sexta-feira, 17 de outubro de 2014

ATÉ AS CRIANÇAS, SENHOR!


Na sua incapacidade para compreender a realidade, Passos Coelho, arrebatado pelo clima comicieiro do Pontal, fez aquela pergunta retórica que, no seu caso, foi um autêntico hara-kiri. Encheu os pulmões de ar para perguntar aos patetas que o aclamavam, cotejando o antes e o depois do seu governo: "Estamos pior ou estamos melhor?"
Viu-se logo que se tratava de insanável estupidez político. Que outro primeiro-ministro, a servir a Troika como fiel criado, depois de ter arrasado o país numa desgraça que as palavras não podem traduzir, com salários baixos, desemprego, cortes na Educação, na Saúde e nos elementares direitos sociais, depois de ter devastado a vida e a honra dos reformados e pensionistas, se atreveria a tal loucura?
Ainda agora, leio nos jornais ou oiço nas televisões que há, em Portugal, dois milhões e meio de pessoas estão em pobreza material. Os dados provisórios do INE assinalam, também, a subida da pobreza entre famílias com crianças a cargo, desempregados e menores de 18 anos. Uma injustiça que atinge, duma forma directa, as crianças ("porque lhe dais tanta dor?") e os mais jovens, como já, antes, a pobreza se tinha banalizado entre os idosos, como se tivessem cometido o crime do prolongamento da esperança de vida.
Aqui está uma resposta concreta ao tolo do primeiro-ministro. "Estamos pior ou estamos melhor?"
Estamos péssimos!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

UM HISTORIADOR


Vejo num diário de Lisboa, o anúncio apressado, da morte do eng. Manuel da Silva Castelo Branco.  Presidente da Câmara de Castelo Branco, antes do 25 de Abril, não poucas vezes, eu, jovem jornalista, o critiquei, ou, o que é pior, tratei a sua política local com desarmante ironia. Marcelo abrira relativamente o crivo da censura, em relação às câmaras municipais, e no meu caso, que fazia a reportagem das sessões camarárias no Fundão e em Castelo Branco, tratava aqueles microcosmos, com os tiques provincianos da política, reportando os dizeres dos actores políticos que, muitas vezes, convergiam em gargalhadas. Lembro-me, até, do então ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, ter visitado a capital do distrito, e ter dito, no salão nobre, com pompa e circunstância, que "se as câmaras não prestavam a culpa não era do governo!". Era, era!
Veio o 25 de Abril e o eng. Manuel Castelo Branco (que também fora professor do ensino secundário) rumou a Lisboa. Manteve sempre uma postura discreta, mas o que revejo nele, à distância do tempo, era a extrema educação, que era nota do seu convívio com todos. A mim, apesar das críticas, tratou-me sempre com amizade e os dissabores nascidos das palavras, se porventura os houve, dissolveu-os sempre naquela explicação de que "era o papel da imprensa".
No entanto, em Lisboa, o eng. Manuel Castelo Branco entregou-se, com paixão, à investigação histórica sobre matéria regional. Na Torre do Tombo ou em outros arquivos, pacientemente, descobriu elementos importantes para a história local e regional, estudou pessoas e nomes, vilas e cidades, terras, ajudou a construir a nossa biografia colectiva. O seu estudo sobre "As Fortalezas Situadas no Extremo de Portugal" é de referência. Castelo Branco e a região devem-lhe essa atenção e a cidade (penso que por iniciativa de Joaquim Morão) atribuiu o seu nome a uma praceta.
A última vez que o vi, foi nas Jornadas de Medicina, promovidas pelos drs António Salvado e António Lourenço Marques, que enriqueceu com matérias da sua investigação. Mantinha sempre uma grande sobriedade quando falava das suas coisas, das investigações que realizava.
Penso que ele um dia me disse ser natural da Orca.
Vi agora o anúncio apressado da sua morte e penso que o eng. Manuel Castelo Branco merecia este memento, este aceno de simpatia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Óh, DA GUARDA!


Conversa de café, à hora da bica:
-- Ouviste o Crato...
-- Não me digas que pediu a demissão, por indecente e má figura?
--Qual o quê! Disse, na Assembleia da República, que para o ano, isto é, o próximo ano lectivo será preparado de forma mais atempada e não haverá experimentalismos"...
-- Ele disse isso?
-- Sim, e ninguém rebentou às gargalhadas...
-- Então, quer dizer que ele não só está como estará...
-- O crime compensa!
-- Óh, da Guarda!

terça-feira, 14 de outubro de 2014

CRATO VAI NU NO PAÍS AO CONTRÁRIO


Nuno Crato é o rei que vai nu (embora ele não veja) no país-do-faz-de-conta. Faz lembrar aqueles que, com a cidade sitiada, continuam a discutir o sexo dos anjos, como se mais nada se passasse à sua volta. Ele é um actor espantoso. Faz uma cara séria, e, na ficção que lança sobre a realidade, para enganar tolos, finge que no meio do naufrágio, com o navio a pique, está tudo controlado e a situação é firme.
Já não sei se é o país-do-faz-de-conta, onde todas as impunidades são possíveis, ou se é o país de pernas para o ar. O país ao contrário, foi o que me pareceu hoje, enquanto a televisão transmitia a audição do ministro Crato, na Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República. Leu, primeiro, um papel, em que colocava a Educação e a Ciência, debaixo do seu mandato, no paraíso. Tudo bestial, rankings para aqui e para ali, por via de ele-próprio ministro bestial a fazer implodir o Ministério da educação, como ele prometeu.
Ouvem-se as loas, as explicações omissas, o desastrado paleio da mentira, e fica-se atónito com a lata de um ministro que já devia ter ido para o lixo, pela recente incompetência na colocação de professores. Num país que tem , ainda hoje, milhares de alunos sem aulas, que trata os professores como "carne para canhão", e os ofende na sua dignidade, que lança o desespero entre os pais e mina com esta barafunda, este estado caótico, a Escola Pública, ouvir o ministro Crato dizer que "estamos no bom caminho" e que "o nosso respeito pelos professores é muito grande", é uma ofensa à inteligência dos portugueses, é, como dizia um amigo meu o pior do Crato.
Nuno Crato é o rei que vai nu no país ao contrário.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O NOSSO ARNALDO SARAIVA

Nelson Oliveira Marmelo e Silva: principal promotor da homenagem
Paula Morão, Arnaldo Saraiva e Sérgio Godinho 
As Adufeiras do Paul actuaram na UBIA
Estava a olhar a homenagem a Arnaldo Saraiva, na Casa de Cultura José Marmelo e Silva, no Paul, e depois, na Universidade da Beira Interior, e logo me veio à lembrança aquela canção do Chico Buarque (de quem Arnaldo é amigo) que fala do instante da Liberdade (o 25 de Abril): "Bonita festa, pá!". A homenagem ao Prof. Arnaldo Saraiva, nascida do pensamento fecundo de Nelson Oliveira Marmelo e Silva, que criou no Paul um centro de cultura notável onde também se lembra a obra dum escritor essencial: José Marmelo e Silva, foi menos um ritual desses que contêm a liturgia do lugar-comum e do pagamento de favores (muito em voga nos políticos e em alguma área cultural) e mais o reconhecimento de uma obra vastíssima, onde aprendemos sempre a ler melhor Portugal e o Mundo. Uma festa bonita, que falou coraçãomente, para utilizar uma palavra criada por João Guimarães Rosa que eu amo e aprendi no convívio com Arnaldo Saraiva.
Uma festa bonita, também, pela qualidade das intervenções da Prof. Paula Morão, que fez um brilhante percurso pela obra ensaística de Arnaldo Saraiva, de Nelson Oliveira Marmelo e Silva que explicou o sentido da homenagem ali pela fidelidade de Arnaldo Saraiva à terra e à região, de Sérgio Godinho (ele que tanto nos fez sonhar um país novo "com um brilhozinho nos olhos") que lembrou como Arnaldo Saraiva tinha eleito das suas canções matéria de estudo na Faculdade de Letras do Porto, num tempo em que isso ainda parecia uma heresia.
Uma festa bonita pelo sentido de humanidade e humanismo (densa humanidade) da intervenção do próprio homenageado que, falando de si e dos seus livros, falou dos outros, da dureza de vida dos camponeses, dos mineiros, de rostos que não esquecem, ou dos professores e dos funcionários públicos, ou dos idosos, cujas ofensas praticadas praticadas pelo governo são uma vergonha e um retrocesso civilizacional na sociedade portuguesa. A sua relação com Casegas, com o Paul, com um território que abarca a Guarda, a Covilhã, o Fundão e Castelo Branco, numa coesão social que ele perspectiva como contra-poder ao centralismo de Lisboa e doLitoral, esteve de certo modo sempre presente, na revisitação aos tempos da infância (a janela do quarto de onde via a serra da Estrela) e da adolescência, como se este nó da terra fosse determinante na edificação de uma obra que o levou por vários continentes, com especial destaque, pelos estudos que empreendeu, no Brasil, nos Estados Unidos, na França ou na Itália.
Bonita festa, também, pela música, pelos acordes da Banda de Casegas, que tocou um hino da terra, cuja letra Arnaldo Saraiva fizera aos 18 anos, e pelas Adufeiras do Paul (sempre com a voz magnífica da Leonor a sobressair), que cantaram canções de trabalho, matéria muito cara ao homenageado.
Bonita festa, ainda, pela excelente exposição bibliográfica e documental, que pode ser vista nas instalações da Biblioteca da UBI, de que foi curadora a Prof. Cristina Vieira, que a explicou cientificamente de forma excelente, e cujo catálogo tem uma Bibliografia organizada pela dr.ª Maria Isabel Ventura, que dá bem a medida do que tem sido o ofício do Prof. Arnaldo Saraiva como trabalhador das letras e da multiplicidade de campos que ele lavrou já com o seu saber ("com mão rigorosa", diria o poema de Eugénio de Andrade).
Esta homenagem foi como se nós, os de aqui da Beira, fossemos o destinatário colectivo dela.  O Arnaldo é-me familiar (assim uma espécie de irmão) desde que me conheço a mim próprio, e, por isso, posso falar de quanto ele está ligado ao património do "Jornal do Fundão", que já foi o jornal de António Paulouro e o meu jornal, naquilo que foram grandes acontecimentos literários, numa colaboração fabulosa, na articulação até do jornal com grandes criadores como aconteceu com João Cabral de Melo Neto ou Drummond de Andrade ou até na luta contra a Censura. Da minha parte e desse jornal nunca haverá gratidão que pague o que eu aprendi com ele, na escrita ou na descoberta de uma cultura global, e o que o JF, onde me acompanhou sempre, enquanto chefe de redacção e director, numa presença solidária, que foi uma das coisas boas que a minha memória guarda.
Bonita festa, pá!

domingo, 12 de outubro de 2014

ZURZIR A BURRICE


No "Diário de Notícias" de hoje, Pedro Marques Lopes escreve uma crónica, com o sugestivo título "O maior incompetente" numa impiedosa radiografia ao governo, a partir dos dois incompetentes- mor, que acodem pelos nomes de Teixeira da Cruz e Crato. A postura crítica de Pedro Marques Lopes, ele próprio da área do PSD, é reveladora da sua independência do seu pensamento. A forma como aborda a lamentável situação que vai pela Educação e a Justiça, é uma sova de escacha-pessegueiro e faz lembrar aqueles pais que levavam pelas orelhas os alunos relapsos à aprendizagem, e, chegados à escola, diziam:
-- Só lhes quero a pele, sr. professor!
Verdade que a sova é valente. Mas como diz o autor do artigo, eles não têm consciência da sua incompetência. Ora, leiam:

"Não entendo a surpresa de tanta gente com a permanência de Paula Teixeira da Cruz e de Nuno Crato no governo. É que das duas uma: ou eram eles a pedir a demissão ou teria de ser o primeiro-ministro a demiti-los. Como é público e notório, nenhum dos dois ministros tem consciência da sua incompetência. Um escarnece dos cidadãos e das vidas de milhares de alunos e muitos professores brincando com tempos verbais. A senhora ministra, no intervalo da sua enésima declaração sobre pedofilia, diz que o que se passa nos tribunais não é grave, ou seja, a justiça civil parada é apenas um contratempo. E até pedem desculpa, como se a gravidade dos seus erros políticos fosse apenas uma travessura.
Sendo este um governo que fala tanto do exemplo da gestão de empresas privadas - apesar de tão poucos terem esse tipo de experiência a sério -, talvez não fosse má ideia perguntar a um homem com provas dadas, António Pires de Lima, por exemplo, o que faria a um seu administrador que decidisse fazer uma mudança no software e que por causa disso a empresa ficasse sem poder faturar dois meses ou mais. Ou a um que mudasse um sistema de alocação de recursos e o resultado fosse a incapacidade duma fábrica funcionar normalmente.
Por outro lado, se o primeiro-ministro os demitisse, seria como apresentar a sua própria demissão ou, pelo menos, seria a confissão final do seu estrondoso fracasso. Seria o último espasmo dum estertor que já vai longuíssimo. É que só sobram eles do grupo que era considerado chave para a revolução anunciada. São eles os últimos dos visionários que iam transformar Portugal, e que, para mal dos nossos pecados, em grande parte, conseguiram. Tínhamos o grande ideólogo, Vítor Gaspar, que se foi embora porque percebeu que se tinha enganado - aliás, voltou a escrevê--lo esta semana, indiretamente, num relatório do FMI que é mais um momento da sua espetacular mudança de ideias.
Miguel Relvas, a alma gémea de Passos Coelho, que não saiu pela sua gigantesca incompetência na coordenação política, nem por ter mentido descaradamente no Parlamento, nem por ter tido uma atitude vergonhosa com uma jornalista, mas por querer ser licenciado sem se dar ao trabalho de estudar para isso. Mesmo assim, e foi ele que o declarou, saiu porque quis sair. Santos Pereira, o homem que escreveu um livro onde garantia saber a fórmula para a mudança estrutural da nossa economia com muita atitude e pastéis de nata. O Álvaro saiu porque, bom, incompetência já não era a palavra apropriada, a coisa estava no âmbito da gargalhada.
O ramalhete revolucionário completava-se com Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz. Também eles eram a vanguarda da revolução, pessoas que iam mudar dois setores fundamentais para a comunidade. Ele era o homem que queria dinamitar o ministério (pelos vistos: uma vez extremista, sempre extremista), exames com fartura, o fim do facilitismo num sistema com uma taxa de reprovações e abandono escolar muito acima da média europeia. Nem vale a pena perguntar ao ministro o que pensa agora sobre o rigor e a responsabilização que apregoava. Na Justiça seria o fim da lentidão, o fim da impunidade e a mais importante reforma na Justiça dos últimos duzentos anos (a ignorância é dum atrevimento sem fim). O disfarce comum para a incompetência e a ignorância é a ideologia. Ou melhor, a invenção duma qualquer ideologia. É por isso que ouvimos que isto são apenas problemas normais que acontecem sempre nas grandes transformações. Passos Coelho aguentará estes autênticos símbolos de incompetência o mais que puder - como aguentou até ao limite os outros -, convencido de que eles esconderão a de quem os escolheu e promoveu. Vai tarde. Já todos percebemos quem é o maior incompetente".