado, mas exigir tal coisa ao Pedro Manuel é completamente inadequado: ele não tem mais espessura do que aquela que o confina a um eterno presente. E há-de morrer como alguém que nada aprendeu, em que o “não quero nada, não sei nada e não tenho nada”, muito embora pareça coincidir com um altíssimo conceito de pobreza, de amplitude metafísica, que vem da Idade Média, do Mestre Eckhart, corresponde antes à miséria do Nada que se mascara. É uma fantasmagórica vacuidade que traz consigo uma única mensagem: nada nos pode defender da trivialidade, da proliferação daninha de Pedros Manueis. A condição política de onde eles emergem é destituída de toda a grandeza, incaracterística, triste como a carne e sem sinais luminosos que assinalem o nosso horizonte. O contrário desta condição, o homem que devemos opor ao Pedro Manuel, não é aquele que foi tantas vezes solicitado pelo culto dos heróis e que vem para se erguer acima dos outros, para os guiar. A nova pobreza de que o Pedro Manuel é o nome não deve ser erradicada em nome de nostálgicas grandezas, a única coisa que devemos exigir é não sermos espoliados pelo Nada e determinados pela condição póstuma do último homem, que infelizmente não encarnou apenas no Pedro Manuel. Pedro Manuel é nome de legião e Massamá é o espaço interior do mundo".

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

NO PAÍS DOS ALDRABÕES


Sucedem-se os capítulos de mais uma versão da arte de roubar relativamente ao caso dos submarinos. Vejam estas declarações, que transcrevo do "i", de Ricardo Salgado. Vale tudo no país dos aldrabões:

“E vocês têm todo o direito de perguntar: mas como é que aqueles três tipos receberam 15 milhões? A informação que temos é que há uma parte que não é para eles. Não sei se é ou não é. Como hoje em dia só vejo aldrabões à nossa volta... Os tipos garantem que há uma parte que teve de ser entregue a alguém em determinado dia.”

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

SUBMARINOS E COMISSÕES


Conversa de café, à hor da bica:
-- Afinal os submarinos ainda não foram ao fundo!
-- Não me digas que agora andas, outra vez, a jogar à batalha naval...
-- Nada disso... são os submarinos do Portas!
-- Então, isso não foi já tudo arquivado, na Assembleia e na Justiça?
-- Foi o "i". O Ricardo Salgado já pôs a boca no trombone e veio dizer que a "Família Espírito Santo recebeu 5 milhões de comissões dos submarinos"!
-- Não me digas uma coisa dessas.
-- Digo, digo... E até mais. Ouve o Ricardo Espírito Santo: "Deram-nos 5 milhões a nós e eles (os administradores da Escom) guardaram 15 milhões". E parece que ainda há mais um que também embolsou grossa maquia.
-- É um fartar vilanagem...
-- Que o Espírito Santo me ajude, se ele por aqui estiver...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O ARREPENDIDO!


Conversa de café, à hora da bica:
-- Sabes que o Moedas, hoje, respondeu perante o Parlamento Europeu. como novo Comissário? E sabes o que eu ouvi? Que também ele esteve muitas vezes contra a a política da Troika...
-- Não me digas que ele disse uma aldrabice dessas, ele que era mais troikista que a Troika e um cão de fila de Vitor Gaspar e das políticas de austeridade!
-- Sim, só lhe faltou dizer que esteve na manifestação daTSU e andou de punho erguido nas manifestações da CGTP, ao lado do Arménio Carlos...
-- Tão pequenino e já tão aldrabão!
-- Mas ele não é o Moedas? Então, money, money, money... como dizia a canção dos Pink Floyd

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

"A CLÍNICA DA MEMÓRIA"


Mais uma notável crónica de Artur Portela no "i". Eça tinha razão. Não há melhor eficácia crítica do que uma boa gargalhada. E, de facto, na política à portuguesa, a caricatura e a ironia, face ao descrédito das instituições da política ele própria, merece bem esta inteligente crónica de Portela. No fio da navalha da ironia, o país no seu pior. Ora, leiam:

"A Procuradoria-Geral da República ou a Clínica da Memória

O autor não se lembra de coisa nenhuma. Daí recorrer à Procuradoria-Geral da República, secção Clínica da Memória. Eis aquilo de que não se lembra. Uma coisa, porém, continua a tentar recordar. A questão de, confirmando-se que se cruzou com Miguel Relvas,

Ex.ma Sr.a Dr.a Joana Marques Vidal.
M.I. Procuradora-Geral da República.
Minha Senhora
Não sabendo que a Procuradoria-Geral da República se dedicava, não apenas àquilo que, supõe-se, a Lei lhe determina, e que é muito, e ainda bem, mas também a recuperar memórias, e tendo tomado conhecimento de tal, nestes últimos dias, e de forma copiosa, pelos noticiários e pela opinião publicada, venho, respeitosamente, solicitar que a Procuradoria me esclareça quanto aos seguintes pontos:
1. Onde nasci?
2. Quais eram os nomes de meu pai e de minha mãe?
3. Tive irmãos?
4. Quantos?
5. Como se chamavam?
6. Quem é o dr. António de Almeida Santos?
7. Em que escolas estudei?
8. Quem é o dr. Jorge Coelho?
9. Cruzei-me, alguma vez, ao longo do ano de 2009, com Miguel Relvas?
10. E no biénio 2006-2008?
11. E antes?
12. E depois?
13. Se sim, quantas vezes?
14. Levávamos, Miguel Relvas e eu, chapéu?
15. E, se sim, tirámo-lo, em saudação, Miguel Relvas a mim, e eu a Miguel Relvas?
16. Ou, sendo eu que levava chapéu, e Miguel Relvas não, fiquei sem ele?
17. Quem é o sr. dr. João Soares?
18. Quem é o dr. Fósforo Ferrero?
19. Quanto auferia, eu, do Estado, no triénio 2006-2008?
20. E no triénio anterior?
21. E triénio posterior?
22. E auferia o que auferia em euros ou em escudos?
23. E em cheque ou por transferência bancária?
24. Quanto é que o Estado auferia, de mim?
25. E auferia-o em escudos ou em euros?
26. E por transferência bancária ou em cheque?
27. Que vem a ser uma declaração de IRS?
28. Quem é o sr. dr. Mário Soares?
29. Quem é o dr. Almeida Garrett?
30. Quem é o dr. Miguel Relvas?
31. Eu próprio sou eu?
32. E sempre fui?
33. Se sim, em exclusividade?
34. Qual é o meu nome completo?
35. Onde trabalho?
36. Onde vivo?
37. Quando subo a Calçada da Estrela, em que rua corto?
38. E corto à direita ou corto à esquerda?
39. E subo ou desço?
40. De que porta é esta chave estranhíssima, que levo no bolso das calças, e que, constantemente, me morde nas pernas?
Em função do exposto, venho solicitar a V.a Ex.a que me mande seguir, permanentemente, por agentes da DCIAP. Não por qualquer eventual culpa minha, que não recordo de todo, não, suponho, por haver qualquer investigação em curso que me envolva, mas para que eu não me perca.
Com a expressão da minha mais elevada consideração, apresento a V.a Ex.a, sr.a dr.a, os meus respeitosos cumprimentos.
(Não consigo grafar o nome de V.a Ex.a por o ter, entretanto, perdoar-me-á, esquecido!)

Artur Portela.
Escritor e jornalista.
Escreve à segunda-feira no "i".