sábado, 1 de novembro de 2014

UM PAÍS A CAIR AOS BOCADOS

Valha-nos José Pacheco Pereira para quebrar a apatia e o cinzentismo das oposições, valha-nos o José Pacheco Pereira para denunciar "a apagada e vil tristeza" do nosso viver colectivo, basta-nos o José Pacheco Pereira para mostrar como o país se transformou, não num pântano, mas num charco onde germina impune a podridão- A crónica que hoje publica no "Público" é modelar como retrato de uma semana na sociedade portuguesa. Eis a síntese do retrato: "Passei a semana a ver com tristeza como está o meu muito amado país. Tudo a cair aos bocados na apatia e indiferença geral. Chega. Passei-me. Vivam as libélulas!". Leiam o José Pacheco Pereira e meditem:

"As libélulas e o estado da Nação 

 Houve uma invasão de libélulas.
 – O quê?
 – Uma invasão de libélulas na zona ribeirinha de Lisboa.
 – E depois?
 – Ao menos isso.
 – A invasão de libélulas?
 – Sim. Os bichos são inofensivos, simpáticos, parecem helicópteros.
 --...
 – Aparecem nas gravuras japonesas, nos haikais, em Vítor Hugo…
 --...
Um pimentão, dai-lhe umas asas, uma libélula vermelha!
– O que é que te deu?
 – Bashô.
 – Eu sei. O que é que te deu? Picaram-te?
 – As libélulas não picam ninguém. São almas.
 – O quê?
 – Les âmes, libellules de l'ombre...
 – O quê?
 – Victor Hugo. Um amador de libélulas. E há Tennyson…
 – Mas isso é para as dragonflies
 – A living flash of light. E depois há as libelinhas, as libélulas em versão namorados.
 – Onde é que tu já vais!
 – Ainda nem sequer parti.
 – Mas o que é que têm as libélulas?
 – Bons olhos. Precisamos de bons olhos.
 – Não me parece que sejam os olhos das libélulas que te interessam.
 – Porque é que tu achas que vêm para cá?
 – Porque isto parece um charco.
 – Enlouqueceste.
 – Sim. Passei a semana a ver os nossos governantes vestidos com a farda da Mota Engil; passei a semana a aturar o Portas a saracotear-se no México com uma corte de jornalistas com a viagem paga para lhe darem espaço televisivo todos os dias, primeiro ia almoçar com o Carlos Slim (soam as trombetas), depois o Slim não apareceu (flautim); passei a semana a ouvir o ministro da Economia a elogiar uma subida de Portugal num ranking em que afinal desceu; passei a semana a ouvir mentiras sobre o Orçamento do Estado, a ouvir mentiras sobre o BES, a ouvir mentiras sobre as previsões económicas, tão ficcionais como a fada dos dentinhos; passei a semana a ouvir o primeiro-ministro a ler um discurso escrito que negou logo a seguir quando passou à oralidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo dizer coisas diferentes com intervalo de minutos, ainda por cima sobre o bolso de centenas de milhares de pessoas (quem é que liga a isso?); passei a semana a ver um enorme vazio onde devia estar a oposição, com António Costa a comportar-se como primeiro-ministro putativo, em vez de assumir o papel de líder da oposição que é o dele até ganhar eleições; passei a semana a assistir àquela cena patética, de verdadeiros “amarelos”, na UGT, a dar legitimidade ao Governo que mais combateu o mundo do trabalho, com Passos Coelho a fustigar os trabalhadores num cenário “sindical”; passei a semana a ver imagens de Nuno Crato passeado pela UGT a bater palmas como se o masoquismo na moda fosse engolir alegremente uma manifesta provocação; passei a semana a ler jornalistas preguiçosos a repetirem os argumentos do poder sobre como foi bom o negócio do Novo Banco, passando do tudo ao nada no BESA, de como não é importante o chumbo do BCP nos testes de stress, como está sempre tudo bem quando os interlocutores são os que importam, os do clã, os que estão no “lugar certo” de Portugal, empresas, bancos, gestores, povo da economia “empreendedora”; passei a semana a ver sempre proteger os que mandam, Passos, Maria Luís, Carlos Costa, Stock da Cunha, e a considerar que tudo o que eles fazem é o “menos mau”, o “que podia ser feito”, uma “boa solução num contexto difícil”, etc., etc.; passei a semana a ver comparar realidades más com previsões boas, como se fossem a mesma coisa; passei a semana a ouvir silêncios, sobre as últimas estatísticas da pobreza, das penhoras, das dificuldades económicas, aquilo que não interessa ao “Portugal positivo”; passei a semana a ver apontar uns putativos culpados pela “sabotagem” do Citius, quando durante meses ouvimos técnicos sobre técnicos, distintos professores (será que Tribolet também faz parte da conspiração sabotadora?) a dizer que aquilo era desastre certo; passei a semana ver imagens de cãezinhos de Pavlov a abrir os dentes ao som de “Sócrates”, como se o homem ainda estivesse no poder, para esquecer que de 2011 a 2014 foram outros que aprofundaram as desgraças que ele deixou, numa indigência política assustadora do que vai ser o ano de 2015; passei uma semana a ouvir tudo o que era gente séria a contar como está a ser cheio o Estado, as fundações ligadas ao Governo, as empresas, tudo quanto é lugar seguro e bem pago e com poder, de “amigos do ajustamento”, da turma da “justiça geracional”, sem parangonas, sem publicidade, agora cada vez mais depressa, porque se aproximam tempos difíceis e o PS vai querer o seu quinhão; passei a semana a ler histórias muito silenciadas sobre milhares de euros que foram para empresas de comunicação, quase sempre as mesmas, as que trabalham para o Governo, para as empresas do PSI-20, para as autarquias cujos presidentes eram ou são os principais controladores dos aparelhos partidários, do PSD em particular; passei a semana a ouvir dizer que os aviões russos “invadiram o nosso espaço aéreo”, “passaram junto ao nosso espaço aéreo”, “passaram no espaço controlado por Portugal”, “entraram no espaço europeu” (a Rússia é uma nação europeia…), e a ouvir o ministro que mais ajudou a destruir as nossas forças armadas agarrado à oportunidade de dizer que “operacionalmente” estava tudo bem, quando se percebe nas entrelinhas que está menos bem do que parece (quantos F-16 estão canibalizados para dar as peças aos que voam, qual a autonomia real dos que voaram?).
Passei a semana a ver com tristeza como está o meu muito amado país. Tudo a cair aos bocados na apatia e indiferença geral.
Chega. Passei-me. Vivam as libélulas!"

Chega! Acrescento também eu.

CAMERON E OS DIREITOS DO HOMEM


O exercício da hipocrisia na política internacional tem sido uma espécie de guerra por outros meios. O inventário do abismo entre as palavras que apregoam boas virtudes e práticas excelentes no campo dos direitos do homem, e a realidade concreta onde se plasmam os actos e os propósitos de desumanidade, não param de dilatar-se à escala planetária.
O último exemplo dessa sordidez política, veio do governo inglês e do seu chefe, o sr. Cameron. Tão campeão em bons sentimentos, o primeiro-ministro de sua majestade a Rainha, não se coibiu de anunciar que o seu governo iria deixar à mercê da morte os milhares de emigrantes norte-africanos que vestem a pele de "condenados da Terra" e, por sobre o oceano, arriscam tudo para pôr um pé no chão europeu e garantirem uma hipótese de vida. A Europa tem lidado com o desespero africano com incontido cinismo fazendo daquele continente e dos seus habitantes coisas descartáveis ou só interessante na medida da existência de matérias-primas valiosas, como o petróleo ou os diamantes. A declaração de Cameron é uma vergonha e mais uma nota do recuo civilizacional que estamos vivendo.
No Blogue "Sine Die", Eduardo Maia Costa comentou o caso nos seguintes termos:

"Os direitos humanos segundo o governo de Cameron 
O governo inglês vai deixar de participar nas missões de salvamento de barcos de imigrantes africanos que naufragam na travessia do Mediterrâneo. A explicação é simples e perentória: essas missões "criam involutariamente um fator de atração que encoraja mais imigrantes a tentar a perigosa travessia e, com isso, leva a mais mortes trágicas e desnecessárias". Portanto, a solução é deixar morrer os que tentam a "perigosa travessia", deixá-los morrer o mais possível, idealmente deixar morrer todos aqueles atrevidos que tentam alcançar a Europa (sabendo que o lugar que deus lhes deu é a selva), para que os outros aprendam a lição e definitivamente deixem os brancos em paz. Os brancos quando precisam dos pretos sabem onde os podem ir buscar".

A banalidade do mal é um conceito mais amplo e deslocalizável, no plano histórico, do que podia imaginar-se. Vemos, ouvimos e lemos os relatos dramáticos das sagas dos africanos a chegarem às praias da costa espanhola ou à ilha de Lampedusa, na Itália, vemos cadáveres alinhados nas areias, e rostos de desespero, ouvimos queixumes a reproduzirem-se em lágrimas, registamos a inquietação do Papa e a retórica dos governos a fingirem que são muitos solidários. Mas logo assobiam para o lado, abrem as gavetas do esquecimento e não penalizam o sossego das digestões, pois como o outro, que liquidava milhões com a maior das facilidades, devem pensar que a morte de um homem é um caso humano, a morte de milhares é uma mera estatística.
Está podre o reino de sua majestade...

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

CAVACO E OS CAVALOS (PEÇA EM I ACTO)




Esta pérola pesquei-a no Blogue "Diário Metafísico", da jornalista Ana Catarina, e reproduz a conversa no Centro Equestre Internacional de Alfeizerão, no âmbito do Roteiro Presidencial sobre Economias Dinâmicas. É uma peça em um acto, intitulada Cavaco e os Cavalos. Leiam para desopilar:

CAVACO E OS CAVALOS

Cavaco Silva: Este é bastante mais alto que os outros anteriores?
Criador de Cavalos: Exactamente, exactamente. Os outros têm um ano e pouco. E este já é um cavalo de sete anos, oito anos.
Maria Cavaco Silva: Os outros são bebés?
Criador de Cavalos: Os outros são bebés, exactamente. Mas temos mais pequeninos ainda.
Cavaco Silva: E onde é que têm as éguas?
Criador de Cavalos: Próximo de S. Martinho do Porto, em Vale do Paraíso.
Cavaco Silva: Vai fazer viagem lá de vez em quando... (risos).
Criador de Cavalos: Não vai, não vai. A gente não deixa.
Pessoa a acompanhar a visita: Elas é que vêm cá, não é? (risos).
Criador de Cavalos: Não.Nós fazemos assim: está aí o doutor que faz a extracção do sémen. Já estamos a tentar exportar. Então, fazemos palhetas e vendemos o sémen em palhetas.
Cavaco Silva: Coitado... (risos)

Pode ouvir o som aqui

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

CRATO, O ILUSIONISTA!


Uma das coisas mais espantosas da sociedade portuguesa é a tendência para o ilusionismo. Não faltam políticos a pensar que, por golpes de mágica (neste caso da mentira!), podem fazer desaparecer as arestas da realidade que incomodam o b-á-bá de ministros, vice-primeiro-ministro e primeiro-ministro propriamente dito. Um desses, é o Crato. Talvez o "eduquês" lhe tenha baralhado as ideias, talvez, certo é que o homem arrasta penosamente a sua incompetência, de tal forma que a memória tem dificuldade em encontrar outro ministro da Educação, tão mau como ele, difícil sendo, também, encontrar um início de um ano escolar tão caótico como este ano do Senhor de 2014. Ainda há milhares de alunos sem professores, escolas e pais sonham pela normalidade no país do improviso.
Para Crato, tudo vai bem. Vejam o que ele disse num seminário comemorativo do aniversário da UGT (um aniversário em que, dizia o Blogue "Câmara Corporativa" "falaram cinco membros do Governo: o alegado primeiro-ministro, dois ministros e dois secretários de Estado, para além de outros ex-ministros e ex-secretários de Estado do PSD. Não será de mais? Podiam ao menos disfarçar um bocadinho..."): "Estamos na direcção certa para melhorar a Educação no nosso país".
Das duas uma: ou Nuno Crato não tem consciência do mal que anda fazendo (na colocação de professores, como no ataque à escola pública); ou julga que os portugueses são idiotas ou não têm olhos para ver.
Para sua excelência, são questões menores da "espuma dos dias". Uma espuma que já afoga o próprio Ministério da Educação. O homem sempre está a tentar implodi-lo...

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O GRANDE EDUCADOR FOI UM DOS COVEIROS DA EUROPA

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Durão Barroso termina sem glória os seus dois mandatos à frente da Comissão Europeia. Espécie de ruim defunto da Europa, cujo projecto ajudou a enterrar, ei-lo, agora, na hora da despedida, a dizer: "Estou muito consciente que a nossa acção não foi perfeita". Esta constatação,  naquela que foi a sua última presença na sala de imprensa da Comissão Europeia, enquanto presidente, soa à confissão de uma derrota e à certeza de que a sua passagem por Bruxelas não ficará na história. Esta percepção já a tiveram o "Le Monde", que fez um balanço altamente negativo da sua gestão, e o "Liberation", que mostrou exaustivamente os falhanços políticos que conduziram Durão Barroso a "sair pela porta pequena", como aqueles sujeitos que abandonam um lugar, ocupado por equívoco, sem deixar mínimas saudades.
Nesta sua despedida, ainda por cima, não foi capaz de assumir responsabilidades, endossando-as todas aos Estados-Membros, que, segundo ele, falharam por egoísmo ou irresponsabilidade. Ora, toda a gente sabe que Barroso, agora tão passa-culpas, foi uma marioneta de segunda qualidade nas mãos da senhora Merkel, que fez sempre dele gato-sapato, e fez dele um refém amestrado, incapaz de ter voz autónoma no espaço europeu.
Veio agora dizer, na sua procissão do adeus, ter consciência de a sua acção não ter sido perfeita. Foi mais do que isso: uma desgraça, um erro colossal. Ele foi um dos coveiros da Europa, como projecto solidário de justiça e de cidadania. Ele, que gostava tanto de levantar bandeiras, sai com a bandeira a meio pau e a Comissão a meia lágrima, como diria Fialho, se estivesse por cá.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O STRESS BANCÁRIO E O PORREIRISMO DE PASSOS COELHO


Oiço o primeiro-ministro dizer que está tranquilo com o resultado da banca portuguesa nos testes de stress e, do mesmo passo, relativizar o chumbo do BCP, pelo Banco Central Europeu. Habituado a olhar a  realidade com "o manto diáfano da fantasia", que é muito conveniente à retórica do poder, essa tranquilidade, segundo Passos Coelho, radica "no trabalho realizado pelas nossas instituições bancárias de maior relevo", não deixando mesmo o primeiro-ministro de dar a ideia de uma posição invejável na matéria, face ao desgraçado panorama europeu, tomem lá que já almoçaram! Saúde financeira, é com ele!
Este porreirismo nacional, como convém a um náufrago político, não encobre, porém, a verdadeira face das coisas e, sobretudo, quando, como no sector financeiro, se assiste a uma podridão pestilencial, que abarca escândalos, historicamente tão próximos, como são os casos do BPN (de Oliveira e Costa e da clique cavaquista) e do BCP (o propriamente dito do grande Jardim Gonçalves), ou de uma actualidade em putrefação, ainda largamente por desvendar, que é a morte do Espírito Santo, que já entregou a alma ao Criador... Isto cheira mal, mas o primeiro-ministro saboreia o odor de um perfume bestial...
Passos Coelho acha que está tudo bem e que o programa segue dentro de momentos. Resta saber se o lixo tóxico e a putrefação política que o rodeia, a ele primeiro-ministro, não o asfixiarão, um dia destes, quando ele estiver a apagar a luz e a fechar a porta!