sábado, 8 de novembro de 2014

TEATRO DAS BEIRAS: 40 ANOS DE RESISTÊNCIA


Os Lavoisier (Roberto Afonso e Patrícia Relvas), com a sua música e o seu canto, de tão fortes raízes, encerraram a festa dos 40 anos do Teatro das Beiras. Uma noite de prodígios à mesa fraterna da cultura. Aqui fica o meu abraço.

O Teatro das Beiras fez quarenta anos. A festa da cultura que isso representa, a matéria dos sonhos que significa o fio temporal destes mais de 14 mil dias vividos, com paixão e amor, pela arte dramática e pela cultura, em geral, é uma biografia de sucessos e de resistência que enobrece a cidade, que é a sua casa comum, a região vasta de que se fez nome e o país, onde o Teatro das Beiras se afirmou como projecto cultural de qualidade.
Desde os tempos iniciais, do GICC, quando o grupo nasceu iluminado pela liberdade que brotou do 25 de Abril, os jovens amadores de teatro (e haverá designação mais bela do que essa? Gordon Craig disse que não!), que acompanho a sonho e aventura de um projecto que assumiu decisivamente a acção cultural para romper com a anemia e o provincianismo de um meio que olhava para a cultura de viés, como fenómeno inquietante que pensava e fazia pensar a realidade. Ainda hoje, infelizmente, não faltam traumas que conduzem ao mesmo procedimento, como se o Poder e os poderes estivessem inquinados de uma maldição contra o pensamento e a cultura.
Não sei quantas mil vezes, o Teatro das Beiras caminhou sobre o fio da navalha; não sei quantas vezes andou com a casa às costas, numa cidade com uma profunda debilidade de equipamentos culturais; não sei quantas vezes se chegou a pensar que a aventura e o sonho tinham sido lindos, mas era o fim. Havia sempre um sopro de vida e uma vontade que levava mais longe e as luzes voltavam a iluminar a cena e os actores a pisar o palco e os aplausos a subirem no ar. A matéria dos sonhos reproduzia-se.
Foram assim (quantos anos?), até que o Teatro das Beiras regressou à Rua da Trapa, ao edifício da velha fábrica Barata, para se tornar senhor do espaço e pôr fim à intranquilidade dos dias. E lá está, a sonhar, sempre a sonhar...
Olho para trás, para o caminho percorrido, e penso no vasto património do GICC-Teatro das Beiras. Nas dezenas e dezenas de peças levadas à cena, nos dramaturgos que ali viram os seus personagens tomar corpo e voz, nas noites de glória ali vividas. E penso mais: na cultura que o Teatro das Beiras tornou possível dentro da cidade, a sua cidade -- a Covilhã -- nas mais diversas áreas, materializando uma acção que trouxe músicos (nunca mais me esqueci da noite em que Carlos Paredes fez um recital fabuloso), o Fausto, Sérgio Godinho e tantos, tantos mais, os ciclos de cinema e de fotografia, exposições de pintura, debates com escritores e com gente do teatro, um inventário absolutamente notável.
Ontem, cantaram-se os parabéns ao Teatro das Beiras. Foi uma festa fraternal de cultura. Houve música (pela EPABI), o colectivo da companhia ofereceu o mais recente espectáculo, "Rádio Cabaret", divertidíssima comédia de Karl Valentin, e, no final, um fantástico concerto pelos Lavoisier. com Roberto Afonso e Patrícia Relvas, música e voz onde a reinvenção dos sons é permanente recomeço. Fabulosas as versões da Senhora do Almurtão, cantadas por Patrícia, e "Acordai", ao célebre poema de José Gomes Ferreira, harmonizado por Fernando Lopes Graça. O duo faz esse milagre surpreendente:é como se a música e os poemas entrassem dentro de nós  para nos fazer estremecer a nossa alma -- a música suspensa do tempo.
Por entre as janelas rasgadas da sala de café-concerto do Teatro, lá ao fundo, brilhavam as luzes da cidade. Era como se estivessem a aplaudir essa outra luz que, da Rua da Trapa, dir-se-ia que iluminava toda a cidade.
"Radio Cabaret", de Karl Valentin, encenada por Gil Salgueiro Nave

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

DESEMPREGO: A MENTIRA DO GOVERNO E OS NÚMEROS DO INE


Diz o povo que se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo. A intoxicação sobre a diminuição do desemprego na sociedade portuguesa, é uma mistificação que a realidade desmente, a cada passo. A propaganda é uma grosseira mentira, que o Governo propala aos quatro ventos, sem corar de vergonha. Miguel Abrantes, no Blogue "Câmara Corporativa", fazia em pedaços a aldrabice de um Governo que já perdeu toda a credibilidade. Para ler devagar:

"O Governo fez uma festa porque a taxa de desemprego foi estimada em 13,1% no 3.º trimestre de 2014. Há razões para isso? Observem-se os dados do INE:
Aos 688,9 mil desempregados oficiais, é preciso acrescentar os 232 mil que se encontravam na situação de subemprego, a que há que somar outros 302,3 mil portugueses que pura e simplesmente desistiram de procurar emprego. Feitas as contas, o desemprego real no 3.º trimestre atingiu 1,2 milhões de portugueses. Se fossem contabilizados, a taxa de desemprego disparava para 22%. Acresce que se fossem também contabilizados os portugueses que se viram forçados a abandonar o país, havia quase 1,6 milhões de pessoas sem emprego em Portugal, o que faz a taxa de desemprego aproximar-se de 30% — quase um terço da população activa. Perante este quadro obsceno, o Governo festejou exactamente o quê?"

SAUDADES DA CRÓNICA E DE DRUMMOND


Tenho saudades do tempo em que os jornais eram atentos à realidade social e faziam da crónica sobre pequenos microcosmos, singulares detalhes humanos, um exercício de pura literatura, mas que era, ao mesmo tempo, jornalismo superior e sem mácula. Lembro-me dessas formas de olhar a cidade, de captar rostos e histórias que, na sua expressão narrativa, tinham sempre um significado mais profundo e universal. Herdeiros, por exemplo da capacidade de observar de Fialho, da ironia de Eça ou de Ramalho, da acutilância de Camilo, da escrita húmus de Raul Brandão, da força telúrica de Aquilino (tudo gente que escreveu em jornais), não faltaram cultores da crónica, num jornalismo que se arvorava como disciplina digna da melhor literatura.  Mesmo com a Censura a cercar a liberdade, a crónica foi uma maneira hábil de ir mais longe apontando os holofotes ao quotidiano, recortando as suas particularidades sociais, com todo o peso significante que isso comportava.
Anos 60. Lembro-me dessas crónicas que saltavam da "espuma dos dias", em jornais como o "Diário de Lisboa", onde pontificava um grupo excepcional: Mário Castrim, Joaquim Letria, Fernando Assis Pacheco, Manuel deAzevedo, José Carlos de Vasconcelos, Urbano, e alguns mais. Quem tiver o livro O Homem na Cidade, esgotadíssimo, pode deliciar-se com elas. No "Diário Popular" pontificavam o Baptista-Bastos e o Jacinto Baptista. No "Século" o Xico Mata e o Abelaira. No Porto, no "JN", também havia excelentes praticantes, recordo, claro, o Manuel António Pina, o Arnaldo Saraiva ou o César Princípe. O "Jornal do Fundão" também foi escola nessa matéria e surgem logo os nomes do Artur Portela, com A Funda e do Orlando Neves ou do António José Saraiva, que ali publicou os célebres "Domingos de Paris", até que a Censura os proibiu. E muitos outros que fizeram literatura de primeira qualidade em inesquecíveis Suplementos Literários.
Hoje, tudo isso, salvo honrosas excepções, não faz parte do trabalho dos dias no jornalismo. Observar um detalhe humano, captar um história do quotidiano, escrever o local à escala do país, parecem coisas do passado. E, no entanto, não há porventura outra forma de olhar a realidade, com as suas arestas incómodas do ponto de vista social, com os seus tiques provincianos de poder (ainda que a história ou as estórias se passem em Lisboa: não faltam quedas de anjos na política!), com as suas feridas abertas a céu aberto. Manuel Rivas, um dos grandes escritores e jornalistas espanhóis, escreveu um livro em que retrata essa inevitabilidade da crónica muito grande. "El periodismo es un cuento!", assinalou ele para mostrar que as melhores crónicas ou as melhores reportagens, são literatura de primeira água.
Tenho, pois, saudades de abrir um jornal e saber que lá vem essa matéria de proveito e exemplo. E porque as amo, também mergulho na sua prática, trazendo à luz do dia coisas que todos vemos (e não vemos): a minha estátua de carne e osso, ao fundo da Avenida da Liberdade ou os homens vestidos de sombra.
Tudo isso me veio à lembrança porque hoje fui ao Politécnico da Guarda, participar num Seminário, e falei disso brevemente. Enquanto descia a Serra, pensei que esta semana passaram dezasseis anos sobre a morte de Carlos Drummond de Andrade. Ele, que foi um dos escritores maiores da língua portuguesa, grandíssimo poeta, escreveu crónicas admiráveis, durante quase uma década no "Jornal do Fundão", como os meus leitores sabem. Então, homenageando-o, aqui deixo uma em que ele também fala de uma estátua em carne e osso. Leiam s.f.f.

O TEMPO NA RUA

Fizesse bom ou mau tempo, o mendigo sentava-se às 7 da manhã no terceiro degrau da escada da igreja e ali ficava até às 12.
Era tão pontual que os transeuntes, querendo saber as horas, não olhavam para o relógio da torre:olhavam para ele. Cada quarto de hora estampava-se em suas mãos, e cada 30 minutos asrugas do seu rosto indicavam a medida do tempo.
Quando o relógio foi retirado da torre, para conserto, e nunca mais voltou, a presença do mendigo dobrou de importância. Muita gente lhe pedia que estendesse a permanência até tombar o dia. Recusou-se a atender, alegando que tinha outras obrigações à tarde, sem esclarecer quais fossem.
No fim de alguns anos, era conhecido como o Tempo, mas a velhice fez com ele o que fez com os relógios. Já não fornecia indicações precisas e causava grandes perturbações no horário das pessoas.
Tentaram removê-lo dali, e o Tempo não cedeu. A igreja foi demolida para dar lugar a nova rua. O Tempo continuou plantado no centro da pista, das 7 às 12, sem que os guardas de trânsito conseguissem afastá-lo com boas ou rudes maneiras. Era evitado pelos motoristas e foi proclamado estátua matinal. atracção da cidade.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

VIVER SEM IDEIAS, MORTE ANTECIPADA


Amanhã, de manhã, vou ao Instituto Politécnico da Guarda falar da Censura aos jornais e, sobretudo, do que foi a saga do "Jornal do Fundão" contra a Censura, batalha em que pude participar como acto de persistente resistência à ditadura. É uma obrigação ética e cívica falar destas coisas em louvor da memória, para mais num tempo em que não a Censura, mas as Censuras, subtis e ao serviço de interesses espúrios aos valores fundamentais do Homem. A pensar nisso, fui buscar uma página esquecida em que estas coisas vinham à baila.

Uma das notas mais eloquentes da anemia cívica portuguesa prende-se com uma certa incapacidade para tomar a crítica como elemento imprescindível da vida colectiva e seiva vivificante da democracia. Não é apenas a crítica um direito elementar, barómetro de cidadania, mas uma condição fundamental para materializar o desenvolvimento. Numa sociedade como a portuguesa, tolhida por autoritarismos de longa duração histórica, com as suas fogueiras de intolerância e de silêncios, a mentalidade colectiva facilmente se tornou refém de medos e de indiferenças, uns e outras geradores de súbditos que ainda pensam que o direito a elevar a voz é recurso eivado de perigosidades.
O Prof. José Gil, longamente tem discorrido sobre este fenómeno traumático nacional, para explicar como estes estigmas inquisitoriais e salazarentos, tão contrários ao nosso tempo, se inscrevem, ainda, com nitidez, no quotidiano português. A liberdade implica essa responsabilização do pensamento em voz alta, essa exigência da pluralidade de ideias, essa ousadia emergente da vida em comunidade. Os poderes não gostam, todavia, de conviver com a crítica. Em grandes e pequenas questões, em macros ou micros realidades políticas, o direito ao pensamento (que nunca pode ser único) e a sua formulação pública, funde-se na própria dignidade da vida.
Os políticos acham, todavia, que o dever de responder aos cidadãos é uma maçada e que a democracia, na sua vertente participativa, uma grande chatice. Interiorizam a condição de “vacas sagradas”, só objecto de reverências, mas isso só é possível na metafísica das religiões e dos mitos. Entre nós, banalizou-se há muito uma dicotomia – crítica objectiva e crítica maledicente – que nunca teve outro objectivo estratégico senão neutralizar a sua prática, domesticá-la, isto é, fazer dela um mero processo do interesse dominante.
Ora, a verdade é que, como todos sabem, a defesa do interesse público configura hoje, numa sociedade politicamente cada vez mais complexa, a necessidade de mobilizar a atenção da sociedade civil como exigência crítica de intervenção nas coisas que, afinal, nos dizem respeito imediato e são parte da nossa vida comum. Não é favor – é direito. A cidadania comporta esse traço distintivo de comportamento, como normal. E a cidade, como o país, fazem-se e refazem-se, na busca intemporal de progresso e de bem-estar, na participação cívica e na afirmação cultural da crítica dos seus habitantes, cidadãos e não súbditos ajoelha-dos à verdade olímpica, e absoluta, do poder.
Não há tábus. E a participação, na diversidade que o pluralismo potencia, é um contributo muito importante para a vida quotidiana. Um jornal tem a obrigação de ser, em cada instante da vida colectiva, momento da consciência pública, na defesa do interesse colectivo. O jornal cor de rosa, apenas com o unanimismo das boas notícias, que o milionário americano inventou, foi uma ficção de mau gosto, sepultada no anacronismo dos que pensam que a realidade pode ser amputada das coisas que, pela sua própria natureza, são consideradas matérias de inquietação. Se quisermos salvar a democracia e revitalizar a política, então, temos que rever conceitos, e assumirmos, todos, a humildade de encarar a participação cívica como bem inestimável. Falamos de crítica como essencial ao debate das ideias, e não de trauliteirismo. Pensar o país, como pensar a cidade, é sempre um desafio colectivo. E jamais poderá ser feito sem ideias. Muitas ideias.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

APETECE AO ZÉ POVINHO FAZER UM MANGUITO DO TAMANHO DA EUROPA!

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Quem diria, em 1985, que este desenho de Zé Dalmeida, se ajustaria como uma lupa à crise europeia dos nossos dias? A perplexidade do Zé Povinho face ao grande colosso é uma caricatura que retrata o nosso tempo e o nosso modo. Hoje, a perplexidade é maior e mais funda a inquietação. A Europa tornou-se refém, declaradamente, de espúrios interesses financeiros, e abicou de tudo aquilo que era o seu grande projecto: a construção de uma Europa dos cidadãos, que promovesse a coesão social e fizesse do Estado Social um dos seus grandes prodígios. Não só abdicou dessa vocação civilizacional, como fez da sua grande debilidade, no plano externo, uma subalternidade internacional pouco prestigiante.
A desgraça desta Europa tem, também, um rosto: Durão Barroso. Ele foi uma dedicada marioneta nas mãos da senhora Merkel (essa mesma que, vendo apenas nos portugueses uma reserva de mão-de-obra barata, veio agora dizer que Portugal tem licenciados a mais!), ele que foi (com Asnar) o criado de serviço, nos Açores, para preparar a inventona das armas químicas no Iraque, urdida por americanos e ingleses, ele foi agora condecorado pelo Presidente da República (compadre das artimanhas) pelos relevantes serviços prestados a Portugal e à Europa. Cavaco disse que ele, Durão, foi o "grande impulsionador do modelo de governação da União Europeia", que "muito beneficiou Portugal"! O quê?Quais benefícios? O Zé Povinho, que tem sido o bombo da festa das políticas desenhadas por Bruxelas, olha assarapantado para tudo isto e, quando ouve Durão dizer que a condecoração prova ter sido correcta a decisão de ter abandonado o governo do país para ir para o bem bom de Bruxelas, apetece-lhe fazer um manguito do tamanho da Europa. Que aldrabões!, diz o Zé Povinho enquanto mete as mãos nos bolsos e vê que não tem um centavo pºara mandar cantar um cego!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

DE LOBOS E CORDEIROS


É imemorial a presença das fábulas, de Esopo a La Fontaine, como crítica de superior ironia, a situações e comportamentos dos homens (particularmente de gente do Poder), que extravasam os bons critérios da Justiça e da igualdade, e se afirmam na canalhice dos abusos do poder ou de sórdidos autoritarismos, que visam sempre diminuir os outros, isto é, desapossá-los da elementar dignidade. Muitos desses figurões jamais inscreveram os valores do Homem nas suas andanças.
Na literatura portuguesa, desde os clássicos ao nosso tempo, não faltam bons exemplos dessas viagens fantásticas ao reino dos animais, quando estes falavam. Nos anos da Censura, Mário Castrim, que foi célebre crítico de televisão, percursor desse género em Portugal, mas foi sobretudo cronista admirável do quotidiano ("Aos Costumes Disse Nada", que escreveu no "Diário De Lisboa", são verdadeiras peças de antologia que deviam ser de leitura nos cursos de jornalismo), escritor e poeta, autor de livros que ainda nos tocam pela simplicidade da linguagem e pela imaginação criadora, escreveu e publicou fábulas no "Jornal do Fundão". A Censura lia-as com uma lupa, na decifração da linguagem metafórica colocada na voz dos animais.
Esta, de Maio de 1971, que falava do lobo e do cordeiro, não passou no crivo da Censura, que velava pela intocabilidade do reino da estupidez. Relendo-a hoje, julgo que ela mantém muita actualidade, quando os lobos voltam a uivar e os cordeiros, rebanhos obedientes, são as vítimas inocentes, que geralmente não se safam, nem mesmo quando recorrem à Justiça. Aqui fica a fábula:

Outra Fábula doLobo e do Cordeiro

                                                              O lobo
                                                   encontrou o cordeiro
                                                      e num arroubo
                                                  (ordeiro, ordeiro...)
                                           de quem sabe o que acontecer
                                                Disse: "Vou-te comer"
                                      Torna o cordeiro que era em leis noviço:
                                                 "Não pode fazer isso"
                                           o lobo grita a risadinha branda.
                                          Achou muita piada aquele tordo:
                                              "Ai tu queres demanda?
                                              Pois eu estou de acordo".

                                                 Foi-se ao juiz leão.
                                       Prega o leão de grande olhar de perigo:
                                         "É mais do que direito, é um direitão!
                                                Papo com ele, amigo".

                                           Era o outro juiz o coelhinho:
                                           "Deixa o cordeiro quite.
                                           Nenhuma lei permite
                                           dar morte ao pobrezinho".

                                           Riu-se o lobo do véu
                                     que lhe queriam lançar pelo nariz.
                                     Só de uma bocadada engole o réu
                                     com outra bocadada, engole o juiz.

                                        Consoladinho o lobo forte e cauto.
                                     
                                         Não é preciso mandar lavrar auto.
                     
                                                                           MÁRIO CASTRIM