sexta-feira, 14 de novembro de 2014

CRIMINOSOS GOLD

Macedo para Passos: Até uma busca fizeram ao meu Ministério, Já não há respeito...
Na tipologia dos crimes em Portugal, há uma designação muito curiosa, que pretende, penso eu, retratar aquele universo de sujeitos que vivem na órbita do poder político ou financeiro: são os crimes de colarinho branco. Nesta designação cabe uma espécie de malfeitores que se distingue, particularmente, pelo formato de um estatuto adquirido nos meandros da política, e por uma prática que estatuía uma certa impunidade, pois os ditos meliantes colhiam, à partida, por via do seu estatuto, a condição de cidadãos acima de qualquer suspeita.
Ladrões e corruptos eram, geralmente, os outros, que pertenciam a uma categoria mais genérica e comum de ladrões e ladrõezecos, para os quais polícias e os braços da justiça são sempre implacáveis, , o mundo das pequenas coisas que, às vezes, leva na rede ratoneiros de supermercado, que vão lá fazer mão baixa por estado de necessidade, porque têm fome e há muito foram catalogados como "condenados da Terra".
Finalmente, parece ter entrado em crise a categoria dos figurões acima de qualquer suspeita. É, pelo menos, o que fica a pensar o cidadão comum, ao ler os jornais ou ouvir os telejornais sobre a investigação do processo "Labirinto" -- relacionada com o caso dos "Vistos Dourados" --desencadeada pela Polícia Judiciária, que já conduziu à detenção de onze pessoas, entre as quais altos responsáveis do Estado, como o director dos Registos e Notariados, o secretário-geral do Ministério da Justiça, o director do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e outras figuras de relevo. Foi também constituída arguida a sócia de Miguel Macedo (ministro da Administração Interna) no escritório de advogados. Três cidadãos chineses foram também detidos. Hoje, o Diário de Notícias dizia em letras gordas, na primeira página: "Operação Vistos Gold detém dois altos funcionários próximos do ministro Miguel Macedo". E o Público: "Duzentos polícias de têm altos quadros do Estado ligados aos vistos gold". E o Jornal de Notícias, a cinco colunas: "Vistos dourados corrompem altas chefias do Estado". Face a isto, o governo mete a viola no saco e vai para fim-de-semana: adeus até ao meu regresso! Trata-se de uma connection com a celebrada política dos "vistos gold", criada por Paulo Portas, que visa conceder vistos especiais a milionários chineses (mil milhões de euros de investimento em dois anos, dizem as estatísticas catitas do governo.
A Polícia Judiciária trouxe à superfície um vasto leque de suspeitos por corrupção, tráfico de influências, peculato e branqueamento de capitais. Gente de colarinho branco e responsáveis políticos a braços com a Justiça. O que é, para já, espantoso é o procedimento dos mais altos responsáveis políticos que devem achar tudo isto normalíssimo. Buscas a ministérios, acusações tramadas, e os ministros desportivamente a assobiar para o lado.Talvez peçam desculpa, talvez. Dizem que a Miguel Macedo (como já acontecera com Crato) o chefe nem quis ouvir falar em demissão. Obviamente que eles não se demitem. Compõem o nó da gravata (ou o colarinho branco) e dizem de si para si:
-- Ainda somos dos tais, acima de qualquer suspeita! Abaixo a demissão...somos ministros da República!

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

CAVACO E A CONSTITUIÇÃO

Ilustração de ZÉ DALMEIDA
Cavaco fez remoques a Costa e à oposição por causa da lei eleitoral (que PS e PCP teriam aprovado) e à eventualidade de antecipar por alguns meses as próximas eleições legislativas. Na sua tarefa de aguentar este governo até ao fim da legislatura -- tem sido o seguro de vida de Passos e Portas --, o homem a que ainda chamam Presidente da República, justificou a sua inacção com a fidelidade às leis e à Constituição da República. É preciso lata!
Ao longo destes anos, os portugueses sofreram na pele da parte do governo persistentes ofensas à Constituição (algumas corrigidas pelo Tribunal Constitucional) e às leis da República, quase sempre com a conivência do Presidente Cavaco, para quem o juramento de cumprir e fazer cumprir a Constituição foi sempre, apenas, um artifício ou uma mera figura de retórica. Jurou aquilo, como poderia jurar que não comeria mais bolo rei.
Por isso, ouvi-lo falar em fidelidade à Constituição, daria vontade de rir, se tudo isto não fosse, como é, uma tragédia que se abateu sobre Portugal e os portugueses. De cada vez que oiço Cavaco, vem-me à memória a quadra de António Aleixo:

"Sem que o discurso pedisse
Ele falou e eu escutei
Gostei do que ele não disse
Do que disse não gostei".

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O OUTONO NO CORAÇÃO DAS ÁRVORES



Na varanda rasgada à Praça  e ao Monte de S. Brás, mais ao longe, na Gardunha, espreito o castanheiro da Índia, na sua lenta mutação cromática. Olho para ele no calendário dos dias, como quem recolhe uma benção dos deuses. O tempo das estações, no que contém de renovação da vida, é surpreendente. Às vezes, basta uma árvore para nos dar uma indicação de que o fio dos dias vai mudar. É assim. Há muito que o freixo, o primeiro a vestir-se de amarelo vivo, na curva da velha estrada da Gardunha se despiu para avisar que o Outono já habitava o coração das árvores e dos arbustos.
Agora, a visão que acabo de ter do castanheiro da Índia, meu vizinho, é o sinal de que o festival de cores da Gardunha está em curso. Uma paleta de cores, digna de Van Gogh, toma conta da Serra. Os castanheiros que resistem, as castaceiras que travam o avanço do pinheiro bravo, mostram aquela misturas de verdes e amarelos, que nos deixam atónito -- neste caso Lorca nunca poderia dizer verde que te quiero verde... - em breve se somarão castanhos numa síntese onde é difícil decifrar onde cada uma começa ou acaba. Mas também os cerejais (tantos!) se juntam a esta sinfonia, com as suas tonalidades avermelhadas.
Às vezes, vem a chuva e a neblina, que também são roupagens do Outono, mas subitamente rompe o sol, como agora, e então, meus caros, o deslumbramento é total. Uma luz filtrada pelas folhas que ainda restam desce até ao chão de bosque, e o espectáculo é a permanente descoberta das singularidades da paisagem, com os seus detalhes e as suas surpresas. Olhar uma e muitas vezes para o horizonte próximo ou mais longe, como recomenda Torga, para bebermos inteiras estas dádivas da natureza, para a paisagem nos entrar na alma.
Basta saber olhar e amar o que se vê, repito eu, para mim a velha frase de Alain. Os prodígios da Gardunha são uma oferenda rara para ganharmos dias ou, pelo menos (que neste caso é o mais), para roubarmos horas à morte, como dizem os versos de Ungarretti.
Breve, é o tempo, esse escultor (Yourcenar). Qualquer dia vem o Inverno, e outras mutações na paisagem nos indicarão que é assim. Mas aí ainda precisam cair as folhas das tílias e dos plátanos enormes, ao cimo da Avenida da Liberdade. Na Serra da Estrela, a neve já avisou que o frio está para ficar e que, às vezes, não há Verão de S. Martinho que nos valha!

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

UM PAÍS DE SACANAS...

Hospital do Fundão, à espera
Há, em Portugal, uma fidelidade canina tão grande ao Governo e aos partidos que os sustentam, que ouvir um político vinculado ao universo do poder pensar em voz alta ou criticar abertamente aspectos da prática governativa parece um crime ou uma heresia digna de fogueira, se porventura ainda houvesse fogueiras e inquisições. Não é estranho ao facto dessa apatia crítica, a mediocridade que invadiu os partidos do poder, e, sobretudo, a forma de os lugares serem hoje uma garantia para clientelas vorazes, que vêem na acção política um expediente bestial não para servirem, mas para servir-se. A política tornou-se uma imensa manjedoura onde muitos imbecis e outros idiotas úteis, saciam a sua fome de benesses e de estatuto social. E, por isso, nos perguntamos, às vezes, como é que A Queda de Um Anjo, de Camilo mantém tão viva actualidade sobre a forma como certos sujeitos chegam ao poder ou se apropriam dele.
Essa uniformidade de comportamento, esse unanimismo na curvatura da espinha, essa fidelidade ao patrão, reflectem uma ausência de cultura cívica e uma ideia falsificada da política, como actividade nobre e definidora da democracia. Eles querem lá saber disso!
Por isso, quando aparece uma voz de exigência ética a reclamar contra atitudes e procedimentos do poder central, espúrios aos direitos das populações, visando o governo do seu próprio partido, o caso assume a dimensão de escândalo ou de pedrada no charco. No fundo, o que está em causa é defender a honra dos compromissos assumidos com a população e não atirar com o caso para o esquecimento e o silêncio, como habitualmente se faz para não mexer nas águas estagnadas pactuando com a mentira.
Ora, essa voz autónoma em relação ao governo do partido, esse murro na mesa, deu-o recentemente o presidente da Câmara do Fundão, Paulo Fernandes, que não ficou calado face à inqualificável omissão do Ministério da Saúde e seus poderzinhos afluentes, como é o caso da ARS de Coimbra.  E o que disse o autarca? Isto: "Se até final não houver uma resposta relativamente a esse projecto (criação de uma unidade  de Medicina Nuclear no Hospital do Fundão, que integra o Centro Hospitalar da Cova da Beira) e a outras importantes questões relacionadas  com a saúde na Cova da Beira, entregarei o cartão de militante".
Há dois anos que o problema se arrasta entre o Fundão, Coimbra e Lisboa. Aproximemo-nos do caso. A Câmara do Fundão disponibilizou-se a fazer as obras no edifício do Hospital, cujo esvaziamento tem sido notório, e a instalar o equipamento para a criação de uma unidade de Medicina Nuclear. Esta unidade (sei do que falo) não só é conhecida como elementarmente necessária a uma vasta região (de Portalegre à Guarda), como preencheria um vazio, que obriga milhares de doentes a percorrerem grandes distâncias e o destino è sempre os grandes centros (Coimbra, por exemplo), a maior parte das vezes para alimentar o negócio milionário de instituições privadas.
O ministro pisca-pisca e outros superiores, às sucessivas diligências do Fundão, respondem zero. Isto é, não respondem. E, mais grave de tudo, segundo consta, é que já houve quem se incomodasse com a localização. "Se ainda fosse noutra cidade, agora no Fundão!"
Tudo isso encobre uma falha moral grave dos responsáveis pela saúde. E na majestade do seu poder, o ministro da Saúde até pode sorrir a esta pretensão do autarca do Fundão e estar-se nas tintas para a entrega de um cartão de militante. "Um cartão de militante..." Pode ser que sim. Mas talvez um dia venha dar explicações e dizer (como acontece sempre) que a culpa é dos seus inferiores, de um qualquer director  ou até do porteiro, sabe-se lá. Ele pode piscar o olho a tudo isso.  Pode. Os senhores de Coimbra podem continuar com a sua olímpica indiferença, fazendo o frete ao que manda o patrão, de Lisboa. São estas coisas que desanimam o cidadão comum. Digo isto e apetece-me deixar o verso de Jorge de Sena: "Mas que adiante dizer que é um país de sacanas!"

domingo, 9 de novembro de 2014

UM COMEDIANTE BOÇAL


Foi o caso da semana. Estupefacto, o país assistiu ao deplorável espectáculo que o ministro da Economia, após o almoço, deu na Assembleia da República. Não pode nem deve dizer-se que Pires de Lima resolveu fazer uma "palhaçada". É que ser palhaço é uma profissão digna, no patamar de uma arte que existe para fazer rir crianças e adultos. A parte do ministro, é bom localizá-la, sempre, temporalmente: depois de almoço, é uma actuação boçal, na Assembleia da República, uma comédia de terceira categoria que é, do mesmo passo, uma irresponsável falta de respeito pelo Parlamento.
O que é espantoso é que, numa instituição, onde um espirro ou um protesto (mesmo mudo) leva logo a senhora presidente, Assunção Esteves, a pedir a evacuação das galerias, desta vez ninguém tenha reagido ao enxovalho protagonizado pelo sr. ministro da Economia, após um almoço que se adivinha bem suculento e líquido. Nem uma chamada de atenção, nem uma leve crítica ao tal tom de comediante barato. Poderá perguntar o povo:
-- Senhora dr.ª Assunção Esteves, o sr ministro Pires de Lima é inimputável ou tem alvará de estupidez para exercício na Assembleia da República?