sexta-feira, 10 de outubro de 2014

"CHOLDRA DE LADRÕES", DISSE AQUILINO


ILUSTRAÇÃO DE SÁ NOGUEIRA
De vez em quando, para sublimar o prazer da leitura, regresso a Mestre Aquilino, cuja obra é sempre um mundo aberto à aprendizagem e ao conhecimento da Língua. É verdade que só os grandes construtores da pátria idiomática, na grandeza da suas diversidades, são capazes de construir obras que, pela invenção da prosa, se tornam imemoriais. É isso que reencontro sempre em Aquilino e nas suas palavras mágicas, e só num país de analfabetos podem surgir sujeitos, que não são outra coisa senão pigmeus, a tentarem denegrir a obra do Mestre ou a confiscá-la ao convívio das escolas e dos mais jovens. O que se aprende nos seus livros, das novelas e dos romances aos ensaios! Quem pode ficar indiferente ao seu prodígio de narrador, sempre inigualável na sua arquitectura verbal, como se pode verificar em livros tão extraordinários (e só cito alguns) como A Casa Grande de Romarigães, Aldeia - Terra, Gente, Bichos, O Homem da Nave ou Terras do Demo? E O Malhadinhas, essa extraordinária novela de um herói pícaro como não há outro na literatura portuguesa? A abertura, que é retrato do herói, vejam bem, é logo uma sinfonia:

"Danado aquele Malhadinhas de Barrelas, homem sobre o meanho, reles de figura, voz tão untuosa e tal ar de sisudez que nem o próprio Demo o julgaria capaz de, por um nonada, crivar à naifa o abdómen dum cristão. Desciam-lhe umas farripas ralas, em guisa de suiças, à borda das orelhas pequeninas e carnudas como cascas de noz; trajava jaleca curta de montanheque; sapato de tromba erguida; faixa preta de seis voltas a aparar as volutas dobradas da corrente de muita prata -- e, Aveiro vai, Aveiro vem, no ofício de almocreve, os olhos sempre sempre frios mas sem malícia, apenas as mandíbulas de dogue a atraiçoar o bom-serás, as suas façanhas  deixaram eco por toda aquela corda de povos que anos e anos recorrera. Na velhice, o negócio tilintado através de gerações, as andanças de recoveiro, o ver e aturar mundo, tinham-no provido de lábia muito pitoresca, levemente impregnada dum egoísmo pândego e glorioso. Nas tardes de feira, sentado da da banda de fora do Guilhermino, ou num dos poiais de pedra donde já tivessem erguido as belfurinhas, alegre do verdial, desbocava-se a desfiar a sua crónica perante escrivães da vila,e manatas, e eu tinha a impressão de ouvir a gesta bárbara e forte dum Portugal que morreu".

Pois estando a ver as tropelias e as aldrabices do governo, a começar pelo seu chefe, Passos Coelho, Crato e outros que tais, na prática continuada de vilipendiar o povo, fui encontrar nas páginas de O Malhadinhas palavras que pareciam ter Mestre Aquilino adivinhado a posteridade. Diz o nosso herói, quando a vida está no ocaso:

"E também vos digo, baixinho que ninguém nos ouça, eu sou o último cá na terra a ter medo do inferno. Sabem os meus fidalgos, eu só queria ser rei um dia. Um dia não seria cabonde; mas uma semana. Se fosse rei uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal.Uma fogueira em cada oiteiro para os ministros, os juízes, osescrivães e os doutores de má norte. Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr um matacão em cima.Uma choldra de ladrões!".
E, logo mais adiante: "Rais partam o Governo, mailos governados, rais partam tanto tributo com que a gente de bem há-de ustir para andar aí meia dúzia de figurões, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos! Rais partam! O governo é um corpo da guarda que nos defende ou é a quadrilha do olho vivo que não faz senão roubar?"

Danado aquele Malhadinhas de Barrela

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

UM ABRAÇO PARA O BASTOS


Algumas vezes, aqui reproduzi crónicas do Baptista-Bastos, que ele escrevia, às quartas-feiras, no "Diário de Notícias". O fio de palavras que ele ali tecia interrompeu-se ontem, com um "Ponto final", que é o título do seu último texto, ali. Num país eticamente exemplar, onde a liberdade nos jornais não estivesse refém de esquemas puramente financeiros, um escritor e jornalista com os pergaminhos de Armando Baptista-Bastos não seria tratado desta maneira. Mas por cá vale tudo fazendo lembrar o desabafo de Unamuno quando soube do suicídio de Manuel Laranjeira: em Portugal só o que é pulha triunfa! Ora, que se passa, cada vez mais, no universo difuso da imprensa é um discurso apostado em não bulir contra a conveniência ideológica do poder ou dos poderes instalados, uma retórica que gosta de celebrar o unanimismo à volta da voz do dono e de ler o país com o "manto diáfano da fantasia", longe da realidade social. Num espaço assim, tão diluído na curvatura da espinha dorsal, é fácil identificar e apontar a dedo as vozes incómodas, que não têm medo de pensar em voz alta e de praticar a indignação cívica como corolário lógico do pensamento colectivo do país. Foi isso que aconteceu com Baptista-Bastos. No seu "ponto final", ele escreveu: "Honro-me de ter participado no projecto a que já não pertenço por motivos a que sou alheio. Fui posto fora, mas não das palavras. Vou com elas, velhas amantes, para aonde haja um jornal que as queira e admita a indignação e a cólera como elementos de afecto, e sinais de esperança, de coragem e de tenacidade."
Ao Baptista Bastos, conheço-o parece-me que desde sempre, seguramente desde que os jornais se tornaram para mim uma inquietação. E, desde então, não foi só uma camaradagem que as palavras consolidaram numa fraternidade cultural, foi também a amizade, a solidariedade, a presença nos instantes que julgamos primordiais no decurso de uma vida. Sempre presente, o BB, com a acutilância do seu pensamento e com a beleza da sua prosa. Num tempo em que as administrações estão cheias de analfabetos -- alguns, sei de ciência certa,  não lêem livros e duvido também que frequentam a leitura atenta de jornais! --, que peso têm a prosa límpida, a vivacidade das ideias, a densidade cultural, actualizada e actualizante da escrita? No caso do BB, ele foi sempre alguém que, com a sua prosa imediata nos jornais, contribuía para que o jornalismo fosse alguma coisa mais do que a palavra efémera, isto é, conferia bastas vezes às suas narrativas o esplendor da literatura.
Apetece-me lembrar, nesta altura, a ligação do BB ao "Jornal do Fundão", enquanto jornal de António Paulouro, desde o tempo do Suplemento "Bastidores", na década de 50. Escreveu belos textos no jornal, que ele considerou "uma catedral de palavras".  Acompanhou-me sempre, até que, em 2012, eu abandonei a direcção do jornal. Também eu sei das subtis pressões para que o BB deixasse de ser colaborador! Que só dizia mal, que era preciso um tipo desses que vão à televisão a debitar loas e palmas ao governo. E eu: o BB é essencial, pertence ao património dos que fizeram grande o jornal, do Saramago ao Drummond de Andrade. E a conversa ficava por ali.
Hoje, lembro-me, até, de uma vez em que um desses sujeitos cinzentos, me disse, como se o BB tivesse cometido um pecado:
-- No outro dia, vi-o no Solar dos Presuntos!
É celebre aquela resposta do Luís de Sttau Monteiro, quando um sujeito quis fazer ironia com ele, por tê-lo encontrado num restaurante caro de Lisboa. Sttau Monteiro respondeu-lhe, simplesmente:
-- Ai você julgava que isto era só para estúpidos!
Vamos deixar de ler o BB, às quartas-feiras. Há quem pense, nos jornais, que os leitores são estúpidos vivendo na ilusão, como o tipo do restaurante fino, que são só para estúpidos. Estão redondamente enganados.
Ao BB, aquele abraço!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O TRIUNFO DA CANALHICE


Leio a crónica de Almudena Grandes, no "El Pais" em que ela se queixa que as coisas vão tão mal que cada dia é mais difícil vermos a nossa imagem reflectida no espelho. "cada dia custa mais tomar o pequeno almoço com os escândalos das oito da manhã", diz a cronista. 
Aqui e agora, também temos uma imensa pena de nós próprios pelo que vai acontecendo ao país. E, infelizmente para nós, os escândalos não surgem apenas nos noticiários apressados do começo da manhã, mas prolongam-se pelas vinte e quatro horas do dia, e, às vezes, penso mesmo que eram precisas mais horas para fazer o inventário das desgraças do dia. Persistentemente as notícias de escândalos financeiros, de corrupções à roda do poder, de espertezas saloias antigas de políticos, a começar pelo chefe do governo, de tudo aquilo em que chafurda a incompetência de ministros, como no caso da colocação de professoras ou do caos na Justiça em que o país fica de pantanas. Nem Passos diz uma palavra sobre isto, nem o Presidente Cavaco, agora tão preocupado com o regime e a qualidade da democracia, dá um ai ou tem chelique. Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato passam sorridentes por entre os destroços do país que eles produziram irresponsavelmente.
Vejam o imbróglio que Crato, o sábio do "eduquês", a sumidade que tudo resolvia, arranjou no início do ano lectivo! Professores colocados e deslocados, e, logo, desempregados, com a vida às costas, de escola em escola, escolas de portas fechadas, milhares de alunos sem aulas.
Em qualquer país civilizado, que aferisse os ministros e os governos pela sua responsabilidade política, estes ministros (e talvez também o seu chefe) já tinham levado um chuto no cu, no meio da execração pública que a sua incompetência tem produzido. Mas tudo se passa no Portugal manso da pesada canga sobre o povo,  no Portugal da anemia cívica amplificada ao absurdo, no Portugal  da indiferença face à vida colectiva. A fatalidade do ser português é este aceitar da desgraça assobiando para o lado, este fatalismo como se os deuses tivessem manipulado um destino em que a canalhice triunfa. O Crato e a Teixeira da Cruz continuarão tranquilamente a rir-se de nós. O veneno corre nos noticiários de todas as horas. Até que um dia...

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CAVACO E O FIM DO REGIME

ILUSTRAçÃO DE ZÉ DALMEIDA
Ontem, alguns dos que assassinaram a memória da República, desclassificando o 5 de Outubro através da supressão do feriado nacional, juntaram-se à volta da bandeira e do hino em mais uma celebração post mortem.  Lá estavam os rostos fechados de dois desses responsáveis, Cavaco e Passos, decerto com o espírito de quem estava num velório.
O mais surpreendente das celebrações foram as palavras do Presidente. Leu um discurso -- que ele ou alguém por ele fez -- e não esteve com meias medidas: como quem desembarca de outro planeta, chegou à Câmara de Lisboa e avisou a navegação: vem aí "a implosão do sistema partidário português!". Como o Senhor avisou Noé para salvar as espécies no bojo da Arca, assim ele advertiu para esse dilúvio que aí vem e mandará ao ar o regime, de que ele, Cavaco, ainda é o chefe.
De facto, ao prever o apocalipse, Cavaco Silva mediu o tempo e os astros, e zurziu o chicote da crítica sobre o comportamento dos indígenas. "Os portugueses são dos povos da União Europeia que demonstram maiores níveis de insatisfação com o regime em que vivem", disse ele, como se no fio temporal da história portuguesa recente o homem do leme no governo, durante dez anos, e outros tantos como Presidente da República, fosse estranho ao problema, não tivesse sido obreiro maior "da insatisfação com o regime" em que se vegeta. E daí a sua visão de "implosão do sistema partidário português". Na identificação das causas para esta desgraça. ele identificou "os efeitos de uma das mais graves crises que teve de enfrentar nas últimas décadas", a falta de cumprimento de promessas, a desconfiança nas instituições, a ausência de reforma do sistema política.  A actividade política, "passa a ser vista como um sinal de carreirismo e de oportunismo associado, com frequência, a um percurso de vida inteiramente situado no seio dos partidos". Assim ocorre o "bloqueio pelos aparelhos partidários e a tendência para a demagogia e o populismo". A solução deste estado de coisas radica, segundo Cavaco, no aprofundamento da qualidade da democracia.
O que ocorre perguntar é o que fez Cavaco Silva, nos seus longos consulados, para o aprofundamento da qualidade da democracia, qual foi a exemplaridade dos seus magistérios, que passos deu para evitar"a insatisfação como o regime"? Lembrem-se o universo do cavaquismo e os negócios, os artistas principais do filme -- os Dias Loureiros, os Oliveira e Costa, as traficâncias de acções do BPN em favorecimento da família... -- e a forma como sua excelência pôs sempre a mão por baixo aos desvarios troikistas de Passos Coelho, Portas & Companhia.
Cavaco avisou que vem aí um dilúvio. Noé, se por cá estivesse, esquecia-se dele e dos seus apaniguados. Não tinham lugar na Arca...